DEK H: Habilidade, Habitar, H√°bito

 

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Gravura de Eduardo Chillida “Bauen, Wohnen, Denken”, 1994.

O prefixo ¬†hab- em latim forma palavras com tr√™s grupos de significados que procurei exemplificar no t√≠tulo do post. O primeiro grupo, ao qual pertence a palavra “habilidade” (habilitas), tem palavras como “h√°bil” (habilis) e “habilitar”, que √© tornar h√°bil. Em latim, temos ainda¬†habena (portador) e¬†habens (propriet√°rio, rico) que √© aquele¬†tem as¬†habentia (propriedades). De fato, o pr√≥prio verbo habeo √© traduzido como “ter”. Esse grupo de palavras sugere para¬†hab-¬† um significado de posse, de capacidade, de potencialidade de realiza√ß√£o.

O segundo grupo tem como exemplo a palavra “habitar” (do verbo habito) com significado de morar, viver, ficar e seus derivados como “habitante” (habitans), “habitat”, “habita√ß√£o” (habitatio), entre outros. Aqui, diferentemente, o prefixo hab- parece trazer um significado de demorarse, morar, viver, estabelecerse.

O terceiro e √ļltimo grupo √© encabe√ßado pela palavra “h√°bito” (habitus). “H√°bito” pode ser traduzido como disposi√ß√£o, inclina√ß√£o, costume (no sentido de pr√°tica, modo, rotina, ou mesmo mania). √Č a tradu√ß√£o para o latim do grego hexis (ŠľēőĺőĻŌā) que, por sua vez, foi retirado da literatura m√©dica onde at√© hoje √© utilizado com o sentido de “constitui√ß√£o”, “predisposi√ß√£o” org√Ęnica,¬†habitus. (H√° o exemplo cl√°ssico – os m√©dicos se lembrar√£o – do habitus marfan√≥ide, caracter√≠stico dos portadores da S√≠ndrome de Marfan). Mas, habitus tem ainda um outro significado que √© o de condi√ß√£o, estado, apar√™ncia, h√°bito, aqui no sentido de, veja s√≥, novamente¬†costume (roupa, vestimenta). Em ambos os casos, hab-¬†parece remeter a algo que est√° em um indiv√≠duo, algo do qual ele √© portador, e¬†que se constr√≥i em sua apar√™ncia externa, ou em sua forma de comportar-se, ou ainda, de maneira mais interessante, na ambiguidade das duas¬†possibilidades a um s√≥ tempo como no dito popular¬†“o h√°bito n√£o faz o monge”.

Vejamos, ent√£o, o que temos at√© aqui. Aparentemente tr√™s campos sem√Ęnticos independentes: “posse, capacidade, potencialidade”; “demorar-se, morar, viver, estabelecer-se”; “apar√™ncia, comportamento”. Mas, um pensamento parcimonioso n√£o se contentaria com uma tal profus√£o de significados. Ali√°s, n√£o √© mesmo assim que prefixos ancestrais costumam funcionar. Deve haver uma raiz sem√Ęntica comum que se perdeu com o uso cotidiano e que terminou por cristalizar os tr√™s significados separadamente. Tal raiz origin√°ria n√£o √© facilmente resgat√°vel e restam-nos apenas hip√≥teses de suas origens. Uma das poss√≠veis hip√≥teses leva em conta a bel√≠ssima palestra proferida por Martin Heidegger em 1951: “Construir, Habitar e Pensar” [1].

Para Heidegger, s√≥ construimos coisas porque j√° habitamos determinados espa√ßos que, desse modo, se tornam “lugares”. Apenas porque alguns lugares¬†determinados j√° nos pertencem de antem√£o e de certo modo √© que podemos transform√°-los com constru√ß√Ķes e morar neles depois. Heidegger chega a tra√ßar um paralelo entre bauen, palavra do alem√£o arcaico que abriga os significados de “construir” e “habitar”, e “ser”, como em ich bin, du bist, “eu sou”, “tu √©s”. Habitar √© ser. Nesse sentido √© que se pode acrescentar que a capacidade de construir – habilidade – √© determinante de como o indiv√≠duo se apresentar√° e se comportar√° – h√°bito -, dado que sua habita√ß√£o √© o que delimita¬†quem ele mesmo √©.

 

Notas

1.¬†Bauen, Wohnen, Denken (1951). Confer√™ncia pronunciada por ocasi√£o da “Segunda¬†Reuni√£o de Darmastad”, publicada em Vort√§ge und Aufs√§tze, G. Neske, Pfullingen, 1954.¬†Tradu√ß√£o de Marcia S√° Cavalcante Schuback. [link para o pdf]

Infinito e Defini√ß√Ķes

GSV

Gravura de Renoir Santos – clique na figura para o original

O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver.

Mas a gente quer Céu é porque quer um fim:

mas um fim com depois dele a gente tudo vendo.

Guimar√£es Rosa, Grande Sert√£o: Veredas

 

Para o Sérgio.

