DEK H: Habilidade, Habitar, Hábito

 

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Gravura de Eduardo Chillida “Bauen, Wohnen, Denken”, 1994.

O prefixo  hab- em latim forma palavras com três grupos de significados que procurei exemplificar no título do post. O primeiro grupo, ao qual pertence a palavra “habilidade” (habilitas), tem palavras como “hábil” (habilis) e “habilitar”, que é tornar hábil. Em latim, temos ainda habena (portador) e habens (proprietário, rico) que é aquele tem as habentia (propriedades). De fato, o próprio verbo habeo é traduzido como “ter”. Esse grupo de palavras sugere para hab-  um significado de posse, de capacidade, de potencialidade de realização.

O segundo grupo tem como exemplo a palavra “habitar” (do verbo habito) com significado de morar, viver, ficar e seus derivados como “habitante” (habitans), “habitat”, “habitação” (habitatio), entre outros. Aqui, diferentemente, o prefixo hab- parece trazer um significado de demorarse, morar, viver, estabelecerse.

O terceiro e último grupo é encabeçado pela palavra “hábito” (habitus). “Hábito” pode ser traduzido como disposição, inclinação, costume (no sentido de prática, modo, rotina, ou mesmo mania). É a tradução para o latim do grego hexis (ἕξις) que, por sua vez, foi retirado da literatura médica onde até hoje é utilizado com o sentido de “constituição”, “predisposição” orgânica, habitus. (Há o exemplo clássico – os médicos se lembrarão – do habitus marfanóide, característico dos portadores da Síndrome de Marfan). Mas, habitus tem ainda um outro significado que é o de condição, estado, aparência, hábito, aqui no sentido de, veja só, novamente costume (roupa, vestimenta). Em ambos os casos, hab- parece remeter a algo que está em um indivíduo, algo do qual ele é portador, e que se constrói em sua aparência externa, ou em sua forma de comportar-se, ou ainda, de maneira mais interessante, na ambiguidade das duas possibilidades a um só tempo como no dito popular “o hábito não faz o monge”.

Vejamos, então, o que temos até aqui. Aparentemente três campos semânticos independentes: “posse, capacidade, potencialidade”; “demorar-se, morar, viver, estabelecer-se”; “aparência, comportamento”. Mas, um pensamento parcimonioso não se contentaria com uma tal profusão de significados. Aliás, não é mesmo assim que prefixos ancestrais costumam funcionar. Deve haver uma raiz semântica comum que se perdeu com o uso cotidiano e que terminou por cristalizar os três significados separadamente. Tal raiz originária não é facilmente resgatável e restam-nos apenas hipóteses de suas origens. Uma das possíveis hipóteses leva em conta a belíssima palestra proferida por Martin Heidegger em 1951: “Construir, Habitar e Pensar” [1].

Para Heidegger, só construimos coisas porque já habitamos determinados espaços que, desse modo, se tornam “lugares”. Apenas porque alguns lugares determinados já nos pertencem de antemão e de certo modo é que podemos transformá-los com construções e morar neles depois. Heidegger chega a traçar um paralelo entre bauen, palavra do alemão arcaico que abriga os significados de “construir” e “habitar”, e “ser”, como em ich bin, du bist, “eu sou”, “tu és”. Habitar é ser. Nesse sentido é que se pode acrescentar que a capacidade de construir – habilidade – é determinante de como o indivíduo se apresentará e se comportará – hábito -, dado que sua habitação é o que delimita quem ele mesmo é.

 

Notas

1. Bauen, Wohnen, Denken (1951). Conferência pronunciada por ocasião da “Segunda Reunião de Darmastad”, publicada em Vortäge und Aufsätze, G. Neske, Pfullingen, 1954. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. [link para o pdf]

Infinito e Definições

GSV

Gravura de Renoir Santos – clique na figura para o original

O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver.

Mas a gente quer Céu é porque quer um fim:

mas um fim com depois dele a gente tudo vendo.

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

 

Para o Sérgio.

