Vacinação e Litígio

De fato, “poucas ações na área da Saúde mexem mais com a cabeça das pessoas do que a vacinação. Desde o descobrimento do processo de variolação na China e na Índia, por volta do século X e, posteriormente, mesmo após a introdução da vacina da Varíola por Edward Jenner em 1796, o ato de imunizar passivamente um ser humano contra uma doença potencialmente letal é cercado por mitos, confrontos ideológicos, discussões metafísicas, protestos violentos e turbulência social, não raro, resultando até mesmo em mortes e caos político. Não estou exagerando. No Brasil, temos o exemplo já clássico da Revolta da Vacina. Mas, há outros. Reproduzo o texto do Dr. Luis Carvalho Rodrigues, do sítio português “O Observador”:

Quando, em 1721, um navio proveniente das Índias Ocidentais chegou a Boston e trouxe com ele uma epidemia de varíola, o reverendo Cotton Mather, que ficara a saber do método de variolação por um escravo negro vindo da África Ocidental, chamado Onésimo, que comprara em 1706, convenceu o Dr. Zabdiel Boylston, médico e seu amigo, a tentar o novo método para combater a doença.

A variolação promovida por Mather e Boylston foi um êxito: só dois por cento das pessoas que foram varioladas morreram durante a epidemia de 1721. Mas nem os outros médicos nem a populaça acolheram bem a novidade, que consideraram “bárbara” e, sobretudo, “ímpia”: para as mentalidades puritanas da Nova Inglaterra, a varíola era um “castigo divino” e, ao tentar travar a doença, Mather e Boylston estavam a contrariar “a vontade de Deus”. Houve campanhas violentas nos jornais. As autoridades da cidade proibiram a variolação. O reverendo Mather, que fora responsável por processos e condenações por bruxaria em Boston durante décadas e até escrevera um livro sobre a matéria, (…), viu a sua casa ser destruída por uma bomba purificadora.

Trava-se ainda hoje, nos EUA, um embate semelhante a esse. Um combate sem bombas, sem revoltas populares, mas bem ao gosto estadunidense, nos tribunais. São confrontos renhidos e entrincheirados que acumulam uma jurisprudência cada vez mais assustadora para quem, como eu, acredita que as vacinas foram a mais eficaz ferramenta de erradicação de doenças jamais descoberta em toda a História da espécie humana nesse pobre planeta. A tal ponto, que o periódico New England Journal of Medicine publicou em Janeiro último um artigo – em livre acesso – cujo título pode-se traduzir por “Vacinação sem litígio – Abordagem das objeções religiosas aos pedidos de vacinação hospitalar contra a Influenza” [1]. Nele, são citados 14 exemplos de processos que funcionários da área da Saúde moveram contra instituições hospitalares americanas. Os hospitais, vejam só, insistem em vacinar seu staff seguindo uma recomendação expressa do respeitável Centro de Controle de Doenças (CDC) [2] devido às altas taxas de infecção a qual os funcionários estão expostos e também à possibilidade de, uma vez contaminados, transmitir a gripe aos pacientes. A principal objeção alegada pelos trabalhadores para não receber a vacina é religiosa e encontra amparo no Título VII da Lei de Direitos Civis de 1964. O órgão que veicula e centraliza tais processos é a Equal Employment Opportunity Commission (EEOC), uma agência federal criada pelo Título VII especificamente para avaliar queixas de discriminação. A EEOC é responsável por fiscalizar a aplicação do Título VII, podendo enquadrar o empregador por discriminação de candidatos a empregos por questões raciais, religião, sexo (incluindo gravidez, identidade de gênero e orientação sexual), nacionalidade, idade (para maiores de 40 anos), necessidades especiais ou informação genética. É também considerado ilegal discriminar uma pessoa que se queixa ou formalizou uma queixa de discriminação, ou simplesmente participa de uma investigação ou processo que envolve discriminação. A EEOC, contudo, só se envolve em disputas individuais quando percebe que o caso do trabalhador em questão tem desdobramentos públicos que vão além dos interesses particulares das partes envolvidas. Daí, os autores do artigo concluirem que o envolvimento da EEOC nos casos de vacinação para Influenza em trabalhadores da área da Saúde ser atípico e preocupante.