 

Quando algu√©m pede por uma defini√ß√£o em qualquer discuss√£o, sem d√ļvida, isso pode ser bastante produtivo se os debatedores n√£o se d√£o conta de que falam coisas diversas. Uma defini√ß√£o, nesse contexto, tenta estabelecer o ponto exato sobre o qual se deseja discutir. Cientistas gostam disso porque √© uma abordagem¬†reducionista e espec√≠fica,¬†criando um¬†terreno mais firme ao seu modo de racioc√≠nio.¬†Contudo, h√° a possibilidade de, ao solicitarmos a formaliza√ß√£o de um significado, a delimita√ß√£o certeira de uma ideia, restringirmos demasiadamente nosso horizonte conceitual num ante-olhos argumentativo limitador e empobrecedor de certos tipos de debate.¬†Minha avers√£o a esse tipo de, chamemos de¬†definitio postulatione¬†(por que √© que essas coisas ficam mais bonitas em latim? hehe), frisemos, nessas condi√ß√Ķes, s√≥ fez aumentar quando entendi que algumas abordagens fenomenol√≥gicas ou mesmo lingu√≠sticas¬†poderiam fazer mais pela¬†compreens√£o¬†de determinados conceitos que as respectivas pr√≥prias defini√ß√Ķes, permitindo o que seria uma abordagem algo mais¬†expansionista do tema, digamos. Fil√≥sofos (que n√£o os anal√≠ticos) tendem a preferir estas √ļltimas mas, concedo que elas podem, por vezes, confundir mais que explicar em determinadas situa√ß√Ķes. Passarei minha exist√™ncia √≥ssea a aprender como utilizar essas “coisas” adequadamente. En-fim…

Com essa mania de ficar futricando as palavras sadicamente, percebi que “defini√ß√£o” √© “de-fini√ß√£o”. “Fini√ß√£o” seria a propriedade de quem √© finito. Mas, por que raz√£o a finitude (o termo correto em portugu√™s) – que, por sua vez, pode tanto ser aquilo que n√£o √© eterno,¬†quando no √Ęmbito do tempo, quanto aquilo que n√£o √© infinito, se tratarmos do espa√ßo -, dizia, por que a tal finitude estaria relacionada ao que uma coisa √© ou deixa de ser para n√≥s? Isso, infelizmente, √© metaf√≠sica. E come√ßou, claro, na Gr√©cia Antiga.

Quando um fil√≥sofo grego se via numa “saia-justa” em algum debate ou mesmo em um racioc√≠nio sobre algo, ele dizia estar em aporia¬†(ŠľÄŌÄőŅŌĀőĮőĪ); de “a”- n√£o, “p√≥ros”- travessia, viagem, caminho, estrada. Portanto, “aporia” √© um beco-sem-sa√≠da, um sem-caminho. Sigamos agora Ernildo Stein[1]. “P√≥ros, entretanto, vem [do verbo] peiro que quer dizer atravessar, percorrer de um extremo a outro; e este verbo origina o adjetivo apeiros: infinito, sem fim, inextric√°vel, sem termo marcado, indeterminado. Substantivado, (…) significa o infinito, o indeterminado: ap√©iron (ő¨ŌÄőĶőĻŌĀőŅŌā). H√°, portanto, um v√≠nculo estreito entre aporia e ap√©iron.” Ficar no “sem-caminho”, na aporia, √© estar diante do indeterminado, do infinito, do indefin√≠vel e ficar sem resposta para o problema que se persegue. √Āpeiros, para os gregos, n√£o por acaso, pode tamb√©m querer dizer ignor√Ęncia, inexperi√™ncia. Para Plat√£o e Arist√≥teles, o infinito, o indeterminado e o indefin√≠vel s√£o uma e a mesma coisa: o que n√£o pode ser pensado e, por isso, n√£o se pode produzir um discurso sobre. “Para eles o finito √© o √ļnico campo em que se pode movimentar o pensamento”.¬†√Č na rela√ß√£o entre os conceitos de infinito e “aquilo que se permite pensar de um lado a outro”, do come√ßo ao fim, por uma rota, um caminho, que se instaura a dial√©tica grega.¬†O “ser” e o “finito” v√£o juntos na filosofia grega porque o “ser mesmo √© pensado como consuma√ß√£o e completude”. O ser como forma manifesta das coisas √† n√≥s s√≥ se d√° a conhecer como um todo. O oposto disso √© o que n√£o se compreende, n√£o se abarca com a raz√£o. O infinito. O n√£o-ser.

A rela√ß√£o do ser com a finitude p√Ķe uma pulga gigantesca atr√°s da orelha de toda a tradi√ß√£o filos√≥fica ocidental. Isso porque ela deixa uma avenida especulativa quanto √† origem do ser, coisa que, para os gregos, era irrelevante dado que o mundo deles era eterno. A teologia crist√£ foi perspicaz e h√°bil em captar esse v√°cuo, ali√°s. Se o infinito √© muito dif√≠cil de ser pensado e dito (l√≥gos), ao colarmos seu conceito ao “verbo” teremos um ser invenc√≠vel¬†que, al√©m das vantagens imateriais de sua impronunciabilidade, ser√° a origem e a causa de tudo que pode ser dito e pensado.

Por tudo isso, a solicita√ß√£o de¬†defini√ß√Ķes¬†√© carregada de uma grande carga metaf√≠sica. Se por um lado, uma defini√ß√£o fica longe de esgotar determinado assunto, por outro, √© clara e simplesmente uma escolha de m√©todo. A rela√ß√£o grega entre o infinito e a aporia, o “sem-caminho” do pensamento, sobrevive ainda hoje, apesar da institui√ß√£o do Deus crist√£o. Ele n√£o foi capaz de matar a “grande pulga” atr√°s dos ouvidos c√©ticos.

