A evolução da moda – parte I: Os homens são todos iguais

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Meu pai é completamente avesso a modismos. Se mais de 5 pessoas começarem a gostar de alguma coisa (que não seja o Vasco), ele logo arruma uma razão pra discordar. Se a gente estende um pouco o assunto, descobre que ele tem uma grande dificuldade para ‘entender’ a questão da moda. Só que nisso, ele não é o único: a maior parte dos homens tem dificuldade de entender o interesse da maior parte das mulheres com a moda.
A estação brasileira dos desfiles está terminando e com espaço que os desfiles, as modelos e os estilistas ganharam na mídia nessa Fashion Week, eu me pergunto se não teria espaço para um cientista também fazer algumas considerações sobre a moda (afinal, depois que ouvi a tal de Glória Coelho falar e não dizer nada sobre aquecimento global, eu estaria até perdoado se o que vou dizer não tiver interesse).
A primeira pergunta que precisa ser feita é: do que os homens gostam? (Fiz essa pergunta também porque ela é muito mais fácil de responder do que a outra: do que as mulheres gostam?)
Os homens não gostam de mulheres porque ‘aprenderam’ isso durante o seu desenvolvimento. Existe uma predisposição genética para os organismos com cromossomas sexuais XY gostarem de mulheres. Mais especificamente os genes SRY, SOX9, FGF9 e WNT4, já que são eles que controlam as doses de testosterona durante o desenvolvimento que fazem com o que o cérebro seja ‘masculino’ e, entre outras coisas, ‘goste de mulheres’.
Homens gostam de mulheres, ponto. Isso não é uma moda e não vai passar. O que eu quero dizer, é que existem coisas, comportamentos, que não são aprendidos, não são flexíveis e não poderiam variar com a moda.
Mas os homens gostam de qualquer mulher? Essa é uma pergunta um pouco mais complicada que a primeira, mas ainda assim mais fácil de responder do que a variante feminina da mesma.
Os machos da espécie humana são, na verdade, muito mais seletivos do que as mulheres da espécie humana podem imaginar. Certamente não tão seletivos quanto as mulheres, mas muito mais seletivos do os machos das espécies de primatas próximas a nossa. Um chimpanzé ficará interessado (e excitado) por uma fêmea seja ela feia ou bonita, alta ou baixa, gorda ou magra, nova ou velha, desde que ela esteja no cio. E, pensando bem, porque ele deveria desperdiçar uma oportunidade, qualquer que fosse, de reproduzir?
No caso dos homens esse ‘desperdício’ pode ser vantajoso. É que somos uma espécie muito particular em aspectos sociais. E uma dessas particularidades é a monogamia. A monogamia também não é aprendida, é algo que está no nosso hardware. Já veio de fábrica (eu sei que isso dá outros posts inteiros, mas peço que por favor guardem suas considerações para que possamos seguir adiante na questão da moda).