Até aqui, o(a) leitor(a) deve estar se perguntando “qual o problema disso tudo?”. Vamos analisar alguns desses processos. Fallon v. Mercy Catholic Medical Center of Southeastern Pennsylvania concluiu que a objeção procedia tendo em vista que os riscos da vacina excediam os benefícios (!). Chenzira v. Cincinnati Children’s Hospital Medical Center envolvia uma objeção que considerava o fato de que o funcionário era vegano, o que não consta especificamente do Título VII. Isso porque as pessoas que pleiteam a isenção da vacina precisam trazer um atestado do clero (clergy) responsável (sim, você não leu errado!!) e o vegano não deve ter conseguido nenhum (!!). A corte de Fallon chegou ao ponto de argumentar que, embora o que é considerado religião não necessite ser exatamente teísta, deve ao menos relacionar-se às causas últimas das coisas e da vida e não a preferências individuais, nem a vacinas!!

Um órgão promotor da democracia e da igualdade social como a EEOC não pode ser sequestrado por interesses obscurantistas passíveis de colocar uma população de pessoas vulneráveis sob um risco ainda maior. O esclarecimento, nesse caso, é sempre o melhor remédio. De minha parte, não tenho outra alternativa a não ser seguir peleando.

1. Opel DJ, Sonne JA, Mello MM. Vaccination without Litigation – Addressing Religious Objections to Hospital Influenza-Vaccination Mandates. N Engl J Med. 2018 Jan 31; NEJMp1716147.

2. CDC. Immunization of health-care personnel: recommendations of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR Recomm Rep 2011;60(No. RR-7).

Figura. Edward Jenner inoculando James Phipps em 1796. Depois, o expôs à varíola. University of Michigan Health System, Presente da Pfizer. UMHS.23.

Efeitos Colaterais da Vacinação contra o HPV

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Poucas ações na área da Saúde mexem mais com a cabeça das pessoas do que a vacinação. É, de certa forma, incompreensível que pessoas se submetam a procedimentos estéticos de alto risco, usem suplementos sem nenhum tipo de comprovação em busca de melhores performances, tomem xixi em busca de tratamentos improváveis, mas questionem de modo tão agressivo e leviano os benefícios das vacinas. E não é de hoje. Há algo no processo de vacinação que desperta um certo terror irracional e primitivo e talvez a única forma de combater esse medo obscurantista seja por meio das luzes da informação.

Com a relativamente nova (~ 2004) vacina para o vírus da papilomatose humana, conhecido por sua abreviatura em inglês HPV, não foi diferente. A partir do anúncio de que o governo brasileiro distribuiria tais vacinas gratuitamente para população vulnerável (no caso, meninas que ainda não entraram em contato com o vírus transmitido por intermédio de relações sexuais e nas quais a infecção pode levar, anos depois, a um tipo de câncer do cérvice uterino) houve uma saraivada de protestos. Desde teorias conspiratórias sobre o capitalismo selvagem exercido pelas indústrias farmacêuticas interessadas em vender vacinas para a totalidade da população terrestre, passando por histórias de efeitos colaterais terríveis escondidos da população em nome do lucro, até o mais completo delírio psicodélico-onírico e desvairado de que o objetivo é nos transformar todos em zumbis de modo a podermos ser facilmente dominados por meio da inoculação de um vírus maligno que derreteria nossos cérebros e nossa vontade própria. Ou algo assim. No caso da vacina para o HPV, houve ainda a questão de que ela teria um efeito de liberação sexual precoce nas meninas havendo quem a defendesse que ela funcionaria como um tipo de “certificado de sexo livre”. Esse assunto já foi comentado pelo Discutindo Ecologia e pelo Carlos Orsi em textos altamente recomendáveis. Também já foram oferecidos argumentos racionais à vacinação para rebater reportagens sensacionalistas na mídia leiga. Não produziria aqui um texto melhor que estes citados.

