House, Holmes, Bell, Shore e Doyle
Vem fazendo sucesso a série médica House M.D. (no Brasil, simplesmente House exibida pelo canal pago da Universal). Criada por David Shore para a Fox, a série tem como ator principal o britânico Hugh Laurie interpretando o protagonista Gregory House e, há quase 4 anos em cartaz, já angariou prêmios importantes. Dr. House é infectologista e nefrologista e tem como principal característica o fato de elaborar diagnósticos bastante difíceis. Além disso, é portador de um grande mau-humor e cinismo praticamente incompatíveis com a profissão médica, preferindo interagir com seus pacientes por intermédio de seus residentes. O autor tem em Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle a fonte inspiradora do personagem principal, inclusive no trocadilho do nome . Doyle era ele próprio médico e nunca escondeu que seu personagem mais famoso foi, por sua vez, inspirado em seu professor na Universidade de Edimburgo: Dr. Joseph Bell. Bell era considerado um mágico por seus alunos. Capaz de diagnosticar pacientes no momento de sua entrada no consultório, também fornecia dados epidemiológicos e falava com exatidão sobre suas vidas pessoais antes mesmo que os espantados pacientes sequer abrissem a boca. Mas por que médicos assim ainda chamam tanto a atenção do público e da mídia em geral?
O Frio e o Gênero

Pesquisa de utilidade pública para o Inverno que está chegando.
Está comprovado “cientificamente” (acho demais essa frase bombástica):
Mulher sente mais frio que homem. (desde 1978)
PS. Isso justifica alguma brigas conjugais…
Ainda o Cérebro Humano
A controvérsia do gene do tamanho do cérebro humano parece ter encontrado um beco sem saída nos ASPM e microcefalinas. Achei esse link no excelente blog do Dienekes.
Falsas Esperanças e Medos Injustificados
Na Plos, para variar, um editorial sobre a avaliação de notícias médicas divulgadas na imprensa. Vários países têm sites que atribuem notas (estrelas) às notícias que são veiculadas na mídia leiga de acordo com critérios tipo ABC (Accuracy, Balance, Completeness). São organizações não-governamentais dirigidas por médicos e/ou jornalistas que têm grande credibilidade. Nos EUA temos o Health News Review; na Austrália é o Media Doctor e no Reino Unido é o Behind the Headlines.
São explicitadas as causas de más reportagens sobre saúde e medicina, como no trecho abaixo:
“The origin of hype in health stories goes even deeper than journalists’ lack of training and the hurried pace of broadcasting. Ransohoff and Ransohoff have described medical researchers and reporters as “complicit collaborators,” both of whom may benefit from a sensationalized story [7]. Researchers benefit from the publicity because it may increase citations to their study and help their chances of promotion or tenure, while a highly visible story of a dramatic medical breakthrough can boost a journalist’s career. Sensationalism occurs, they say, “when the participants stand to benefit from publicity without a corresponding penalty for misleading reports.” HealthNewsReview.org could now provide such a penalty with its public naming and shaming of poor reporting, which in turn may drive journalists toward more balanced reporting.”
Esse tipo de trabalho tem sido realizado no Brasil principalmente na blogosfera. Blogs como do Paulo Lotufo e do Marcelo Leite, são iniciativas isoladas dentro de um panorama desértico. A esmagadora maioria dos blogs sobre saúde e medicina no Brasil são de “dicas”, vendedores de remédios ou de tratamentos de eficácia duvidosa. Não há uma leitura crítica ou um ombudsman de notícias médicas. O leitor/consumidor brasileiro não tem como se proteger. A saída pelo menos, é ler o dos gringos.
Doze de Junho
Mais imagens médicas muito interessantes no Street Anatomy. Essa é pelo dia dos Namorados.
PS. Tentando limpar a barra por ter falado da sogra…
A Importância da Sogra

Depois de muito tempo falando mal de sogras, sobretudo da minha, me chamou a atenção este estudo, que é meio velhinho (está fazendo 10 anos), mas muito interessante.
