Mais Neo-obscurantismo

Essa foi demais. Veja a Folha online 19/05/08. Decisões judiciárias baseadas em psicografia são um passo para a MBAP (Medicina Baseada em Artigos Psicografados!). Quem sabe o Hipócrates não dá uma luzinha…

Neo-obscurantismo

Segundo Morin, o desenvolvimento científico comporta um certo número de traços “negativos” que são bem conhecidos, mas que, muitas vezes, só aparecem como inconvenientes secundários:

1) Superespecialização: enclausuramento ou fragmentação do saber;

2) O ponto de vista das ciências da natureza exclui o espírito e a cultura que produzem.

3) Revolução na história do saber, em que ele, deixando de ser pensado, meditado, refletido e discutido por seres humanos, integrado na investigação individual de conhecimento e de sabedoria, se destina cada vez mais a ser acumulado em bancos de dados, para ser, depois, computado por instâncias manipuladoras, o Estado em primeiro lugar.

4) Neo-obscurantismo. O especialista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne a sua disciplina e o não-especialista renuncia prematuramente a toda possibilidade de refletir sobre o mundo, a vida, a sociedade, deixando esse cuidado aos cientistas, que não têm nem tempo, nem meios conceituais para tanto.

Essa última, tem especial aplicação à prática médica contemporânea e aos “cientistas em exercício ilegal da medicina”.

Genes e Nosologia

Ainda sobre o artigo de Pollack, que muito me intrigou:

Se considerarmos minimamente a evolução humana, podemos entender que somos fruto de uma série de contingências que por uma ou outra razão, possibilitaram nossa sobrevivência e de nossos descendentes, sob as mais variadas e hostis condições ambientais. Condições que ou deixaram de existir, ou foram substituídas por outras, mais recentes. Por exemplo, recente nosso acesso ao sal e às gorduras insaturadas. A avidez por essas substâncias foi muito útil em determinados períodos da evolução, mas com certeza, não é o caso agora.

Ao desenhar o mapa das doenças, quem vai contar essa história? De que me adianta saber que a distrofia de Duchenne está ligada a doenças cardiovasculares? A pergunta muito mais interessante é: Por que elas estão ligadas?

Para evoluir e sobreviver, ganhamos doenças! A Vida carrega a Morte dentro de si. Essa continua sendo a grande contradição da existência.

Novo Conceito de Doença

Interessante o artigo de Andrew Pollack no New York Times que recortei do blog do Marcelo Leite.

Nesse artigo, o repórter científico fica entusiasmadíssimo com a possibilidade de se redefinir doenças a partir de sua similaridade genética. Nas palavras dele:

“Dr. Butte, an assistant professor of medicine at Stanford, is among a growing band of researchers trying to redefine how diseases are classified — by looking not at their symptoms or physiological measurements, but at their genetic underpinnings. It turns out that a similar set of genes is active in boys with Duchenne and adults who have heart attacks.

The research is already starting to change nosology, as the field of disease classification is known. Seemingly dissimilar diseases are being lumped together. What were thought to be single diseases are being split into separate ailments. Just as they once mapped the human genome, scientists are trying to map the “diseasome,” the collection of all diseases and the genes associated with them.”

“Diseasome”? Um mapa gênico de doenças! Um novo jeito de ver, cria novas concepções de mundo (e vice-versa! Acho que Bachelard já tinha dito isso!). Tudo teria uma base genética, não é mesmo?

Mas, o que dizer então, das irritantes doenças de diagnóstico puramente clínico como por exemplo a fibromialgia, enxaquecas, depressões, sem contar na infinidade de distúrbios psiquiátricos. O autor mesmo responde:

“Indeed, Dr. Duffin said, people who feel sick nowadays “don’t get to have a disease unless the doctor can find something” and instead might be told that it’s all in their head. Doctors argue, for instance, about whether fibromyalgia or chronic fatigue syndrome, which have no obvious anatomical causes, are really diseases.”

Mas, achar um defeito na síntese de uma proteína importante para determinada ação biológica e suas relações com outras disfunções não supostas antes é, de fato, mapear as doenças da espécie humana?

Etiquette-Based Medicine?

Mais um aspecto do não-mensurável, não-medido, não-dito? O universal se contrapõe ao particular. Seria a hora de prestarmos mais atenção ao singular, que está fora desse eixo, como pensou um médico-filósofo? Segue o texto do psiquiatra Michael W. Kahn.

“Etiquette-based medicine would prioritize behavior over feeling. It would stress practice and mastery over character development. It would put professionalism and patient satisfaction at the center of the clinical encounter and bring back some of the elements of ritual that have always been an important part of the healing professions. We should continue our efforts to develop compassionate physicians, but let’s not overlook the possibly more immediate benefits of emphasizing good behavior.”