Vamos tentar falar aqui dos efeitos colaterais da vacina contra o HPV. Sim, claro que eles existem, mas para isso é preciso alguma noção básica de como funcionam as vacinas. O princípio básico de qualquer vacina vem da observação clínica de que algumas doenças só são contraídas uma única vez devido a produção de anticorpos que duram, em geral, a vida toda. O melhor dos mundos seria adquirirmos a imunidade sem ficarmos doentes, não é? Isso é mesmo possível. Em algumas situações clínicas, quando achamos que o risco de alguém infectar-se é muito grande, administramos aos pacientes anticorpos contra determinado agente infeccioso e isso funciona muito bem (exemplo, hepatites virais, tétano). Entretanto, esses anticorpos conferem uma proteção de curta duração, são caros e por essa razão, utilizados, como eu disse, em situações bastante específicas. O melhor jeito é realmente “ensinar” o organismo a produzí-los, mas para isso é preciso “simular” uma doença mais fraquinha. É isso que a vacina faz. Existem vários tipos. Em alguns, matamos o agente infeccioso e administramos apenas os seus “cadáveres” para que o nosso organismo os reconheça da próxima vez que eles vierem, no caso, vivos e perigosos. Funciona bem. Outras vezes, domesticamos os agentes (a palavra que usamos é “atenuar”) para que, mais bonzinhos, eles não causem exatamente a mesma doença e nos protejam para sempre. Por fim, às vezes são retirados apenas pedaços principais da cápsula de alguns agentes de maneira que, tal como uma digital de um criminoso, nossas células de defesa possam identificá-los tão logo invadam nosso organismo. As vacinas mais modernas são desse último tipo e a vacina contra o HPV não foge à regra. Ela é dita “recombinante” porque “solicitamos gentilmente” a uma bactéria, veja só, que fabrique os pedacinhos de HPV que descobrimos serem os mais importantes e, depois de tratados e conservados, administramos nas pessoas. Com isso, os riscos de reações alérgicas diminuem muito e são exatamente as reações alérgicas os principais efeitos adversos desta e de qualquer vacina.

A lista abaixo, retirada daqui, enumera os principais efeitos colaterais da vacina quadrivalente, ou seja, que contém os quatro principais tipos de vírus HPV causadores do câncer uterino e que está sendo distribuída pelo SUS. Vamos a eles:

Efeitos Muito Comuns

Mais que uma em cada dez pessoas que tomam a vacina (ou seja > 10%) têm:

  • vermelhidão no local da injeção, hematomas, prurido (coceira), inchaço e dor local. Pode ocorrer uma inflamação local chamada celulite e nesse caso, um serviço de saúde deverá ser procurado.
  • Dor de cabeça

Efeitos Comuns

Mais do que uma em cada cem pessoas (ou seja > 1%) têm:

  • febre
  • náuseas
  • dores nos braços, pernas, mãos e pés

Efeitos Colaterais Raros

Por volta de uma em cada dez mil pessoas (ou seja > 0,01%) têm:

  • erupções cutâneas pruriginosas (tipo urticária, com “vergões”)

Efeitos Muito Raros

Menos que uma pessoa a cada 10.000 (ou seja < 0,01%) têm

  • Dificuldade de respirar, chiado no peito (broncoespasmo)

Efeitos Colaterais de Frequência Desconhecida

Tais efeitos não são possíveis de ser contabilizados porque são relatos individuais de pessoas que os reportaram a centros especializados e não dados provenientes de testes clínicos controlados.

Frequência desconhecida:

  • problemas sanguíneos que levaram a hematomas ou sangramento
  • calafrios
  • desmaio ou perda da consciência
  • tonturas
  • sensação de mal-estar
  • Sindrome de Guillain Barré
  • dor articular
  • aumento dos linfonodos (gânglios)
  • dor muscular ou aumento da sua sensibilidade
  • convulsões
  • cansaço
  • vômitos
  • fraqueza

Reações Alérgicas

Em raros casos, é possível que após a vacinação para HPV reações alérgicas mais graves conhecidas como reações anafiláticas ocorram. Os sinais de uma reação anafilática são:

  • falta de ar e chiado no peito
  • inchaço nos olhos, lábios, genitais, mãos, pés e outras áreas (chamados de angioedema)
  • coceira pela corpo
  • gosto metálico na boca
  • ardência, vermelhidão e coceira nos olhos
  • coração acelerado
  • perda da consciência

Tais reações foram computadas como extremamente raras, na ordem de 1 em 1.000.000 de vacinas aplicadas. Por isso, as vacinas devem ser aplicadas em local apropriado com pessoal treinado para diagnosticar e tratar essas raríssimas complicações que, apesar de graves, têm reversão completa, sem deixar qualquer tipo de sequela. A página específica da vacina no FDA (órgão norte-americano semelhante à nossa ANVISA) pode ser checada aqui.