O racional é o seguinte: A fêmea humana é única entre os primatas. Ela demonstra uma longevidade incomum após o período fértil, como mostra a figura. Isso incomodou os pesquisadores e várias explicações e teorias foram aventadas. Esse artigo, sugere que a presença da avó, aumenta as chances da prole sobreviver pois permite a divisão de trabalho e a transmissão de know-how para a mãe inexperiente. Nas palavras do autor:
“The grandmother hypothesis directs attention to likely ecological pressures for variation. The use of high return resources that young juveniles cannot handle favors mothers and daughters remaining together. As daughters grow, they acquire the strength and skill needed to help feed their younger siblings (5,41). When daughters mature, the assistance of aging mothers continues to enhance the benefits of proximity (3).”
E continua:
“Senior females could affect the fertility of their sons’ mates through food sharing as well as that of their daughters. But the grandmother hypothesis, combined with the assembly rules of Charnov’s Model and the variation in ape life histories highlighted here, favors co-residence between older mothers and their daughters.“
Co-residence between older mother and their daughters…. Sei… Essa história já vem de muuuito longe.
A Barba e a Ciência
Seria a barba um sinal de sabedoria ou um meio de cultura que pode transmitir infecções? Grandes cientistas ostentavam barbas e bigodes poderosos. Fica bem a um médico usar barba ou é anti-higiênico? Por incrível que pareça existe um ensaio clínico sobre o assunto. Também existem estudos microbiológicos e um artigo em um site de ciência do qual peguei a foto acima.
De minha parte, às vezes deixo uma barba incipiente alardeando um descanso à pele. Confesso que no espelho, na dependência do humor, oscilo entre um George Clooney tupiniquim e um amarfanhado pós-plantonista. Infelizmente, nunca me senti mais inteligente.
O Cérebro Humano
Cover image, Cell, December 29, 2004; illustrator, Sean Gould. See also Dorus, S., Vallender, E.J., Evans, P.D., Anderson, J.R., Gilbert, S.L., Mahowald, M., Wyckoff, G.J., Malcom, C.M., and Lahn, B.T. 2004. Cell 119:1027–1040Ao ler um artigo sobre genética evolucionista no Amigo de Montaigne, encontrei o artigo original de novembro de 2007, que cita o paper acima. Segue um trecho do texto de Bruce Lahn:
“Accelerated evolution of brain genes in the descent of humans. To address whether the evolution of the human brain has left genome-wide genetic imprints, we systematically examined the evolutionary history of genes implicated in diverse biological aspects of brain function. This analysis showed that, on average, protein sequences of brain-related genes have evolved more rapidly in primates than in other mammalian taxa, and that this accelerated evolution is most dramatic along the lineage leading to humans. Moreover, when examining only the subset of genes that functions predominantly in brain development, the high rate of evolution in the human lineage becomes even more pronounced.
The above results argue that the remarkable phenotypic evolution of the human brain is correlated with accelerated evolution in the protein-coding regions of the underlying genes, particularly those involved in brain development. These results also argue that the accelerated evolution, visible across many genes, likely reflects the accumulation of a large number of advantageous mutations scattered across many brain-related genes in the course of primate and human evolution.”
O texto esbarra na teleologia cósmica a la Aristóteles. Não fica claro pelo texto, a evolução histórica dos genes relacionados ao advento do cérebro humano. Saber se o aparecimento do cérebro humano deixou pegadas genômicas parece querer encarar o problema pelo avesso. Ficamos com a impressão de que, devido ao um acúmulo de um grande número de mutações vantajosas, tivemos uma evolução acelerada.
Tais mutações são raras. Não seria pertinente perguntar se tais genes já não estavam lá e foram selecionados por algum fator que pressionou a evolução dos hominídeos nessa direção? Mostrar que temos genes para cabeça grande não é o mesmo que justificar nossa cabeça grande. A história do aparecimento do fator que causou a seleção é, no meu modo de ver, a pergunta evolucionária.
