Efeitos Colaterais da Vacinação contra o HPV

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Poucas a√ß√Ķes na √°rea da Sa√ļde mexem mais com a cabe√ßa das pessoas do que a vacina√ß√£o. √Č, de certa forma, incompreens√≠vel que pessoas se submetam a procedimentos est√©ticos de alto risco, usem suplementos sem nenhum tipo de comprova√ß√£o em busca de melhores performances, tomem xixi¬†em busca de tratamentos improv√°veis, mas questionem de modo t√£o agressivo e leviano os benef√≠cios das vacinas. E n√£o √© de hoje. H√° algo no processo de vacina√ß√£o que desperta um certo terror irracional e primitivo e talvez a √ļnica forma de combater esse medo obscurantista seja por meio das luzes da informa√ß√£o.

Com a relativamente nova (~ 2004) vacina para o v√≠rus da papilomatose humana, conhecido por sua abreviatura em ingl√™s HPV, n√£o foi diferente. A partir do an√ļncio de que o governo brasileiro distribuiria tais vacinas gratuitamente para popula√ß√£o vulner√°vel (no caso, meninas que ainda n√£o entraram em contato com o v√≠rus transmitido por interm√©dio de rela√ß√Ķes sexuais e nas quais a infec√ß√£o pode levar, anos depois, a um tipo de c√Ęncer do c√©rvice uterino) houve uma saraivada de protestos. Desde teorias conspirat√≥rias sobre o capitalismo selvagem exercido pelas ind√ļstrias farmac√™uticas interessadas em vender vacinas para a totalidade da popula√ß√£o terrestre, passando por hist√≥rias de efeitos colaterais terr√≠veis escondidos da popula√ß√£o em nome do lucro, at√© o mais completo del√≠rio psicod√©lico-on√≠rico e desvairado de que o objetivo √© nos transformar todos em zumbis de modo a podermos ser facilmente dominados por meio da inocula√ß√£o de um v√≠rus maligno que derreteria nossos c√©rebros e nossa vontade pr√≥pria. Ou algo assim. No caso da vacina para o HPV, houve ainda a quest√£o de que ela teria um efeito de libera√ß√£o sexual precoce nas meninas havendo quem a defendesse que ela funcionaria como um tipo de “certificado de sexo livre”. Esse assunto j√° foi comentado pelo Discutindo Ecologia e pelo Carlos Orsi em textos altamente recomend√°veis. Tamb√©m j√° foram oferecidos argumentos racionais √† vacina√ß√£o¬†para rebater reportagens sensacionalistas na m√≠dia leiga. N√£o produziria aqui um texto melhor que estes citados.

Vamos tentar falar aqui dos efeitos colaterais da vacina contra o HPV. Sim, claro que eles existem, mas para isso √© preciso alguma no√ß√£o b√°sica de como funcionam as vacinas. O princ√≠pio b√°sico de qualquer vacina vem da observa√ß√£o cl√≠nica de que algumas doen√ßas s√≥ s√£o contra√≠das uma √ļnica vez devido a produ√ß√£o de anticorpos que duram, em geral, a vida toda. O melhor dos mundos seria adquirirmos a imunidade sem ficarmos doentes, n√£o √©? Isso √© mesmo poss√≠vel. Em algumas situa√ß√Ķes cl√≠nicas, quando achamos que o risco de algu√©m infectar-se √© muito grande, administramos aos pacientes anticorpos contra determinado agente infeccioso e isso funciona muito bem (exemplo, hepatites virais, t√©tano). Entretanto, esses anticorpos conferem uma prote√ß√£o de curta dura√ß√£o, s√£o caros e por essa raz√£o, utilizados, como eu disse, em situa√ß√Ķes bastante espec√≠ficas. O melhor jeito √© realmente “ensinar” o organismo a produz√≠-los, mas para isso √© preciso “simular” uma doen√ßa mais fraquinha. √Č isso que a vacina faz. Existem v√°rios tipos. Em alguns, matamos o agente infeccioso e administramos apenas os seus “cad√°veres” para que o nosso organismo os reconhe√ßa da pr√≥xima vez que eles vierem, no caso, vivos e perigosos. Funciona bem. Outras vezes, domesticamos os agentes (a palavra que usamos √© “atenuar”) para que, mais bonzinhos, eles n√£o causem exatamente a mesma doen√ßa e nos protejam para sempre. Por fim, √†s vezes s√£o retirados apenas peda√ßos principais da c√°psula de alguns agentes de maneira que, tal como uma digital de um criminoso, nossas c√©lulas de defesa possam identific√°-los t√£o logo invadam nosso organismo. As vacinas mais modernas s√£o desse √ļltimo tipo e a vacina contra o HPV n√£o foge √† regra. Ela √© dita “recombinante” porque “solicitamos gentilmente” a uma bact√©ria, veja s√≥, que fabrique os pedacinhos de HPV que descobrimos serem os mais importantes e, depois de tratados e conservados, administramos nas pessoas. Com isso, os riscos de rea√ß√Ķes al√©rgicas diminuem muito e s√£o exatamente as rea√ß√Ķes al√©rgicas os principais efeitos adversos desta e de qualquer vacina.