É isso. A vacinação é a melhor prevenção para doenças e esta é a primeira vacina contra um tipo específico de câncer, sem dúvida, um enorme avanço. Aproveito para perguntar: onde estariam os críticos da vacinação do H1N1 que há 5 anos espalharam os mesmos boatos sobre a vacinação contra a gripe suína? Por falar nisso, já tomei a minha este ano. E você?

Referência

ResearchBlogging.orgKlein, N., Hansen, J., Chao, C., Velicer, C., Emery, M., Slezak, J., Lewis, N., Deosaransingh, K., Sy, L., Ackerson, B., Cheetham, T., Liaw, K., Takhar, H., & Jacobsen, S. (2012). Safety of Quadrivalent Human Papillomavirus Vaccine Administered Routinely to Females Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, 166 (12) DOI: 10.1001/archpediatrics.2012.1451
Atualização (06/05/2014)

Não deixem de ver o sensacional vídeo sobre vacinas do Nerdologia.

Vacina Trivalente da Gripe A H1N1

Tenho recebido uma enxurrada de emails e comentários sobre a vacina da gripe H1N1. O governo está agora liberando, como anunciado, a trivalente, ou seja, uma vacina que imuniza contra 2 cepas da gripe sazonal mais a H1N1 [Influenza A / California / 7/2009 (H1N1); Influenza A / Perth / 16/2009 (H3N2); Influenza B / Brisbane / 60/2008]. As dúvidas são das pessoas que querem imunizar-se (aqui e aqui, por exemplo) pois tem sido difícil encontrar a vacina para gripe sazonal isolada, pelo menos em São Paulo!

Acho que o Ministério da Saúde (MS) “pisou na bola” nesse sentido. A boataria sobre a vacina não foi pequena! Deveria haver um esclarecimento maior sobre isso. Importante ressaltar que NÃO há contraindicações em se tomar uma nova dose da vacina contra H1N1 junto com as outras cepas da gripe sazonal. Abaixo, eu mostro porque vale a pena tomar a vacina, mesmo em dose dupla.

Os informes do MS estão interessantes. Aqui vão algumas conclusões selecionadas do último relatório que saiu em Abril.

“Segundo os dados do Sinan, a partir da base de dados exportada em 06 de abril de 2010, no período que compreende as semanas epidemiológicas 01 a 13 de 2010 (03/01 a 03/04/2010), foram notificados 2.509 casos. Deste total, 14,4% (361/2.509) foram confirmados para influenza pandêmica no Brasil(…)”

“Entre os óbitos confirmados para influenza pandêmica, a mediana de idade era de 25 anos (intervalo: 1 ano a 79 anos) e o sexo feminino foi o mais freqüente com 76% (38/50) dos óbitos confirmados, sendo que 73,7% (28/38) estavam em idade fértil (15 a 49 anos de idade), destes, 57% (16/28) era gestante. Do total de óbitos confirmados, 64% (32/50) apresentavam pelo menos uma condição de risco para gravidade, sendo que as gestantes representaram 32% do total de óbitos confirmados.”

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Essa tabela mostra que durante as semanas epidemiológicas (SE) 1 a 13/2010 que cobrem o período de 03/01 a 03/04/10 morreram 50 pessoas de gripe suína no Brasil e há 45 em investigação para o diagnóstico. Desse total, continua o predomínio dos mais jovens e do sexo feminino com grande contribuição das gestantes.

Bebida Alcoólica e Vacina contra Gripe A H1N1

http://media.mercola.com/ImageServer/public/2009/November/11.26vaccine.jpgO álcool não é um item imprescindível da alimentação humana. Há, acreditem, pessoas que passam a vida toda sem colocar uma gota de álcool na boca e vivem muito bem, até mais que os usuários crônicos da bebida. O excesso de álcool causa inúmeros males à espécie humana dentre os quais cirrose hepática, alterações neurológicas e psiquiátricas graves, sem contar a violência. Sou a favor da lei do Código de Trânsito Brasileiro que instituiu a alcoolemia 0 (zero) e impôs penalidades mais severas para o condutor que dirige sob a influência do álcool. Pelo número enorme de perguntas que recebi sobre a influência da ingesta alcoólica na vacinação contra gripe A H1N1, concluí que valia a pena escrever um novo post um pouco mais elucidativo. Aqui vai, então, minha tentativa de salvar os “bebuns” do meu Brasil!

