Injustiça Fisiológica

E segurou sua mão até adormecer
E dormentes ficaram: Eles e as mãos
Até que não mais soubessem se laçavam-se ou não
as mãos ou se seriam elas parte de seu próprio ser

~ o ~ o ~

Ao terminar o pequeno verso, lembrou imediatamente de suas aulas de neurofisiologia. Lembrou da foto que o professor mostrou com os receptores cutâneos que permitiam o sentido do tato.

Receptores cutâneos e seus padrões de adaptação.

Figura. Receptores cutâneos. Painel central (amarelo). Gráfico mostrando um estímulo padrão (trapezoide) e o ritmo de disparo (representado pela sequência de retas logo abaixo) dos 4 tipos mais comuns de receptores cutâneos. Notar como os disparos (impulsos elétricos emitidos) decaem com o tempo de forma diferente de acordo com cada receptor. O receptor de Meissner (quadrante superior esquerdo) por exemplo, dispara apenas no início e no final do estímulo. Há receptores que exibem adaptação rápida (Fast Adaptation – FAI e FAII na coluna à esquerda) e os que exibem adaptação lenta (Slow Adaptation – SAI e SAII, coluna à direita). As mãos mostram as respectivas distribuições dos receptores. Modificado do Neurobiography (http://www.neurobiography.info/teaching.php?lectureid=65&mode=handout)

Lembrou também que os receptores do tato apresentam o fenômeno de adaptação e que as pequenas fibras dos neurônios tipo IV do grupo C, chamadas de nociceptivas por conduzirem os impulsos dolorosos, não. A adaptação, grosso modo, é uma diminuição da frequência e/ou intensidade dos disparos elétricos de receptores nervosos em decorrência da constância de um estímulo no tempo. Nocicepção (mesma raiz de “nocivo”) se refere a impulsos que podem levar à perda da integridade do tecido ou mesmo do organismo, ou seja, machucam. Esses estímulos não adaptam da mesma forma como os do tato por razões de proteção ao indivíduo. Assim, a dor pode persistir por longos períodos diferentemente dos estímulos mais suaves, em especial, se as condições do ambiente permanecerem constantes. Como no caso de mãos dadas e imóveis por longos períodos. Nenhuma ameaça ao indivíduo nesse caso.

Ele não pôde evitar que passasse pela sua cabeça uma certa sensação de “injustiça fisiológica”. Como podemos nos adaptar (parar de sentir) um carinho e, no entanto, deixamos que a dor continue a doer? A biologia tem lá suas razões. O curioso é a humanidade ter emergido a partir de reflexos assim. Curioso também a poesia condensar tanta neurofisiologia num verso.

Pensando bem, humanos talvez sejam exatamente isso.

Um monte de poesia condensada contidos por uma fisiologia lapidada pelo tempo e temperada com aquela pitada de injustiça; que teima em não se adaptar.

PS. Esse post é uma republicação. O original saiu no blog Ciensinando do Gabriel Cunha que infelizmente já não está mais no ar.

Intensive Care

ResearchBlogging.orgPara quem acha que é impossível definir alguma coisa utilizando-se de uma linguagem difusa e pouco precisa encaminho a impressionante poesia de Donna Doyle. Não sei se ela é médica, mas trabalha na Faculdade de Medicina do Tennessee. Embaixo, minha versão.


Intensive Care
“Now that you have been there
you recognize them, bodies
a languid blend of love and loss,
every movement fluid, as if
limbs have been surrendered by bones.
No language for this limbo, an island
where time is measured by visiting hours,
and purpose shines clear as the world
that seems to remain outside these walls.
Later is filled with wandering,
each step a pooled reminder
of liquid without a vessel,
the wading between widow and wife.”
Terapia Intensiva

Agora que você já passou por lá
os reconhece, corpos
uma lânguida comunhão de amor e perda,
cada fluido em movimento, como se
os membros rendessem-se aos ossos.
Nenhum verbo a este limbo, uma ilha
onde o tempo é medido em horas de visita,
e o propósito resplandece como o mundo
que insiste em estar fora destas paredes.
A tarde é preenchida com vagar,
cada passo uma lembrança represada
do líquido sem um vaso,
numa poça entre a viúva e a esposa.

Não me lembro de ter visto uma definição de Terapia Intensiva tão doída.

Donna Doyle (2011). Intensive Care JAMA, 306 (2), 134-134