A lista abaixo, retirada daqui, enumera os principais efeitos colaterais da vacina quadrivalente, ou seja, que cont√©m os quatro principais tipos de v√≠rus HPV causadores do c√Ęncer uterino e que est√° sendo distribu√≠da pelo SUS. Vamos a eles:

Efeitos Muito Comuns

Mais que uma em cada dez pessoas que tomam a vacina (ou seja > 10%) têm:

  • vermelhid√£o no local da inje√ß√£o, hematomas, prurido (coceira), incha√ßo e dor local. Pode ocorrer uma inflama√ß√£o local chamada celulite e nesse caso, um servi√ßo de sa√ļde dever√° ser procurado.
  • Dor de cabe√ßa

Efeitos Comuns

Mais do que uma em cada cem pessoas (ou seja > 1%) têm:

  • febre
  • n√°useas
  • dores nos bra√ßos, pernas, m√£os e p√©s

Efeitos Colaterais Raros

Por volta de uma em cada dez mil pessoas (ou seja > 0,01%) têm:

  • erup√ß√Ķes cut√Ęneas pruriginosas (tipo urtic√°ria, com “verg√Ķes”)

Efeitos Muito Raros

Menos que uma pessoa a cada 10.000 (ou seja < 0,01%) têm

  • Dificuldade de respirar, chiado no peito (broncoespasmo)

Efeitos Colaterais de Frequência Desconhecida

Tais efeitos não são possíveis de ser contabilizados porque são relatos individuais de pessoas que os reportaram a centros especializados e não dados provenientes de testes clínicos controlados.

Frequência desconhecida:

  • problemas sangu√≠neos que levaram a hematomas ou sangramento
  • calafrios
  • desmaio ou perda da consci√™ncia
  • tonturas
  • sensa√ß√£o de mal-estar
  • Sindrome de¬†Guillain Barr√©
  • dor articular
  • aumento dos linfonodos (g√Ęnglios)
  • dor muscular ou aumento da sua sensibilidade
  • convuls√Ķes
  • cansa√ßo
  • v√īmitos
  • fraqueza

Rea√ß√Ķes Al√©rgicas

Em raros casos, √© poss√≠vel que ap√≥s a vacina√ß√£o para HPV rea√ß√Ķes al√©rgicas mais graves conhecidas como rea√ß√Ķes anafil√°ticas ocorram. Os sinais de uma rea√ß√£o anafil√°tica s√£o:

  • falta de ar e chiado no peito
  • incha√ßo nos olhos, l√°bios, genitais, m√£os, p√©s e outras √°reas (chamados de angioedema)
  • coceira pela corpo
  • gosto met√°lico na boca
  • ard√™ncia, vermelhid√£o e coceira nos olhos
  • cora√ß√£o acelerado
  • perda da consci√™ncia

Tais rea√ß√Ķes foram computadas como extremamente raras, na ordem de 1 em 1.000.000 de vacinas aplicadas. Por isso, as vacinas devem ser aplicadas em local apropriado com pessoal treinado para diagnosticar e tratar essas rar√≠ssimas complica√ß√Ķes que, apesar de graves, t√™m revers√£o completa, sem deixar qualquer tipo de sequela. A p√°gina espec√≠fica da vacina no FDA (√≥rg√£o norte-americano semelhante √† nossa ANVISA) pode ser checada aqui.