 

Quando alguém pede por uma definição em qualquer discussão, sem dúvida, isso pode ser bastante produtivo se os debatedores não se dão conta de que falam coisas diversas. Uma definição, nesse contexto, tenta estabelecer o ponto exato sobre o qual se deseja discutir. Cientistas gostam disso porque é uma abordagem reducionista e específica, criando um terreno mais firme ao seu modo de raciocínio. Contudo, há a possibilidade de, ao solicitarmos a formalização de um significado, a delimitação certeira de uma ideia, restringirmos demasiadamente nosso horizonte conceitual num ante-olhos argumentativo limitador e empobrecedor de certos tipos de debate. Minha aversão a esse tipo de, chamemos de definitio postulatione (por que é que essas coisas ficam mais bonitas em latim? hehe), frisemos, nessas condições, só fez aumentar quando entendi que algumas abordagens fenomenológicas ou mesmo linguísticas poderiam fazer mais pela compreensão de determinados conceitos que as respectivas próprias definições, permitindo o que seria uma abordagem algo mais expansionista do tema, digamos. Filósofos (que não os analíticos) tendem a preferir estas últimas mas, concedo que elas podem, por vezes, confundir mais que explicar em determinadas situações. Passarei minha existência óssea a aprender como utilizar essas “coisas” adequadamente. En-fim…

Com essa mania de ficar futricando as palavras sadicamente, percebi que “definição” é “de-finição”. “Finição” seria a propriedade de quem é finito. Mas, por que razão a finitude (o termo correto em português) – que, por sua vez, pode tanto ser aquilo que não é eterno, quando no âmbito do tempo, quanto aquilo que não é infinito, se tratarmos do espaço -, dizia, por que a tal finitude estaria relacionada ao que uma coisa é ou deixa de ser para nós? Isso, infelizmente, é metafísica. E começou, claro, na Grécia Antiga.

Quando um filósofo grego se via numa “saia-justa” em algum debate ou mesmo em um raciocínio sobre algo, ele dizia estar em aporia (ἀπορία); de “a”- não, “póros”- travessia, viagem, caminho, estrada. Portanto, “aporia” é um beco-sem-saída, um sem-caminho. Sigamos agora Ernildo Stein[1]. “Póros, entretanto, vem [do verbo] peiro que quer dizer atravessar, percorrer de um extremo a outro; e este verbo origina o adjetivo apeiros: infinito, sem fim, inextricável, sem termo marcado, indeterminado. Substantivado, (…) significa o infinito, o indeterminado: apéiron (άπειρος). Há, portanto, um vínculo estreito entre aporia e apéiron.” Ficar no “sem-caminho”, na aporia, é estar diante do indeterminado, do infinito, do indefinível e ficar sem resposta para o problema que se persegue. Ápeiros, para os gregos, não por acaso, pode também querer dizer ignorância, inexperiência. Para Platão e Aristóteles, o infinito, o indeterminado e o indefinível são uma e a mesma coisa: o que não pode ser pensado e, por isso, não se pode produzir um discurso sobre. “Para eles o finito é o único campo em que se pode movimentar o pensamento”. É na relação entre os conceitos de infinito e “aquilo que se permite pensar de um lado a outro”, do começo ao fim, por uma rota, um caminho, que se instaura a dialética grega. O “ser” e o “finito” vão juntos na filosofia grega porque o “ser mesmo é pensado como consumação e completude”. O ser como forma manifesta das coisas à nós só se dá a conhecer como um todo. O oposto disso é o que não se compreende, não se abarca com a razão. O infinito. O não-ser.

A relação do ser com a finitude põe uma pulga gigantesca atrás da orelha de toda a tradição filosófica ocidental. Isso porque ela deixa uma avenida especulativa quanto à origem do ser, coisa que, para os gregos, era irrelevante dado que o mundo deles era eterno. A teologia cristã foi perspicaz e hábil em captar esse vácuo, aliás. Se o infinito é muito difícil de ser pensado e dito (lógos), ao colarmos seu conceito ao “verbo” teremos um ser invencível que, além das vantagens imateriais de sua impronunciabilidade, será a origem e a causa de tudo que pode ser dito e pensado.

Por tudo isso, a solicitação de definições é carregada de uma grande carga metafísica. Se por um lado, uma definição fica longe de esgotar determinado assunto, por outro, é clara e simplesmente uma escolha de método. A relação grega entre o infinito e a aporia, o “sem-caminho” do pensamento, sobrevive ainda hoje, apesar da instituição do Deus cristão. Ele não foi capaz de matar a “grande pulga” atrás dos ouvidos céticos.

Às vezes, um ante-olhos é muito bom. Outras, não.

 

[1] Stein, E. Melancolia. Ensaios sobre a finitude no pensamento ocidental. Coleção Dialética. Vol 4. Ed. Movimento. Porto Alegre. 1976.

