Valsa e Vaidade

Dragonfly Vanity Waltz (2009) Amy Crehore
Viramos um século e a medicina ainda carece em exibir-se em valsa e vaidade? Que diferença existe afinal entre o cristão culpado e o médico fragilizado pela morte do doente? Por que ainda precisamos agir como adultos carentes e aflitos por uma aprovação externa de comportamento que supostamente nos carimba a dignidade?”
S.R. Madalena

Velhos temas. Nossa “adversária“, “inimiga” Morte, transmutou-se; evadiu-se. Saiu da cama de hospital onde, aliás, deitou na França do século XVIII, e ganhou as vitrines dos shoppings, o brilho dos gadgets, o fetiche das tecnologias do corpo, como uma profecia benjaminiana. O início do relacionamento do médico com a morte já começa errado: um de cada lado do ringue? Devíamos caminhar abraçados ou melhor, “de cavalinho”. Seria a morte o que nos resta de humano numa sociedade pós-mortal?

Não é o caso de uma aprovação externa, não. É dentro. Está mais para uma exegese do “Corpus Hippocraticum” uma mistura de juramento, ciência e consciência na forma de um chip implantado à prestação durante os 6 anos de faculdade e os 3 de residência – à procura de falhas. Treina-se a “pensar/sentir” assim… E tem razão quem diz que não há “diferença entre o cristão culpado e o médico fragilizado pela morte do doente”.

De onde viria a libertação? E não me venham com ciência médica. Ela alivia e ameniza o sofrimento do médico. Diretrizes são sempre mais seguras que assumir o peso de uma decisão. Mas os velhos lobos do mar sabem que isso não é suficiente…

O segredo talvez seja saber largar… Um desprendimento, na verdade, uma dequitação porque descola, mas tira sangue. E aí, Amy Crehore mata a pau: A vaidade, a valsa e a “libértula”.

Ondas

Essa vida de blogueiro vai ensinando algumas coisas pra gente sobre fenômeno que é a internet. Uma delas é que Lulu Santos Vinícius de Moraes estava certo: a vida vem em ondas!

O gráfico acima é a contagem de visitas (page loads) que o Ecce Medicus vem recebendo desde 20 de Setembro de 2009. Pode-se notar um “pico” e uma, digamos, “cordilheira”, acima do que podemos chamar de “ruído de fundo” de leitores habituais do blogue. O pico foi identificado com o Bumbum de Gisele e atribuído a um link benemérito de um amigo num portal de enorme popularidade; houve quase 9000 acessos ao EM em um único dia.

A cordilheira na verdade foi o tsunami sobre a vacina da gripe H1N1. Desta vez, não houve links e a coisa funcionou mesmo via Google. Impressionante o troço! Em um dia, o post recebeu 11.000 acessos! Depois, continuou recebendo muitas visitas, mas em associação a outros sobre o mesmo tema. Uma vez que você adivinha o que os usuários vão googlar, as palavras que vão escrever no retângulo mágico do Google, e o site aparece em primeiro ou segundo da lista, é só correr pro abraço. Funciona como uma bola de neve: quanto mais gente acessa, mais fácil fica o site de ser acessado. É uma questão de ter a leitura do hype do momento (e isso, devo ao Carlos Hotta). Captar o murmúrio disperso no éter é como orientar limalha de ferro com um imã: avalanche! Foi uma loucura responder todos os comentários e tive que fechar a caixa em alguns posts.

Aprendi como é surfar, surpreendi-me com a velocidade e o tamanho da onda. Fiquei preocupado com algumas repercussões. O Ecce Medicus amadurece… Obrigado a todos os leitores.