√Č isso. A vacina√ß√£o √© a melhor preven√ß√£o para doen√ßas e esta √© a primeira vacina contra um tipo espec√≠fico de c√Ęncer, sem d√ļvida, um enorme avan√ßo. Aproveito para perguntar: onde estariam os cr√≠ticos da vacina√ß√£o do H1N1 que h√° 5 anos espalharam os mesmos boatos sobre a vacina√ß√£o contra a gripe su√≠na? Por falar nisso, j√° tomei a minha este ano. E voc√™?

Referência

ResearchBlogging.orgKlein, N., Hansen, J., Chao, C., Velicer, C., Emery, M., Slezak, J., Lewis, N., Deosaransingh, K., Sy, L., Ackerson, B., Cheetham, T., Liaw, K., Takhar, H., & Jacobsen, S. (2012). Safety of Quadrivalent Human Papillomavirus Vaccine Administered Routinely to Females Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, 166 (12) DOI: 10.1001/archpediatrics.2012.1451
Atualização (06/05/2014)

Não deixem de ver o sensacional vídeo sobre vacinas do Nerdologia.

Vacina Trivalente da Gripe A H1N1

Tenho recebido uma enxurrada de emails e coment√°rios sobre a vacina da gripe H1N1. O governo est√° agora liberando, como anunciado, a trivalente, ou seja, uma vacina que imuniza contra 2 cepas da gripe sazonal mais a H1N1 [Influenza A / California / 7/2009 (H1N1); Influenza A / Perth / 16/2009 (H3N2); Influenza B / Brisbane / 60/2008]. As d√ļvidas s√£o das pessoas que querem imunizar-se (aqui e aqui, por exemplo) pois tem sido dif√≠cil encontrar a vacina para gripe sazonal isolada, pelo menos em S√£o Paulo!

Acho que o Minist√©rio da Sa√ļde (MS) “pisou na bola” nesse sentido. A boataria sobre a vacina n√£o foi pequena! Deveria haver um esclarecimento maior sobre isso. Importante ressaltar que N√ÉO h√° contraindica√ß√Ķes em se tomar uma nova dose da vacina contra H1N1 junto com as outras cepas da gripe sazonal. Abaixo, eu mostro porque vale a pena tomar a vacina, mesmo em dose dupla.

Os informes do MS est√£o interessantes. Aqui v√£o algumas conclus√Ķes selecionadas do √ļltimo relat√≥rio que saiu em Abril.

“Segundo os dados do Sinan, a partir da base de dados exportada em 06 de abril de 2010, no per√≠odo que compreende as semanas epidemiol√≥gicas 01 a 13 de 2010 (03/01 a 03/04/2010), foram notificados 2.509 casos. Deste total, 14,4% (361/2.509) foram confirmados para influenza pand√™mica no Brasil(…)”

“Entre os √≥bitos confirmados para influenza pand√™mica, a mediana de idade era de 25 anos (intervalo: 1 ano a 79 anos) e o sexo feminino foi o mais frequŐąente com 76% (38/50) dos √≥bitos confirmados, sendo que 73,7% (28/38) estavam em idade f√©rtil (15 a 49 anos de idade), destes, 57% (16/28) era gestante. Do total de √≥bitos confirmados, 64% (32/50) apresentavam pelo menos uma condi√ß√£o de risco para gravidade, sendo que as gestantes representaram 32% do total de √≥bitos confirmados.”

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Essa tabela mostra que durante as semanas epidemiológicas (SE) 1 a 13/2010 que cobrem o período de 03/01 a 03/04/10 morreram 50 pessoas de gripe suína no Brasil e há 45 em investigação para o diagnóstico. Desse total, continua o predomínio dos mais jovens e do sexo feminino com grande contribuição das gestantes.