Empreendi uma busca na Pubmed com os seguintes termos: alcohol consumption, alcohol ingestion, alcohol & immunization efficacy, immunization efficiency, immunization rate, vaccination, vaccination efficacy, vaccination efficiency, vaccination rate.

Achei dois estudos relacionados ao assunto que queremos saber, ambos em alcoólatras e sobre a vacina da hepatite B. São eles Rosman et al. Efficacy of a high and accelerated dose of hepatitis B vaccine in alcoholic patients: a randomized clinical trial. Am J Med (1997) vol. 103 (3) pp. 217-22 e Nalpas et al. Secondary immune response to hepatitis B virus vaccine in alcoholics. Alcohol Clin Exp Res (1993) vol. 17 (2) pp. 295-8. Os links mostram os resumos. A conclusão é que em alcoólatras a eficácia da vacina para hepatite B é menor. Ponto. Achei um estudo coreano que mostra que o número de pessoas que se vacinam para gripe sazonal é menor nos alcoólatras o que talvez indique um certo descaso patológico dos alcoólatras nessa situação específica. Curiosamente, a conclusão do estudo é que o fator mais importante para que uma pessoa se vacine é a indicação do médico.

Muitos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros e agentes de saúde, recomendam a NÃO ingestão de álcool nos dias subsequentes à qualquer vacinação. As interações entre o álcool e as vacinas não são bem conhecidas e de fato, há estudos que mostram que a ingestão de álcool altera a imunidade desfavoravelmente. Além disso, os efeitos colaterais da vacina podem ser mascarados ou exacerbados pelo álcool, o que dificultaria um possível diagnóstico. Aliás, essas são as mesmas razões para não se vacinar estando-se gripado ou doente.

Achei também um documento do CDC (Centro de Controle de Doenças e Epidemiologia do governo americano) recomendando a não ingestão de álcool durante o período de vacinação, sem citar, entretanto, as razões para isso.

Em suma, acho bastante prudente esperar ao menos uma semana em abstinência alcoólica após a vacinação (isso não inclui abstinência sexual, gente!) apesar de não haver uma referência específica sobre o assunto (se alguém achar, por favor coloque nos comentários que, com certeza, vou ler e comentar). Vale a pena perder uma semaninha para poder tomar um vinho tranquilo no inverno que se aproxima, sem medo de pegar gripe suína.

Nota do Ministério da Saúde sobre a Vacina contra Gripe A H1N1

Apesar de um atraso de mais ou menos 2 meses, que foi quando começou a boataria na internet e o começo da vacinação, o Ministério da Saúde finalmente divulga nota oficial desmentindo os mais “famosos” boatos sobre a vacina contra a gripe pandêmica A H1N1. A nota também cita, muito superficialmente, o fato de que alguns médicos se posicionaram contra a vacina. O caso mais grave foi o da Sociedade Brasileira de Diabetes na figura do Dr. Ney Cavalcanti. É lamentável que um texto com opiniões pessoais sobre um assunto com as proporções da pandemia que ocorreu no ano passado possa figurar no site de uma sociedade tão importante como a SBD.

Sobre a histeria da vacina, o post definitivo saiu no Ceticismo
Aberto
. Não deixem de ler.

Aqui vai a nota na íntegra.

Continue lendo…

(E) Tome Vacina!

ResearchBlogging.orgHoje começa a vacinação de gestantes, crianças de 6 meses a 2 anos e a população com doenças crônicas e eu estou impressionado com o número de manifestações alarmistas e falsas, contrárias à vacinação para a gripe pandêmica. É uma desinformação completa em emails com vários tamanhos de fontes, cores diferentes e grifos escandalosos. Infelizmente, “parte da desinformação vem de médicos, incluindo infectologistas” afirmou um colega médico infectologista. Vou tentar responder algumas perguntas do outro post e desfazer algumas falácias mais frequentes nesses emails criminosos.

O ESCALENO

O Escaleno [1] é um adjuvante usado nas vacinas da Novartis e GSK e tem sido usado nas vacinas da influenza sazonal em idosos desde 1997. Na Europa, aproximadamente 45 milhões de doses de vacinas contendo escaleno foram administradas. Segundo o relatório da ECDC, o escaleno é uma substância natural encontrada em plantas, animais e humanos. Faz parte do metabolismo do colesterol e é um componente da membrana das células. É fabricado no fígado e circula no sangue normalmente. Entre 60-80% do escaleno ingerido na alimentação é absorvido no trato gastrointestinal sendo encontrado comercialmente em preparações como óleo de peixe – que é usado em produtos farmacêuticos ou ingerido in natura -, cométicos, inúmeras medicações e suplementos nutricionais.