Religião, Ciência, Bolsa de Valores e Bullying

113E61_2.jpgE como havia eu de suportar ser homem, se o homem não fosse também poeta adivinho de enigmas e redentor do azar?!
Redimir os passados e transformar todo “foi” num “assim o quis”: só isto é redenção para mim.
Assim Falou Zaratustra
F. Nietzsche

Para os gregos antigos, a verdade era ἀλήθεια (aletheia), no sentido de desvelamento: de a-, “negação”, e lethe “esquecimento”. Ou seja, o não esquecido, mas também, o não-escondido, não-dissimulado. A verdade é o que se mostra, a realidade da coisa e fala por si. O contrário dessa verdade é a aparência, o pseudos, aquilo que parece mas não é. Em latim, verdade se diz veritas e se refere muito mais à precisão, à exatidão. Está mais ligada ao discurso, à documentação e à linguagem, portanto. Diferentemente da aletheia, a veritas não se refere às próprias coisas, mas a discursos sobre elas. Seu oposto é a mentira ou falsificação. Em hebraico, verdade se diz emunah e significa “confiança”. Aqui, a verdade é encarnada nas pessoas e em Deus. A verdade está vinculada a uma confiança em alguém que não nos decepcionará, amigo ou Deus. Uma promessa que se cumprirá e que na sua expressão mais perfeita é uma revelação divina ou profecia. Se aletheia se refere as coisas como são, veritas diz como as coisas foram e emunah como serão. Segundo M. Chaui [1], nossa concepção de verdade é uma síntese dessas três vertentes.

Esse tipo de verdade é fundamentado em um evento; seja na suposição da realidade da coisa-em-si, seja na fidelidade de um relato, seja, por fim, na esperança de que uma profecia se cumpra. Esse é o tipo de verdade da qual se nutrem ciência e religião. Tanto para uma como para outra, a verdade é algo tangível ou porque corresponde a uma expectativa (emunah) no caso da religião, ou porque se adequa a um modelo proposto que funcione (aletheia com um véu a menos) no caso da ciência. Mas não só a tangibilidade da verdade importa. Importa saber que existe um “gabarito”, um porto-seguro onde encontraremos a Verdade sem que ninguém possa constestá-la, bastando para isso a pureza do método ou infinita luz revelada. E assim, nos redimiremos de todo o mal. A ciência é a minha religião. A religião é minha ciência…

Essa é a incômoda proximidade de Ratzinger aos cientistas como chamei a atenção aqui, aqui e aqui. Sim, eles todos acreditam em essências e na Verdade. Fundamentalistas a combater o relativismo, seja sob a forma de uma ética laica — impossível para o Vaticano; seja de uma verdade consensual, voltada ao bem-estar de uma sociedade, “cadáveres de metáforas que formam redes de conceitos utilizados como valores de verdade.” No final, são todos uns relativistas pós-modernos, dizem.

Na Bolsa de Valores há dois tipos de abordagem do “mercado”: os “fundamentalistas” e os “grafistas”. Os fundamentalistas, grosso modo, baseiam-se nos “fundamentos” da empresa, como lucro, grau de endividamento e participação no mercado. Eles querem conhecer a realidade da empresa para saber quanto ela vale. Nada mais justo! Seu guru Warren Buffett. Mas há os grafistas. “Um analista grafista usa figuras desenhadas com base em critérios subjetivos, do tamanho e na posição que ele acha que deveria ser, como base em suas preferências pessoais, e com isso acredita ser capaz de montar estratégias vitoriosas. Há muitos exemplos de analistas grafistas, porém não saberia citar nenhum comparável a Buffett ou Simons.” Os grafistas estudam o histórico da ação: eles observam a ação no passado e tentam perceber o que irá ocorrer com as cotações nas próximas semanas”. A análise dos grafistas é baseada em… em história?! em comportamento passado e curvinhas sobe-desce?! Alguém poderia dizer que os grafistas construiram “castelos de fumaça” e moram dentro deles. Eu diria diferente. Diria que além de construir esses castelos, eles os vendem por preços bastante interessantes. Eles também ganham (e perdem, eu sei) dinheiro na Bolsa, mas o importante aqui é entender que os dois tipos de análise são exatamente opostos: um se baseando numa “realidade” presumida, construída, com endereço certo, tijolo e ferro. O outro baseado em tendências que geram padrões donde se tiram comportamentos, tudo fincado num terreno bastante pantanoso da nóia geral que é o mercado, totalmente criado pelo homem!