Bebida Alcoólica e Vacina contra Gripe A H1N1

http://media.mercola.com/ImageServer/public/2009/November/11.26vaccine.jpgO √°lcool n√£o √© um item imprescind√≠vel da alimenta√ß√£o humana. H√°, acreditem, pessoas que passam a vida toda sem colocar uma gota de √°lcool na boca e vivem muito bem, at√© mais que os usu√°rios cr√īnicos da bebida. O excesso de √°lcool causa in√ļmeros males √† esp√©cie humana dentre os quais cirrose hep√°tica, altera√ß√Ķes neurol√≥gicas e psiqui√°tricas graves, sem contar a viol√™ncia. Sou a favor da lei do C√≥digo de Tr√Ęnsito Brasileiro que instituiu a alcoolemia 0 (zero) e imp√īs penalidades mais severas para o condutor que dirige sob a influ√™ncia do √°lcool. Pelo n√ļmero enorme de perguntas que recebi sobre a influ√™ncia da ingesta alco√≥lica na vacina√ß√£o contra gripe A H1N1, conclu√≠ que valia a pena escrever um novo post um pouco mais elucidativo. Aqui vai, ent√£o, minha tentativa de salvar os “bebuns” do meu Brasil!

Empreendi uma busca na Pubmed com os seguintes termos: alcohol consumption, alcohol ingestion, alcohol & immunization efficacy, immunization efficiency, immunization rate, vaccination, vaccination efficacy, vaccination efficiency, vaccination rate.

Achei dois estudos relacionados ao assunto que queremos saber, ambos em alco√≥latras e sobre a vacina da hepatite B. S√£o eles Rosman et al. Efficacy of a high and accelerated dose of hepatitis B vaccine in alcoholic patients: a randomized clinical trial. Am J Med (1997) vol. 103 (3) pp. 217-22 e Nalpas et al. Secondary immune response to hepatitis B virus vaccine in alcoholics. Alcohol Clin Exp Res (1993) vol. 17 (2) pp. 295-8. Os links mostram os resumos. A conclus√£o √© que em alco√≥latras a efic√°cia da vacina para hepatite B √© menor. Ponto. Achei um estudo coreano que mostra que o n√ļmero de pessoas que se vacinam para gripe sazonal √© menor nos alco√≥latras o que talvez indique um certo descaso patol√≥gico dos alco√≥latras nessa situa√ß√£o espec√≠fica. Curiosamente, a conclus√£o do estudo √© que o fator mais importante para que uma pessoa se vacine √© a indica√ß√£o do m√©dico.

Muitos profissionais de sa√ļde, m√©dicos, enfermeiros e agentes de sa√ļde, recomendam a N√ÉO ingest√£o de √°lcool nos dias subsequentes √† qualquer vacina√ß√£o. As intera√ß√Ķes entre o √°lcool e as vacinas n√£o s√£o bem conhecidas e de fato, h√° estudos que mostram que a ingest√£o de √°lcool altera a imunidade desfavoravelmente. Al√©m disso, os efeitos colaterais da vacina podem ser mascarados ou exacerbados pelo √°lcool, o que dificultaria um poss√≠vel diagn√≥stico. Ali√°s, essas s√£o as mesmas raz√Ķes para n√£o se vacinar estando-se gripado ou doente.

Achei tamb√©m um documento do CDC (Centro de Controle de Doen√ßas e Epidemiologia do governo americano) recomendando a n√£o ingest√£o de √°lcool durante o per√≠odo de vacina√ß√£o, sem citar, entretanto, as raz√Ķes para isso.

Em suma, acho bastante prudente esperar ao menos uma semana em abstinência alcoólica após a vacinação (isso não inclui abstinência sexual, gente!) apesar de não haver uma referência específica sobre o assunto (se alguém achar, por favor coloque nos comentários que, com certeza, vou ler e comentar). Vale a pena perder uma semaninha para poder tomar um vinho tranquilo no inverno que se aproxima, sem medo de pegar gripe suína.

Nota do Minist√©rio da Sa√ļde sobre a Vacina contra Gripe A H1N1

Apesar de um atraso de mais ou menos 2 meses, que foi quando come√ßou a boataria na internet e o come√ßo da vacina√ß√£o, o Minist√©rio da Sa√ļde finalmente divulga nota oficial desmentindo os mais “famosos” boatos sobre a vacina contra a gripe pand√™mica A H1N1. A nota tamb√©m cita, muito superficialmente, o fato de que alguns m√©dicos se posicionaram contra a vacina. O caso mais grave foi o da Sociedade Brasileira de Diabetes na figura do Dr. Ney Cavalcanti. √Č lament√°vel que um texto com opini√Ķes pessoais sobre um assunto com as propor√ß√Ķes da pandemia que ocorreu no ano passado possa figurar no site de uma sociedade t√£o importante como a SBD.

