Clavícula

Da série “textos que eu gostaria de ter escrito” segue este. Créditos ao final.

“Clavícula?…” 

A palavra hesitante do calouro mais afoito rompe o silêncio nervoso e escorre pelas paredes de azulejo branco do anfiteatro do velho Instituto Anatômico, em resposta à primeira pergunta de um curso de Medicina de seis anos. Na véspera, o vetusto catedrático deixara na bancada de aço inoxidável esse osso singular, que há mais de trinta anos abre seu Curso de Introdução à Anatomia Humana, junto à pergunta, “Alguém pode identificar?” 

“Clavícula,” repete o calouro, agora mais seguro de si. 

“Clavícula, sim. Em latim, ‘pequena chave’. Algum dos doutores pode me explicar por que? Será pela semelhança do formato?…” 

À distância, os futuros médicos procuram ansiosamente alguma similitude formal entre aquele osso solitário e qualquer outra chave do seu cotidiano. Com um gesto magistral, generoso, o catedrático entrega-o aos jovens da primeira fila, que passam o objeto de mão em mão, entreolhando-se, céticos, envergonhados. 

“…Quiçá. Porém sabiam também os anatomistas clássicos que a clavículaé o primeiro osso a se formar no feto, e o último a se desvitalizar no cadáver. Portanto, a clavícula é a pequena chave que abre e fecha a vida.” 

O silêncio volta ao anfiteatro. Alguns calouros estão até com os olhos marejados. Mas é só o cheiro de formol nas paredes. Eles ainda vão se acostumar..

Retirado da tese de doutoramento de Christopher Robert Peterson, 1999 que pode ser acessada aqui.

Auto-Autópsia

B body

Um cirurgião torácico, muito bom por sinal, me chamou para um café. Normalmente reservado, contou que não tinha problemas de saúde exceto pelo fato de que dormia mal. Ao me ver interessado, ele começou a desfiar histórias de alguns pacientes que, pensava, ao proceder de maneira incorreta, de alguma forma os havia prejudicado. Depois, contou que acordava frequentemente durante a noite e ficava pensando nos casos recentes que havia operado. Será que se fizesse isso ou aquilo, não seria melhor? Talvez essa técnica ou outra… E que aquela confabulação toda lhe tirava o sono e o dia seguinte era terrível e cafeínico. E ao dizer isso, abriu os braços para a xícara apoiada no balcão como que a justificar aquele que seria talvez o sétimo ou oitavo cafezinho do dia. Tal situação se agravara recentemente. Tomou o restante da xícara de café e raspou o açúcar do fundo com a colherinha que depois levou à boca como um micro-picolé. Assim, desse jeito, cercou-se de um ar pueril e frágil em franco contraste com alguém capaz de extirpar minhas costelas. Eu ri.

Ele não. Suspirou e disse que uma semana atrás, numa noite de terça-feira, dormira “anormalmente” bem. E sonhara, coisa que há muito não acontecia. Entretanto, era agora a lembrança do sonho que não lhe saía da cabeça. Eu perguntei se poderia contá-lo e ele disse que sim, quem sabe eu o poderia ajudar a interpretar?

Sonhou que estava à cabeceira de um cadáver parcialmente dissecado e que mostrava os órgãos internos a um grupo de alunos. Dizia para observarem as estruturas do coração com suas câmaras e a irrigação característica. Mostrava os vasos e vias aéreas do hilo pulmonar com sua disposição arbórea. Mostrava os pulmões com a antracose característica dos fumantes e dos moradores urbanos. De repente, ao chegar ao abdome, disse que não poderia prosseguir e ao virar o rosto do cadáver, viu que o corpo não era outro senão ele mesmo. Sentiu-se mal, percebeu que estava sonhando e fez aquele esforço característico em acordar, despertando suado e taquicárdico.