Às vezes, um ante-olhos é muito bom. Outras, não.

 

[1] Stein, E. Melancolia. Ensaios sobre a finitude no pensamento ocidental. Coleção Dialética. Vol 4. Ed. Movimento. Porto Alegre. 1976.

DEK РEstetoscópio, Broncograma e Pectorilóquia

A palavra estetosc√≥pio parece ter sido forjada (dado que tais instrumentos m√©dicos n√£o eram utilizados pelo conterr√Ęneos de Hip√≥crates)¬†pelo franc√™s¬†Ren√©-Th√©ophile-Hyacinthe La√ęnnec (1781-1826), ele mesmo o inventor da palavra e da coisa, a partir dos radicais gregos, stethos-,¬†caixa tor√°cica, peito (e at√© mamas); associada √†¬†-skopein, explorar, perscrutar. Stethos √©, portanto, correlacionada √† caixa tor√°cica e ao peito. Provavelmente, esterno, como “osso que nos fecha o peito”, ou “que vem √† frente dele”, tamb√©m venha da√≠. Nada a ver com Est√©tica que √© de outro radical. Se bem que¬†aisthanesthai, √© “perceber, pelos sentidos ou pela mente”, ou seja, “sentir” e originou “estese” e seu oposto “anestese”, ou comumente “anestesia”, e se pode perfeitamente, com o estetosc√≥pio, sentir ou ouvir ru√≠dos do funcionamento normal do corpo humano. Em especial dos pulm√Ķes.

√Ārvore Br√īnquica (Fonte: Wikip√©dia)

√Ārvore Br√īnquica (Fonte: Wikip√©dia)

O ar, ao penetrar nas vias a√©reas, produz uma sensa√ß√£o auscultat√≥ria (auscultar = escutar com t√©cnica) semelhante √†quela que temos quando encostamos o ouvido numa concha s√≥ que de forma intermitente, acompanhando o ciclo respirat√≥rio do paciente. √Č um som abafado e que √© bem melhor percebido durante a inspira√ß√£o e chamado poeticamente de murm√ļrio vesicular. Quando esse som fica n√≠tido, o m√©dico deve prestar aten√ß√£o se ele pode ser ouvido durante a expira√ß√£o tamb√©m. Se isso ocorrer, chamamos esse tipo de ru√≠do de respira√ß√£o soprosa. A respira√ß√£o soprosa ocorre por aumento da transmiss√£o do som na caixa tor√°cica e isso, geralmente, se d√° por uma condensa√ß√£o do par√™nquima pulmonar que, dessa forma, conduz melhor a onda sonora. Nesse momento, o m√©dico pode solicitar ao paciente que diga “trinta e tr√™s”. (Par√™ntesis: por que “trinta e tr√™s”? √Č pela vibra√ß√£o que provoca no t√≥rax e para padronizar as auscultas. Em ingl√™s e no alem√£o – onde foi descrito, √© “ninety nine” e¬†“neun und neunzig”, em espanhol¬†“treinta-y-tres” ou “cuarenta-y-cuatro”. “Ointenta e oito” tem um som muito fechado. “Setenta e sete” e “cinquenta e cinco”, muito sibilantes, e ficamos no “trinta e tr√™s”. Fecha par√™ntesis).

Ao dizer “trinta e tr√™s”, o paciente faz com que sua voz trafegue pelas vias a√©reas. Se houver algum local onde a transmiss√£o seja acelerada por uma condensa√ß√£o parenquimatosa, e.g. uma pneumonia, o m√©dico auscultar√° um “trinta e tr√™s” n√£o abafado, mas bem n√≠tido. √Č o que se chama pectoril√≥quia. Pectos-, latim, “peito”. Como em pectus excavatum (t√≥rax de sapateiro), ou angina pectoris, “dor tor√°cica de origem card√≠aca”; -I√≥quia, latim tamb√©m, de falar. Donde col√≥quio (onde v√°rios falam), ventr√≠loquo (o que fala pela barriga), etc. Pectoril√≥quia √© a “fala do peito”. E o que ela diz?

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos em uma tomografia

Imagem tomográfica mostrando broncogramas aéreos

Diz que h√° um local naquele pulm√£o onde o som chega, e para isso √© necess√°rio que um br√īnquio esteja aberto, e transmite-se tendo como meio um par√™nquima pulmonar “condensado”, ou seja, preenchido por conte√ļdo s√≥lido e n√£o pelo ar. Radiologicamente, esse som se revela num sinal chamado broncograma a√©reo. O broncograma a√©reo √© o desenho por contraste de um br√īnquio com o tecido pulmonar densificado adjacente. √Č considerado caracter√≠stico de condensa√ß√Ķes e serve para diferenciar de outras doen√ßas que causam densifica√ß√Ķes do par√™nquima pulmonar, em especial, das atelectasias. Nestas, os alv√©olos est√£o murchos e n√£o preenchidos por material inflamat√≥rio. Os br√īnquios, colabados. O som n√£o chega √† superf√≠cie da parede tor√°cica com a mesma efici√™ncia. √Č bem mais abafado.

