'Chi se ne frega'?

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Não vou mais a congressos na Europa. Quer dizer, pelo menos não na área ambiental. Bom, ao menos que não me convidem e me paguem tudo.
O 27th ESCPB foi uma grande reunião de amigos. E o prazer das pessoas em se encontrarem no país com a melhor comida e bebido do mundo, foi inversamente proporcional a qualidade científica da reunião. Se vocês viram as fotos do jantar social no “Alii Due Buoi Rossi”, então podem imaginar que foi realmente ruim (o congresso, vamos deixar claro. O jantar foi maravilhoso).
O que acontece, na área ambiental, é que ninguém realmente desenvolve trabalhos de base sobre os mecanismos fundamentais de ação de poluentes, ou sobre as vias metabólicas e de biotransformação. Tudo isso vem dos trabalhos biomédicos. Assim, ninguém é realmente ‘autor’ dos mecanismos que está investigando. Todo mundo, pega ’emprestado’ esses mecanismos e tenta explicar ‘efeitos’ que encontram ao expor os organismos, quaisquer que eles sejam, aos poluentes (quaisquer que eles sejam também).
Mas fazer ciência nesse mundo ‘high tech’ e ‘politicamente correto’ está cada vez mais caro. E por isso, também, obter amostras está cada vez mais difícil. E com isso, o número de amostra dos trabalhos, o ‘n’, é muito baixo. E quando o ‘n’ é baixo, a margem de erro das conclusões é muito grande. Tão grande, que as vezes não deveriam nem mesmo concluir nada.
A construção dos mecanismos de ação de uma substância poluente, que poderia fornecer informações gerais do interesse de todos, ao invés de ser o ‘alvo’ das pesquisas, são, ao contrário, tomadas emprestadas de outros autores como pressupostos para apresentar dados que tem um poder de explicação fraco sobre os efeitos de substâncias. Na verdade, dados que podem se adaptar ao modelo ‘pressuposto’ mas provavelmente a outros modelos também, porque o alvo da pesquisa é o efeito e não o modelo.
É como no teste de Rorschach, onde como base na figura que mostram cada um pode ver o que quiser. As conclusões desses trabalhos com ‘n’ baixo e desenho experimental/amostral precário podem ser lindas, mas são pouco, muito pouco úteis. E, também como no teste de Rorschach, informam muito mais sobre o pesquisador, do que sobre a própria pesquisa.
Isso sem contar as qualidade das perguntas, cientificamente conhecidas como ‘hipóteses’. Quando não são simplesmente ruins ou mal feitas, são pouco interessantes (chatas mesmo) ou de interesse muito, muito restrito.
Mas, ‘chi se ne frega’? Mas “quem se importa?”
Passamos duas taças de vinho ensinando essa frase para um dos pesquisadores americanos fodões presentes ao congresso, durante o ‘aperitivo’ que é como chamam os italianos chamam o ‘happy hour’. E a verdade é que ninguém no congresso se importava com a qualidade dos trabalhos apresentados. Tanto visual como científica.O corporativismo está matando a ciência!
Ao final das apresentações, cada perguntava começava sempre com “Fulano, muito obrigado por essa bela/interessante/importante apresentação”, enquanto a pergunta que não queria calar era: “como você tem coragem de apresentar isso em um congresso internacional?”
Porque ninguém procura questionar os modelos utilizados? Questionar os pressupostos? Ou, pelo menos, como fazer ciência está caro demais, não usamos os poucos dados que podemos obter para tentar ‘negar’ os modelos pressupostos? Esse é o princípio da ‘hipótese nula’ de Poper, através do qual a ciência tanto avançou no século XX. A tentativa de demostrar que um modelo não funciona é capaz de fornecer dados mais contundentes sobre a sua veracidade do que as pífias tentativas de confirmá-lo. Isso porque 1 (uma), apenas 1 (uma) observação é suficiente para questionar um modelo, enquanto nem mesmo milhares, milhões de observações, são suficientes para comprová-lo.
Mas então porque ninguém faz?
A reposta é complexa. Um misto de preguiça, dureza, irresponsabilidade e politicagem. O mecanismo de tomada de decisão na agências científicas, pelas ‘cabeças pensantes da ciência’ (ou a ‘inteligenza’ como diz meu tio) é tão complicado quanto a via de sinalização do cálcio dentro da célula.
“O fim da ciência”, como escreveu John Horgan, não está próximo por falta de coisas para descobrir, está próximo por falta de carinho dos cientistas para descobrí-las.

Discussão - 6 comentários

  1. Nome Obrigatório disse:

    Herr… Eu vi uma mulher pelada nesse teste de Rorschach. Alguém mais? >_>

  2. Mauro Rebelo disse:

    Tem sempre um engraçadinho…

  3. Diego Vega disse:

    Sem querer livrar a cara dos cientistas “folgadões”, mas a lógica científica que obriga o sujetio a publicar incessantemente, e apresentar essas publicações em congressos, não favorece esse comportamento?
    Afinal, cria-se um grupo que avalia, e autoriza qualquer porcaria, para dar validade aos profissionais do “clube”. Se os cientistas pudessem trabalhar com tranquilidade e dedicação na construção do conhecimento, e não para mostrar que trabalham muito para tentar construir conhecimento, isso poderia ser resolvido. Não?

  4. Luís Brudna disse:

    Troca de elogios. Vc elogia o meu que eu elogio o teu.
    Tem o parente ´vc finge que ensina e eu finjo que aprendo´.

  5. Luciane disse:

    O que me preocupa eh que a cada dia sao formamos mais e mais “doutores” por esse tipo de cientista manco; cientista sem ferramentas, sem conhecimento do metodo cientifico, sem criterio, sem senso critico e sem vergonha. Mas… “Brasil ruma ao ‘top 10’ de artigos científicos, diz presidente da Capes”… como soa bem no exterior, nao? Tudo uma vergonha!

  6. Hugo disse:

    Cientistas são seres humanos, falíveis e sensíveis em seu orgulho. Eles levam pro lado pessoal se você disser que o modelo que eles usam está errado.
    Outro dia assisti um colóquio com Douglas Osheroff, que descobriu a superfluidez em He3. Ele submeteu um artigo com os dados experimentais e uma explicação errada, que foi aceito imediatamente. Depois, quando tentou publicar a explicação correta, o artigo, que mais tarde lhe renderia o prêmio Nobel, foi rejeitado duas vezes no Physical Review Letters.
    A ciência está repleta de exemplos assim. Quem não se conforma com as normas e conceitos estabelecidos é visto como um criador de problemas. Penso que na verdade muitos destes rebeldes são os heróis e mártires da ciência. Enquanto isso, muitos professores titulares chegaram ao estado de “autoridade científica” por mera bajulação.

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