A Ciência Quadrúpede

Morin disse certa vez que a Ciência anda em quatro patas. As patas que sustentariam o corpo científico seriam empirismo, racionalismo, imaginação e verificação. Mas, ela seria um “animal” bastante estranho. Isso por que as patas poderiam ter importância diferente dependendo de cada época e, principalmente por que poderiam brigar entre si! Por paradoxal que possa parecer, é exatamente no momento do conflito que o tal “animal científico” anda mais rápido! Racionalismo e empirismo respondem pela maioria das brigas e parecem ser as patas anteriores. Imaginação e verificação, co-irmãs porém não menos belicosas, as de trás.

Quando li isso pela primeira vez, logo pensei, mas ué?! Quem seria a cabeça? Sendo a cabeça aquela que dá direção ao corpo, a “fera” poderia ter duas cabeças: Moral e Ética? Não. Logo me dissuadiram dessa hipótese. Uma cabeça: Ideologia? Capital? A simples Curiosidade Humana? Não cheguei a conclusão nenhuma.

Me é irresistível, entretanto, conjecturar que tipo de aberração seria, então, o “animal” Medicina.

Jaytcheenyoo


Pode parecer inacreditável, mas existe uma especialista em Jeitinho Brasileiro. Ela é brasileira, socióloga, se chama Fernanda Duarte e está radicada na Austrália desde 1974, lecionando na Universidade de Sydney. O paper original é muito engraçado pois explica em inglês as malandragens brasileiras para se conseguir as coisas que, pelas vias normais, seriam impossíveis. Começa pela pronúncia do fenômeno: Jaytcheenyoo é demais!!! Veja a frase:

“People explicitly request a jeitinho by uttering the phrase ‘Da um jeitinho pra mim’ [Give me a jeitinho], taking for granted that the other person knows exactly what they mean. There is also an expectation that the jeitinho will be always granted, considering that generosity, cordiality, warmth and empathy are highly valued attributes in Brazilian society.”

A contrapartida do jeitinho na Medicina tem inúmeros exemplos. O mais recente é sobre o número de cursos médicos no Brasil. Só perdemos para Índia. Fora os que vão à Bolívia estudar e voltam médicos para o Brasil, validando o título…

Dúvida e Salvação

duvida.jpgHorkheimer em 1970, escreveu o ensaio Teoria Crítica Ontem e Hoje. Sobre a ciência, escreveu ele:

“A ciência é uma tal ordenação dos fatos de nossa consciência que ela permite, finalmente, alcançar cada vez, em um lugar exato do espaço e do tempo, aquilo que exatamente deve ser esperado ali. (…) A exatidão é, nesse sentido, o objetivo da ciência. Entretanto, e aqui aparece o primeiro tema da Teoria Crítica, a própria ciência não sabe por que põe em ordem os fatos justamente naquela direção, nem por que se concentra em certos objetos e não em outros. O que falta à ciência é a reflexão sobre si mesma, o conhecimento dos móveis sociais que a impulsionam em certa direção: por exemplo, em ocupar-se da Lua e não do bem-estar dos homens.”

Ao descartar as promessas não cumpridas de Marx como diferenças entre a Teoria Crítica de ontem e hoje, Horkheimer escreve:

“Por último, aquilo que Marx esperava da sociedade justa é falso – não fosse por outra razão – , e este enunciado é importante para a Teoria Crítica, porque a liberdade e a justiça tanto estão ligadas quanto opostas. Quanto mais justiça, menos liberdade. Se quisermos caminhar para a equidade, devem-se proibir muitas coisas aos homens, notadamente de espezinharem-se uns aos outros”.

E quanto a quem poderia ser aliado na empreitada:

“Se a tradição, as categorias religiosas e, em particular, a justiça e bondade de Deus não forem transmitidas como dogma (grifo meu), como verdades absolutas, mas como a nostalgia daqueles capazes de uma verdadeira tristeza, e isso precisamente porque essas doutrinas não podem ser demonstradas e porque essa dúvida é seu lote, a mentalidade teológica, ou pelo menos sua base, poderá ser conservada de uma forma adequada. A introdução da dúvida na religião é um momento necessário para salvá-la”.

É onde Ratzinger conscientemente peca.

A Razão Diabólica

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José Arthur Giannotti (precisa ter assinatura), na Folha de hoje, fala sobre o discurso de Bento 16 na ONU, referindo-se a ele como pérola do pensamento conservador. Além de toda questão política comentada, me interessa mais a relação entre ciência e religião que o papa usa como argumento e que Giannotti critica. Vejamos o papa:

Deste modo o nosso pensamento se dirige ao modo como os resultados das descobertas da pesquisa científica e tecnológica foram aplicados. Não obstante aos grandes benefícios que a humanidade pode tirar deles, alguns aspectos de tais aplicações representam uma clara violação da ordem da criação a ponto de não contradizer somente o caráter sagrado da vida humana mas a própria violação da pessoa e da família em sua identidade natural.”

Giannotti questiona a noção de identidade – crítica óbvia – o que faz muito sentido para ironistas (no sentido rortyano do termo), mas nenhum sentido para o homem que ocupa o cargo mais metafísico da humanidade. Ele acredita sim em essências!

