O carro na frente dos bois

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Descobri o que anda me irritando tanto nos congressos e na ecotoxicologia em geral: primeiro, ninguém sabe fazer apresentações de PowerPoint interessantes (colocam mais introdução do que resultado, introduzem o que a platéia já sabe, não treinam e não respeitam o tempo, usam tabelas impossíveis de ler, figuras pequenas demais, e outras coisas que você pode ler aqui). Mas isso é em qualquer área e é o que torna os congressos tão chatos em geral. A segunda coisa é que os trabalhos são pequenos demais. Quer dizer, as vezes são trabalhos grandes, mas com uma pergunta muito específica. Parece que estamos todos olhando para um aspecto muito particular, de um problema mais particular ainda, porque a ‘big picture‘, o problema como um todo, é muito grande, muito complexo, ou muito caro. Mas o que mais me irrita mesmo, é o pessoal que faz um experimento e depois fica ‘brincando com os dados’ pra ver o que pode responder. Encontra uma correlação aqui, uma correlação ali… e acha que pode concluir alguma coisa. Colocar os resultados antes de ter muito claro qual, ou quais são, as perguntas, é colocar o carro na frente dos bois. E desrespeitar um princípio básico do método científico. A pergunta tem que vir ‘antes’ do desenho experimental e da análise dos resultados. A falta de uma pergunta específica no início do experimento, leva a um desenho experimental que responde não só a uma, mas a várias perguntas. Quando se observa um evento a posterióri, podemos justificá-lo ou explicá-lo não com uma, mas com várias teorias. Sem nunca poder determinar qual a verdadeira. (no máximo podemos usar a Navalha de Occam pra escolher qual é a melhor) É sempre possível, com base em uma mesma observação, contar várias histórias plausíveis. É o que diz a lógica dedutiva, e por isso que não podemos usá-la no método científico.

Que bichinho é esse? Que plantinha é essa? E como dizer isso pros outros?

Na viagens que fazia com amigos durante a faculdade, era inevitável a presença de zoólogos ou botânicos que paravam a cada passo para admirar, identificar ou coletar alguma coisa. Os amigos dos amigos, estudantes de direito, economia ou administração, começaram logo a implicar: “Que bichinho é esse?” ou “Que plantinha é essa?” Apesar da implicância, essa curiosidade pelo mundo que nos cerca não é exclusiva dos biólogos, e nem dos cientistas. Ela está dentro de cada um de nós.

Em outro momento, já depois de formado, ouvia com enorme freqüência a seguinte pergunta: “Mauro, você que é biólogo, me explica…” e o que se seguia eram as dúvidas mais estapafúrdias, nem sempre pertinentes, de pessoas leigas e sinceramente intrigadas com a natureza que as cercava. As vezes, devo confessar, fui mau, e criava uma resposta fantasiosa tão estapafúrdia quanto a pergunta. Era divertido. Como quando num dos muitos finais de semana que passei em São Paulo na casa do meu tio, indo do Rio de Janeiro para Rio Grande onde cursei o mestrado, sentados na varanda, ele me perguntou: “Mauro, você que é biólogo, tem um passarinho que sempre vinha aqui na minha varanda. Ele chegava a tarde e depois ia embora. Porque agora ele não vem mais?”

Respondi que a culpa era da poluição e que ele devia fumar menos por isso também. Ou algo desse tipo. Como eu poderia falar que a pergunta estava mal formulada, pedir o número de observações que ele fez da frequência de visitas do pássaro, se ele usou algum método de foto-identificação para saber se era sempre o mesmo pássaro, se havia mudado as plantas do jardim, e outras tantas variáveis que seriam pertinentes se aquele fosse um experimento ou trabalho de campo. Todos somos cientistas, mas trabalhar com o método científico é para poucos. Dá trabalho e exige muita dedicação e atenção. Além de uma fé quase religiosa nos seus procedimentos. Mas como explicar isso para os outros? O que escrever? Para quem? Como?

Essas são perguntas que chegam a atormentar um cientista todos os dias, e foi sobre elas que eu escolhi falar para os alunos da UNICAMP que gentilmente me convidaram para uma palestra sobre divulgação científica no seu IX CAEB – Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia em Julho/2009. Tenham certeza que estarei lá.

