A natureza humana

Plaza Major, 2a feira a noite, chovendo

Na semana passada estava jantando com uma amiga em Madrid (‘Muito chique!!!’ diria a Petra Gil) e conversando sobre a inevitabilidade das falhas de caráter humano. Uma em particular, enquanto quantidades cavalares de Pata Negra e Tempranillo eram consumidas.
Penso constantemente sobre isso. A idéia de que o homem é ‘bom’ por natureza e que a ‘moral’ pode ser imposta aos nossos instintos de sobrevivência sem um alto custo me faz arrepiar. Ou melhor, me faz rir. A natureza humana não é boa. E ainda que essa seja talvez a nossa melhor característica, aquela que nos faz tão divertidos, tem tanta gente que não acha isso bom.
Falhamos, todos. E falharemos, ainda. E quanto mais assumirmos compromissos de ano novo que agridam fortemente os nossos instintos, em pro do politicamente correto ou moralmente adequado, mais falharemos.
Abre parênteses: As manifestações de solidariedade para com as vítimas da maior catástrofe natural que o país já enfrentou não me comovem. Quase me preocupam! Talvez sejam elas as falhas de caráter. Algo como a exceção para justificar a regra, que é o fato que vou para o trabalho todos os dias, pelas linhas amarelas e vermelha no Rio de Janeiro, olhando o mar de favelas que se estende até a onde a vista alcança. As casas em áreas de risco podem ser observadas de qualquer ponto do Rio de Janeiro. De alguns, até mesmo por diferentes ângulos. Mas ninguém (inclusive eu) faz nada até que o mundo venha abaixo. O que mais me preocupa é que daqui a pouco vão dizer que é culpa do ‘aquecimento global’, das ‘mudanças climáticas’, e continuar pensando em alguma outra coisa que não podemos medir com precisão, para justificar não fazer nada quanto aos parâmetros super precisos que podemos medir todos os dias: 5 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco no Brasil com o estímulo, aval ou a conivência das autoridades. Fecha parênteses.
Luto por uma definição mais humana de natureza humana. Que acolha as suas falhas, que seja mais amoral.
Pensei nisso ainda na semana passada, no Rio, quando li o comovente ensaio de Fernanda Torres na Veja Rio de 5 de Janeiro. Começa assim:
“O homem é uma realidade finita, que existe por sua própria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois é que se define, mas no princípio, ele é nada. Ele não será nada até o que fizer de si mesmo: logo, não há natureza humana, porque não há Deus para concebê-la. Esse é o primeiro princípio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de angústia e do fracasso. Não! É uma teoria que afirma que o homem está lançado e entregue ao determinismo do mundo, que pode tornar possíveis ou impossíveis as suas iniciativas. Essa contingência é a liberdade na relação do homem com o mundo. O acaso é quem tem a última palavra.”
O começo não é dela. É a abertura da peça “Viver sem tempos mortos” de Fernanda Montenegro, onde ela vive Simone de Beauvoir. O texto da Fernanda é comovente, como eu disse, mas um pouco ambíguo, sem deixar claro a sua opção pela crença no Deus do acaso.
Talvez quisesse, fico imaginando, apesar de saber que tentar decifrar a ‘intenção do autor’ de um texto é o caminho mais rápido para a incompreensão do mesmo. Olhei de novo a abertura da peça. É isso, a Fernanda Torres está certa. “Não há razão ou porquê. Não existe lógica ou justiça suprema nos julgando. Deve-se aceitar que é assim e pronto”. É Sartre quem está errado!
Eu também não sou, nem grande fã, nem grande conhecedor de filosofia. Meus leitores sabem que sou um guerreiro, mas também um escravo, da ciência. Tento controlar minha ânsia por desconstruir Sartre, mas não consigo. É que para negar Deus, ele nega a existência de uma natureza humana, que teria sido moldada por Ele, mas que na verdade é inequívoca, apesar de ter sido moldada por bilhões de anos de seleção natural.
Um cirurgião que abre um paciente não precisa procurar todas as vezes aonde está o fígado, porque o fígado está no mesmo lugar em todos os pacientes. Assim começa o ‘Rainha Vermelha’, um dos grandes livros que já li na vida, e que fala justamente da existência de uma natureza humana como base para as nossas grandes, importantes e fundamentais diferenças.
Negar essa natureza humana, herdada em parte dos nossos parentes primatas (gorilas, bonomos, chimpanzés) mas também dos coelhos, serpentes, peixes, fungos e bactérias; em prol de uma filosofia onde o homem é capaz de fazer de si o que puder, é negar a teoria da evolução.
Não resisto ao impulso egocêntrico de reescrever Sartre. Ainda que reescreva só (só?!) Fernanda Montenegro:
“O homem é uma realidade finita, que existe por sua própria conta e risco. O homem irrompe no mundo e depois é que se define, se o acaso contribuir, ou pelo menos não atrapalhar. Mas no princípio, ele é apenas homem. E o que fizer de si mesmo poderá ou não permanecer. Há uma natureza humana que não foi concebida por Deus, mas sim pela seleção natural (e a deriva gênica também). Esse não é exatamente o primeiro princípio do existencialismo, tido equivocadamente como uma filosofia negativa, de angústia e do fracasso. Talvez porque afirma que o homem está lançado e entregue ao determinismo do mundo, quando a teoria do Caos já provou que não há tal coisa como o determinismo, e o mais provável é que a autora quisesse sugerir com essa frase que o homem está lançado a sua própria sorte, sem a a ajuda do mundo, o que pode tornar possíveis ou impossíveis as suas iniciativas. Essa contingência é a liberdade na relação do homem com o mundo. O acaso é quem tem a última palavra.”
E para não parar por ai, reescrevo a própria Fernanda Torres ao citar Jorge Mautner: “A maior prova de que o acaso existe, é que ele acontece.”

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