Segue o sumo pontífice:

Do mesmo modo, a ação internacional, na busca de preservar o ambiente, e proteger as várias formas de vida sobre a terra não deve garantir somente um uso racional da tecnologia e da ciência, mas deve redescobrir a autêntica imagem da criação. Isto não exige nunca uma escolha entre ciência e ética, mas se trata de adotar um método científico que respeite verdadeiramente os imperativos da ética.”

Isso daria uma tese. Alguém tem dúvida de que Habermas assinaria a primeira frase se ela não terminasse com a tal “imagem da criação”? Uma razão compartilhada internacionalmente é seu sonho de consumo. Por outro lado, se não existe método científico subordinado a imperativos morais, pode haver um consenso de pares – vamos por aqui ou melhor trabalhar por lá, call for papers sobre determinado assunto, etc. O cientista publica, mantém os grants, a revista publica, mantém as assinaturas e patrocínios, a massa cita o artigo, fica “estudada” (ver Manoel de Barros) e fica todo mundo feliz! Só que isso vale para a ciência normal kuhniana.

No caso das grandes descobertas é diferente. Para Giannotti existe uma razão diabólica por trás delas: “Foi diabólico para os pitagóricos pensar os números irracionais, foi diabólico para toda a razão convencional do século 19 pensar que a espécie humana tivesse uma origem comum àquela dos macacos, e, atualmente, é diabólico pensar que uma pessoa possa ser clonada.”

O argumento de Giannotti é que o papa quer subordinar, inclusive pela força (ver o final do artigo), a ciência a uma visão de fé (ecumênica até) com todos os desdobramentos que isso possa acarretar. É claro que isso não vai dar certo nunca!

O ponto aqui é que o papa argumenta sobre um assunto polêmico e extremamente necessário com as armas de que dispõe. Ou Giannotti esperava ver o papa pedindo desculpas (de novo!) a Galileu e assumindo a culpa na Inquisição? Este blog vem defendendo a reflexão, de preferência conjunta, como medida da razão desenfreada. O papa faz exatamente isso com sua linguagem metafísica e altamente conservadora. Mas o que deveríamos esperar de Ratzinger?

O cientista produz um poder sobre o qual não tem controle. Giannotti chama isso de diabólico pois é ousado, transgressor, invasivo e agressivo. É quase ciência heavy-metal. Tudo bem. Mas acho bem mais diabólico, no sentido de “do Mal” (como dizem meus filhos) a apropriação desse conhecimento para outro fim que não minimizar as aflições da espécie humana e do planeta em geral, o que, no fundo, é quase a mesma coisa.

El inglés, idioma internacional de la medicina

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Reproduzo aqui partes do fantástico artigo de Fernando Navarro, tradutor da Roche na Suíça. O artigo, com o título do post, se preocupa em entender porque o inglês se tornou a língua oficial da medicina. Alguns acreditam que isso ocorre devido a características específicas da língua inglesa que a tornam especialmente talhada para comunicação científica. Vejam o que Fernando Navarro escreve sobre isso:

“El genio de la lengua inglesa, se oye con frecuencia, se presta de forma admirable para la expresión de la ciencia. Se admite de forma general, en efecto, que el inglés se ha convertido en el idioma internacional de la medicina gracias a sus características intrínsecas de sencillez y claridad, que lo hacen especialmente apto para la comunicación científica. ¡¿Un idioma sencillo el inglés?! Con un léxico riquísimo en el que se superponen palabras de origen germánico y sus sinónimos latinos, una fonética y una ortografía endiabladas, amén de un complejísimo sistema prepositivo, el inglés era precisamente el idioma teóricamente menos adecuado para enseñarlo como lengua auxiliar o de comunicación. Y si no es un idioma sencillo, menos aún es un idioma claro o preciso: ¿qué es un World Pollution Symposium?; ¿un simposio mundial sobre la contaminación o un simposio sobre la contaminación mundial? Idénticos problemas de imprecisión plantean expresiones como platelet growth factor (¿factor de crecimiento plaquetario o factor plaquetario de crecimiento?) o mixed lymphocyte culture (¿cultivo mixto de linfocitos o cultivo de linfocitos mixtos?). Casi siempre que en inglés se anteponen dos o más adjetivos a un sustantivo –lo cual en el lenguaje científico es bastante habitual– existe riesgo de imprecisión, que en los idiomas latinos nos encargamos de deshacer con nuestro recurso más frecuente al uso de preposiciones. No es raro hallar en inglés sustantivos precedidos de cinco o más calificativos, como en el siguiente ejemplo: human immunodeficiency virus type 1 envelope glycoprotein precursor oligomerization. Quien no esté muy ducho en virología únicamente sabe que la traducción española comienza por oligomerización, pero dudaría ya a la hora de escoger el segundo término: ¿oligomerización del precursor de las glucoproteínas?, ¿oligomerización de los precursores de la glucoproteína?, ¿oligomerización humana? ¿oligomerización de tipo 1? Si alguien consigue dar sin problemas con la traducción correcta –oligomerización de los precursores de las glucoproteínas de cubierta del virus de la inmunodeficiencia humana de tipo 1– no será, desde luego, por la claridad gramatical del inglés, sino más bien por sus nada comunes conocimientos sobre la biología molecular del virus del sida.”