A Fundação Rockefeller e o Modelo Filantrópico de Medicina

FMUSP contrução

Construção da sede da Faculdade de Medicina РFoto de 31 de Julho de 1929. Cortesia do Acervo da FMUSP

Parece ter havido um momento bastante peculiar e relativamente curto, logo no in√≠cio do s√©culo XX, no qual as pr√°ticas de sa√ļde, medicina incluso, sofreram uma modifica√ß√£o estrutural de propor√ß√Ķes gigantescas. A forma√ß√£o m√©dica, que era baseada na transmiss√£o de conhecimentos do pr√°tico a seus aprendizes, muda repentinamente seu eixo em dire√ß√£o √†s grandes institui√ß√Ķes de ensino m√©dico; o estudo aned√≥tico de casos cl√≠nicos d√° lugar, sucessivamente, √† estat√≠stica vital, √† epidemiologia cl√≠nica e, claro, posteriormente √† medicina baseada em evid√™ncias; Galeno sai, finalmente, de cena e entra Claude Bernard; o franc√™s e o alem√£o, como l√≠nguas cient√≠ficas, cedem espa√ßo ao ingl√™s. A maleta do m√©dico √© progressivamente substitu√≠da pelo hospital; tudo isso em n√£o mais que um par de d√©cadas.

Muito tem sido escrito sobre qual o papel desempenhado pelas funda√ß√Ķes filantr√≥picas e, especificamente, a¬†Funda√ß√£o Rockefeller¬†(FR), nessa revolu√ß√£o. Ele n√£o foi pequeno. H√° centenas de livros, document√°rios, artigos e uma simples busca na internet revela uma enorme quantidade de informa√ß√Ķes confi√°veis em meio a outras cuja veracidade √© dif√≠cil comprovar. A atua√ß√£o da FR, bem como de outras entidades filantr√≥picas, na √°rea educacional em geral e no ensino m√©dico em particular, al√©m de sua influ√™ncia na sa√ļde p√ļblica, agricultura, e outras tantas √°reas nas quais a ci√™ncia estava em pleno desenvolvimento na √©poca, tem sido tanto objeto de cr√≠ticas violentas, como defendida com fervor e devo√ß√£o at√© hoje. Mas, uma quest√£o permeia incomodamente todo esse corpus monumental de ideias: Por que os maiores de todos os filantropistas, os Rockefellers, Senior e J√ļnior, orientados pelo reverendo batista¬†Frederick Taylor Gates, escolheram a medicina? Tal decis√£o n√£o parece ter sido tomada de modo s√ļbito e consciente desde o in√≠cio.¬†A quest√£o do saneamento b√°sico era premente naquela √©poca: esgotos a c√©u aberto, pobreza, √°gua n√£o tratada, epidemias de c√≥lera, febre tif√≥ide, ancilostom√≠ase, febre amarela e mal√°ria dizimavam a popula√ß√£o e diminu√≠am drasticamente a produtividade dos trabalhadores, em especial no Sul dos Estados Unidos. Com esse quadro ca√≥tico, nada mais natural que os incentivos √†s campanhas de erradica√ß√£o de pragas, √† pesquisa de novas t√©cnicas agr√≠colas e ao fomento da ci√™ncia biom√©dica, bem como a constru√ß√£o de escolas e outros tantos projetos desenvolvidos por Gates e financiados pelos Rockefellers. Inicialmente com a funda√ß√£o do¬†Rockefeller Institute for Medical Research (hoje a Rockefeller University) em 1901, e depois,¬†por meio do General Education Board¬†a partir de 1903, a predile√ß√£o quase obsessiva pelo ensino m√©dico s√≥ viria manifestar-se com todas as suas caracter√≠sticas ap√≥s o estabelecimento da Funda√ß√£o Rockefeller em 1913 (perfazendo seu centen√°rio¬†em 2013, portanto).