A pectoril√≥quia √© representada pelo sinal radiol√≥gico do broncograma a√©reo que, por sua vez, tem como base a anatomia patol√≥gica do pulm√£o acometido. Um m√©dico treinado, com uma manobra extremamente barata e eficaz (solicitar ao paciente que diga um n√ļmero v√°rias vezes) pode captar isso com a m√£o nas costas do doente (para sentir o fr√™mito) ou auscultando (diretamente com o ouvido ou mediatamente com o estetosc√≥pio) e ter a vis√£o radiol√≥gica e/ou da l√Ęmina de microscopia representativa de sua doen√ßa. A pectoril√≥quia tem, portanto, uma representa√ß√£o fisiopatol√≥gica e anatomopatol√≥gica que provoca implica√ß√Ķes no racioc√≠nio cl√≠nico e gera consequ√™ncias terap√™uticas. Pensar medicamente √© sentir a superf√≠cie, ver a profundidade e modificar a “hist√≥ria”. Pelo menos a “natural das doen√ßas”.

Consultei

Carvalho VO, Souza GEC. O estetoscópio e os sons pulmonares: uma revisão da literatura. Rev Med (São Paulo). 2007 out.-dez.;86(4):224-31. (pdf)

DEK РJ e a Polêmica do Vestuário Médico

ResearchBlogging.orgRecentemente, vem ganhando corpo uma campanha interna do ScienceBlogs Brasil contra o uso indevido do vestu√°rio m√©dico em locais inapropriados como lanchonetes, restaurantes e at√© metr√īs e √īnibus. A campanha √© mais que justa. Jalecos, aventais, guarda-p√≥s, estetosc√≥pios e outros apetrechos utilizados pelos m√©dicos n√£o s√£o de fato, para ficar perambulando por a√≠, tendo em vista o enorme problema das infec√ß√Ķes cruzadas e o surgimento de germes multirresistentes.

Entretanto, h√° um tom iconoclasta na campanha que me incomoda. Eu fiquei pensando muito no porqu√™ ficar incomodado com um assunto pelo qual luto diuturnamente e que tem um embasamento cient√≠fico bastante razo√°vel como pode ser visto aqui (em ingl√™s). Digo razo√°vel, porque o papel desses ve√≠culos (dizemos f√īmites) na transmiss√£o de doen√ßas ainda est√° para ser estabelecido. Estar contaminado, por mais nojento, incorreto e reprov√°vel, que possa ser, n√£o quer dizer estar  ou deixar doente, apesar de tornar mais prov√°vel.

Este é o Dicionário Etimológico do Karl e esta é a letra J, e vou usar este espaço para psicoanalisar um pouco do meu comportamento médico. Afinal, esse é um dos fins deste blog.

J (jota) de jaleco s.m., segundo o Houaiss, (1605) ‘jaleco, jaqueta turca cujas mangas chegavam s√≥ aos cotovelos’ (tur. yel√©k, pelo √°r. argelino djal√≠ka ‘casaco de cativo’; segundo Corominas, s.v. chaleco, Haedo descreve o jaleco da seguinte forma: ‘um gib√£o de pano, de mangas curtas, at√© o cotovelo, que os turcos argelinos usavam, debaixo do cafet√£’; trata-se de um dos v√°rios nomes de trajes transmitidos ao esp. e ao it. pela l√≠ngua franca dos portos africanos; f.hist. 1725 jalecu, 1725 galleco, 1727 jaleco. Chamavam os portugueses “galegos” de jalecos tamb√©m. H√° um tamandu√° de nome jaleco. Para n√≥s, jaleco √© uma capa curta de mangas tamb√©m curtas que pode ser usada sobre a camisa, como na foto acima. √Č utilizada por dentistas, farmac√™uticos, churrasqueiros e balconistas em geral, entre outros tantos. Eu j√° usei jaleco. Parei porque achava o jaleco meio churrasqueiro demais. Gosto mais de usar o (ainda segundo o Houaiss):

Avental: pe√ßa de pano, pl√°stico ou couro, presa pelo pesco√ßo e pela cintura, usada para proteger a roupa em certos tipos de trabalho. Etimologia: avante + -al, com altera√ß√£o do -a- pr√©-t√īnico para -e-; f.hist. sXIV auantal, sXIV uantal. (Atualiza√ß√£o: eu acho que o nome mais correto para esse tipo de vestimenta √© guarda-p√≥ ou simplesmente, capa, como no ingl√™s)

Avental e gravata constituem um “uniforme m√©dico” de respeito n√£o s√≥ porque a imagem do m√©dico veiculada em muitos filmes √© essa, mas tamb√©m porque nas faculdades de medicina, em geral, formam a vestimenta padr√£o dos professores. A gravata j√° foi alvo de v√°rias cr√≠ticas [1] e muitos j√° a abandonaram. Mas isso n√£o nos exime da pergunta: Mas ent√£o, o que √© que um m√©dico deve trajar?

Tive uma experi√™ncia interessante com a s√©rie “Sala de Espera I e II” e recomendo a leitura dos coment√°rios porque s√£o bastante esclarecedores quanto √†s expectativas dos pacientes quanto a apar√™ncia dos m√©dicos(as). Cito abaixo as respostas de 3 sciencebloggers √† pergunta, como seria a apar√™ncia de um m√©dico importante para voc√™?

Para mim, estere√≥tipo de m√©dico mesmo. Meia-idade, cabelo meio grisalho, sem brincos ou tatuagens. Este primeiro resultado do Google Images √© bem o que imagino mesmo” Kentaro Mori do 100nexos.