Alguns veteranos de primeira guerra do Golfo desenvolveram o que se convencionou chamar de Gulf War Syndrome e anticorpos anti-escaleno foram encontrados nesses pacientes levando a acreditar em uma possível relação causal entre o escaleno que estaria na vacina contra Antrax que os soldados usavam e a síndrome (veja mais aqui). Entretanto, essa relação não foi demonstrada, sendo descartada em detrimento a inúmeras outras como gás sarin, pesticidas organofosforados, brometo de piridostigmina, entre outros.

Segundo alguns médicos, uma das fontes de dúvida é que parece estar havendo um embate EUA vs Europa/OMS. Os primeiros não estão usando escaleno como adjuvante na vacina para Influenza A H1N1 enquanto os europeus o estão utilizando. Compare só as informações das páginas do CDC:  “There is no plan at this time to recommend a 2009 H1N1 influenza vaccine with an adjuvant” com a página da OMS: “Over 22 million doses of squalene-containing flu vaccine have been administered. The absence of significant vaccine-related adverse events following this number of doses suggests that squalene in vaccines has no significant risk.” A vacina Sanofi-Pasteur/Butantã não contem escaleno. Como já dito, as vacinas da Novartis e GSK contém o adjuvante.

ALERGIA A OVOS

Me perguntaram se uma criança alérgica a ovos pode tomar a vacina. A pergunta procede porque os vírus vacinais são propagados em ovos. A resposta do CDC:

“Perguntar se a pessoa tem algum efeito após comer ovos ou alimentos preparados a base de ovos é um bom método de saber quem pode ter riscos ao usar a vacina. Pessoas com sintomas como chiados, vergões pelo corpo, inchaço nos lábios e língua e desconforto respiratório após ingerirem ovos e derivados, devem consultar um médico para uma avaliação apropriada. Pessoas que têm a hipersensibilidade às proteínas do ovo documentada (dosagem da IgE), incluindo as que têm asma ocupacional associada à exposição à proteína do ovo, também podem ter risco aumentado de desencadear reações alérgicas à vacina contra influenza e uma consulta com um médico antes da vacinação deve ser considerada.” Há estudos mostrando ser seguro aplicar a vacina da influenza sazonal – que tem o mesmo processo de fabricação – em crianças. Recomendo fortemente uma consulta ao médico responsável pela criança para avaliação da relação risco/benefício em se tomar a vacina sendo alérgico à proteína do ovo.

QUEM JÁ TEVE H1N1 DEVE TOMAR VACINA?

Só quem teve a gripe A H1N1 confirmada em reações sorológica (rRT-PCR) pode ser considerado imune à gripe pandêmica. Se a pessoa “acha” que teve a gripe, deve consultar o médico que a assistiu para se certificar se as sorologias corretas foram realizadas e que o diagnóstico foi confirmado. Na dúvida, tomar a vacina não causa nenhum mal, pois não foram descritas reações em pessoas que já tiveram a doença.

O MEDO

É a tônica desse processo de vacinação. As vacinas compradas pelo governo (que aliás está tendo um comportamento muito bom, apesar de todas as críticas e erros), foram de fontes diferentes e têm componentes diferentes. Não há truque. Não há tentativa de enganar as pessoas. Não há intenção de exterminar a raça humana da terra com as vacinas! Eu gostaria muito de uma vacina que exterminasse a desinformação e propiciasse o uso da racionalidade como guia, mas essa ainda vai demorar para ser fabricada e mesmo que fosse, ia ser uma “briga” enorme para vacinar todo mundo: as pessoas preferem ter medo de fantasmas.

[1] Lippi, G., Targher, G., & Franchini, M. (2010). Vaccination, squalene and anti-squalene antibodies: Facts or fiction? European Journal of Internal Medicine, 21 (2), 70-73 DOI: 10.1016/j.ejim.2009.12.001. (Baixe o artigo clicando na figura).


[2] Para saber mais sobre o escaleno (ou esqualeno) veja o post do Brontossauros.