Genômica Pessoal

A possibilidade de sequenciamento genético total do genoma humano abre as portas para uma genômica pessoal ou medicina personalizada, assunto já abordado no blog no tocante ao conceito de doença. A idéia é que, no futuro, você irá ao médico, cuspirá em um copinho e receberá em uma espécie de pendrive sua sequência genômica pessoal, podendo guardá-la em um drive virtual na internet que futuros médicos poderão acessar para descobrir doenças e tratá-las com terapia gênica (ver post de 25/05/08 no ciencia em dia). Em uma entrevista ao portal Medscape, o Dr. Francis Collins (Director of the National Human Genome Research Institute at the National Institutes of Health – NIH) lista as possibilidades impressionantes de uma medicina genômica.
Essa estória de cuspir no copinho já pode testar sua chance de apresentar algumas das doenças mais temidas, como por exemplo, a doença de Alzheimer. Uma das empresas que fornece esse serviço tem o sugestivo nome de Decodeme! (O logo bem que poderia ser uma esfinge!)
Tal a fúria dos novos conceitos que agora, aos clássicos riscos epidemiológicos ambientais e os gerados por determinados estilos de vida, foi acrescido o risco genético: risco do qual não se pode fugir, como nos ambientais, nem tampouco mudar voluntariamente, como um mau hábito. Simplesmente está no seu corpo! Chamam-no macabramente de risco corporificado! Gostaria de ouvir a opinião dos epidemiologistas sobre o caso.
O CDC (Center of Disease Control), a agência americana responsável pelo controle de enfermidades, criou um escritório para acompanhar essas mudanças: o National Office of Public Health Genomics , NOPHG. Esse, por sua vez, criou um enorme banco de dados chamado HuGENet (mais direto impossível) com o objetivo de “assessment of the impact of human genome variation on population health & how genetic information can be used to improve health & prevent disease”.
Como tudo isso está muito vinculado a empresas de biotecnologia, que movimentam extensos capitais e são ligadas a governos e empresas multinacionais importantes no mundo todo, alguns setores da sociedade científica acenderam a luz amarela. A Plos publicou em 25 de Março suas recomendações para ética em pesquisa genômica. O próprio Genome.gov tem as suas.
A medicina personalizada é tudo venho tentando praticar (e ensinar!) mas, não sei por quê, não acredito que esse seja o caminho a ser trilhado. O proponentes dessa nova tecnologia acusam seus críticos de comportamento paleo-determinista. Pode ser. Mas, qual é a utopia final desse projeto?
Fazer medicina preventiva personalizada com genes para mim, é mais ou menos como enfrentar o velho problema da hierarquia em biologia evolutiva: onde a seleção natural atua? Na espécie, no indivíduo ou nos seus genes? Se nos últimos, poderiam eles captar a totalidade do fenômeno biológico seja ele, a sobrevivência do mais apto, no caso da evolução; ou o sofrimento patológico do ser humano, no nosso caso?
Meandros

É possível ter-se um conhecimento correto de uma parte sem se saber a natureza do todo? A resposta a essa pergunta pode parecer simples inicialmente, principalmente quando essa indagação é sobre o mundo físico, vide o sucesso da ciência atual. Mas, quando envolve seres vivos (a espécie humana, inclusive), parece que o problema toma outras proporções e fica evidente uma metafísica embutida na pergunta inicial.
Metafísica, pois envolve questões finalistas; além da física; envolve uma compreensão de universo particular. Envolve uma racionalidade pluralista, pois pressupõe sistemas isoláveis na natureza e pode, por essa razão, ser também chamada positivista.
O perigo do positivismo não é não conseguir fugir do pensamento metafísico – o que é impossível; é, ao contrário, não reconhecer que ele está enraizado na racionalidade humana. Se não se reconhece as recorrentes (e muitas vezes, inconscientes) tentativas metafísicas de nosso pensamento, corremos o risco de transmiti-las, acriticamente, mais rápido que outros conceitos, pois ao invés de utilizarmos a argumentação direta, o faremos da forma mais persuasiva e sensível ao homem: a insinuação. Linguagem das entrelinhas. Extremamente poderosa, principalmente quando se fala de abstrações e divindades. Ao invés de abrir portas, favorecerá uma certeza coberta com o véu que esconde a eterna dúvida.








