Os titulares e os reservas

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“Por que você quer ser um titular?”
Foi a única pergunta que a banca repetiu a todos os candidatos do concurso para professor titular onde foi selecionado Stevens Rehen. Nenhum deles estava realmente preparado para essa pergunta e as respostas variaram de um pífio “porque eu tenho o perfíl” até tentativas mais objetivas, mas que demonstravam claramente a falta de familiaridade com a função mais privilegiada da universidade.
Passei os últimos dois dias me debatendo com essa pergunta, porque ao tentar formular qual seria a minha resposta, descobri que também não sei e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o que faz um titular. Se eu paro e olho a minha volta para ver os exemplos que conheço, não consigo encontrar um padrão de atitudes que possa caracterizar a função. Não um que justifique o título.

  • Não os vejo organizarem eventos que divulguem o nome do instituto para a academia ou a sociedade, tanto nacional quanto internacionalmente; certamente não mais do que seus colegas adjuntos e associados.
  • Não os vejo trazerem projetos e recursos que ampliem o capital e as fontes de financiamento da instituição; pelo menos não mais do que seus colegas associados e adjuntos.
  • Não os vejo criando espaços físicos e recuperando infra-estrutura; definitivamente não mais do que seus colegas professores sem o título.
  • Não os vejo estimulando jovens talentos a ingressar na carreira ou a assumir grandes responsabilidades na vida acadêmica. Ao contrário da maioria dos seus colegas adjuntos e associados, muitas vezes os vemos tolindo esses jovens.
  • Não os vejo utilizarem seu título e prestígio para trazerem talentos reconhecidos, do nível de um laureado Nobel, para dar cursos e conferências. Nada além do que conseguem trazer seus colegas associados e adjuntos.
  • Não os vejo vendo o futuro, estabelecendo estratégias de ação, criando vias de desenvolvimento e mecanismo de gestão, reconhecendo novas oportunidades, estimulando competências; definitivamente não mais do que qualquer um de nós, professores mortais.

Eu queria um titular que fizesse isso. Mas não tenho.
O título de titular concede acesso a instâncias e discussões privilegiadas. Ser titular se tornou a principal forma de administrar e fazer política universitária, geralmente em causa própria ou do próprio feudo. Na melhor das hipóteses, visão se manter na frente na corrida com seus pares pela mais alta qualidade das produções científicas, ou cargos administrativos em colegiados superiores como a FINEP e o CNPq. Em uma outra hipótese… não fazem nada… e vão curtir o seu título em suas escrivaninhas ou em uma casa nas montanhas. A vaga de titular virou moeda de barganha política nos institutos e não mais parte de um programa para realizar uma missão institucional.
Esses titulares estão merecendo mais é ir para reserva.

Discussão - 11 comentários

  1. Eu conheço uma professora titular que faz tudo o que você acha que deve fazer:
    Profa. Vanderlan Bolzani, do Instituto de Química da UNESP de Araraquara.
    abraços,
    Roberto

  2. Aninha disse:

    Eu também conheço uma professora titular que cumpre todas as suas funções: Profa. Deisy das Graças de Souza, da UFSCar, Diretora do INCT-ECCE.

  3. Mauro Rebelo disse:

    Tô adorando! Listem todos eles!

  4. Sibele disse:

    E qual teria sido a resposta de Rehen à fatídica pergunta “Por que você quer ser um titular?”

  5. Mauro Rebelo disse:

    É verdade que eu também conheço um: Prof. Wanderley de Souza, do IBCCF/UFRJ. (ainda que eu não concorde com todas as ações/opiniões dele)

  6. Sibele disse:

    Eu também conheço um titular assim: Prof. Roberto Gomes de Souza Berlinck, do IQSC-USP.