Duas linhas de pensamento orientavam as pr√°ticas m√©dicas na segunda metade do s√©culo XIX. A medicina social era, como vimos, um campo em pleno desenvolvimento e nomes como¬†Villerm√©, Buchez e Gu√©rin na Fran√ßa; Neumann, Virchow, e Leubuscher na Alemanha, estudavam as causas sociais e ocupacionais¬†das doen√ßas. Rudolf Virchow¬†(1821-1902), um dos pais da patologia celular moderna e um dos m√©dicos mais importantes do s√©culo XX, defendia que a medicina “deveria intervir na vida pol√≠tica e social”. ¬†Por outro lado, desde Pasteur e Koch, proponentes da teoria infecciosa das doen√ßas, uma vis√£o algo mais “conservadora” come√ßou a dominar a pesquisa m√©dica j√° que a identifica√ß√£o de agentes respons√°veis por toda a constela√ß√£o cl√≠nica de sinais e sintomas que uma doen√ßa espec√≠fica causa, encorajou a ideia de que terapias espec√≠ficas tratariam doen√ßas espec√≠ficas. A descoberta de tais terapias deveria ter preced√™ncia sobre fatores econ√īmicos e sociais. N√£o por acaso, Virchow se envolveu em embates sobre o assunto com Koch e Semmelweis, este √ļltimo, o descobridor de que a causa da febre puerperal era a falta de higiene das m√£os dos m√©dicos. Quando da apresenta√ß√£o de Koch na Sociedade de Fisiologia de Berlim em 1882 sobre a descoberta de que um bacilo causava a tuberculose, Virchow, cuja vis√£o podia ser classificada como “anticontagionista”, se op√īs veementemente. Para Virchow, o fato de carregarmos bact√©rias em nosso organismo era sinal de que tais “micr√≥bios” s√≥ causariam doen√ßas se, por algum motivo, o hospedeiro se enfraquecesse. O anticontagionismo teimoso de Virchow foi uma rea√ß√£o √† passagem para segundo plano de sua “teoria social das doen√ßas”.¬†Ambos m√©dicos receberam verbas de seu pa√≠s, montaram laborat√≥rios influentes, receberam fellows e foram pesquisadores reconhecidos mundialmente, mas a vis√£o “cient√≠fica” de Koch e Pasteur era a mais adequada a quem tinha a “caneta na m√£o”. Para Gates, a mis√©ria era uma quest√£o t√©cnica, n√£o social. Como escreveu Brown [1]

Quando Gates, [Rockefeller] J√ļnior e outros homens da Funda√ß√£o Rockefeller decidiram estabelecer a primeira escola de sa√ļde p√ļblica dos EUA, eles selecionaram o Dr. Welch e a Johns Hopkins como seus ve√≠culos sabendo que a nova escola deveria ter forte √™nfase nas ci√™ncias b√°sicas e n√£o divagar em quest√Ķes sociais.

A resposta √† pergunta “por que a medicina?” pode servir de base para entendermos a medicina que √© praticada em grande parte dos pa√≠ses ocidentais e tamb√©m no Brasil atualmente. Quando John D. Rockefeller o chamou para coordenar as a√ß√Ķes filantr√≥picas do que viria a se tornar a Funda√ß√£o Rockefeller em 1890, Gates comprou um exemplar do livro do canadense¬†William Osler¬†da Johns Hopkins (que, ali√°s, estagiou com Virchow em 1873), um dos m√©dicos mais influentes da √©poca [2]. Gates ficou fissurado pelo livro. Em uma s√©rie de memoranda enviadas ao seu “chefe”, ele defende que o desejo por sa√ļde √© uma for√ßa unificadora “cujos valores permeiam tanto o pal√°cio do rico quanto a cabana do pobre. A medicina √© um servi√ßo que penetra todos os lugares”. Portanto, “os valores da pesquisa m√©dica s√£o os valores mais universais da Terra e eles s√£o os mais importantes e individuais de cada ser vivente”[3]. Com a medicina, o reverendo Gates queria converter pag√£os e angariar mercados de mat√©rias-primas e viu nela um quebra-nozes cultural, capaz de transpor as barreiras que ex√©rcitos n√£o poderiam transpor. A medicina tecno-cient√≠fica seria o substituto secular do proselitismo crist√£o com as vantagens de poder exibir resultados incontest√°veis na melhoria da vida das pessoas. A FR injetou 45 milh√Ķes de d√≥lares na China para modificar a Peking Union Medical¬†College¬†e quantidade similar nas Filipinas, Tail√Ęndia, M√©xico, entre outros tantos pa√≠ses. Para o nosso pa√≠s, valem as palavras da professora Maria Gabriela Marinho [4], maior estudiosa do assunto:

No Brasil, nas primeiras d√©cadas do s√©culo XX,¬†mais particularmente em S√£o Paulo, o ensino e a pesquisa¬†na √°rea biom√©dica foram dimens√Ķes privilegiadas desse¬†apoio institucional cujas origens podem ser identificadas¬†em 1916, quando estabeleceram-se os primeiros contatos¬†entre a Funda√ß√£o Rockefeller e a Faculdade de Medicina¬†e Cirurgia de S√£o Paulo. Desses contatos iniciais resultaram¬†dois grandes acordos, envolvendo recursos espec√≠ficos e¬†de grande monta: o primeiro, com vig√™ncia entre 1918 e¬†1925, destinado √† cria√ß√£o do Instituto de Hygiene e para o¬†qual foram enviados dois pesquisadores norte-americanos,¬†Samuel Taylor Darling e Wilson Smillie. Como desdobramento¬†deste mesmo acordo, foi criado ainda o Instituto¬†de Pathologia, onde atuaram, entre 1922 e 1925, dois outros¬†pesquisadores estrangeiros: o canadense Oskar Klotz¬†e o norte-americano Richard Archibald Lambert.¬†Especificamente no campo da Higiene, o processo¬†traduziu-se pela cria√ß√£o, sucessivamente, da Cadeira de¬†Hygiene (1916), depois Departamento de Hygiene (1917),¬†posteriormente Instituto de Hygiene (1918), que resultou,¬†finalmente, em 1946, na implanta√ß√£o da Faculdade de¬†Higiene e Sa√ļde P√ļblica.¬†O segundo grande acordo visou especificamente¬†√† reformula√ß√£o da estrutura acad√™mica da Faculdade de¬†Medicina com o objetivo de transform√°-la em institui√ß√£o modelo¬†para a Am√©rica Latina, com base no projeto de¬†excel√™ncia das Rockefeller‚Äôs Schools, disseminado em escala¬†planet√°ria e assentado no modelo uniforme de tempo¬†integral para pesquisa e doc√™ncia nas disciplinas pr√©-cl√≠nicas,¬†numerus clausus (limita√ß√£o do n√ļmero de vagas) e¬†cria√ß√£o do Hospital de Cl√≠nicas, recomenda√ß√Ķes preconizadas¬†em 1910 pelo Relat√≥rio Flexner, encomendado pela¬†Funda√ß√£o Carnegie e substrato das reformas do ensino¬†m√©dico norte-americano no per√≠odo.¬†A abrang√™ncia da interven√ß√£o na Faculdade de¬†Medicina de S√£o Paulo pode ser aferida, entre outros¬†indicadores, pelo volume de recursos a ela destinados¬†pela FR: foram transferidos cerca de um milh√£o de¬†d√≥lares entre 1916 e 1931 para a remodela√ß√£o do ensino¬†m√©dico. Aproximadamente no mesmo per√≠odo ‚Äď 1916-1940 ‚Äď a mesma ag√™ncia destinou cerca de quatro¬†milh√Ķes de d√≥lares para o combate √† febre amarela em¬†todo o territ√≥rio brasileiro.

A Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo¬†estabeleceu-se como uma “Rockefeller School”. Muitas outras escolas m√©dicas a seguiriam em seu modelo hopkinsniano de ensino e pesquisa, algo avesso √†s “divaga√ß√Ķes sociais” e que floresceria na √Āsia, Europa e Am√©rica na primeira metade do s√©culo XX. Podemos afirmar que a forma√ß√£o m√©dica no Brasil jamais seria a mesma ap√≥s sua funda√ß√£o. A pergunta que se imp√Ķe agora √© saber quais os poss√≠veis efeitos colaterais desse modelo vencedor de fazer medicina dado que os efeitos desejados, j√° s√£o conhecidos: a FMUSP vem cumprindo seu papel de lideran√ßa no cen√°rio m√©dico brasileiro e latino-americano com proje√ß√£o internacional. Quando perguntei se “ao trazermos, com for√ßa, ao debate acalorado de hoje, a¬†ci√™ncia¬†que nos embasa e nossa pr√≥pria¬†sabedoria pr√°tica m√©dica¬†como argumentos inelut√°veis ao criticismo ‚Äúlaico‚ÄĚ, n√£o estar√≠amos tamb√©m invocando os fantasmas de um certo ‚Äúconservadorismo sofisticado‚ÄĚ, autorit√°rio e paternalista, aos moldes dos grandes filantropistas √† frente de suas poderosas funda√ß√Ķes?” era sobre isso que eu gostaria de saber. Sempre que somos chamados a nos posicionar sobre assuntos que nos dizem respeito – da vinda de m√©dicos estrangeiros e sua forma de fazer medicina, √†s pol√≠ticas de sa√ļde, formas de remunera√ß√£o e rela√ß√£o com outros profissionais -, n√£o devemos nos esquecer das bases hist√≥ricas, pol√≠ticas e sociais nas quais nossa forma√ß√£o se insere, sob o risco de, ou¬†associarmo-nos a¬†mudan√ßas sociais indesej√°veis, ou¬†retardarmos as que legitimamente representam um anseio da popula√ß√£o, dado o papel singular que a medicina desempenha na sociedade, como j√° notava Gates. √Č preciso olhar um pouco para baixo e ver do lugar a partir do qual falamos. O “modelo filantr√≥pico de medicina” foi uma alternativa norte-americana ao modelo “social” de medicina proposto por Virchow, pela Columbia¬†e¬†por outros tantos autores de orienta√ß√£o marxista. Sem ju√≠zo de valor, para que nos utilizemos melhor dele, ser√° preciso nos emancipar de seus eloquentes resultados e considerar tamb√©m o que foi deixado para tr√°s, em especial, aquilo que ainda n√£o nos √© dado ver.

 

[1] Brown, ER.¬†Rockefeller Medicine Men: Medicine e Capitalism in America. Berkeley, University of California Press, 1979. Dispon√≠vel para download em¬†Rockefeller medicine men : medicine and … – Revalvaatio.org

[2] Osler constituiu um dos quatro cavaleiros fundadores da Escola de Medicina da Johns Hopkins, chamados de¬†The “Big Four” junto com¬†William Stewart Halsted, Professor de Cirurgia,¬†Howard A. Kelly, Professor de Ginecologia e ¬†William H. Welch, Professor de Patologia. Um dos grandes m√©ritos de Osler foi insistir na Resid√™ncia como parte integrante e insubstitu√≠vel da forma√ß√£o do m√©dico.

[3]¬†Gates, FT. “Address on the Tenth Anniversary of the Rockefeller Institute,” 1911, Gates collection, Rockefeller Foundation Archives, in Brown, ER.

[4] Marinho, MGSMC. Horizontes, Bragança Paulista, v. 22, n. 2, p. 151-158, jul./dez. 2004 (pdf)

Medicina, Capitalismo e Esquizofrenia

FMUSP

Prédio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Quem passa pela avenida Doutor Arnaldo vindo da Heitor Penteado em dire√ß√£o √† avenida Paulista tem, logo ap√≥s a rua Cardeal Arco Verde, √† sua esquerda, o cemit√©rio do Ara√ß√° e suas bancas de flores; √† sua direita, pela ordem, o¬†Centro de¬†Sa√ļde¬†Escola Geraldo de Paula Souza, a Faculdade de Sa√ļde P√ļblica, o cruzamento da rua Teodoro Sampaio, o Instituto Oscar Freire, ¬†a Faculdade de Medicina (acima), o Instituto Adolfo Lutz, o moderno pr√©dio do Instituto do C√Ęncer,¬†o Instituto de Infectologia Em√≠lio Ribas¬†e finalmente,¬†a ponte sobre a Rebou√ßas que d√° acesso √† rua da Consola√ß√£o e √† Paulista. A depender do tr√Ęnsito, sempre muito intenso na regi√£o, n√£o √© raro perder quinze ou vinte minutos neste trajeto de quinhentos metros tendo como vis√£o algumas das mais antigas institui√ß√Ķes estatais da Sa√ļde P√ļblica do estado de S√£o Paulo. Isso sem esquecer que tal fachada esconde o complexo gigantesco do Hospital das Cl√≠nicas¬†que se estende at√© a rua Artur de Azevedo, tendo como limite a Teodoro Sampaio e a Rebou√ßas. Tal como uma parada na qual quem se move s√£o os espectadores, desfilam diante n√≥s institui√ß√Ķes centen√°rias ao lado de modernas instala√ß√Ķes hospitalares numa paisagem que tem sido descrita como local “onde a tradi√ß√£o se junta √† inova√ß√£o tendo como objetivo a sa√ļde da popula√ß√£o”. √Č uma demonstra√ß√£o de poder. P√ļblico.