Sobre a histeria da vacina, o post definitivo saiu no Ceticismo
Aberto
. N√£o deixem de ler.

Aqui vai a nota na íntegra.

Continue lendo…

(E) Tome Vacina!

ResearchBlogging.orgHoje come√ßa a vacina√ß√£o de gestantes, crian√ßas de 6 meses a 2 anos e a popula√ß√£o com doen√ßas cr√īnicas e eu estou impressionado com o n√ļmero de manifesta√ß√Ķes alarmistas e falsas, contr√°rias √† vacina√ß√£o para a gripe pand√™mica. √Č uma desinforma√ß√£o completa em emails com v√°rios tamanhos de fontes, cores diferentes e grifos escandalosos. Infelizmente, “parte da desinforma√ß√£o vem de m√©dicos, incluindo infectologistas” afirmou um colega m√©dico infectologista. Vou tentar responder algumas perguntas do outro post e desfazer algumas fal√°cias mais frequentes nesses emails criminosos.

O ESCALENO

O Escaleno [1] √© um adjuvante usado nas vacinas da Novartis e GSK e tem sido usado nas vacinas da influenza sazonal em idosos desde 1997. Na Europa, aproximadamente 45 milh√Ķes de doses de vacinas contendo escaleno foram administradas. Segundo o relat√≥rio da ECDC, o escaleno √© uma subst√Ęncia natural encontrada em plantas, animais e humanos. Faz parte do metabolismo do colesterol e √© um componente da membrana das c√©lulas. √Č fabricado no f√≠gado e circula no sangue normalmente. Entre 60-80% do escaleno ingerido na alimenta√ß√£o √© absorvido no trato gastrointestinal sendo encontrado comercialmente em prepara√ß√Ķes como √≥leo de peixe – que √© usado em produtos farmac√™uticos ou ingerido in natura -, com√©ticos, in√ļmeras medica√ß√Ķes e suplementos nutricionais.

Alguns veteranos de primeira guerra do Golfo desenvolveram o que se convencionou chamar de Gulf War Syndrome e anticorpos anti-escaleno foram encontrados nesses pacientes levando a acreditar em uma poss√≠vel rela√ß√£o causal entre o escaleno que estaria na vacina contra Antrax que os soldados usavam e a s√≠ndrome (veja mais aqui). Entretanto, essa rela√ß√£o n√£o foi demonstrada, sendo descartada em detrimento a in√ļmeras outras como g√°s sarin, pesticidas organofosforados, brometo de piridostigmina, entre outros.

Segundo alguns m√©dicos, uma das fontes de d√ļvida √© que parece estar havendo um embate EUA vs Europa/OMS. Os primeiros n√£o est√£o usando escaleno como adjuvante na vacina para Influenza A H1N1 enquanto os europeus o est√£o utilizando. Compare s√≥ as informa√ß√Ķes das p√°ginas do CDC:  “There is no plan at this time to recommend a 2009 H1N1 influenza vaccine with an adjuvant” com a p√°gina da OMS: “Over 22 million doses of squalene-containing flu vaccine have been administered. The absence of significant vaccine-related adverse events following this number of doses suggests that squalene in vaccines has no significant risk.” A vacina Sanofi-Pasteur/Butant√£ n√£o contem escaleno. Como j√° dito, as vacinas da Novartis e GSK cont√©m o adjuvante.

ALERGIA A OVOS

Me perguntaram se uma criança alérgica a ovos pode tomar a vacina. A pergunta procede porque os vírus vacinais são propagados em ovos. A resposta do CDC:

“Perguntar se a pessoa tem algum efeito ap√≥s comer ovos ou alimentos preparados a base de ovos √© um bom m√©todo de saber quem pode ter riscos ao usar a vacina. Pessoas com sintomas como chiados, verg√Ķes pelo corpo, incha√ßo nos l√°bios e l√≠ngua e desconforto respirat√≥rio ap√≥s ingerirem ovos e derivados, devem consultar um m√©dico para uma avalia√ß√£o apropriada. Pessoas que t√™m a hipersensibilidade √†s prote√≠nas do ovo documentada (dosagem da IgE), incluindo as que t√™m asma ocupacional associada √† exposi√ß√£o √† prote√≠na do ovo, tamb√©m podem ter risco aumentado de desencadear rea√ß√Ķes al√©rgicas √† vacina contra influenza e uma consulta com um m√©dico antes da vacina√ß√£o deve ser considerada.” H√° estudos mostrando ser seguro aplicar a vacina da influenza sazonal – que tem o mesmo processo de fabrica√ß√£o – em crian√ßas. Recomendo fortemente uma consulta ao m√©dico respons√°vel pela crian√ßa para avalia√ß√£o da rela√ß√£o risco/benef√≠cio em se tomar a vacina sendo al√©rgico √† prote√≠na do ovo.