Esclarecimentos sobre a Vacina para Gripe A H1N1

ResearchBlogging.orgEssa semana fiquei surpreso com o número de pessoas, inclusive médicos, que estão inseguros em relação à vacinação para a gripe pandêmica. Por isso, mais um post sobre a vacina. Espero não estar torrando a paciência de vocês. Vamos lá:

Existem vários tipos de vacina para a gripe A H1N1. Segundo o Ministério da Saúde, a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) fornecerá 10 milhões de doses para o Brasil. O Governo já havia comprado, em novembro de 2009, o primeiro lote de vacinas com 40 milhões de doses fornecidas pelo laboratório Glaxo Smith Kline (GSK). Além disso, encomendou 33 milhões de doses ao Instituto Butantan que as fabricará segundo transferência de tecnologia negociada com o laboratório Sanofi-Pasteur. A vacina que eu tomei foi essa, Butantan-Sanofi Pasteur de vírus inativado da cepa A/California/7/2009 (H1N1)v, propagada em ovo, com 15 μg de hemaglutinina por dose plena. O tipo de vacina também é um dos determinantes do esquema de vacinação proposto pelo Governo.

O que são os adjuvantes?

Os componentes da vacina além dos vírus inativados estão dando o que falar. Em especial devido a “correntes” totalmente desinformadas que circulam por meio de spams nos emails por aí. Vamos às informações: Os adjuvantes são substâncias que aumentam a imunogenicidade da vacina. Em tempos de pandemia, a quantidade de vírus disponíveis é um fator limitante e os adjuvantes aumentam a capacidade de produção da vacina em 100 a 200%. Mesmo assim, isso pode não ser suficiente. Há dois tipos principais de adjuvantes: o esqualeno e os sais de alumínio. A vacina Butantan-Sanofi Pasteur não tem nenhum dos dois. A vacina da GSK tem o AS03, o esqualeno e ainda outro agente imunogênico, o tocoferol (vitamina D). Os adjuvantes foram testados na fabricação de vacinas da gripe sazonal e da H5N1.

E o tal de Timerosal?http://farm4.static.flickr.com/3178/2961464963_bb5df0fab8.jpg

Timerosal, ou em inglês, thiomersal, é o nosso antigo mertiolate. É uma tintura de mercúrio orgânico com poderes antimicrobianos quando usado tópicamente. Foi retirado do mercado por causar uma ardência enorme nos ferimentos abrasivos e pela necessidade de retirada gradual dos produtos à base de mercúrio por razões ambientais. O timerosal é usado nas vacinas na manufatura e para evitar a contaminação do produto final. A vacina pandêmica tem mais ou menos 2,5 a 50 μg timerosal por dose como preservativo. O timerosal contem 49,6% de mercúrio (ou seja, 1,25-25 μg de mercúrio por dose). Essas doses são consideradas baixas e aproximadamente 1/4 da ingestão máxima diária para uma pessoa de 60 kg. Muitas pessoas, inclusive alguns vizinhos meus, são alérgicos ao timerosal. E agora? Podem tomar a vacina ou não?

Segundo o relatório abaixo [2] e um especialista em vacinação que consultei, as alergias de contato ao timerosal NÃO contraindicam a vacinação. Existem tipos raros de alergia ao composto nos quais o paciente apresenta sintomas sistêmicos, por exemplo, angioedema (inchaço na boca e face), broncoespasmo (chiado no peito), urticária (vergões na pele). Nesse caso, a alergia é mais importante e a vacina está contraindicada. Na dúvida, é sempre melhor perguntar ao seu médico.

Essa vacina, afinal, é segura?

Vou citar o relatório novamente: “Baseado em informações recebidas de 16 países, a OMS estima que por volta de 80 milhões de doses da vacina pandêmica foram distribuídas e aproximadamente 65 milhões de pessoas foram vacinadas. Campanhas de vacinação globais têm se utilizado de vacina com e sem adjuvantes, com vírus atenuados e inativados (este último grupo não licenciado na Europa). Apesar da intensa monitorização sobre a segurança das vacinas, todos os dados compilados até o momento, indicam que as vacinas pandêmicas gozam do mesmo excelente perfil de segurança que as vacinas sazonais, as quais tem sido utilizadas por mais de 60 anos.”

Nesse ponto, acho que fomos beneficiados por estarmos no hemisfério sul. Dessa vez, testaram lá antes.