Irei contra todos os coment√°rios acima e direi que meu ideal de m√©dico √© um sujeito novo, rec√©m-sa√≠do da universidade, doido para colocar em pr√°tica anos de estudo e assumir, enfim, a responsabilidade por isso, sem algu√©m olhando por cima do seu ombro. Um m√©dico jovem, empolgado, atualizado, que l√™ muito e sabe a import√Ęncia de uma batidinha no abdome e uma puxada de p√°lpebra. Quanto mais estetosc√≥pio no pesco√ßo e esfigmoman√īmetro no bolso melhor. Na minha cabe√ßa, quanto mais velho o m√©dico, mais antiquados os seus m√©todos, chegando numa zona dos formados entre dez e vinte anos atr√°s para os quais “pedir exame” √© sin√īnimo de “examinar”.” Igor Santos do 42. (grifo + sublinhado, meus)

Fico com o cientista, principalmente pelo jaleco branco.” Atila do Rainha Vermelha.

Scientist Cartoon 0779

Isso j√° foi at√© tema de um estudo [2] cuja conclus√£o foi que, “em contraste com os m√©dicos que veem os aventais brancos como risco de infec√ß√£o, muitos pacientes, e especialmente aqueles com mais de 70 anos, acham que os m√©dicos devem vestir aventais brancos para sua identifica√ß√£o ficar mais f√°cil.” Com isso, quero chamar a aten√ß√£o para o fato de que a vestimenta do m√©dico √© algo que est√° al√©m do simples fato da prote√ß√£o, higiene e etc. H√° sim, uma identifica√ß√£o visual, uma compara√ß√£o cognitiva com uma imagem pr√©-concebida proveniente das experi√™ncias particulares que cada pessoa teve em contato com a doen√ßa e com a possibilidade de ser assistida por algu√©m no qual depositaram sua confian√ßa. Repito aqui o que j√° escrevi e que acho que se adequa perfeitamente ao tema:

“Acho mesmo que essa imagem pr√©-concebida do m√©dico varia muito, n√£o
só com a especialidade, mas também com o local onde o médico trabalha,
que tipo de p√ļblico atende e assim por diante. Tudo isso para dizer que o m√©dico √© INDISSOCI√ĀVEL da popula√ß√£o que
atende. Isso pode soar óbvio a essa altura da discussão mas, acredite,
muitos médicos não pensam assim. Além disso, a instituição que abriga o
m√©dico, seja um hospital p√ļblico ou particular, seja seu pr√≥prio
consultório (e no caso a instituição é ele mesmo) faz diferença, não só
na aparência que o médico busca, como também na sua forma de atuar. Isso
é bastante polêmico, eu sei, mas alguns anos de experiência me
mostraram o problema de forma bastante clara. N√£o reconhecer essa
diferença, que os advogados já reconheceram há alguns milênios, é abrir
m√£o da oportunidade de minimizar seus efeitos.

A ciência médica é uma só, a medicina não. Isso decorre do fato de
ela ser uma forma, talvez a mais perversa, de aplicação científica
pr√°tica! A pr√°tica, como j√° abordei em diversos posts, tem a tens√£o
irredutível da decisão que envolve o conhecimento tecno-científico e a
experiência prévia. Essa tensão deixa o médico inseguro. Sempre. A
apar√™ncia do m√©dico √© um modo de “vender o peixe”. Quanto mais adequada a
aparência for à imagem que o paciente faz do médico, mais fácil
conseguir sua confiança, aderência ao tratamento e, consequentemente,
bons resultados. Isso tem a ver com o mercado? Sim. Mas tem muito mais a
ver com o fato de que o médico precisa penetrar em algo bem mais
profundo que o mero organismo de seu paciente.”

Isso não exclui o médico do conceito de adequação. Ser atendido por uma médica atraente com minissaia e decote matador inspira muitos sentimentos, menos os de acolhimento, segurança e confiança profissional. Sentar em uma lanchonete com médicos comendo de avental e esteto no pescoço é desagradável também. A adequação do traje ao local é uma forma de educação e esta, por sua vez, visa o bem-estar de todos.

[1] McGovern, B., Doyle, E., Fenelon, L., & FitzGerald, S. (2010). The necktie as a potential vector of infection: are doctors happy to do without? Journal of Hospital Infection, 75 (2), 138-139 DOI: 10.1016/j.jhin.2009.12.008

[2] Douse, J. (2004). Should doctors wear white coats? Postgraduate Medical Journal, 80 (943), 284-286 DOI: 10.1136/pgmj.2003.017483

DEK РF: A Relação Entre a Mente e o Diafragma

phrenology-journal.jpg

Fr√™nico. phren(o)- ŌÜŌĀ-őģőĹ/-őĶőĹŌĆŌā gr. ‘mente’, (diafragma), segundo o Diccionario m√©dico-biologico, de quem tomei muitas das explica√ß√Ķes abaixo. H√° o nervo fr√™nico que √© quem veicula os est√≠mulos ao diafragma. H√° o esquizofr√™nico que n√£o tem nada a ver com isso (nem com nada). Qual seria a rela√ß√£o entre um e outro? Esse √© o “F”. Bem-vindo ao dicion√°rio etimol√≥gico do Karl. Outras letras/verbetes aqui.