Abre parênteses:
para alguma coisa ‘entrar no hardware’, que significa se transformar em um comportamento determinado geneticamente, é necessário que durante milhões de anos, homens que não apresentavam essas características (esses comportamentos) e por ‘vontade’ ou ‘aprendizado’ escolheram mulheres fora desse padrão, deixaram menos filhos, que deixaram menos netos, que eventualmente desapareceram. Fecha parênteses.
E junto com a monogamia, foram selecionadas 3 características de gosto dos homens, sem as quais essa opção evolutiva (a monogamia) seria infrutífera. E por isso os homens gostam de mulheres bonitas de rosto, jovens, e com uma alta relação entre a cintura e os quadris.
Você, mulher, pode não gostar (e até conhecer vários exemplos contrários), mas o conjunto de evidências científicas apontando nessa direção é enorme. E não, vestidos novos ou velhos, azuis ou verdes, de seda ou de malha, estampados ou floridos, com ou sem brilho, combinando ou não com o sapato, não fazem parte da opção.
A beleza do rosto é um ótimo indicador não só de bons genes, como de uma boa nutrição durante a criação. Existem vários estudos (e eu não vou ficar citando tudo aqui porque essa não é uma revisão formal, mas você pode ler o capítulo que eu recomendo no final do texto) que mostram, por exemplo, o efeito de doses de testosterona ou estrogênio nos delineamentos do rosto (o que qualquer transsexual sabe). Don Symons diz que “A face é a parte mais densa de informação de todo corpo”.
A relação entre a cintura e os quadris (C/Q) mostra que não há um acúmulo de gordura que poderia ser prejudicial a saúde, ao mesmo tempo que sugere facilidade na hora do parto.
“Dentro do limite do razoável, um homem achará uma mulher de qualquer peso atraente desde que sua cintura seja mais fina do que seus quadris.”
Os estudos mostram que uma mulher cheinha, mas com uma alta C/Q é geralmente preferida à uma mulher magra mas C/Q baixa. Como a dieta em mulheres razoavelmente magras, como as modelos das passarelas, não tem nenhum efeito na relação C/Q (e quando muito piora ela, ao reduzir o quadril e não a cintura), elas estão condenadas a nunca se sentirem atraentes.
Finalmente, a juventude diz que aquela fêmea poderá reproduzir muitas vezes. Na verdade, muitos dos componentes da beleza feminina são indicadores da idade: ausência de marcas na pele, lábios cheios, olhos brilhantes, seios firmes, cintura estreita e pernas finas.
Abre parênteses: “Os homens (realmente) preferem as loiras”. As mulheres tingiam (ou descoloriam) em os cabelos de loiro desde a Roma antiga. O gene para cabelo loiro nas crianças é bastante comum na Europeus (e também entre os aborígines Australianos) e por isso, quando apareceu um mutação para que o cabelo loiro permanecesse até o início da idade adulta (não depois dos 20 anos de idade), todos os homens com tivessem uma preferência genética por mulheres loiras estariam casando somente com mulheres jovens. Os homens nunca tiveram uma forma direta de saber a idade das mulheres e por isso esse tipo de ‘hardware’ foi levou a um número maior de descendentes, espalhando a preferência e também a propagação do próprio traço (o cabelo loiro) que era certamente um indicador honesto do valor reprodutivo da fêmea. Fecha parênteses.
Se esses os 3 fatores que podemos dizer que determinam geneticamente a preferência dos homens por mulheres, a próxima pergunta tem que ser: pra que serve a moda? Porque certamente não é para deixar as mulheres mais bonitas para os homens. Quem achar isso, não entende nada de homem!
É verdade, a cirurgia plástica pode dar uma esticada no rosto e adiar um pouco a avaliação da idade, uma saia com crinolinas (armações usadas sob as saias para lhes conferir volume) podem enganar a relação C/Q ali; assim como esses malditos sutiãs com forro (que estão super na moda, ainda que sejam menos eficientes e bem menos bonitos que os antigos ‘meia-taça’), mas todos esses subterfúgios não são suficientes para enganar a maquinaria psico-fisiológica dos homens para detectar uma boa candidata a parceira.
A roupa pode ajudar, as pesquisas revelam o que todos já sabem: Os homens são atraídos por mulheres em roupas reveladoras, apertadas, curtas, coladas e decotadas. Quanto mais ‘inadequada’, melhor. A moda faz pouco por isso.
“Os homens são todos iguais” dizem a sabedoria feminina popular. Pelo menos no que tange o gosto pelas mulheres, é verdade. Podemos até dizer que todos os homens querem o mesmo tipo de mulher: o tipo bonito, jovem e reprodutor.
Mas, como os Stones já diziam, “You can’t always get what you want”.
Na Europa medieval e na Roma antiga, os homens poderosos pegavam todas as belezas para seus haréns, deixando uma falta generalizada de mulheres para os outros homens (hoje ainda é assim, na verdade, um pouco menos). Assim uma mulher feia tinha alguma chance de encontrar um homem desesperado bastante para casá-la. Isso não pode parecer muito justo, mas a justiça raramente é uma conseqüência da seleção sexual.
(Continua no próximo post)
Para saber mais: Leia o capítulo 9 – “Os usos da beleza” do livro “A Rainha Vermelha: sexo e a evolução da natureza humana” de Matt Ridley.