QUEM J√Ā TEVE H1N1 DEVE TOMAR VACINA?

S√≥ quem teve a gripe A H1N1 confirmada em rea√ß√Ķes sorol√≥gica (rRT-PCR) pode ser considerado imune √† gripe pand√™mica. Se a pessoa “acha” que teve a gripe, deve consultar o m√©dico que a assistiu para se certificar se as sorologias corretas foram realizadas e que o diagn√≥stico foi confirmado. Na d√ļvida, tomar a vacina n√£o causa nenhum mal, pois n√£o foram descritas rea√ß√Ķes em pessoas que j√° tiveram a doen√ßa.

O MEDO

√Č a t√īnica desse processo de vacina√ß√£o. As vacinas compradas pelo governo (que ali√°s est√° tendo um comportamento muito bom, apesar de todas as cr√≠ticas e erros), foram de fontes diferentes e t√™m componentes diferentes. N√£o h√° truque. N√£o h√° tentativa de enganar as pessoas. N√£o h√° inten√ß√£o de exterminar a ra√ßa humana da terra com as vacinas! Eu gostaria muito de uma vacina que exterminasse a desinforma√ß√£o e propiciasse o uso da racionalidade como guia, mas essa ainda vai demorar para ser fabricada e mesmo que fosse, ia ser uma “briga” enorme para vacinar todo mundo: as pessoas preferem ter medo de fantasmas.

[1] Lippi, G., Targher, G., & Franchini, M. (2010). Vaccination, squalene and anti-squalene antibodies: Facts or fiction? European Journal of Internal Medicine, 21 (2), 70-73 DOI: 10.1016/j.ejim.2009.12.001. (Baixe o artigo clicando na figura).


[2] Para saber mais sobre o escaleno (ou esqualeno) veja o post do Brontossauros.

Esclarecimentos sobre a Vacina para Gripe A H1N1

ResearchBlogging.orgEssa semana fiquei surpreso com o n√ļmero de pessoas, inclusive m√©dicos, que est√£o inseguros em rela√ß√£o √† vacina√ß√£o para a gripe pand√™mica. Por isso, mais um post sobre a vacina. Espero n√£o estar torrando a paci√™ncia de voc√™s. Vamos l√°:

Existem v√°rios tipos de vacina para a gripe A H1N1. Segundo o Minist√©rio da Sa√ļde, a Organiza√ß√£o Pan Americana de Sa√ļde (OPAS) fornecer√° 10 milh√Ķes de doses para o Brasil. O Governo j√° havia comprado, em novembro de 2009, o primeiro lote de vacinas com 40 milh√Ķes de doses fornecidas pelo laborat√≥rio Glaxo Smith Kline (GSK). Al√©m disso, encomendou 33 milh√Ķes de doses ao Instituto Butantan que as fabricar√° segundo transfer√™ncia de tecnologia negociada com o laborat√≥rio Sanofi-Pasteur. A vacina que eu tomei foi essa, Butantan-Sanofi Pasteur de v√≠rus inativado da cepa A/California/7/2009 (H1N1)v, propagada em ovo, com 15 őľg de hemaglutinina por dose plena. O tipo de vacina tamb√©m √© um dos determinantes do esquema de vacina√ß√£o proposto pelo Governo.

O que s√£o os adjuvantes?