Ratzinger, fundamentalistas da bolsa e cientistas têm boas razões para crer no que creem. As ciências ditas “humanas” ou históricas (que Aristóteles chamava de Política, Dilthey, de Geistwissenschaften – literalmente, ciências do espírito – e Kant, de razão prática) têm, porém, um status epistemológico diferente. Nesse caso, o homem é a medida de todas as coisas. Sim, o diagnóstico parece ser correto: Protágoras sofreu bullying por parte de Sócrates.

[1]Convite a Filosofia. Marilena Chauí.

Visita de Médico

Darwin Doctor.jpgSensacional post do Marco no “Marco Evolutivo”. Eu sou suspeito pra falar, mas o cara me fez uma compilação fantástica de livros sobre medicina e psiquiatria evolutiva que vale a pena conferir. De brinde, essa foto impagável do Darwin de jaleco e esteto, hehe.

A medicina evolutiva é uma área bastante abrangente, mas gosto de dizer que sua principal tarefa é contar a história do nosso entulho genético. Muitas, se não todas, as doenças são respostas mal-adaptadas que serviram para alguma coisa em nosso passado remoto. Se hoje não são compreendidas, seja porque não as entendemos, seja porque sabemos que de alguma forma um processo fisiopatológico “engana” um processo normal do organismo, não importa. Funcionam mais ou menos como carros com acessórios. Se o carro tem poucos acessórios, suas formas de enguiçar são exíguas. Quanto mais acessórios, mais formas de enguiçar; sempre que ganhamos uma sofisticação adaptativa, ganhamos uma(s) doença(s). Além de interessante, essa abordagem seria extremamente útil. Tentei esboçar isso nessas duas séries: Origem da Pressão Arterial e Design Inconsequente, mas o trabalho é muito grande e tem pouca gente fazendo.

* * *

Engraçadíssima a análise do Celso Barros do NPTO sobre o último debate dos presidenciáveis. Para ele, Marina ganhou este.

* * *

Fazia tempo que não fazia uma visita de médico ao Pasmo Essencial. Fiquei feliz que está reformado e o Daniel em grande forma. Vá lá e aprenda a esculhambar um médico. Com Petrarca, hehe. Que seus posts sejam menos bissextos, pô! Cabô ou não essa tese?

O Matador de Metáforas

Confesso que não vai ser muito fácil. Também não sei se minha prosa tem a envergadura simplificadora que o empreedimento exige. Mas como tudo é exercício, mãos a obra. Que as musas me alumiem o caminho (que vai ser um pouco mais longo que o habitual – haja luz!)…

I

Retomemos o livro de Giannetti, (mal) resumido abaixo. Ao adotar um “fisicalismo reducionista” o personagem-narrador se mete numa enrascada existencial pois, acha ele, tal posição filosófica afeta a forma como se vê no mundo, tolhendo-lhe o significado do verdadeiro “eu” e colocando no lugar uma sopa de neuromediadores de concentração variável. O capítulo 55 (último) é pródigo neste tipo de questionamento existencial (que eu achei meio exagerada, como tentarei mostrar a seguir):

“É possível termos acreditado falsamente durante milênios que a vontade consciente rege os nossos músculos quando, na verdade, ela é o subproduto inócuo de uma cadeia de eventos eletroquímicos no cérebro, como a fosforescência no rasto de um fósforo aceso no escuro ou a espuma de uma onda neural? E que, portanto, fazer de um propósito ou de uma intenção consciente a causa de uma ação humana é tão desprovido de fundamento como falar do propósito de uma espermatozoide ao fecundar um óvulo ou da cigarra ao entoar sua cantoria ou do Sol ao irradiar calor? Sim, é possível.”