[1] Atmar RL, & Keitel WA (2009). Adjuvants for pandemic influenza vaccines. Current topics in microbiology and immunology, 333, 323-44 PMID: 19768413
[2] European Centre of Disease Prevention and Control
. [link]

Figura retirada daqui.

Atualização

Várias perguntas feitas nos comentários foram respondidas no novo post. Por favor, deem uma checada para não nos tornarmos repetitivos, ok?

 

Hoje Começa a Vacinação contra a Gripe A H1N1

No Hospital das Clínicas, eu quase fui filmado pela Globo!! (Te cuida, Tiago Lacerda). Tomei minha vacina e recomendo a todos, que não tiveram gripe suína, a tomar também. Segue a medaglia da campanha. Vou deixar no Blogroll.

Emoções e a Vacina da Gripe A H1N1

O inverno foi turbulento no hemisfério norte. Não pelas nevascas, nem pelas alterações de temperatura, mas muito mais no que concerne às políticas relacionadas à pandemia da gripe suína. A OMS, em meio a acusações de interferências da BigPharma em suas decisões “pandêmicas”, prepara um pronunciamento cuidadoso sobre a “segunda onda” para não “baixar a guarda dos governos” (sic). Vacinas sobram nos países e os governos não sabem o que fazer com elas. Alguns doam. Pouca gente fala da “nova” gripe e a sensação é de “fim-de-festa”.

O argumento é que a epi(pan)demia não foi o que esperávamos, principalmente no que se refere à letalidade. Como não foi? Caríssimos leitores, o inverno de 2009 foi um dos períodos em que mais trabalhei na minha vida! Eu vi o bicho de frente. Insisti nas hipóteses não catastrofistas por acreditar (e saber) que gripe sazonal mata pra caramba também, além de dengue, febre amarela, malária e outras cositas desse meu Brasil varonil. Mas o negócio não foi brinquedo, não! Gente doente + Paranoia = Caos! Tentativas de respirar e pensar com calma foram vistas como peleguismo a favor do ministério da saúde. Teorias conspiratórias, informações desencontradas, médicos, autoridades e pessoas batendo cabeça, formaram um cenário patético com uma real sensação de fim-de-mundo!  Apesar da letalidade da nova gripe não ser comprovadamente maior, sim, existiam perguntas que ainda precisariam ser respondidas. A principal delas é que trata-se de um vírus desconhecido ao qual os seres humanos são extremamente suscetíveis. E assim terminamos 2009.

E eis que surge a vacina. Não que eu esperasse fogos de artifício, banda na rua, feriado nacional, mas também não precisava ser surpreendido por uma enxurrada de questionamentos sobre “quais os argumentos racionais temos para se tomar a vacina contra gripe A H1N1”! Descobri que médicos de outros países passaram pelo mesmo problema. Fiquei pensando bastante sobre isso e conclui que: o principal argumento racional para se tomar a vacina é a própria irracionalidade com que a epidemia foi enfrentada no inverno passado! Ou as pessoas vão querer passar pelas mesmas aflições? A vacina tem problemas? Tem. Como qualquer vacina! Ou vamos deixar de tomar a dupla adulto a cada 10 anos ou parar de vacinar os pequenos em função de seus efeitos colaterais? Mas que raio de raciocínio é esse? “Não vou tomar a vacina porque é nova e não sei exatamente de seus efeitos”. Mas essa é a mesma razão do porque a gripe A H1N1 é perigosa”: é nova e não sei de seus efeitos! Talvez a médica americana que escreveu isso tenha mesmo razão: “The dramatic shift in public sentiment over the course of this H1N1 epidemic is both fascinating and frustrating. It is clear that there is a distinct emotional epidemiology and that it bears only a faint connection to the actual disease epidemiology of the virus.” Epidemiologia emocional diferente da real. Nem desespero na época da epidemia, nem descaso agora, por favor! Um pouco de temperança (à época da epidemia) e de prudência (agora) não fariam mal.

Volta e meia, alguém me chama de “véio” carinhosamente no Twitter. Se ser velho é ficar, um pouco que seja, intolerante, acho que eles têm razão. Eu vou tomar vacina e dar aos meus filhos.

Para ler mais:

1) Portal da Bireme sobre H1N1.
2) Portal da OMS. (inglês)
3) FAQs do CDC sobre vacinação da gripe suína. (inglês)
4) Sobre a utilidade da vacinação (em francês).
5) Informações do Ministério da Saúde.

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