Quando entrei a primeira vez no pr√©dio da Faculdade de Medicina, lembro-me bem, tive um tipo de dispneia (vale a visita, agora que est√° restaurada). “Nem parece que estamos no Brasil” – diziam com orgulho. O intr√≥ito √© de m√°rmore italiano. A escadaria central √© imponente e, ao mesmo tempo, discreta. As salas de aula, tradicionais e belas. Vitrais, janelas, o rel√≥gio. As salas da diretoria e da Congrega√ß√£o s√£o m√°quinas do tempo de austeridade e estilo. Obras de arte. Apenas l√° pelo terceiro ou quarto ano da faculdade, a mem√≥ria agora me falha, descobri que nossa bel√≠ssima casa fora constru√≠da com capital privado dos EUA proveniente da¬†Funda√ß√£o Rockefeller, por meio de acordos que se iniciaram no long√≠nquo ano de 1916. Tamb√©m o pr√©dio do Instituto Oscar Freire, da Faculdade de Sa√ļde P√ļblica, do Hospital das Cl√≠nicas, al√©m da¬†Faculdade de Medicina da USP de Ribeir√£o Preto, ou receberam incentivos, ou foram totalmente constru√≠dos com verbas da mesma funda√ß√£o. Demorei algumas d√©cadas para me dar conta de tal¬†extravag√Ęncia.¬†Na medida em que fui me inteirando dos fatos, quest√Ķes foram surgindo. Por que cargas d’√°gua uma funda√ß√£o norte-americana com capital gigantesco proveniente da refina√ß√£o monopolizada¬†do petr√≥leo e outras¬†commodities¬†(como carv√£o), forjada no p√≥s-guerra civil (presumivelmente um conflito anti-escravid√£o), financiaria uma faculdade de medicina em um pa√≠s sul-americano que, apenas algumas d√©cadas antes do in√≠cio das negocia√ß√Ķes, era uma monarquia escravagista? Por que o Brasil, e especificamente, a cidade de S√£o Paulo? A medicina praticada aqui e l√° era assim t√£o diferente para haver uma “exporta√ß√£o de tecnologia” dessa monta? Por que a Funda√ß√£o Rockefeller acatou integralmente o tal relat√≥rio Flexner sobre ensino m√©dico financiado por outra institui√ß√£o (abastecida pelo capital da explora√ß√£o tamb√©m monopolizada do a√ßo norte-americano) a Funda√ß√£o Carnegie? Qual seria a rela√ß√£o entre esses eventos e a vinda de m√©dicos norte-americanos ao Brasil, como Alan Gregg?

Desta vez, tive um tipo de cefaleia; e vertigem tamb√©m. Isso sempre acontece quando tenho que pensar uma coisa muito grande e acho que minha cabe√ßa n√£o vai dar conta de pensar tudo, at√© o fim. Me foi inevit√°vel relacionar os discursos de v√°rios colegas e¬†entidades m√©dicas de hoje, expostos que est√£o por for√ßa de atitudes governamentais (vide Ato M√©dico, Programa Mais M√©dicos, etc), com as bases da estrutura√ß√£o do ensino m√©dico no Brasil e, particularmente, em S√£o Paulo. Haveria algo assim como uma “ideologia m√©dica” alienante, esquizofrenizante? Algo que misturasse o humanismo visceral que os verdadeiros m√©dicos carregam em suas entranhas com um v√≠cio de pensamento egocentrado e auto-referente? O que seria isso e como o diagnosticamos? De onde vem? Ao trazermos, com for√ßa, ao debate acalorado de hoje, a ci√™ncia que nos embasa e nossa pr√≥pria sabedoria pr√°tica m√©dica como argumentos inelut√°veis ao criticismo “laico”, n√£o estar√≠amos tamb√©m invocando os fantasmas de um certo “conservadorismo sofisticado”, autorit√°rio e paternalista, aos moldes dos grandes filantropistas √† frente de suas poderosas funda√ß√Ķes? Teria tudo isso alguma rela√ß√£o com a enorme crise na sa√ļde norte-americana e seu encarecimento sem precedentes, com a intera√ß√£o, por vezes, prom√≠scua dos m√©dicos com as ind√ļstrias farmac√™utica e de tecnologia m√©dica, com o teor do que √© publicado como ci√™ncia m√©dica nas revistas especializadas, com as regras do jogo que transforma alguns de n√≥s em professores titulares?