Vai daí, que entram no rol do “é possível” as reflexões ético-morais, as guerras ideológicas e religiosas, a psicologia, o ateísmo militante e outras coisas até chegarmos ao engodo da consciência. Um tipo de farsa onde acreditamos que somos os personagens que representamos. Isso pode causar um imobilismo, um mal-estar trans-histórico (que vem desde a antiguidade); nos tornar a-morais, como parodiando a tese ivankaramazoviana: se não há um “eu”, nem uma alma, (então) tudo é permitido”. E assim, termina o livro e aqui vamos começar a discutir essa tese que foi criticada de várias formas, por vários autores.

II

O fisicalismo, entendido de modo um pouco mais rigoroso, é um tipo de materialismo onde todo e qualquer evento pode ser descrito em termos estruturais microfísicos, sendo microfísica a física das partículas elementares e tudo que gira no seu entorno. Foi descrito pelos positivistas lógicos do Círculo de Viena (não foi à toa!). As primeiras formas de fisicalismo ou fisicismo eram todas reducionistas, ou seja, propunham dissolver a descrição de todo o tipo de fenômeno observável às leis da física. O fisicalismo do livro em questão é também eliminativista, pois considera que não há estados psicológicos de jeito nenhum, e nem psicologia, portanto. Daí, tudo o que chamei de “enrascada existencial” do personagem do livro.Um jeito de sair dela é fazer como o médico-pesquisador do livro, que leva duas vidas. Como cientista é fisicalista radical e assim faz, pensa e trabalha. Na vida “comum”, finge que “eso non ecziste” e pensa em alma, livre-arbítrio, problemas ético-morais como qualquer mortal. É uma vida dualista. O personagem, pelo contrário, vive seus “pensamentos”. Conflituado por suas conclusões, não consegue separar as coisas. Monista. Um outro jeito, é o pragmático.

III

Antes de mais nada, é importante saber que essa forma de sair do problema é também bastante criticada, em especial, por um coreano radicado nos EUA chamado Jaegwon Kim (de onde tirei o esquema acima), mas vamos lá. As ideias são de Donald Davidson, aluno de Quine, compiladas por Richard Rorty num ensaio chamado “Fisicalismo Não-Reducionista” que, por sua vez, está na página 157 do livro Objetivismo, Relativismo e Verdade – Escritos Filosóficos Vol. 1 – 2a Edição – tradução de Marco Antônio Casanova, pela Relume Dumará – Rio de Janeiro, 2002. Também consultei esse artigo de Ronald Arendt. Vou começar ao contrário de Rorty e do Arendt.Nós normalmente não falamos em “conhecimento literário”, certo? Podemos no máximo falar que um romance nos dá certos “insights” sobre algumas questões que podem ser relevantes. Os de ficção científica trazem questões científicas mas são bem a minoria. Acreditamos até que as visões literárias (e aqui eu incluo grande parte da filosofia, no que me seguiriam muitos cientistas e/ou divulgadores de ciência) são incompatíveis com a visão físico-naturalista da realidade. Segundo Rorty, uma das causas para que isso ocorra é a confusão que fazemos de naturalismo com reducionismo. Para Rorty, reducionismo aqui significa a procura de uma linguagem singular o suficiente para estabelecer todas as verdades que há para serem estabelecidas – um graal linguístico. Segundo suas próprias palavras:

“Uma tal tentativa é associada com a tentativa de identificar a ‘verdade literal’ com a ‘verdade científica’ e a tratar a literatura como oferecendo meramente ‘verdades metafóricas’, algo que não pode realmente ser denominado de verdade acima de tudo. A concepção usual, desde Platão, tem sido a de que um entre os vários vocabulários que nós usamos espelha a realidade, e que os outros são na melhor das hipóteses ‘heurísticos’ ou ‘sugestivos'”.

