Não vou terminar de ler… O Anjo de Darwin e a Erva do Diabo

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Quando me encomendaram uma resenha de livro pela primeira vez, me disseram:
“Se não for pra falar bem, eu não quero. Encontre o que há de bom no livro.”
Foi um grato exercício, porque poderia até ter falado mal (como eu já disse aqui, a crítica é mais divertida que a tolerância) de um livro incrível.
Mas como disse o Nick Hornby em 31 canções: “aquela noite me ensinou uma coisa importantíssima: estamos autorizados a ir embora! Me lembro ainda o sentimento de alivio e alegria que provei entrando no bar e se non tivesse ido embora do concerto do Led Zeppelin aquela noite (depois de um solo de bateria de 20 min em uma música), jamais teria percebido que existe também essa possibilidade.”
Por isso estou deixando esses dois livros sem terminar de ler. Meu tempo é curto, e os livros para ler, muitos.
Ganhei “O anjo de Darwin” de aniversário do meu querido amigo Richard, com quem tenho grandes conversas filosófico-científicas e comprei a “Erva do Diabo” depois que a minha querida amiga Alejandra me mandou uma citação do livro, que se propunha a contar os ensinamentos de Don Juan.
Mas John Cornwell, autor de “O Anjo de Darwin. Uma resposta Seráfica a Deus, um delírio”” (de Richard Dawkins) peca pela superficialidade dos argumentos que usa para criticar Dawkins. “Deus, um delírio” é um de livro de 475 páginas, e ainda que, como tantos livros do Dawkins esteja repleto de coisas que ele já escreveu em outros livros, não se pode dizer que seja superficial.
Para Cornwell, podemos comparar a nossa imaginação a um ‘Anjo da guarda‘, um ‘serafim criativo‘:
“Um dos mais belos conceitos da inteligência mortal é a idéia do Anjo; pois os anjos exemplificam, simbolizam e tornam inteligível a capacidade mental dinâmica conhecida como imaginação. (…) Assim como os Anjos são livres das restrições do universo físico, assim também as mentes criativas de cientistas talentosos são liberadas das leis do tempo, da física e até mesmo da lógica, para fazer conexões unificadoras entre elementos dísptares da natureza. Invoque, portanto, a suspensão da descrinça para imaginar a presença de um anjo especial para naturalistas e biólogos. Considere como se fosse do ponto de vista de um anjo da guarda, a imaginação de Charles Darwin.
Realmente não é necessário, não é mesmo?
Ele identifica corretamente vários momentos em “Deus, um delírio” onde Dawkins faz seleção de observação para argumentar cientificamente em prol do Ateismo. Porém, seus argumentos para rebater Dawkins são na melhor das hipóteses filosóficos (não necessitam de evidência) e na pior das hipóteses, uma opção pela liberdade de exercer o livre pensamento e a fé. Nenhum deles suficientes para uma mente analítica como a minha. Resolvi parar no final.
Já a “Erva do Diabo. Os ensinamentos de Don Juan“, livro publicado no final da década de 60 e que deu fama ao antropólogo CArlos Castañeda é eu não passei da página 40.
Tenho que confessar que me iludi e comprei o livro achando que o Don Juan em questão era o personagem do floclóre espanhol. A citação que a Ale me mandou foi:
“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração. (…) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente tantas vezes quantas julgar necessárias… Então, faça a si mesmo e a apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma”.
Quando vi que o livro era um tratado de antropologia, achei que poderia ser interessante ler a respeito. Mas ai me deparei com as seguintes passagens.
“(…) o conhecimento da feitiçaria se tornava imcompreensível decido as características extraordinárias dos fenomenos que ele experimentava. Pessoalmente, como ocidental, achava essas características tão fantásticas que era quase impossível explicá-las em termos de minha própria vida cotidiana, e fui forçado a concluir que qualquer tentativa de classificar meus dados de campo em meus próprios termos seria inútil. Assim, tornou-se óbvio para mim que os conhecimentos de dom Juan tinha de ser examinados em termos de come ele mesmo os compreendia; e só nesses termos ‘q que poderiamo tornar-se evidentes e convincentes. (…) No sistema de crenças de don Juan, a acquisição de um aliado [conhecimento], significava exclusivamente a exploração dos estados de realidade não comum que ele produzia em mim pela utilização de plantas alucinógenas. ele acreditava que, concentrando-me nesses estados e omitindo outros aspectos do conhecimento (…) eu chegaria a uma visão coerente dos fenômenos (…).”
Jamais poderei fazer isso. E para ser coerente (no mínimo), parei de ler o livro.
Mas deve ter, por ai, quem ache válido o conhecimento obtido apenas através do uso de plantas alucinógenas. Ah se tem!