Ferraris e bicicletas

Chegamos no Costão do Santinho em cima da hora. O PRIMO (Pollutant Responses in Marine Organisms) é o congresso mais importante da minha área. O SETAC (Society of Environmental Contamination and Toxicology) também pode ser muito bom, mas é grande demais e a gente fica com a sensação de que mais perdeu, do que ganhou informações. O PRIMO 14 está acontecendo pela primeira vez fora do eixo Europa/EUA e o Afonso Bainy da UFSC foi muito competente em conseguir trazê-lo pro Brasil.
Todo mundo estava lá: John Stegeman, Aldo Viarengo, Miren Cajaraville, Odd-Ketil Andersen e mais uma penca de cabeças coroadas. Editores da Aquatic Toxicology, Comparative Biochemistry and Physiology e da Marine Environmental Research. A primeira palestra foi boa. O tema era interessante, mas o Mark Hahn, coitadinho, é muito sem graça. O coquetel que se seguiu foi bom e eu fiquei cumprimentado o pessoal que eu só encontro a cada dois anos e colocando o papo em dia com meus amigos italianos.

Thiago, Rodrigo e Lia, meus alunos que foram pro evento, estavam deslumbrados, mas o JP tinha que acordar cedo no dia seguinte pra ir colocar coletores nas serras catarinenses (em São Joaquim ou perto de lá, naqueles pontos onde neva no Brasil), e quando terminou a comida (pobre é foda) a gente foi pra pousada.

Durante todo o congresso vimos poucos trabalhos realmente novos. Uma aluna do Adalto Bianchini do sul mostrou um método autoradiográfico pra identificar acúmulo de metais pesados (radioativos) nas diferentes partes do corpo de copépodos. Thiaguinho mostrou que perspicácia e persistência são mais importantes do que um monte de dinheiro para fazer um bom trabalho e finalmente, um americano criativo calculou o “custo” (em ATP) do funcionamento das proteínas PgP, que bombeiam para fora da célula um monte de porcarias. Um tempo atrás escrevi um artigo sobre como essas proteínas poderiam ser a razão pela qual os moluscos bivalves não desenvolveram um sistema ativo de biotransformação. Fiz de novo essa pergunta para o John Stegeman quando ele apresentou um novo CYP “supérfluo” em peixes. A resposta foi tortuosa, como é o assunto. Evolução de CYPs é muito interessante.

Durante as sessões de painéis, regadas a vinho e a uma caipirinha forte demais, o Rodrigo parecia uma esponja, recolhendo todas as informações que podia de todo mundo. Lia, de uma simpatia que chamou a atenção e conquistou a todos (inclusive um francesinho), também aproveitou para tirar muitas dúvidas e agora tem um monte de trabalho pela frente.

No último dia, a sessão mais cheia foi a dos Noruegueses. Foi inevitável não ficar impressionadíssimo com todos aqueles geis de proteômica (e todas aquelas loiras apresentando os géis de proteômica), que identificavam padrões de expressão de Hidrocarbonetos Poliaromáticos em Salmões e outros bichos com CENTENAS de proteínas variando. Antes da sessão terminar perguntei pro Rodrigo, que trabalha apenas com uma proteína e com geis unidimensionais, o que ele estava achando. Com uma cara assombrada ele me responde: “Eles estão dirigindo uma Ferrari e a gente uma bicicleta”. Foi a definição do congresso.


Mas um exame um pouco menos impressionado sugere outra coisa também. As loiras não sabiam exatamente dirigir a “Ferrari”. Ou seja, não sabiam exatamente o que aquelas 148 proteínas, induzidas ou repressas, realmente querem dizer. Os géis são comprados e não feitos na hora como os nossos. O Rodrigo pode ter uma bicicleta, mas sabe dirigir ela muito bem. Modificou todo o protocolo proposto pelo papa da metalotioneína e apresentou o gel mais bonito do congresso.

Fica aquela idéia de que os requisitos para pilotar uma Ferrari são:
1) Ter o dinheiro pra comprar uma;
2) saber apertar os botões;
3) sóóóóóóóóó depois… vem o saber dirigir.

O congresso continuou no Rio já que muitos deles vieram pra cá. Levei o Francesco e o Viarengo para conhecer a universidade e a Fiocruz. Não esperava que eles ficassem tão impressionado com o meu modesto laboratório e nem que eles ficassem tão mais impressionados com a Fiocruz. Mas tenho que dizer que não esperava o show que o Richard deu com a proteômica e o Milton com a genômica. Quem tem amigos como esses…


Nosso laboratório está montado e pronto pra começar a produzir bem. Esse congresso serviu pra direcionar um pouco nossas idéias. Daqui a pouco poderemos comprar um Gol 1000. E enquanto as loiras aprendem a apertar todos os botões, a gente passa a frente dos gringos.

PS: Onde será que estava o pessoal do CENPES da Petrobras o congresso todo?

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