Existe certa discuss√£o sobre o significado anat√īmico do termo phrŠłón ŌÜŌĀőģőĹ. Entretanto, tanto Hip√≥crates como Arist√≥teles o utilizavam com o significado de diafragma őīőĻő¨ŌÜŌĀőĪő≥őľőĪ, a tenda muscular que separa o t√≥rax do abdome, e quase sempre no plural phr√©nes ŌÜŌĀő≠őĹőĶŌā. Como que, vindo dessa origem, o termo passa tamb√©m a designar a mente?

√Č um caso de meton√≠mia. Por exemplo, √© frequente utilizarmos “cora√ß√£o” ao inv√©s de “amor” ou “compaix√£o”. Para os gregos, o diafragma era a sede do medo e da ang√ļstia. Talvez, traduzindo o j√° conhecido “frio na barriga” que todos sentem e que √© muito dif√≠cil de definir. Da√≠, passamos aos sentimentos e finalmente, √† mente. (Em grego, existem duas palavras para mente que originaram termos utilizados hoje. O primeiro freno– e, quando usado em sufixo, –frenia, como vimos. A outra √© no√Ľs őĹőŅŠŅ¶Ōā que forma palavras acabadas em –noia, como em “paranoia”). Parece que os m√©dicos gregos usavam phrŠłón ou phr√©nes com o sentido de diafragma mesmo e os escritores, em especial Homero, com o sentido de mente. O autor de Sobre a Enfermidade Sagrada (a epilepsia) – que pode ser o pr√≥prio Hip√≥crates, ou n√£o – escreve:

¬ęAfirmo que o c√©rebro √© quem articula a intelec√ß√£o. As phr√©nes (o diafragma) t√™m essa denomina√ß√£o (ou seja, um termo associado ao pensamento) por azar ou conven√ß√£o mas n√£o pelo que √© sua natureza, porque n√£o sei que faculdade t√™m para pensar (phron√©ein ŌÜŌĀőŅőĹő≠őĶőĻőĹ) ou refletir (no√©ein őĹőŅő≠őĶőĻőĹ).¬Ľ (De morbo sacro 16).

Termos como phronésis e frenesi provém dessa linha grega de pensamento.

A terminologia m√©dica atual deriva dos anatomistas renascentistas que eram bons leitores de Hip√≥crates e Galeno. Quando foram denominar os vasos e nervos relacionados ao diafragma utilizaram o adjetivo “fr√™nico” (phrenicus em latim), como derivado de phrŠłón “diafragma”, na melhor tradi√ß√£o hipocr√°tica. Por outro lado, desde Eras√≠strato se interpretou que phrenńętis ou frenitis era uma doen√ßa do c√©rebro que afetava as capacidades intelectuais e n√£o uma simples pneumonia. Essa linha, predominou nas enfermidades psiqui√°tricas, em especial na escola francesa, e gerou termos como phr√©nopathie (frenopatia) como termo gen√©rico das enfermidades mentais em 1833;¬†paraphr√©nie, hebefrenia (criada por K.L. Kahlbaum e E. Hecker em 1871), oligofrenia (1899), esquizofrenia (1910) por Eugen Bleuler. Gerou tamb√©m a frenologia. “Ci√™ncia” que muito influenciou o pensamento fisiol√≥gico segundo a qual cada fun√ß√£o cognitiva tem sua sede anat√īmica no c√©rebro. Temo dizer que h√° um “vi√©s frenol√≥gico” n√£o desprez√≠vel em alguns neurocientistas; ainda hoje.

1. Oxford Textbook of Psychopathology de T. Millon, P.H. Blaney y R.D. Davis, 1999.
2. Dicciomed.es. Diccionario médico-biológico, histórico y etimológico. (Sensacional dica da Tati Nahas).

DEK – E

Es√īfago. do grego oisophagos “garganta”; literalmente “o que leva e come”. Vem de oisein, infinitivo futuro de pherein “levar” (como em f√≥ros = o que transporta) + –phagos, de phagein “comer” (como em antrop√≥fago = o que come o anthropos [homem]).

Est√īmago. do grego stomachos “garganta, es√īfago” literalmente “boca, abertura”. Vem de stoma “boca”. Utilizamos ainda bastante o termo stoma para descrever aberturas de org√£os internos para o exterior, como em gastrostoma (cujo procedimento cir√ļrgico chama-se gastrostomia), traqueostoma (cujo procedimento cir√ļrgico chama-se traqueostomia), etc. H√° tamb√©m uma especialidade em enfermagem chamada estomatologia, que √© quem cuida e trata as complica√ß√Ķes deste tipo de ferida. O termo gastro √© grego tamb√©m (gaster, como em melanogaster – literalmente, “barriga preta”) e mais espec√≠fico sobre a regi√£o do abdome corresponde ao epig√°strio (“boca do est√īmago”). Olhando assim, d√° a impress√£o que stomachos estava mais relacionado √† fun√ß√£o da degluti√ß√£o, satisfa√ß√£o e, por correla√ß√£o, orgulho. Gaster √© mais anat√īmico e, portanto, mais espec√≠fico para adjetivar coisas relacionadas ao org√£o, como em gastroenterologia.