Tomei um grama de dipirona e fiquei com seu(?) gosto amargo na boca.

FMUSP 100 Anos – Carta do Prof. Arrigo Raia

Faculdade de Medicina com o Hospital das Clínicas as fundo. Provavelmente década de 50.

O Ecce Medicus publica hoje, como parte das comemora√ß√Ķes dos 100 anos da Faculdade de Medicina da USP, uma carta do professor Arrigo Raia divulgada originalmente no jornal da Funda√ß√£o Faculdade de Medicina. A FMUSP n√£o √© a faculdade de medicina mais antiga do Brasil, mas talvez seja a que disp√Ķe de uma mesa mais farta para que cada aluno possa se servir. Seu pr√©dio na avenida Dr. Arnaldo e o museu de medicina valem uma visita. A FMUSP comemora 100 anos da formatura de sua primeira turma junto com o centen√°rio de seu aluno decano.

Uma vida longa como a da FMUSP

Nasci em Araraquara, no interior de S√£o Paulo, dia 23 de agosto de 1912. Em breve completarei meu centen√°rio, junto com a Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo (FMUSP), escola em que me formei e vivi grande parte da minha vida. Eu sou a √ļnica pessoa viva que acompanhou a faculdade por todos os lugares por onde ela passou. Primeiro na Rua Brigadeiro Tobias, em seguida na Santa Casa de Miseric√≥rdia de S√£o Paulo e depois minha turma inaugurou os edif√≠cios da FMUSP na Avenida Dr. Arnaldo, onde est√° at√© hoje. A medicina chegou √† minha vida muito cedo. Meu av√ī materno era italiano e m√©dico. Ele veio para o Brasil e desde pequeno eu o acompanhava nas visitas aos doentes, no trole ou no carro para passear, ent√£o com 8 anos eu j√° tinha vontade de ser m√©dico cirurgi√£o.

Entrei na FMUSP em 1931 e me formei em 1936. Nos primeiros tr√™s anos, o curso era ministrado na Avenida Dr. Arnaldo. No quarto ano passamos para a Santa Casa de Miseric√≥rdia de S√£o Paulo e a princ√≠pio eu me decepcionei, porque naquela √©poca a cirurgia era muito restrita e nos casos das cirurgias maiores o √≠ndice de mortalidade era muito grande. O panorama mudou muito quando, em 1945, o Prof. Dr. Benedito Montenegro assumiu a dire√ß√£o da primeira cadeira de cl√≠nica cir√ļrgica e o Prof. Dr. Al√≠pio Corr√™a Netto assumiu a segunda cadeira, em 1946.

No √ļltimo ano da faculdade, o governo italiano ofereceu uma passagem para 12 alunos. Em 1937, fomos em caravana para a It√°lia e tivemos a oportunidade de conhecer diferentes cl√≠nicas. Como eu j√° havia terminado o curso, estendi a viagem e fui para a Alemanha. Voltei para o Brasil em 1938 e regressei para trabalhar com o Prof. Al√≠pio. A partir da√≠, desenvolvi toda a minha carreira na FMUSP. Em 1939, me tornei o terceiro assistente da cadeira de Cl√≠nica Cir√ļrgica, dirigida pelo Prof. Dr. Al√≠pio. Em 1941, fui nomeado para exercer o cargo de Professor de Enfermagem Cir√ļrgica da Escola de Enfermagem Obst√©trica da FMUSP. Em 1943, me tornei Livre Docente de Cl√≠nica Cir√ļrgica. Em 1961, conquistei, atrav√©s de concurso, o t√≠tulo de Professor Adjunto. Em 1970, assumi o cargo de Chefe de Disciplina do Aparelho Digestivo do Departamento de Cl√≠nica Cir√ļrgica. E em 1973, ap√≥s concurso, conquistei o t√≠tulo de Professor Titular do Departamento de Cirurgia.