Aqui entra Davidson, filósofo da linguagem, e o título do post. Uma de suas premissas é que metáforas não têm significados. Isso quer dizer que sua ocorrência é como um efeito colateral da utilização de uma linguagem, não há nada implementado com intuito de produzi-las. Entretanto, apesar de surgirem assim, quase sem querer, elas têm um papel fundamental quando se “literalizam”. Literalizar uma metáfora é matá-la, mas no momento em que isso ocorre, reformulam-se nossas crenças, conceitos e desejos. Sem a morte de metáforas “não haveria nenhuma coisa tal como uma revolução científica ou uma ruptura cultural, mas meramente o processo de alterar os valores de verdade das asserções formuladas em um vocabulário para sempre imutável.” Desse ponto de vista, uma teoria científica é simplesmente uma redescrição metafórica. Por exemplo, quando os cristãos disseram ‘O amor é a única lei’, quando Copérnico disse ‘A Terra gira em torno do Sol’, ou Marx ‘A história é a história da luta de classes’ ou ainda os físicos afirmaram que ‘a matéria pode ser transformada em energia’, tais frases pareciam mais com um modo de falar que com uma verdade. Um filósofo analítico naïve diria que são confusas. O que queremos dizer com “lei”, “sol”, “história” ou “matéria”? Mas quando cristãos, copernicanos, marxistas e físicos começaram a redescrever porções da realidade sob a luz dessas sentenças – e comprovar o valor de tais redescrições – nós começamos a falar delas como afirmações com grande valor de verdade.

Nesse ponto, nos aproximamos do cume. Eu disse que subir não ia ser tão fácil, mas não vamos parar aqui, né?
Vamos para uma citação do texto de Rorty:

“Esse fenômeno da produção e ‘literalização’ de metáforas é o fenômeno que a tradição filosófica ocidental sentiu como sendo necessário para avaliação a partir de uma oposição entre matéria e espírito. Essa tradição pensou a criatividade artística, bem como a ‘inspiração’ moral ou religiosa, como incapazes de serem explicadas nos termos usados para explicar o comportamento da ‘realidade meramente física’. (Nota do Blogueiro: dizem que tudo começa com Platão e aqui, em especial, isso é bem verdade, ver A República e o artigo de Maria Villela-Petit. Além disso, Rorty se coloca em uma linhagem de pragmatistas americanos que começou com Pierce, James e Dewey e que vem combatendo, a seu modo, a tradição filosófica ocidental que é como eles chamam o pensamento que começou com Platão e atingiu o seu ápice em Kant, com vários desdobramentos atuais). Em vista disso, surgiram as oposições entre ‘liberdade’ e ‘mecanismo’ que dominaram o período pós-kantiano na filosofia ocidental. Mas segundo a visão de Davidson, ‘criatividade’ e ‘inspiração’ são meramente casos especiais da capacidade do organismo humano articular sentenças sem significado – isto é, sentenças que não se ajustam a velhos jogos de linguagem e que servem enquanto ocasiões para modificar esses jogos de linguagem e criar novos. Essa capacidade é exercida constantemente, em toda e qualquer área da cultura e da vida cotidiana. Nesta última, ela aparece como chiste. Nas artes e nas ciências ela aparece, retrospectivamente, como gênio.”