DEK – Estetoscópio, Broncograma e Pectorilóquia

A palavra estetoscópio parece ter sido forjada (dado que tais instrumentos médicos não eram utilizados pelo conterrâneos de Hipócrates) pelo francês René-Théophile-Hyacinthe Laënnec (1781-1826), ele mesmo o inventor da palavra e da coisa, a partir dos radicais gregos, stethos-, caixa torácica, peito (e até mamas); associada à -skopein, explorar, perscrutar. Stethos é, portanto, correlacionada à caixa torácica e ao peito. Provavelmente, esterno, como “osso que nos fecha o peito”, ou “que vem à frente dele”, também venha daí. Nada a ver com Estética que é de outro radical. Se bem que aisthanesthai, é “perceber, pelos sentidos ou pela mente”, ou seja, “sentir” e originou “estese” e seu oposto “anestese”, ou comumente “anestesia”, e se pode perfeitamente, com o estetoscópio, sentir ou ouvir ruídos do funcionamento normal do corpo humano. Em especial dos pulmões.

Árvore Brônquica (Fonte: Wikipédia)

Árvore Brônquica (Fonte: Wikipédia)

O ar, ao penetrar nas vias aéreas, produz uma sensação auscultatória (auscultar = escutar com técnica) semelhante àquela que temos quando encostamos o ouvido numa concha só que de forma intermitente, acompanhando o ciclo respiratório do paciente. É um som abafado e que é bem melhor percebido durante a inspiração e chamado poeticamente de murmúrio vesicular. Quando esse som fica nítido, o médico deve prestar atenção se ele pode ser ouvido durante a expiração também. Se isso ocorrer, chamamos esse tipo de ruído de respiração soprosa. A respiração soprosa ocorre por aumento da transmissão do som na caixa torácica e isso, geralmente, se dá por uma condensação do parênquima pulmonar que, dessa forma, conduz melhor a onda sonora. Nesse momento, o médico pode solicitar ao paciente que diga “trinta e três”. (Parêntesis: por que “trinta e três”? É pela vibração que provoca no tórax e para padronizar as auscultas. Em inglês e no alemão – onde foi descrito, é “ninety nine” e “neun und neunzig”, em espanhol “treinta-y-tres” ou “cuarenta-y-cuatro”. “Ointenta e oito” tem um som muito fechado. “Setenta e sete” e “cinquenta e cinco”, muito sibilantes, e ficamos no “trinta e três”. Fecha parêntesis).

Ao dizer “trinta e três”, o paciente faz com que sua voz trafegue pelas vias aéreas. Se houver algum local onde a transmissão seja acelerada por uma condensação parenquimatosa, e.g. uma pneumonia, o médico auscultará um “trinta e três” não abafado, mas bem nítido. É o que se chama pectorilóquia. Pectos-, latim, “peito”. Como em pectus excavatum (tórax de sapateiro), ou angina pectoris, “dor torácica de origem cardíaca”; -Ióquia, latim também, de falar. Donde colóquio (onde vários falam), ventríloquo (o que fala pela barriga), etc. Pectorilóquia é a “fala do peito”. E o que ela diz?

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos em uma tomografia

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos

Diz que há um local naquele pulmão onde o som chega, e para isso é necessário que um brônquio esteja aberto, e transmite-se tendo como meio um parênquima pulmonar “condensado”, ou seja, preenchido por conteúdo sólido e não pelo ar. Radiologicamente, esse som se revela num sinal chamado broncograma aéreo. O broncograma aéreo é o desenho por contraste de um brônquio com o tecido pulmonar densificado adjacente. É considerado característico de condensações e serve para diferenciar de outras doenças que causam densificações do parênquima pulmonar, em especial, das atelectasias. Nestas, os alvéolos estão murchos e não preenchidos por material inflamatório. Os brônquios, colabados. O som não chega à superfície da parede torácica com a mesma eficiência. É bem mais abafado.

A pectorilóquia é representada pelo sinal radiológico do broncograma aéreo que, por sua vez, tem como base a anatomia patológica do pulmão acometido. Um médico treinado, com uma manobra extremamente barata e eficaz (solicitar ao paciente que diga um número várias vezes) pode captar isso com a mão nas costas do doente (para sentir o frêmito) ou auscultando (diretamente com o ouvido ou mediatamente com o estetoscópio) e ter a visão radiológica e/ou da lâmina de microscopia representativa de sua doença. A pectorilóquia tem, portanto, uma representação fisiopatológica e anatomopatológica que provoca implicações no raciocínio clínico e gera consequências terapêuticas. Pensar medicamente é sentir a superfície, ver a profundidade e modificar a “história”. Pelo menos a “natural das doenças”.