Discussão - 10 comentários

  1. A questão da monogamia humana é altamente discutível. Alguns falam em monogamia serial. De todo modo não podemos nos esquecer das sociedades poligâmicas.
    []s,
    Roberto Takata

  2. Mauro Rebelo disse:

    Roberto, entre os mamíferos já é suficientemente difícil encontrar sociedades verdadeiramente poligâmicas, devido ao custo para o macho em percorrer territórios para prover proteção e alimento. Nos humanos então… nem se fala. Quais seriam os exemplos que você conhece?

  3. A poliginia é permitida na religião muçulmana. E efetivamente os mais abastados possuem várias esposas. Os mórmons tb praticamente a poliginia.
    Algumas tribos nômades tibetas têm a poliandria fraterna – em que irmãos dividem uma mesma esposa.
    []s,
    Roberto Takata

  4. Mauro Rebelo disse:

    Então, não me parecem nem tantos exemplo, nem tão fortes, para questionar a tese da monogamia. Estão mais para ‘exceções que confirmam a regra’.

  5. Acho que o outro comentário ficou preso no antispam.
    Vou reproduzir um trecho (longo) de “A grande história da evolução” de Dawkins.
    “Obviamente, nem todas as espécies são como as focas. Muitas espécies são monógamas e os sexos são bem mais parecidos. Espécies nas quais os sexos são do mesmo tamanho tendem, com algumas exceções, como os cavalos, a não ter haréns. Espécies nas quais os machos são acentuadamente maiores do que as fêmeas tendem a ter haréns ou a praticar alguma outra forma de poliginia.[…]
    Nosso dimorfismo sexual é moderado, mas inegável. Muitas mulheres são mais altas do que muitos homens, mas os homens mais altos são mais altos do que as mulheres mais altas.[…]
    Mesmo assim, pelos padrões das focas e de muitos outros animais, somos apenas ligeiramente dimorfos. Menos do que os gorilas, mais do que os gibões. Talvez nosso leve dimorfismo signifique que nossas ancestrais ora foram monógamas, ora viveram como membros de pequenos haréns. As sociedades atuais variam tanto que podemos encontrar exemplos para corroborar quase qualquer preconcepção. O Etnographic atlas, de G.P. Murdock, publicado em 1967, é uma compilação arrojada. Traz informações sobre 849 sociedades humanas coligidas em um levantamento mundial. Nele talvez pudéssemos ter esperança de contar o número das sociedades que permitem haréns e o das que impõem a monogamia. O problema de contar sociedades é que raramente se evidencia onde devemos delimitar ou o que deve ser considerado independente. Isso dificulta um trabalho estatítico sério. Não obstante, o atlas fez o melhor que pôde. Dessas 849 sociedades, 137 (cerca de 16%) são monógamas, quatro (menos de 1%) são poliândricas e nada menos que 83% delas (708) são políginas (os homens podem ter mais de uma esposa).” Pp: 252-4.
    []s,
    Roberto Takata

  6. Mauro Rebelo disse:

    O argumento do Dawkins é lógico. Acho que o problema não é ‘permitir’ a poliginia, mas realizá-la. Qual será o percentual de homens poligâmicos dentro dessas sociedades que permitem a poligamia? Eu não sei a resposta, mas pelo que tenho lido, não pode ser alta. Se a razão de homens e mulheres em uma sociedade for 1:1, então para cada homem com duas mulheres, um outro não terá nenhuma. Isso gera tensões sociais que são difíceis de administrar. Por isso só os homens muito poderosos podem conseguir ter um harém, sem causar uma revolta entre os outros homens.