Disse que contou o sonho a uma paciente e que ela o interpretou como sendo uma demarcação dos limites daquilo que ele poderia fazer. Ao chegar ao abdome, território fora de sua especialidade basicamente restrita ao tórax, ele teve que interromper a aula. Eu concordei mas achava que havia algo mais. O fato de ser ele o examinado talvez deixasse transparecer uma possível reflexão crítica de seus próprios atos. Talvez, o mais interessante seja que para um cirurgião – alguém que “pensa” com as mãos – uma reflexão crítica venha a se concretizar como uma “auto-autópsia”. (Antes de me esquartejarem por essa aberração, lembremos que o significato original de autópsia é “ver com os próprios olhos”, o que, ao menos em parte, justifica a superposição dos termos. A expressão no título é provocativa e descaradamente apelativa ;)).

Ele pensou e me perguntou o que fazer com essas dúvidas que o atormentavam. A cada dia que passava, mais pacientes ele operava e mais dúvidas ele tinha. Percebi que esse era um daqueles momentos capitais nos quais é preciso resistir à violenta tentação de uma consolação barata qualquer. Evitar aquilo que já foi chamado de solicitude inautêntica por restringir a liberdade de escolha do outro. Fiz duas coisas, então. A primeira foi lhe dar boas vindas ao meu mundo. A segunda foi disparar o bordão: “Quem mandou não estudar!”.

Conversa de Médico

O Clínico e o Cirurgião

Um diálogo (quase) real entre um clínico e um cirurgião. Para entender mais detalhes, comece lendo aqui. Encontram-se nos corredores de um grande hospital. Um chama o outro para tomar um café necessário àquela altura da tarde, quando o cansaço começa a atravessar a noção de risco …

Clínico (gaiato): – A cirurgia vai acabar, hehe – e toma um gole de café esfumaçante.

Cirurgião (sem mudar o semblante): – Magina. Isso é o que vocês, clínicos, querem.

Clínico: – Veja o que aconteceu com a cirurgia cardíaca. Hoje, cirurgião cardíaco só opera os casos muito complicados. Com a chegada da cardiologia intervencionista houve uma redução drástica do número de procedimentos cardíacos abertos. Hoje é tudo minimamente invasivo. Tudo por cateter.

Cirurgião (sorrindo): – É verdade. Mas não tem como não operar. Estamos ainda no século dos cirurgiões!

Clínico: – Pra você ver como a medicina está atrasada… Mas já melhoramos. Antes, vocês operavam úlcera péptica. Aí, os “clínicos” inventaram uma medicação que, tomada pela boca, na forma de um comprimidinho inofensivo, cura a úlcera e vocês ficaram a ver navios.

Cirurgião: – Nada. Aí, nós “inventamos” a cirurgia para obesidade, hehe.

Clínico: – Verdade. Mas, vamos inventar um remédio que faça emagrecer definitivamente, pode ter certeza.

Cirurgião: – Não duvido. Até lá, estarei aposentado. Prefiro assim que ficar enrolando os pacientes como vocês clínicos fazem.

Clínico: – Enrolar ?! Nós não enrolamos ninguém!

Cirurgião: – Ah, não enrola? Tá bom. Então me diz quando foi a última vez que você escreveu num resumo de alta hospitalar que o paciente estava curado? Vocês só marcam o melhorado e o óbito.

Clínico: Buscando pela memória. Volta-se com olhar frustrado. Quando ia balbuciar algo é interrompido pelo interlocutor que cresce à medida que toma o controle do debate.

Cirurgião: – Não é possível curar alguém sem tirar alguma coisa, emendar alguma coisa ou desentupir alguma coisa no organismo da pessoa. Conscientize-se disso.

Clínico: – Pode ser. O problema é que a cirurgia deve ser encarada como uma forma de tratamento como outras que existem. Há o tratamento endoscópico, o medicamentoso e o cirúrgico, por exemplo. O grande problema da cirurgia, pensando dessa forma, é o conflito de interesse entre quem prescreve o tratamento e quem o realiza. São a mesma pessoa!

Cirurgião: (um pouco surpreso com o contragolpe) – É por essa razão que temos que indicar bem as cirurgias.