Consultei

Carvalho VO, Souza GEC. O estetoscópio e os sons pulmonares: uma revisão da literatura. Rev Med (São Paulo). 2007 out.-dez.;86(4):224-31. (pdf)

DEK – J e a Polêmica do Vestuário Médico

ResearchBlogging.orgRecentemente, vem ganhando corpo uma campanha interna do ScienceBlogs Brasil contra o uso indevido do vestuário médico em locais inapropriados como lanchonetes, restaurantes e até metrôs e ônibus. A campanha é mais que justa. Jalecos, aventais, guarda-pós, estetoscópios e outros apetrechos utilizados pelos médicos não são de fato, para ficar perambulando por aí, tendo em vista o enorme problema das infecções cruzadas e o surgimento de germes multirresistentes.

Entretanto, há um tom iconoclasta na campanha que me incomoda. Eu fiquei pensando muito no porquê ficar incomodado com um assunto pelo qual luto diuturnamente e que tem um embasamento científico bastante razoável como pode ser visto aqui (em inglês). Digo razoável, porque o papel desses veículos (dizemos fômites) na transmissão de doenças ainda está para ser estabelecido. Estar contaminado, por mais nojento, incorreto e reprovável, que possa ser, não quer dizer estar  ou deixar doente, apesar de tornar mais provável.

Este é o Dicionário Etimológico do Karl e esta é a letra J, e vou usar este espaço para psicoanalisar um pouco do meu comportamento médico. Afinal, esse é um dos fins deste blog.

J (jota) de jaleco s.m., segundo o Houaiss, (1605) ‘jaleco, jaqueta turca cujas mangas chegavam só aos cotovelos’ (tur. yelék, pelo ár. argelino djalíka ‘casaco de cativo’; segundo Corominas, s.v. chaleco, Haedo descreve o jaleco da seguinte forma: ‘um gibão de pano, de mangas curtas, até o cotovelo, que os turcos argelinos usavam, debaixo do cafetã’; trata-se de um dos vários nomes de trajes transmitidos ao esp. e ao it. pela língua franca dos portos africanos; f.hist. 1725 jalecu, 1725 galleco, 1727 jaleco. Chamavam os portugueses “galegos” de jalecos também. Há um tamanduá de nome jaleco. Para nós, jaleco é uma capa curta de mangas também curtas que pode ser usada sobre a camisa, como na foto acima. É utilizada por dentistas, farmacêuticos, churrasqueiros e balconistas em geral, entre outros tantos. Eu já usei jaleco. Parei porque achava o jaleco meio churrasqueiro demais. Gosto mais de usar o (ainda segundo o Houaiss):

Avental: peça de pano, plástico ou couro, presa pelo pescoço e pela cintura, usada para proteger a roupa em certos tipos de trabalho. Etimologia: avante + -al, com alteração do -a- pré-tônico para -e-; f.hist. sXIV auantal, sXIV uantal. (Atualização: eu acho que o nome mais correto para esse tipo de vestimenta é guarda-pó ou simplesmente, capa, como no inglês)

Avental e gravata constituem um “uniforme médico” de respeito não só porque a imagem do médico veiculada em muitos filmes é essa, mas também porque nas faculdades de medicina, em geral, formam a vestimenta padrão dos professores. A gravata já foi alvo de várias críticas [1] e muitos já a abandonaram. Mas isso não nos exime da pergunta: Mas então, o que é que um médico deve trajar?

Tive uma experiência interessante com a série “Sala de Espera I e II” e recomendo a leitura dos comentários porque são bastante esclarecedores quanto às expectativas dos pacientes quanto a aparência dos médicos(as). Cito abaixo as respostas de 3 sciencebloggers à pergunta, como seria a aparência de um médico importante para você?

Para mim, estereótipo de médico mesmo. Meia-idade, cabelo meio grisalho, sem brincos ou tatuagens. Este primeiro resultado do Google Images é bem o que imagino mesmo” Kentaro Mori do 100nexos.