IV
Tudo isso para dizer que para um pragmatista o importante é “afinar o discurso”, ou seja, utilizar a linguagem correta para cada situação e acabar com essa divisão arbitrária de matéria e espírito. Tudo é fruto de uma (re)interpretação, (re)arranjos de cadáveres de metáforas que formam redes de conceitos utilizados como valores de verdade. A parcimônia ontológica (aqui querendo dizer um tipo de consenso enxuto) não é para ser alcançada (como os positivistas pensavam) por meio de uma “análise linguística”. Se for possível fazê-lo, melhor que seja pela prática cotidiana. Esse tipo de abordagem não-reducionista é perfeitamente compatível com a afirmação de que nós provavelmente continuaremos a falar sobre entidades mentais – crenças, desejos, e tudo o mais – para sempre! Aqui, voltamos finalmente ao livro, segundo Rorty, repare que essa fala (crenças, desejos, etc) NÃO é metafórica; é uma rede de metáforas já literalizadas. Por isso, não necessita ser tornada mais científica ou precisa, além dos ajustes “normais”, e, por outro lado, não necessita de clarificação filosófica com esse intuito específico. Dizer que nós sempre falaremos sobre crenças e desejos, é dizer que a psicologia provavelmente permanecerá a melhor forma de descrever estados mentais e abordá-los com entendimento entre pares.Mais um pouco sobre as redes. Rorty acha possível abdicarmos da noção de “consciência”, mas acha que temos um “Si próprio”que consiste nos estados mentais do ser humano (os tais desejos, medos, crenças, de novo). Note-se bem, essa coleção de estados mentais É o tal Si próprio. O Si próprio não as tem, ele as é. Isso funcionaria como uma rede em contínuo processo de auto-reformulação em respostas a estímulos como novas crenças, por exemplo. Essa imagem é bem diferente da dualista cartesiana (e é o que Kim critica alegando impossibilidade) de um “eu” distinto de suas próprias crenças e desejos. Não há mais, de forma alguma, um centro que seja o Si próprio, como não o há para o cérebro. E aqui o arremate:

“Exatamente como as sinapses neurais estão em contínua interação umas com as outras, constantemente formulando uma diferente configuração de descargas elétricas, também nossas crenças e desejos estão em contínua interação, redistribuindo valores de verdade entre asserções. Exatamente como o cérebro não é algo que “tenha” tais sinapses, mas É simplesmente um aglomerado delas, assim o Si próprio não é algo que “tenha” as crenças e os desejos, mas simplesmente a rede que as reúne e conecta.”

Isso implica que ter uma crença ou desejo significa ter muitas crenças e desejos; significa ter o fio de uma extensa trama que nos constitui.

V

Como conclusão, temos que a dissolução pragmática de uma metafísica da dualidade matéria-espírito na filosofia da linguagem de Davidson, respinga na filosofia mente-cérebro produzindo uma visão dos seres humanos, que segundo Rorty, é “naturalista” e não-reducionista, dado que o processo de redução é um processo linguístico como foi demonstrado; e, portanto, relativo. As consequências disso são bastante abrangentes. A nós, interessaria a ultrapassagem do dilema do narrador-personagem do livro de Giannetti. É possível descrever fenômenos em vários níveis de especificidade. Ao descolarmos esse ato da vinculação à Verdade, à pretensão do conhecimento da “coisa-em-si”, poderemos trabalhar em níveis superiores de entendimento humano mútuo sem nos imobilizarmos. O amoralismo proposto também não se sustenta por estar embutido na questão do consenso entre os seres humanos. Tentarei, levando em consideração o texto de Ratzinger abaixo, traçar um paralelo entre a ciência e a religião e mostrar como, ao menos nessas questões, elas mais se aproximam que se opõem.

VI

Por fim, esse trabalho de desmistificação do fisicalismo reducionista também foi feito com muita simplicidade, a exemplo do silogismo de Giannetti na parte IV do post abaixo, por Hempel com o raciocínio que se segue:

“Talvez uma das críticas mais incisivas ao fisicalismo esteja no dilema apontado por
Hempel (1980): se o fisicalismo for definido de acordo com a ciência Física atual, então se
trata de uma tese possivelmente falsa, já que a Física atual não é, de maneira alguma, uma
ciência completa. Por outro lado, se o fisicalismo apoiar-se em uma ciência Física hipotética,
uma ciência completa que ainda está por vir, então o fisicalismo perde sua força, pois não
sabemos como será essa Física e que coisas farão parte desse mundo físico que ainda não
somos capazes de conceber.”

Do excelente artigo de Diego Zilio em Ciências & Cognição 2010; Vol 15 (1): 217-240.

Acho que dá para falar no “Erro de Giannetti” e em tempestade em copo de água, né?

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