Força é igual a massa vezes a aceleração

No início do ano visitei a usina hidroelétrica binacional de Itaipu. Um dos projetos de pesquisa que participo envolve uma espécie de mexilhão invasora. O mexilhão dourado (Limnoperna fortunei). O que é uma espécie invasora, vocês vão perguntar?

Esses mexilhões são originários da China e chegaram pelas nossas bandas (mais precisamente no Rio da Prata em 1991 e na Lagoa dos Patos em 1998) transportados na água de lastro dos navios cargueiros. Imaginem, um navio parte do porto de Xangai para vir ao Brasil e levar soja de volta para os chineses. Mas se ele não estiver carregado com mercadorias, precisa se encher de água, a água de lastro, para equilibrar seu peso e, literalmente, não quebrar no meio quando estiver navegando. Ai, quando chega no porto de Rio Grande, o navio joga na Lagoa dos Patos a água do Rio Yangtze, cheia de larvas de mexilhões dourados (e outros bichos).

Sem predadores naturais, esses animais se desenvolvem enormemente nas nossas águas e criam toda sorte de prejuízos a embarcações, estações de tratamento de água, usinas hidroelétricas, sem contar as espécies locais de bivalves e a vegetação das margens.


Bom, mas voltando ao assunto, em Itaipu tem mexilhão dourado e ainda que isso (ainda) não represente um problema econômico pra eles, essa foi a razão da minha visita. Porém, quando chegamos lá, os mexilhões são o que menos chama atenção. É uma obra monumental. Liguei pro meu pai, e ele, engenheiro, ficava até emocionado de falar de uma obra tão imponente.

Não é para menos. Em 1982 a barragem represou o Rio Paraná, inundando uma região de 1.350 km2 e com mais de 200 km de extensão. Tudo bem, eles tiveram de inundar “Sete quedas” mas eu senti menos esse baque porque era pequeno demais. Mas me lembro até hoje da noite em que o Jornal Nacional mostrou as comportas se fechando as cachoeiras pela última vez.


Enquanto estavamos lá, o Rio Paraná, em uma cheia atípica, precisava ser escoado. Por isso, as comportas do lado esquerdo da barragem estavam abertas. A água saindo pelo chamado ‘vertedouro’ tem uma força impressionante. Tão grande que acabaria, simplesmente, escavando o leito do rio, que fica 180 m abaixo da linha d’água do reservatório, se despencasse direto lá de cima. Então a água desce por um tipo de escorrega, sendo lançada no ar pra dissipar toda a sua energia, antes de continuar seu caminho rio abaixo. Não deu pra entender direito? Dá uma olhada nas fotos e no filminho que eu fiz.

Mas toda essa introdução foi para dizer apenas um parágrafo. O que me emocionou, ou melhor, me assustou, ou melhor ainda, me comoveu de forma assustadora, foi ver a força da água descendo pelo vertedouro. A Força da Natureza, lado a lado com o enorme esforço de engenharia para conte-la. O vácuo que se forma na base do escorrega, capaz de arrancar os capacetes de nossas cabeças (como no filme), o rugido da água, a velocidade… é como se a água dissesse:

– Não esqueça que eu estou aqui!

A fera foi contida, mas não foi domada. É um equilibrio delicado. E quando venta, venta forte!

Discussão - 3 comentários

  1. Rogério Silva disse:

    O homem, ser moralQue desafia a naturezaSempre pensa afinalQue tem alguma certeza.Mas ela é mais esperta,Cumpre ritmos e hora,Em sua grandeza desertaLembra fenômenos de outrora.Onde estariam os deuses,Fugazes símbolos de virtude?Que, com seus poderes,Trançavam fenômenos a miúde?A arrogância humana,Contra a natureza pouco pode.Mesmo que só se plantasse banana,A Terra responde, estremece e sacode.http://pontodeencontroblog.blogspot.com/2007/08/o-ser-moral.html

  2. rosilene sallin disse:

    Meu nome é Rosilen- prof. de física e matemática. Como procuro no campo de busca as relações entre esses conteúdos programáticos e cotidiano, achei interessante compartilhar com meus alunos esse artigo.

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