Interessante tamb√©m, o fato de que h√° uma por√ß√£o no est√īmago chamada cardia (n√ļmero 6 na figura). Segundo o dicion√°rio de termos m√©dicos de RS Sim√Ķes, MCP Baracat e R Lima, dispon√≠vel para download gratuito, este nome √© proveniente da proximidade com o cora√ß√£o. Entretanto, acho que neste caso, h√° mais uma confus√£o entre forma e fun√ß√£o dos antigos. De qualquer maneira, isso acabou por passar para algumas express√Ķes de uso corrente como “saber uma coisa de c√≥r”, que √© saber de mem√≥ria, como se fizesse parte de n√≥s, como se tiv√©ssemos deglutido tal conhecimento; e tamb√©m “miseric√≥rdia“. Tumores da c√°rdia s√£o dif√≠cieis de tratar por serem transicionais, na fronteira entre os dois org√£os.

Consultei:Dicionário de Etimologia On-line (inglês).
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Mais DEK: A, B, C e D.

DEK РDoença

O dicionário etimológico do Karl (DEK) chega à Letra D. Os verbetes precedentes podem ser vistos em A, B, C.

A letra D tem v√°rios descritores do padecimento f√≠sico humano (e tamb√©m de animais) al√©m de doen√ßa, como por exemplo,  desordem, dist√ļrbio, disfun√ß√£o e desarranjo, al√©m dos conhecidos mol√©stia, mal, enfermidade e transtorno. Doen√ßa vem do latim dolentia que quer dizer sofrimento e originou indolente e a pr√≥pria dol√™ncia. Existe tamb√©m, em latim, a palavra morbus com o significado mesmo de doen√ßa, em geral utilizada para nome√°-las, a mais conhecida sendo Morbus Gallicus (quero ver quem sabe essa!). A essa altura, j√° tem gente perguntando, “mas e em grego n√£o tem nada?” Tem.  Em grego, existe a palavra n√≥sos (őĹŌĆŌÉőŅŌā) que tamb√©m quer dizer doen√ßa e √© usada nos termos nosologia, nosoc√īmio, entidade nosol√≥gica para descrever uma classifica√ß√£o de doen√ßas, hospital e a doen√ßa em si, respectivamente.

Entretanto, pelo menos do ponto de vista m√©dico, os campos sem√Ęnticos de todos esses termos n√£o s√£o exatamente iguais. Essa diferencia√ß√£o fica ainda mais clara em ingl√™s. As palavras disease, sickness, illness t√™m significados diferentes. Disease √© o alvo ontol√≥gico do m√©dico. Vem de des- “sem, √† parte de” + aise (ease) “bem, calmo”. Por disease, entende-se o desarranjo anat√īmico, bioqu√≠mico, gen√©tico ou psicol√≥gico cujas consequ√™ncias, modos de identifica√ß√£o e tratamento, lemos nos tratados de medicina. O termo disease (assim como doen√ßa) √© bastante amb√≠guo e existem v√°rias teorias que tentam generalizar o conceito de forma a operacionaliz√°-lo, o que n√£o √© f√°cil. Illness √© o que o paciente apresenta tendo uma disease ou desordem-alvo, exibindo sintomas (altera√ß√Ķes que ele ou ela mesmo sente) ou sinais (altera√ß√Ķes que o m√©dico percebe por meio do exame cl√≠nico). H√° ainda a sickness ou predicament que s√£o as perspectivas sociais, psicol√≥gicas e/ou econ√īmicas que o paciente apresenta por estar com a disease. Em portugu√™s, essa diferencia√ß√£o n√£o foi t√£o bem marcada e costumamos ainda usar os termos indistintamente.

Por essas defini√ß√Ķes, temos que o m√©dico deve focar na illness para identificar a disease com um olho no predicament. Mais formalmente, como colocou Sackett, o diagn√≥stico √© “um esfor√ßo em reconhecer a classe ou grupo ao qual a illness do paciente pertence de modo que, baseado em nossa experi√™ncia pr√©via, nossos atos subsequentes possam maximizar sua sa√ļde.”

Referências Bibliográficas

1. Taylor, DC. The components of sickness: Disease, illness and predicaments. Lancet, 1979;2:1008-1010.
2. Sackett, DL et al. Clinical Epidemiology. 2nd Ed.

DEK РO Clínico e o Cirurgião

A R.T.


Chegamos à letra C. Escolhi dois dos maiores protagonistas da medicina para ilustra-la. Os outros verbetes podem ser vistos aqui.

Cirurgi√£o. Cirurgia prov√©m do latim chirurgia, que tomou do grego kheirourgia, de khe√≠r (ou őßőĶőĮŌĀŌČőĹ) m√£o + √©rgon, trabalho. “Etimologicamente, portanto, cirurgia significa trabalho manual, arte, of√≠cio, no qual se empregam as m√£os para a sua execu√ß√£o”[1]. N√£o posso deixar de citar Chiron (figura ao lado), o centauro-curandeiro, mestre de Ascl√©pio, que tem no nome a mesma raiz de “m√£o”.

Cl√≠nico. Cl√≠nica. Do franc√™s clinique, do latim clinicus, que por sua vez, obviamente, v√™m do grego klinike “que √© a pr√°tica (techn√©) de quem cuida de pacientes acamados”. Sim, porque klin√©, quer dizer cama, leito, pois o prefixo kli- indica o ato de deitar e n√£o por acaso, origina o termos inclinar, declive.[2]

Cl√≠nicos e cirurgi√Ķes t√™m atr√°s de si mil√™nios de tradi√ß√£o provenientes de ra√≠zes m√©dicas bem distintas e por isso t√™m vis√Ķes diferentes de um mesmo paciente. Tenho me debatido com o fato de que, para mim, as vis√Ķes s√£o complementares e n√£o antag√īnicas.