Os componentes da vacina al√©m dos v√≠rus inativados est√£o dando o que falar. Em especial devido a “correntes” totalmente desinformadas que circulam por meio de spams nos emails por a√≠. Vamos √†s informa√ß√Ķes: Os adjuvantes s√£o subst√Ęncias que aumentam a imunogenicidade da vacina. Em tempos de pandemia, a quantidade de v√≠rus dispon√≠veis √© um fator limitante e os adjuvantes aumentam a capacidade de produ√ß√£o da vacina em 100 a 200%. Mesmo assim, isso pode n√£o ser suficiente. H√° dois tipos principais de adjuvantes: o esqualeno e os sais de alum√≠nio. A vacina Butantan-Sanofi Pasteur n√£o tem nenhum dos dois. A vacina da GSK tem o AS03, o esqualeno e ainda outro agente imunog√™nico, o tocoferol (vitamina D). Os adjuvantes foram testados na fabrica√ß√£o de vacinas da gripe sazonal e da H5N1.

E o tal de Timerosal?http://farm4.static.flickr.com/3178/2961464963_bb5df0fab8.jpg

Timerosal, ou em ingl√™s, thiomersal, √© o nosso antigo mertiolate. √Č uma tintura de merc√ļrio org√Ęnico com poderes antimicrobianos quando usado t√≥picamente. Foi retirado do mercado por causar uma ard√™ncia enorme nos ferimentos abrasivos e pela necessidade de retirada gradual dos produtos √† base de merc√ļrio por raz√Ķes ambientais. O timerosal √© usado nas vacinas na manufatura e para evitar a contamina√ß√£o do produto final. A vacina pand√™mica tem mais ou menos 2,5 a 50 őľg timerosal por dose como preservativo. O timerosal contem 49,6% de merc√ļrio (ou seja, 1,25-25 őľg de merc√ļrio por dose). Essas doses s√£o consideradas baixas e aproximadamente 1/4 da ingest√£o m√°xima di√°ria para uma pessoa de 60 kg. Muitas pessoas, inclusive alguns vizinhos meus, s√£o al√©rgicos ao timerosal. E agora? Podem tomar a vacina ou n√£o?

Segundo o relat√≥rio abaixo [2] e um especialista em vacina√ß√£o que consultei, as alergias de contato ao timerosal N√ÉO contraindicam a vacina√ß√£o. Existem tipos raros de alergia ao composto nos quais o paciente apresenta sintomas sist√™micos, por exemplo, angioedema (incha√ßo na boca e face), broncoespasmo (chiado no peito), urtic√°ria (verg√Ķes na pele). Nesse caso, a alergia √© mais importante e a vacina est√° contraindicada. Na d√ļvida, √© sempre melhor perguntar ao seu m√©dico.

Essa vacina, afinal, é segura?

Vou citar o relat√≥rio novamente: “Baseado em informa√ß√Ķes recebidas de 16 pa√≠ses, a OMS estima que por volta de 80 milh√Ķes de doses da vacina pand√™mica foram distribu√≠das e aproximadamente 65 milh√Ķes de pessoas foram vacinadas. Campanhas de vacina√ß√£o globais t√™m se utilizado de vacina com e sem adjuvantes, com v√≠rus atenuados e inativados (este √ļltimo grupo n√£o licenciado na Europa). Apesar da intensa monitoriza√ß√£o sobre a seguran√ßa das vacinas, todos os dados compilados at√© o momento, indicam que as vacinas pand√™micas gozam do mesmo excelente perfil de seguran√ßa que as vacinas sazonais, as quais tem sido utilizadas por mais de 60 anos.”

Nesse ponto, acho que fomos beneficiados por estarmos no hemisfério sul. Dessa vez, testaram lá antes.

[1] Atmar RL, & Keitel WA (2009). Adjuvants for pandemic influenza vaccines. Current topics in microbiology and immunology, 333, 323-44 PMID: 19768413
[2] European Centre of Disease Prevention and Control
. [link]

Figura retirada daqui.

Atualização

V√°rias perguntas feitas nos coment√°rios foram respondidas no novo post. Por favor, deem uma checada para n√£o nos tornarmos repetitivos, ok?

 

Hoje Começa a Vacinação contra a Gripe A H1N1

No Hospital das Clínicas, eu quase fui filmado pela Globo!! (Te cuida, Tiago Lacerda). Tomei minha vacina e recomendo a todos, que não tiveram gripe suína, a tomar também. Segue a medaglia da campanha. Vou deixar no Blogroll.