Irei contra todos os comentários acima e direi que meu ideal de médico é um sujeito novo, recém-saído da universidade, doido para colocar em prática anos de estudo e assumir, enfim, a responsabilidade por isso, sem alguém olhando por cima do seu ombro. Um médico jovem, empolgado, atualizado, que lê muito e sabe a importância de uma batidinha no abdome e uma puxada de pálpebra. Quanto mais estetoscópio no pescoço e esfigmomanômetro no bolso melhor. Na minha cabeça, quanto mais velho o médico, mais antiquados os seus métodos, chegando numa zona dos formados entre dez e vinte anos atrás para os quais “pedir exame” é sinônimo de “examinar”.” Igor Santos do 42. (grifo + sublinhado, meus)

Fico com o cientista, principalmente pelo jaleco branco.” Atila do Rainha Vermelha.

Scientist Cartoon 0779

Isso já foi até tema de um estudo [2] cuja conclusão foi que, “em contraste com os médicos que veem os aventais brancos como risco de infecção, muitos pacientes, e especialmente aqueles com mais de 70 anos, acham que os médicos devem vestir aventais brancos para sua identificação ficar mais fácil.” Com isso, quero chamar a atenção para o fato de que a vestimenta do médico é algo que está além do simples fato da proteção, higiene e etc. Há sim, uma identificação visual, uma comparação cognitiva com uma imagem pré-concebida proveniente das experiências particulares que cada pessoa teve em contato com a doença e com a possibilidade de ser assistida por alguém no qual depositaram sua confiança. Repito aqui o que já escrevi e que acho que se adequa perfeitamente ao tema:

“Acho mesmo que essa imagem pré-concebida do médico varia muito, não
só com a especialidade, mas também com o local onde o médico trabalha,
que tipo de público atende e assim por diante. Tudo isso para dizer que o médico é INDISSOCIÁVEL da população que
atende. Isso pode soar óbvio a essa altura da discussão mas, acredite,
muitos médicos não pensam assim. Além disso, a instituição que abriga o
médico, seja um hospital público ou particular, seja seu próprio
consultório (e no caso a instituição é ele mesmo) faz diferença, não só
na aparência que o médico busca, como também na sua forma de atuar. Isso
é bastante polêmico, eu sei, mas alguns anos de experiência me
mostraram o problema de forma bastante clara. Não reconhecer essa
diferença, que os advogados já reconheceram há alguns milênios, é abrir
mão da oportunidade de minimizar seus efeitos.

A ciência médica é uma só, a medicina não. Isso decorre do fato de
ela ser uma forma, talvez a mais perversa, de aplicação científica
prática! A prática, como já abordei em diversos posts, tem a tensão
irredutível da decisão que envolve o conhecimento tecno-científico e a
experiência prévia. Essa tensão deixa o médico inseguro. Sempre. A
aparência do médico é um modo de “vender o peixe”. Quanto mais adequada a
aparência for à imagem que o paciente faz do médico, mais fácil
conseguir sua confiança, aderência ao tratamento e, consequentemente,
bons resultados. Isso tem a ver com o mercado? Sim. Mas tem muito mais a
ver com o fato de que o médico precisa penetrar em algo bem mais
profundo que o mero organismo de seu paciente.”

Isso não exclui o médico do conceito de adequação. Ser atendido por uma médica atraente com minissaia e decote matador inspira muitos sentimentos, menos os de acolhimento, segurança e confiança profissional. Sentar em uma lanchonete com médicos comendo de avental e esteto no pescoço é desagradável também. A adequação do traje ao local é uma forma de educação e esta, por sua vez, visa o bem-estar de todos.

[1] McGovern, B., Doyle, E., Fenelon, L., & FitzGerald, S. (2010). The necktie as a potential vector of infection: are doctors happy to do without? Journal of Hospital Infection, 75 (2), 138-139 DOI: 10.1016/j.jhin.2009.12.008

[2] Douse, J. (2004). Should doctors wear white coats? Postgraduate Medical Journal, 80 (943), 284-286 DOI: 10.1136/pgmj.2003.017483

DEK – F: A Relação Entre a Mente e o Diafragma

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Frênico. phren(o)- φρ-ήν/-ενός gr. ‘mente’, (diafragma), segundo o Diccionario médico-biologico, de quem tomei muitas das explicações abaixo. Há o nervo frênico que é quem veicula os estímulos ao diafragma. Há o esquizofrênico que não tem nada a ver com isso (nem com nada). Qual seria a relação entre um e outro? Esse é o “F”. Bem-vindo ao dicionário etimológico do Karl. Outras letras/verbetes aqui.