  7. Sibele, obrigado, mas eu ainda tenho muito o que aprender.
    De qualquer forma, pensando sobre este assunto depois que li a postagem do Mauro, cheguei às seguintes considerações: é absolutamente necessário que um professor titular exerca/realize TODAS as funções/atividades listadas pelo Mauro na sua postagem? Afinal, professores titulares também são pessoas, e pessoas são diferentes e têm suas preferências. Alguns poderão ser extremamente ativos promovendo eventos, a instituição, trabalhando na administração, por exemplo. Conheço um professor titular que é excelente pesquisador. Ponto. Com isso, ele cumpre duas das atribuições listadas pelo Mauro: a 2a e a 4a, além de contribuir significativamente para a formação de excelentes profissionais. E daí eu pergunto: existe atuação mais importante do que esta? Vamos imaginar que todos os professores titulares resolvessem, de uma forma ou de outra, se engajar em todas (ou na maioria) das atividades listadas pelo Mauro. Provavelmente não realizariam muito bem nenhuma delas. Fariam todas mais ou menos bem. Ora, o que faz uma instituição de ensino superior ser uma BOA instituição de ensino superior é principalmente o ensino e a pesquisa que ali são realizados. No meu ver, é extremamente importante que existam vários professores titulares, competentes, de renome, líderes, que se dediquem exclusivamente ao ensino e à pesquisa. Esta é uma contribuição imprescindível para a excelência de uma instituição de ensino superior. O que seria absolutamente importante é se identificar competências, e se valorizar as atividades dos professores de acordo com estas. E não simplesmente se exigir que todos os professores façam tudo, pois é impossível se fazer TUDO bem, certo?
    abraços,
    Roberto

  8. Mauro Rebelo disse:

    Roberto, a lista é o que eu esperaria de um titular. Sim, as pessoas são diferentes e tem habilidades e competências específicas. Em nenhum momento do texto eu digo que ele precisa agir em todas as frentes (mas como vimos, vários agem), ou cumprir todos os ítens. É mais uma lista de metas do que de pré-requisitos. Mas vamos combinar que ‘tudo’ nessa lista de 4 itens não é tanto assim também. E justamtente por isso não acho que quem se propuser a fazer ‘tudo’, fará mal ou superficialmente. Mas discordo, veementemente, que o títular possa se furtar dessas atividades para fazer apenas pesquisa e ensino de qualidade. Quer dizer, deixa eu reformular, não acredito que no mundo moderno possa haver pesquisa e ensino de qualidade sem os itens que listei. A pesquisa e o ensino de excelência podem ser (e são) feitos por quem não é titular (assim como os itens da lista também são). Mas o status, o reconhecimento e a chancela são fundamentais para alcançar os meios e fins listados no post. Se já é difícil conseguir com a chancela, imagina sem. Ou pelo menos deveriam ser. Mas pode ser que nem sejam… e ai vamos descobrir que na verdade nem precisamos mais de cargos de titular na universidade atual.

  9. Euclydes Santos disse:

    Claramente a lista apresentada com as coisas que TU gostarias de ver um titular fazendo. Eu, por outro lado, acho que um titular devia receber uma poltrona confortável onde devesse sentar para ter sua caneca de café (italiano de máquina, claro) servido diariamente. Isto além de ser bajulado continuamente por colegas e estudantes. E o problema é justamente este, eu ACHO, tu ACHAS, cada um acha o que quer. Quais são, na verdade, as atribuições de um titular? E as de um associado? E dos adjuntos, assistentes e auxiliares? Esta definição, infelizmente, simplesmente NÃO EXISTE.

  10. Cesar disse:

    Gostei muito do post. Só achei que faltou um pouco de definição formal do “título”, seja pela sua universidade, ou uma definição geral de algum documento. Fora isso, vc descreveu o quadro universitário dos professores titulares MUITO BEM. Sinto o mesmo que vc.

  11. Mauro Rebelo disse:

    Euclydes, ainda bem que não é uma eleição. Tua definição ganharia muitos adeptos!

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