Emo√ß√Ķes e a Vacina da Gripe A H1N1

O inverno foi turbulento no hemisf√©rio norte. N√£o pelas nevascas, nem pelas altera√ß√Ķes de temperatura, mas muito mais no que concerne √†s pol√≠ticas relacionadas √† pandemia da gripe su√≠na. A OMS, em meio a acusa√ß√Ķes de interfer√™ncias da BigPharma em suas decis√Ķes “pand√™micas”, prepara um pronunciamento cuidadoso sobre a “segunda onda” para n√£o “baixar a guarda dos governos” (sic). Vacinas sobram nos pa√≠ses e os governos n√£o sabem o que fazer com elas. Alguns doam. Pouca gente fala da “nova” gripe e a sensa√ß√£o √© de “fim-de-festa”.

O argumento √© que a epi(pan)demia n√£o foi o que esper√°vamos, principalmente no que se refere √† letalidade. Como n√£o foi? Car√≠ssimos leitores, o inverno de 2009 foi um dos per√≠odos em que mais trabalhei na minha vida! Eu vi o bicho de frente. Insisti nas hip√≥teses n√£o catastrofistas por acreditar (e saber) que gripe sazonal mata pra caramba tamb√©m, al√©m de dengue, febre amarela, mal√°ria e outras cositas desse meu Brasil varonil. Mas o neg√≥cio n√£o foi brinquedo, n√£o! Gente doente + Paranoia = Caos! Tentativas de respirar e pensar com calma foram vistas como peleguismo a favor do minist√©rio da sa√ļde. Teorias conspirat√≥rias, informa√ß√Ķes desencontradas, m√©dicos, autoridades e pessoas batendo cabe√ßa, formaram um cen√°rio pat√©tico com uma real sensa√ß√£o de fim-de-mundo!  Apesar da letalidade da nova gripe n√£o ser comprovadamente maior, sim, existiam perguntas que ainda precisariam ser respondidas. A principal delas √© que trata-se de um v√≠rus desconhecido ao qual os seres humanos s√£o extremamente suscet√≠veis. E assim terminamos 2009.

E eis que surge a vacina. N√£o que eu esperasse fogos de artif√≠cio, banda na rua, feriado nacional, mas tamb√©m n√£o precisava ser surpreendido por uma enxurrada de questionamentos sobre “quais os argumentos racionais temos para se tomar a vacina contra gripe A H1N1”! Descobri que m√©dicos de outros pa√≠ses passaram pelo mesmo problema. Fiquei pensando bastante sobre isso e conclui que: o principal argumento racional para se tomar a vacina √© a pr√≥pria irracionalidade com que a epidemia foi enfrentada no inverno passado! Ou as pessoas v√£o querer passar pelas mesmas afli√ß√Ķes? A vacina tem problemas? Tem. Como qualquer vacina! Ou vamos deixar de tomar a dupla adulto a cada 10 anos ou parar de vacinar os pequenos em fun√ß√£o de seus efeitos colaterais? Mas que raio de racioc√≠nio √© esse? “N√£o vou tomar a vacina porque √© nova e n√£o sei exatamente de seus efeitos”. Mas essa √© a mesma raz√£o do porque a gripe A H1N1 √© perigosa”: √© nova e n√£o sei de seus efeitos! Talvez a m√©dica americana que escreveu isso tenha mesmo raz√£o: “The dramatic shift in public sentiment over the course of this H1N1 epidemic is both fascinating and frustrating. It is clear that there is a distinct emotional epidemiology and that it bears only a faint connection to the actual disease epidemiology of the virus.” Epidemiologia emocional diferente da real. Nem desespero na √©poca da epidemia, nem descaso agora, por favor! Um pouco de temperan√ßa (√† √©poca da epidemia) e de prud√™ncia (agora) n√£o fariam mal.

Volta e meia, algu√©m me chama de “v√©io” carinhosamente no Twitter. Se ser velho √© ficar, um pouco que seja, intolerante, acho que eles t√™m raz√£o. Eu vou tomar vacina e dar aos meus filhos.

Para ler mais:

1) Portal da Bireme sobre H1N1.
2) Portal da OMS. (inglês)
3) FAQs do CDC sobre vacinação da gripe suína. (inglês)
4) Sobre a utilidade da vacinação (em francês).
5) Informa√ß√Ķes do Minist√©rio da Sa√ļde.