Existe certa discussão sobre o significado anatômico do termo phrḗn φρήν. Entretanto, tanto Hipócrates como Aristóteles o utilizavam com o significado de diafragma διάφραγμα, a tenda muscular que separa o tórax do abdome, e quase sempre no plural phrénes φρένες. Como que, vindo dessa origem, o termo passa também a designar a mente?

É um caso de metonímia. Por exemplo, é frequente utilizarmos “coração” ao invés de “amor” ou “compaixão”. Para os gregos, o diafragma era a sede do medo e da angústia. Talvez, traduzindo o já conhecido “frio na barriga” que todos sentem e que é muito difícil de definir. Daí, passamos aos sentimentos e finalmente, à mente. (Em grego, existem duas palavras para mente que originaram termos utilizados hoje. O primeiro freno– e, quando usado em sufixo, –frenia, como vimos. A outra é noûs νοῦς que forma palavras acabadas em –noia, como em “paranoia”). Parece que os médicos gregos usavam phrḗn ou phrénes com o sentido de diafragma mesmo e os escritores, em especial Homero, com o sentido de mente. O autor de Sobre a Enfermidade Sagrada (a epilepsia) – que pode ser o próprio Hipócrates, ou não – escreve:

«Afirmo que o cérebro é quem articula a intelecção. As phrénes (o diafragma) têm essa denominação (ou seja, um termo associado ao pensamento) por azar ou convenção mas não pelo que é sua natureza, porque não sei que faculdade têm para pensar (phronéein φρονέειν) ou refletir (noéein νοέειν).» (De morbo sacro 16).

Termos como phronésis e frenesi provém dessa linha grega de pensamento.

A terminologia médica atual deriva dos anatomistas renascentistas que eram bons leitores de Hipócrates e Galeno. Quando foram denominar os vasos e nervos relacionados ao diafragma utilizaram o adjetivo “frênico” (phrenicus em latim), como derivado de phrḗn “diafragma”, na melhor tradição hipocrática. Por outro lado, desde Erasístrato se interpretou que phrenītis ou frenitis era uma doença do cérebro que afetava as capacidades intelectuais e não uma simples pneumonia. Essa linha, predominou nas enfermidades psiquiátricas, em especial na escola francesa, e gerou termos como phrénopathie (frenopatia) como termo genérico das enfermidades mentais em 1833; paraphrénie, hebefrenia (criada por K.L. Kahlbaum e E. Hecker em 1871), oligofrenia (1899), esquizofrenia (1910) por Eugen Bleuler. Gerou também a frenologia. “Ciência” que muito influenciou o pensamento fisiológico segundo a qual cada função cognitiva tem sua sede anatômica no cérebro. Temo dizer que há um “viés frenológico” não desprezível em alguns neurocientistas; ainda hoje.

1. Oxford Textbook of Psychopathology de T. Millon, P.H. Blaney y R.D. Davis, 1999.
2. Dicciomed.es. Diccionario médico-biológico, histórico y etimológico. (Sensacional dica da Tati Nahas).

DEK – E

Esôfago. do grego oisophagos “garganta”; literalmente “o que leva e come”. Vem de oisein, infinitivo futuro de pherein “levar” (como em fóros = o que transporta) + –phagos, de phagein “comer” (como em antropófago = o que come o anthropos [homem]).

Estômago. do grego stomachos “garganta, esôfago” literalmente “boca, abertura”. Vem de stoma “boca”. Utilizamos ainda bastante o termo stoma para descrever aberturas de orgãos internos para o exterior, como em gastrostoma (cujo procedimento cirúrgico chama-se gastrostomia), traqueostoma (cujo procedimento cirúrgico chama-se traqueostomia), etc. Há também uma especialidade em enfermagem chamada estomatologia, que é quem cuida e trata as complicações deste tipo de ferida. O termo gastro é grego também (gaster, como em melanogaster – literalmente, “barriga preta”) e mais específico sobre a região do abdome corresponde ao epigástrio (“boca do estômago”). Olhando assim, dá a impressão que stomachos estava mais relacionado à função da deglutição, satisfação e, por correlação, orgulho. Gaster é mais anatômico e, portanto, mais específico para adjetivar coisas relacionadas ao orgão, como em gastroenterologia.