1. Resende, JM. Acta Cir. Bras. vol.20 no.5; S√£o Paulo;Sept./Oct.;2005.
2. Online Etymology Dictionary.
3. Figura da Wikipedia.

DEK РBaço

Vamos para a letra “B”. Para ver mais verbetes, tente a tag “DEK”. Para ver a anterior, ver Aspirina.

De onde vem o nome do org√£o que, ficando a esquerda do abdome, √© mais conhecido por contrapor-se ao f√≠gado, este √† direita? Dizem os corredores que, no in√≠cio de um exerc√≠cio, sentem uma dor no “ba√ßo” ao se referirem a uma pontada do lado esquerdo. A pontada n√£o tem nada a ver com o pobre do ba√ßo, mas √© interessante saber a origem da palavra. N√£o achei nenhuma defini√ß√£o melhor que a do professor Joffre Resende a quem tive a oportunidade e a honra de conhecer em Goi√Ęnia. Aprendi muito, por isso, transcrevo alguns trechos integrais de seu verbete:

“O ba√ßo √© designado nos diversos idiomas por termos oriundos de mais de uma raiz etimol√≥gica. A palavra original grega usada por Hip√≥crates para nomear o ba√ßo √© spl√©n, da qual derivam todos os termos m√©dicos relacionados com este √≥rg√£o, tais como espl√™nico, esplenite, esplenectomia, esplenomegalia etc.Em latim o ba√ßo era designado por lien, conforme se encontra nos livros de Celsus.[1] Skinner observa com muita propriedade que lien √© quase a mesma palavra grega, com perda das duas consoantes iniciais.[2]; De lien deriva, em portugu√™s, o adjetivo lienal, com o mesmo sentido de espl√™nico. Em alem√£o o ba√ßo √© denominado milz e, em italiano, milza. Segundo Guttmann, milz prov√©m do alto-alem√£o milde que significa mole, macio, esponjoso, atributos caracter√≠sticos do √≥rg√£o.[3] Em ingl√™s o ba√ßo recebe dois nomes: o primeiro, pouco usado, milt (primitivamente milte); o segundo, spleen, de uso generalizado, procede do grego atrav√©s do franc√™s antigo splen, forma arcaica igualmente encontrada na l√≠ngua inglesa, at√© sua ulterior evolu√ß√£o para spleen.[4] Na l√≠ngua francesa o ba√ßo √© chamado de rate, que tamb√©m significa f√™mea do rato. Segundo Dauzat, rate, v√≠scera, origina-se do neerland√™s r√Ęte, favo de mel.[5] Em espanhol e portugu√™s temos, respectivamente, bazo e ba√ßo, de origem controvertida. Tr√™s poss√≠veis √©timos s√£o admitidos:

1. Corominas ensina que bazo, nome de v√≠scera, prov√©m de bazo, adjetivo, cujo significado √© “moreno tirado a amarillo”.[6] Em seu apoio, Carolina de Michaelis identifica ba√ßo no Cancioneiro da Ajuda, com o sentido de “moreno escuro”.[7]
2. Gonçalves Viana deriva baço do latim opacium, comparativo de opacum, pela queda da vogal inicial e abrandamento de p em b.[8]
3. Jos√© Pedro Machado, citando Piel (Miscelania de etimologia portuguesa e galega), considera ba√ßo voc√°bulo erudito, oriundo do grego hep√°tion, atrav√©s do latim.[9] Nascentes, em seu Dicion√°rioEtimol√≥gico admitiu que o termo anat√īmico tenha-se originado do adjetivo ba√ßo, “por causa da cor vermelha do √≥rg√£o”.[7] Posteriormente, julgou prefer√≠vel considerar o substantivo de origem incerta, enquanto o adjetivo ba√ßo seria derivado do latim badium, “moreno p√°lido”.[10]” (O Dicion√°rio Etimol√≥gico Nova Fronteira de Ant√≥nio Geraldo da Cunha tamb√©m atribui ba√ßo a hep√°tion, com o que eu, Karl, n√£o concordo.)

Referências bibliográficas

1. CELSUS, A.C. – De Medicina. The Loeb Classical Library, Cambridge, Harvard University Press, 1971.
2. SKINNER, H.A. – The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1961, p. 381.
3. GUTTMANN, W. – Medizinische Terminologie, 4.ed. Berlin, Urban & Schwarzenberg, 1911.
4. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
5. DAUZAT, A., DUBOIS, J., MITTERRAND, H. РNouveau dictionnaire étymologique et historique, 3.ed. Paris, Larousse, 1964.
6. COROMINAS, J. РBreve diccionario etimológico de la lengua castellana, 3.ed., Madrid, Ed. Gredos, 1980.
7. NASCENTES, A. РDicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1932.
8.. VIANA, A.R.G. – Apostilas aos dicion√°rios portugueses. Lisboa, Liv. Cl√°ssica Ed., 1906, p. 173.
9. MACHADO, J.P. РDicionário etimológico da língua portuguesa, 3.ed. Lisboa, Livros Horizonte, 1977.
10. NASCENTES, A. РDicionario etimológico resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.