Ein Wunder

“Karl, gostaria que você acompanhasse a parte clínica dela. Precisamos tirar a medicação para abaixar a pressão”.

Lothar é zelador de uma escola primária em uma pequena cidade próxima a Frankfurt. Birgitt trabalha em um banco na mesma cidade. Duas vezes por semana. Coisas da Alemanha. O filho faz parte das Forças Armadas alemãs e foi convocado para ir ao Afeganistão. A filha é enfermeira e professora de enfermagem, veja só. O casal, na faixa dos 50, resolveu fazer uma viagem pela América do Sul. Chile, Peru, Argentina e, claro, Brasil.

“Ok. Podemos tentar. Mas, como vou conversar com ele e, em especial, com ela?”Ela está em coma.”

No aeroporto de Guarulhos, Birgitt sentiu-se mal. Procurou um toalete e chegando lá, perdeu os sentidos. Foi um corre-corre danado no banheiro. Lothar sem falar inglês, espanhol ou outra língua que não o alemão, conseguiu entender que Birgitt seria levada a um hospital público em Guarulhos. Lá, ela recebeu os cuidados iniciais e o tenebroso diagnóstico: hemorragia subaracnóide aguda. Um parêntesis rápido, esse é um dos diagnósticos mais temidos que existem em uma unidade de terapia intensiva, pelo menos para mim. Acomete, quase sempre, pessoas jovens, em idade produtiva e tem, em geral, consequências devastadoras. Era o caso de Birgitt. Após uma negociação complicada com o consulado alemão, burocracias relacionadas ao seguro saúde e dificuldades técnicas em geral, Birgitt  foi transferida para o nosso hospital.

“Você já sabe de toda a história? Não?! Putz, parece mesmo um conto de Natal! É o seguinte…”

Os exames indicavam que Birgitt tinha um aneurisma na artéria cerebral média. Esse aneurisma, uma dilatação da artéria, apresentara uma pequena ruptura suficiente para derramar sangue entre o cérebro e as meninges. Além da dor, a inflamação provoca um tipo de inchaço no cérebro que é responsável pelo coma. O aneurisma precisava ter sua base fechada cirurgicamente pois corre-se o risco de um novo sangramento, o que em geral é fatal. Além disso, a presença de sangue nesse espaço faz com que haja uma vasoconstrição de outras artérias reflexamente. Isso provoca uma isquemia cerebral que pode ser grave a ponto de causar morte do tecido cerebral e que é chamada de vasoespasmo. A cirurgia também ajuda a prevenir o vasoespasmo. Birgitt foi submetida à uma clipagem do aneurisma nas vésperas do Natal.

“Minha mãe estava internada no quarto 34 e Birgitt foi internada no 31. Sou alemã, mas fui criada no Brasil. Fiquei sabendo das dificuldades deles e me ofereci para, pelo menos, intermediar a comunicação entre ele e os médicos. No dia de Natal, levei-o para minha casa. Demos uma volta por São Paulo. Ele não imaginava que era tão grande…”

Birgitt evoluiu com aumento da pressão intracraniana. Isso é um problema porque o crânio é uma caixa rígida que contém o cérebro molenga dentro. Se o cérebro inchar, não há para onde se expandir. Em determinadas situações, a parte inferior do cérebro sai pelo orifício da medula da mesma forma que uma bexiga escapa pelo vão dos dedos quando tentamos espremê-la na mão. Estruturas vitais são comprimidas nessa situação e o paciente pode caminhar rapidamente para um quadro de morte cerebral, necessitando medidas emergenciais e, não raro, uma neurocirurgia de urgência.

“O alemão soa para mim muito bonito, mas não entendo nem uma palavra”. “Hipotermia e coma barbitúrico”. “Eu associei um antifúngico. Não sabia o que fazer porque a febre não parava de subir!””Explique a ele que ela não pode sair do ventilador mecânico porque está em coma induzido.” “Ah, esses bombons? O marido que trouxe.”

Tirei a medicação para abaixar a pressão. Tiramos o ventilador, a sonda vesical, os cateteres e os antibióticos. Hoje, ele deu uma papinha a ela e foi almoçar na casa teuto-brasileira onde reside parcialmente em terras bandeirantes. Com as mãos em prece, disse para mim: “É um milagrrre!”. Literalmente, não há chocolate que expresse a gratidão que sente. A filha enfermeira vem ao Brasil, finalmente. Ele pediu para trazer pão, veja só! Como disse uma amiga, por detrás dos monitores não há números. Há histórias. Com finais surpreendentes. Tem que saber onde lê-las.

Discussão - 8 comentários

  1. Maximus Gambiarra disse:

    Bela história.
    É uma profissão dura, mas cada vida salva é uma realização tremenda.

  2. Helder disse:

    “Um milagre”
    Curioso o modo como escreveu o texto, principalmente os trechos em itálico. Sorte sua ter a moça que sabia alemão!
    No começo do texto achei que você sabia alemão, inclusive por causa do seu nome, Karl. hehe

  3. Fabiana disse:

    Não só isso, Doc: tem também de saber contá-las… 🙂
    Realmente, não há chocolate que pague a vida. Sei bem disso! Mas, como eu disse uma vez a um certo médico numa certa noite num certo hospital: não é dívida. É amor.
    Nada paga o amor. Ele é, sim, o grande milagre.
    Beijo!

  4. Deus disse:

    É por textos como este que sinto vontade de existir.

  5. Igor Santos disse:

    #4 = Melhor comentário do ano.

  6. Carlos Hotta disse:

    Linda história, Karl! Há sim espaço para milagres, mesmo para o cético, eu diria. Pq não podemos tratar o altamente improvável que acontece como tal?
    Ótimo poder voltar a ler textos do SB.br 🙂

  7. Sibele disse:

    Curioso o modo como escreveu o texto, principalmente os trechos em itálico
    Helder, os bons amantes sabem que variar posições é crucial na busca pelo prazer. E, tal como um bom amante, o Karl se esforça em variar seus excelentes textos para nos proporcionar prazer. 🙂
    Karl, na sua rotina diária você ouve com frequência “Ein Wunder” em bom português?
    Lindo post!

  8. Deus disse:

    #5: Jesus também te ama.

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