Interessante também, o fato de que há uma porção no estômago chamada cardia (número 6 na figura). Segundo o dicionário de termos médicos de RS Simões, MCP Baracat e R Lima, disponível para download gratuito, este nome é proveniente da proximidade com o coração. Entretanto, acho que neste caso, há mais uma confusão entre forma e função dos antigos. De qualquer maneira, isso acabou por passar para algumas expressões de uso corrente como “saber uma coisa de cór”, que é saber de memória, como se fizesse parte de nós, como se tivéssemos deglutido tal conhecimento; e também “misericórdia“. Tumores da cárdia são difícieis de tratar por serem transicionais, na fronteira entre os dois orgãos.

Consultei:Dicionário de Etimologia On-line (inglês).
Clique na figura para ver os créditos.

Mais DEK: A, B, C e D.

DEK – Doença

O dicionário etimológico do Karl (DEK) chega à Letra D. Os verbetes precedentes podem ser vistos em A, B, C.

A letra D tem vários descritores do padecimento físico humano (e também de animais) além de doença, como por exemplo,  desordem, distúrbio, disfunção e desarranjo, além dos conhecidos moléstia, mal, enfermidade e transtorno. Doença vem do latim dolentia que quer dizer sofrimento e originou indolente e a própria dolência. Existe também, em latim, a palavra morbus com o significado mesmo de doença, em geral utilizada para nomeá-las, a mais conhecida sendo Morbus Gallicus (quero ver quem sabe essa!). A essa altura, já tem gente perguntando, “mas e em grego não tem nada?” Tem.  Em grego, existe a palavra nósos (νόσος) que também quer dizer doença e é usada nos termos nosologia, nosocômio, entidade nosológica para descrever uma classificação de doenças, hospital e a doença em si, respectivamente.

Entretanto, pelo menos do ponto de vista médico, os campos semânticos de todos esses termos não são exatamente iguais. Essa diferenciação fica ainda mais clara em inglês. As palavras disease, sickness, illness têm significados diferentes. Disease é o alvo ontológico do médico. Vem de des- “sem, à parte de” + aise (ease) “bem, calmo”. Por disease, entende-se o desarranjo anatômico, bioquímico, genético ou psicológico cujas consequências, modos de identificação e tratamento, lemos nos tratados de medicina. O termo disease (assim como doença) é bastante ambíguo e existem várias teorias que tentam generalizar o conceito de forma a operacionalizá-lo, o que não é fácil. Illness é o que o paciente apresenta tendo uma disease ou desordem-alvo, exibindo sintomas (alterações que ele ou ela mesmo sente) ou sinais (alterações que o médico percebe por meio do exame clínico). Há ainda a sickness ou predicament que são as perspectivas sociais, psicológicas e/ou econômicas que o paciente apresenta por estar com a disease. Em português, essa diferenciação não foi tão bem marcada e costumamos ainda usar os termos indistintamente.

Por essas definições, temos que o médico deve focar na illness para identificar a disease com um olho no predicament. Mais formalmente, como colocou Sackett, o diagnóstico é “um esforço em reconhecer a classe ou grupo ao qual a illness do paciente pertence de modo que, baseado em nossa experiência prévia, nossos atos subsequentes possam maximizar sua saúde.”

Referências Bibliográficas

1. Taylor, DC. The components of sickness: Disease, illness and predicaments. Lancet, 1979;2:1008-1010.
2. Sackett, DL et al. Clinical Epidemiology. 2nd Ed.

DEK – O Clínico e o Cirurgião

A R.T.


Chegamos à letra C. Escolhi dois dos maiores protagonistas da medicina para ilustra-la. Os outros verbetes podem ser vistos aqui.

Cirurgião. Cirurgia provém do latim chirurgia, que tomou do grego kheirourgia, de kheír (ou Χείρων) mão + érgon, trabalho. “Etimologicamente, portanto, cirurgia significa trabalho manual, arte, ofício, no qual se empregam as mãos para a sua execução”[1]. Não posso deixar de citar Chiron (figura ao lado), o centauro-curandeiro, mestre de Asclépio, que tem no nome a mesma raiz de “mão”.

Clínico. Clínica. Do francês clinique, do latim clinicus, que por sua vez, obviamente, vêm do grego klinike “que é a prática (techné) de quem cuida de pacientes acamados”. Sim, porque kliné, quer dizer cama, leito, pois o prefixo kli- indica o ato de deitar e não por acaso, origina o termos inclinar, declive.[2]

Clínicos e cirurgiões têm atrás de si milênios de tradição provenientes de raízes médicas bem distintas e por isso têm visões diferentes de um mesmo paciente. Tenho me debatido com o fato de que, para mim, as visões são complementares e não antagônicas.

