"Você sabia?" (Mas quem foi que te disse?)

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Com esse bordão, a ZYJ 465 ‘Rádio Relógio Federal’ do Rio de Janeiro AM 580 Khz tocava curiosidades diversas enquanto a bela voz da bela modelo e locutora Íris Lettieri (a voz do aeroporto internacional do Rio) anunciava a hora minuto-a-minuto. Eu era criança e me lembro de várias vezes ficar, realmente, ouvindo o tempo passar.
As curiosidades da radio relógio, como as que você pode ouvir no trecho acima, vinham de enciclopédias, essa maravilhosa e ultrapassada invenção do iluminismo francês. Eu me pergunto, se nessa época alguém questionava a validade das informações colocadas nas enciclopédias ou divulgadas na rádio relógio.
Como eu já falei aqui, hoje em dia nosso maior problema não é obter informação, mas saber se podemos ou não confiar nela. E estou muito atento a isso.
Entao, agora que estou preparando a aula de abertura do ISMEE e queria usar ‘aquela’ citação, ‘daquele’ cara, que vi ‘naquele’ video, que falava ‘daquela’ coisa, você sabe qual é? (1) Odeio quando meus alunos usam pronomes demonstrativos por falta de vocabulário ou por falta da informação correta. Então não podia fazer isso também. Fui correr atrás da informação correta.
Aquela‘ citação era: “as 10 profissões mais solicitadas de 2010 não existiam em 2004” (the top 10 in-demand jobs in 2010 may not have existed in 2004). E era seguida por uma outra, que é a que eu mais gosto: “Nós estamos preparando estudantes para empregos que ainda não existem, para usarem tecnologias que ainda não foram inventadas, para resolverem problemas que nós ainda não sabemos que são problemas” (we are currently preparing students for jobs that don’t yet exist, using technologies that haven’t been invented yet, in order to solve problems we don’t even know are problems yet) e o vídeo era “Did you know? Shift happens” (Você Sabia? Mudanças acontecem), esse mega hit do Youtube, aqui em uma das suas muitas versões.

Apesar de ser esse grande sucesso, eu tive um trabalhão pra achar o vídeo de novo, porque obviamente apaguei o e-mail de ‘quem quer que tenha mandado’ porque sempre apago, geralmente sem ler, e-mails que me mandam ver algum vídeo. Bom, e provavelmente por alguma incompetência em procurar coisas no youtube também.
O vídeo é realmente instigante. Até mesmo chocante. Mas para usar aquelas informações (se é que alguém no planeta ainda não viu o vídeo – ou justamente porque todo mundo já viu), eu tinha que verificar o que estava sendo dito ali.
A primeira tarefa foi descobrir o autor do vídeo. Não foi tão difícil chegar até Karl Fisch, professor e adminstrador da Arapahoe High School nos Estados Unidos. Esse professor veterano todos os anos dava uma palestra para os professores sobre as novidades em tecnologia na escola, para que eles soubessem o que poderiam usar durante o ano letivo. Mas em 2006 ele resolveu fazer algo diferente e preparou uma apresentação sobre para onde ele achava que ‘eles’, enquanto escola, deveriam ir.
Ele alcançou o objetivo, fazer seus professores pensarem a respeito das questões que o inquietavam, e muito mais. Como eu disse, milhões de pessoas assistiram o vídeo na internet. Como um cara conectado, Karl rapidamente liberou os direitos da apresentação para que fosse editada, modificada, alterada, copiada, duplicada, reproduzida e replicada. E felizmente se preocupou em organizar e divulgar as fontes de TODAS informações contidas na apresentação, documento que pode ser encontrado no seu blog.
Mas que surpresa quando justamente a referencia para as citações que eu queria usar não estavam lá. Em princípio ele estava justamente citando outra pessoa, Ian Jukes um especialista no uso de computadores na educação e responsável pelo projeto ‘um laptop por criança’ (One Laptop per child) de inclusão digital. Bom, mas o Ian também estava citando alguém, e consultado algumas fontes, chegamos a conclusão que todos estavam replicando o que havia sido dito pelo ex-secretário de educação dos Estados Unidos Richard Riley, no livro “The Jobs Revolution: Changing How America Works” (a revolução dos empregos: mudando como a américa trabalha) publicado em 2004 por Gunderson, Jones e Scanland.
Bom, pra terminar a história, parece que não é verdade. Dois sites, esse e especialmente esse, fizeram um amplo trabalho de pesquisa sobre cada afirmação do vídeo. Com algumas imprecisões, muita coisa é verdadeira, mas no caso dos ’empregos’, alguém cometeu uma gafe ao publicar em 2009 dados de uma previsão de 2004 que já poderiam ter sido verificados e considerados equivocados. Isso porque o ministério do trabalho americano já havia publicado, em 2009, uma lista com as 10 profissões mais procuradas. As 5 primeiras eram:

  • Enfermeiras
  • Gerentes gerais e de operações
  • Médicos e cirurgiões
  • Professores do ensino fundamental
  • Contadores e auditores