  7. O fator social pode até moldar uma situação em que não haja a manifestação de poliginia. Mas, nesse caso, não há uma “necessidade” da monogamia ser hardwired.
    Nas páginas seguintes ao trecho que postei, Dawkins segue a discutir o uso de poder que não está na forma de músculos na formação de haréns.
    De todo modo, mesmo considerando-se a proporção de 1:1 ao nascer, tal proporção não necessariamente se reflete na proporção adulta em sociedade humanas – tanto mais se considerarmos uma situação anterior às sociedades modernas. (Em vários sítios pré-históricos, parece haver um excesso de homens algo como 2:1 ou mesmo 3:1.)
    Além disso, especula-se que justamente a demanda por mulheres tenha sido uma causa frequente de guerras tribais.
    Sem falar na ocorrência frequente de relações extraconjugais – mesmo em sociedades modernas.
    E também, sociedades em que há efetivamente a figura de um rei, ou de alguém que concentra o poder, foi a regra até há pouco tempo. E, de certo modo, é ainda a regra nas sociedades modernas.
    []s,
    Roberto Takata

  8. Os exemplos contrários à monogamia colocados pelo Takata, ainda que insuficientes para refutar o fator genético, no mínimo apontam que esse fator pode não ser tão determinante para o comportamento monógamo, que pode ser subjugado pelo fator cultural em alguns casos. Não?

  9. Mauro Rebelo disse:

    Gente, estamos aprofundando em uma questão que não dá para eu aprofundar mais sem ler muita coisa. O problema da evolução é que ela é uma tautologia, e quando observamos um exemplo a posteriori, sempre podemos encontrar uma explicação plausível para ele. E essa discussão pode nunca ter fim. Como eu disse, a lógica do argumento do Dawkins é impecável, mas as colocações do Matt Ridley no livro sugerem que a poliginia não sobrevive a um exame parcimonioso. Os últimos argumentos do Takata não se aplicam apenas a uma sociedade monogâmica, e são os mesmos que o Matt Ridely usa no Rainha Vermelha. Acontece que não precisamos, e não podemos, considerar a monogamia vem junto com a fidelidade. Nossos genes são egoístas e temos que aproveitar todas as oportunidades que tivermos. A questão é que é mais fácil, mais parcimonioso, ser monogâmico e eventualmente infiél do que poligâmico, e responsável por muitas fêmeas e muitos filhos.

  10. SIDNEI disse:

    O SER HUMANO NÃO É FORMADO SÓ DE CORPO FISICO, MAS É FORMADO TAMBÉM DE ALMA E ESPIRITO, E EU NÃO CONCORDO QUE OS HOMENS SÃO TODOS IGUAIS, MUITOS HOMENS TEM SEMELHANÇAS COM OUTROS HOMENS, MAS SEMELHANÇA NÃO É IGUALDADE, POIS ESPIRITUALMENTE FALANDO, TODO HOMEM E TODA MULHER TEM UNIVERSOS DIFERENTES, CADA SER HUMANO É UNICO E EXCLUSIVO EM SUA NATUREZA, NOSSA ALMA VAI MUITA ALEM DOS NOSSOS GENES, JÁ QUE ESTES GENES FAZEM PARTE APENAS DO NOSSO CORPO VITAL MAS NÃO FAZ PARTE DO NOSSO CORPO ASTRAL QUE VIBRA EM OUTRA DIMENSÃO, CADA UM TAMBÉM CRIA SUA PRÓPRIA MODA, TEM OUTROS QUE NÃO FAZEM PARTE DE MODISMOS, SÃO PESSOAS QUE GOSTAM DE COISAS QUE QUASE NINGUÉM GOSTA, OS NOSSOS TEMPERAMENTOS JÁ EXISTIA BEM ANTES DO CORPO FISICO SER FORMADO, MUITA COISA DO QUE SOMOS ESTÁ LIGADO A NOSSA ALMA E NÃO AO CORPO FISICO, A CARCAÇA FISICA ENGANA E NÃO ENGANA MUITA GENTE, MAS A UNICA COISA QUE NÃO ENGANA É A NOSSA ESSÊNCIA ESPIRITUAL.

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