1. Resende, JM. Acta Cir. Bras. vol.20 no.5; São Paulo;Sept./Oct.;2005.
2. Online Etymology Dictionary.
3. Figura da Wikipedia.

DEK – Baço

Vamos para a letra “B”. Para ver mais verbetes, tente a tag “DEK”. Para ver a anterior, ver Aspirina.

De onde vem o nome do orgão que, ficando a esquerda do abdome, é mais conhecido por contrapor-se ao fígado, este à direita? Dizem os corredores que, no início de um exercício, sentem uma dor no “baço” ao se referirem a uma pontada do lado esquerdo. A pontada não tem nada a ver com o pobre do baço, mas é interessante saber a origem da palavra. Não achei nenhuma definição melhor que a do professor Joffre Resende a quem tive a oportunidade e a honra de conhecer em Goiânia. Aprendi muito, por isso, transcrevo alguns trechos integrais de seu verbete:

“O baço é designado nos diversos idiomas por termos oriundos de mais de uma raiz etimológica. A palavra original grega usada por Hipócrates para nomear o baço é splén, da qual derivam todos os termos médicos relacionados com este órgão, tais como esplênico, esplenite, esplenectomia, esplenomegalia etc.Em latim o baço era designado por lien, conforme se encontra nos livros de Celsus.[1] Skinner observa com muita propriedade que lien é quase a mesma palavra grega, com perda das duas consoantes iniciais.[2]; De lien deriva, em português, o adjetivo lienal, com o mesmo sentido de esplênico. Em alemão o baço é denominado milz e, em italiano, milza. Segundo Guttmann, milz provém do alto-alemão milde que significa mole, macio, esponjoso, atributos característicos do órgão.[3] Em inglês o baço recebe dois nomes: o primeiro, pouco usado, milt (primitivamente milte); o segundo, spleen, de uso generalizado, procede do grego através do francês antigo splen, forma arcaica igualmente encontrada na língua inglesa, até sua ulterior evolução para spleen.[4] Na língua francesa o baço é chamado de rate, que também significa fêmea do rato. Segundo Dauzat, rate, víscera, origina-se do neerlandês râte, favo de mel.[5] Em espanhol e português temos, respectivamente, bazo e baço, de origem controvertida. Três possíveis étimos são admitidos:

1. Corominas ensina que bazo, nome de víscera, provém de bazo, adjetivo, cujo significado é “moreno tirado a amarillo”.[6] Em seu apoio, Carolina de Michaelis identifica baço no Cancioneiro da Ajuda, com o sentido de “moreno escuro”.[7]
2. Gonçalves Viana deriva baço do latim opacium, comparativo de opacum, pela queda da vogal inicial e abrandamento de p em b.[8]
3. José Pedro Machado, citando Piel (Miscelania de etimologia portuguesa e galega), considera baço vocábulo erudito, oriundo do grego hepátion, através do latim.[9] Nascentes, em seu DicionárioEtimológico admitiu que o termo anatômico tenha-se originado do adjetivo baço, “por causa da cor vermelha do órgão”.[7] Posteriormente, julgou preferível considerar o substantivo de origem incerta, enquanto o adjetivo baço seria derivado do latim badium, “moreno pálido”.[10]” (O Dicionário Etimológico Nova Fronteira de António Geraldo da Cunha também atribui baço a hepátion, com o que eu, Karl, não concordo.)

Referências bibliográficas

1. CELSUS, A.C. – De Medicina. The Loeb Classical Library, Cambridge, Harvard University Press, 1971.
2. SKINNER, H.A. – The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1961, p. 381.
3. GUTTMANN, W. – Medizinische Terminologie, 4.ed. Berlin, Urban & Schwarzenberg, 1911.
4. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
5. DAUZAT, A., DUBOIS, J., MITTERRAND, H. – Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 3.ed. Paris, Larousse, 1964.
6. COROMINAS, J. – Breve diccionario etimológico de la lengua castellana, 3.ed., Madrid, Ed. Gredos, 1980.
7. NASCENTES, A. – Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1932.
8.. VIANA, A.R.G. – Apostilas aos dicionários portugueses. Lisboa, Liv. Clássica Ed., 1906, p. 173.
9. MACHADO, J.P. – Dicionário etimológico da língua portuguesa, 3.ed. Lisboa, Livros Horizonte, 1977.
10. NASCENTES, A. – Dicionario etimológico resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.

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