Verdade seja dita, essas profissões não só existiam em 2004, como em 1904 também. Mas verdade ainda maior, não consegui confirmar essa informação no site do ministério do trabalho dos gringos.
O que me diz a minha experiência e meu bom senso? Como já discutimos aqui, o Brasil tem um deficit gigante de professores de física para o ensino fundamental. E eu não tenho dúvida que quem se formar professor de Física pelos próximos 10 anos terá emprego garantido. Mas também sei que alguém que se formar em Biotecnologia ou Tecnologia da informação terá um emprego e um salário melhor do que alguém que se forme apenas em Biologia ou em Física.
Existem sim novas carreiras, novas tecnologias e novos problemas. Mas elas não substituem as antigas: elas se acumulam as antigas. Para cada biofísico que precisarmos, precisaremos de mais dois biólogos e três físicos. É provável que o biofísico, biotecnólogo, tenha um ‘valor agregado’, da mesma forma que o suco de laranja tem mais valor agregado que a laranja no pé.
O que nós NÃO podemos, nesse mundo cheio de novos desafios e saturado de informação, é descuidar das nossas fontes. A frequencia com que uma informação aparece serve para endossar essa informação.
1 – Não tinha um comercial que fazia uma sátira a isso? Eu acho que era com a Fernanda Torres, ou com a Montenegro, mas pode ter sido também a Marília Pera. Novamente estou sendo impreciso, mas queria muito usar esse comercial em uma aula. Alguém sabe de qual estou falando? Se souber pode deixar um comentário?

Bob Marley, Abrahan Lincoln e a credibilidade da Internet

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Não dá pra confiar em tudo que aparece na internet.
Tudo bem, isso a gente já sabe. Mas quando o acaso me levou a uma informação em princípio banal, mas que avaliada com um pouco de profundidade mostrou o quão levianas podem ser as publicações e atribuições na grande rede, eu me assustei.
Outro dia, escrevendo uma carta, disse que a melhor forma de evitar a decepção com relação a uma pessoa, era conviver com ela em público. Por que, continuava, fazendo referência ao grande Bob Marley, “nós podemos enganar algumas pessoas por algum tempo, mas não podemos enganar todo mundo, o tempo todo”.
Fiquei pensando um minuto sobre a profundidade da frase e, sem querer desmerecer o guru do movimento Rastafari, pensei: mas será que foi mesmo o Bob Marley que falou isso? Ou ele já estava citando alguém?
A citação está na canção “Get up, Stand up” de Bob Marley e Peter Tosh, que apareceu no álbum Burmin’ de 1973: “You can fool some people some time, but you can’t fool all the people all the time”. Mas como canções não trazem referências bibliográficas, eu fui perguntar pro oráculo: o google.
Descobri então vários sites de citações que atribuiam a célebre frase ao célebre 16o presidente americano Abrahan Lincoln (1809 – 1865). Lincoln teria dito a célebre frase em um discurso na cidade de Clinton, no estado americano de Illinois, no dia 2 de Setembro de 1858, durante uma série de debates com o também candidato ao senado Stephen Douglas.
A frase original seria “You can fool some of the people all of the time, and all of the people some of the time, but you can not fool all of the people all of the time”.
Porém, uma pesquisa ainda um pouco mais profunda mostrou que não, não foi Lincoln. Nenhum jornal da época confirma que ele tenha dito isso durante esse discurso. Os sites sobre a série de debates nem mesmo relacionam a cidade de Clinton (o discurso teria sido em Quincy em 27 de Setembro de 1858). Em uma pesquisa do professor de história americana David B. Parker, a primeira atribuição formal, por escrito, da frase a Lincoln está em uma edição do The New York Times de 1887. Antes disso não há nenhum registro da citação por escrito, seja para Lincoln ou qualquer outra pessoa. Ainsworth Spofford, que foi o diretor da Biblioteca do Congresso americano por muitos anos, por indicação do próprio Lincoln, e que disse que ele nunca havia dito aquilo.
Finalmente a frase é atribuida a Phineas T. Barnum, diretor do famoso Ringling Bros. Barnum and Bailey Circus, e que era amigo pessoal de Lincoln. Barnum era um homem do espetáculo, e vivia em um ambiente onde a frase já seria mais apropriada. Mas ele também era autor de livros e político amador. Muitas referências apontam para ele. Mas ainda há quem diga que foi o escritor Mark Twain ou um jornalista qualquer que criou a frase e colocou nos lábios de Lincoln.
Eu já escrevi aqui sobre a credibilidade na internet. Mas o mais importante é a questão do critério do leitor, que eu já discuti aqui e aqui. A importância de formar um público leitor capaz de avaliar a credibilidade da informação na internet é determinante para a inclusão digital e é um trabalho da escola, mas também uma responsabilidade da comunidade científica. Sem educação científica não há inclusão digital!
Numa série muito bacana de artigos sobre os professores do futuro no blog Inclusão Digital da escritora Sonia Rodrigues, ela cita uma entrevista com o escritor e filósofo italiano Umberto Eco, que disse: “Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.”
E um desafio para nós!

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