Clínico: – Claro. Mas o problema é irredutível. O julgamento clínico estará para sempre comprometido pelo fato de que quem decide é quem faz. Algumas especialidades e alguns grupos passaram a decisão de operar ou não para equipes multiespecialidades, com clínicos e profissionais não-médicos inclusive. Alguns grupos de transplantes, por exemplo, são assim.

Segue-se um momento de pequeno silêncio. Ambos com as xícaras coladas aos lábios e com olhar perdido em pensamentos.

Clínico: – Se eu tiver uma apendicite, VOCÊ me opera, Ok? Laparoscopia. Sem pedir tomografia, hehe.

Cirurgião: – Ok. Mais três cafés e a conta!

Clínico: – Epa! Você vai ter arritmia de novo, hein? hahaha

Cirurgião (pagando a conta): – Tenho um bom clínico… – e piscou o olho para o ortopedista que acabara de chegar.

Futebol, Shopping e Medicina

http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/uploads/2008/10/futebol_de_varzea_foto_gilsoncamargo_piraquara_brasil1.jpg“Quando eu era criança pequena”, morava no Butantã, bem ali, na entrada do campus da USP. O trânsito da região era bem outro e costumávamos jogar bola no asfalto da Rua Catequese. Mas esse “estádio” era para embates de pequeno porte. Os grandes clássicos eram disputados no “Areião”, pois era a única cancha que comportava um “11×11” ou mesmo “12×12”. Mas, isso era um evento raro. Eram necessários muitos moleques e o que acontecia apenas de vez em quando. Além do que, para irmos ao “Areião”, era preciso atravessarmos a ponte Eusébio Matoso que cruza a Marginal do Rio Pinheiros e depois a própria Eusébio, o que mesmo para essa época, já não era muito simples.

Aos fins-de-semana, o “Areião” era impossível para nós. Os campos, num total de nove, eram tomados por legiões de times amadores, marmanjos, que jogavam até acabar a iluminação natural. Ficávamos olhando e, como eles punham redes nos gols, aproveitávamos os intervalos para chutar bolas e bater alguns pênaltis, com intuito único de “estufar o barbante”, até sermos enxotados pelos grandalhões, e voltar a nossa posição de espectadores.

Eis que, um belo dia, depois da aula, resolvemos bater uma bolinha no “Areião”, não tínhamos um time completo mas, mesmo assim, optamos pelo “estádio” para nos acostumarmos ao gol oficial. Bicicletas, bola, o Rogério foi em casa pegar as luvas, tudo pronto. Alguns iam na garupa da Caloi, em pé; outros “tabelando” pela calçada. Atravessamos a ponte, depois a Eusébio Matoso, que não tinha passarela e começamos a notar uma movimentação anormal. Ao nos aproximarmos, a surpresa. O “Areião” estava tomado por tratores, máquinas escavadeiras e caminhões. Os gols haviam sido arrancados e jaziam, empilhados num canto. O Edvaldo cogitou levar um. Perguntamos na casa de quem ia ficar e ele desistiu. A mãe dele era muito brava. Saímos cabisbaixos, com o Edvaldo praguejando contra as poderosas máquinas e contra quem as mandara destruir nossa querida praça esportiva.

Logo um enorme shopping center foi construído e inaugurado no ano seguinte (1981). Ficamos sem os campos de futebol mas, ganhamos cinema, sorveteria. Restou, porém, uma enorme nostalgia dos campos do “Areião”.

X – X – X – X – X – X

A secretária colocou o seu Manuel, 88 anos com sua cuidadora no consultório. Muito bem vestido, de terno e gravata, apesar das sequelas motora à direita e de fala, contou, com um identificável sotaque português, toda sua história com detalhes impressionantes. Fora dono de uma grande rede de supermercados, bastante famosos em São Paulo. No final da década de 70, entrou num empreendimento revolucionário e bastante ambicioso. Devagar, foi me contando de sua vida, o estresse enorme que passou na época, até que, finalmente, disse que teve um derrame 15 dias após a inauguração de seu maior projeto: um shopping na zona sul, às margens da Marginal Pinheiros! Eu não aguentei e disse: – Seu Manuel, desculpe, mas o Edvaldo não teve a intenção!

Foto de Gilson Camargo.

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