Discussão - 5 comentários

  1. Mário disse:

    Há um outro livro que se contrapõe a Deus, Um Delírio.
    Disponível aqui:
    http://www.mundocristao.com.br/adicionais/dawkins.pdf
    Uma questão: o ateísmo não é também uma atitude filosófica? Ou resulta de uma lei ou teoria científica?
    Acho que a discussão entre fé e descrença pertence a esfera da filosofia, da reflexão. Deixando mais claro, a “ciência” já provou a inexistência de Deus? Ela pode comprovar isso? Ora, se não pode, então a discussão e os argumentos são de natureza filosófica, mesmo quando se considera um ou outro dado ou Teoria científica para argumentar. Assim, não haveria, de fato, um “ateísmo científico”, resultado de uma teoria bem fundamentada.
    O amigo certamente já ouviu falar de Theodozius Dobzhansky. Certamente, alguém também dotado de uma mente analítica, não? A partir desse exemplo, acho que podemos concluir que ter uma “mente analítica” não é empecilho à crença.
    Obrigado.

  2. Humberto disse:

    Grande parte dos cientistas são ateus porque não conseguem separar ciência de outros aspectos da vida. Não existe uma gaveta no cérebro contendo o que se pode aplicar a ciência e pensamento lógico e outra gaveta dizendo o que não pode. E, como aspirante à cientista, acho que a ciência é uma ferramenta capaz de resolver questões de todas as áreas. O problema da religião é que ela não pode ser fruto de uma análise cientifica por que é um “conhecimento” baseado unicamente na imaginação, ou em viagens alucinógenas. A sacralização desse tipo de “conhecimento” pela sociedade é altamente arriscada e pode resultar em regimes teocráticos desastrosos. Por isso concordo com a ideía de Dawkins de tentar tirar a religião desse pedestal arrogante e intocável, mas não pela força como a igreja adora fazer, mas sim com argumentos lógicos, que não são exclusivos da ciência, mas também da filosofia.

  3. Loki disse:

    Li ‘por cima’ alguns dos livros de Castaneda por sugestão de uma amiga também, o que me levou a crer que Don Juan é na verdade um guia espiritual moderno, para aqueles que não gostam mais de sua ‘religião de nascença’. Ele oferece dicas ‘elucidativas’ sobre a subjetividade da realidade, assim como Jesus ou Buda o fizeram.
    A meu ver, Castaneda foi mais um daqueles cientistas que se desviam do caminho do Método, e caem nas armadilhas dos bons-de-papo. Teve algumas explicações sobre “outros universos paralelos” que Don Juan deu que doeram no meu senso crítico.

    Mário, sim, a ciência já demonstrou que acreditar em seres imaginários e atribuir-lhes intencionalidade em múltiplos níveis faz parte da psiquê humana (e de outros primatas) adquirida através da evolução.
    Leia os trabalhos do Dr. Andy Thomson.

  4. João Marcos disse:

    Adorava ler Castaneda na adolescência. Como quase todo mundo, também cheguei a ele por essa citação, a epígrafe de algum livro do Autran Dourado, A barca dos homens, se não me engano.
    Para um bom resumo do que Castaneda representou, recomendo este artigo da Salon: http://www.salon.com/books/feature/2007/04/12/castaneda

  5. arte disse:

    Li praticamente todos os livros do castanheda e, no meu ver, o conteúdo deles são metáforas sobre realidades psicológicas . Vendo através desse prisma, garanto que a obra dele vai parecer riquíssima, pois as metáforas tem essa capacidade de abordar temas complexos, amplamente conectados, sem tentar descrevê-los detalhe a detalhe. Isso já dizia Jung ao estudar os símbolos que fazem parte integrante da psique e que são transculturais. O erro está em fazer a leitura de Castanheda de forma literal, assim como se fez com a Bíblia e outros livros sagrados, fontes riquíssimas de metáforas e imagens simbólicas. Acho que os ensinamentos de Dom Juan também são filosóficos, questionando o que é a “realidade” e evidenciando a influência da cultura e dos conceitos ,aprendidos precocemente, sobre a nossa construção de mundo. Isso me lembra muito o trabalho de Maturana e Varella sobre cognição e complexidade… . Acaba também falando sobre Ética e questões existenciais. Lembro de algumas passagens onde ele refletia sobre a morte,e que nos ensinamentos dele ela é uma entidade real, que está constantemente nos espreitando, atrás de nós , a apenas um passo, esperando para tocar nosso ombro. E ele fala sobre como nós, pessoas normais, a ignoramos e vivemos como se nunca fossemos morrer, como se ela nunca fosse nos tocar. Quando então despertamos para o mundo dos “brujos”, passamos a enxergá-la e vivemos então com a consciência que nosso tempo nessa vida é escasso, que não podemos perder um minuto sequer com atividades que não sejam importantes, atividades que não levam ao “conhecimento”. Enfim , isso não parece nada com ciência, mas acho que não perde nada em relevância. Sugestão : continue lendo, com um outro olhar. O livro “A erva do Diabo” realmente é chato de ler, tem um estilo literário cansativo. Mas outros e livros, escritos posteriormente são bem mais interessantes, como “A Arte do Sonhar” ou o “Viajem a Ixtlan”.
    Atenciosamente,
    Alex

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