Logo ap√≥s me tornar Professor Titular da cirurgia do aparelho digestivo, adotei uma conduta pioneira, acredito que no mundo, dividindo a especialidade em grupos dedicados, respectivamente, a cada um dos setores da disciplina, entregando a chefia a jovens cirurgi√Ķes que gradativamente se transformaram em l√≠deres na especialidade. S√£o eles: es√īfago, Prof. Henrique Walter Pinotti; est√īmago, Prof. Jos√© Gama Rodrigues; colo, reto e √Ęnus, Profs. Daher Cutait e Angelita Habr Gama; f√≠gado e hipertens√£o portal, Prof. Silvano Raia; e vias biliares e p√Ęncreas, Prof. Marcel Cerqueira Cesar.

Fui um professor democrata, dei liberdade aos assistentes para que desenvolvessem suas atividades na disciplina, de tal forma que sete deles se tornaram professores titulares: cinco da FMUSP e dois em outras universidades.

Com a colabora√ß√£o, contribu√≠mos para a evolu√ß√£o da cirurgia digestiva em nosso meio, de tal sorte que, ao fim do meu mandato de professor, eram praticadas todas as t√©cnicas cir√ļrgicas para tratamento das doen√ßas do apare- lho digestivo, da apendicectomia ao transplante de √≥rg√£os.

Após muitos estudos, em 1971, eu e os Profs. Silvano Raia e Marcel Cerqueira Cesar Machado realizamos o primeiro transplante de fígado. O paciente sobreviveu 20 dias. Em 1974, fui convidado a participar da comissão médica que ajudaria na instalação e estruturação do Hospital Universitário (HU), auxiliando na escolha e aquisição dos equipamentos.

Durante minha trajet√≥ria publiquei tr√™s livros: ‚ÄúManual de Pr√© e P√≥s-operat√≥rio‚ÄĚ, com a colabora√ß√£o dos Drs. Joel Faintuch e Marcel Cerqueira Cesar Machado; ‚ÄúManifesta√ß√Ķes Digestivas da Mol√©stia de Chagas‚ÄĚ e ‚ÄúTratado de Cl√≠nica Cir√ļrgica Al√≠pio Corr√™a Netto‚ÄĚ, com a colabora√ß√£o do Dr. Euriclydes de Jesus Zerbini. Fui agraciado com 33 pr√™mios concedidos por sociedades cient√≠ficas e congressos m√©dicos, destes dez foram outorgados pela Academia Nacional de Medicina e um pela Academia Americana pelo progresso da ci√™ncia de Nova York. Sou membro de 14 sociedades m√©dicas nacionais e internacionais e, dentre elas, membro em√©rito do Col√©gio Brasileiro de Cirurgi√Ķes.

Recentemente, fui homenageado em uma comemoração do centenário da FMUSP como aluno mais antigo da faculdade. Fiquei muito feliz por ter sido lembrado e pelo reconhecimento de todo meu trabalho junto à Faculdade e ao Hospital.

Além da minha família, a cirurgia foi minha paixão durante toda a vida: operei até meus 86 anos. Já estou no segundo casamento, tenho uma filha, dois netos e quatro bisnetos. Hoje, com quase 100 anos, minha maior alegria e diversão é brincar com meus bisnetos, e também faço caminhadas e musculação. Sempre que posso, viajo para rever minha cidade, Araraquara.

Bendigo o momento em que decidi seguir a carreira m√©dico-cir√ļrgica. Muito trabalhei, muitos exemplos transmiti, muito ensinei e muito recebi em troca. Na fase atual de minha vida, sinto-me realizado e com experi√™ncia suficiente para dizer aos mais jovens que vale a pena todo o sacrif√≠cio que a carreira m√©dica exige. Al√©m de tudo, nos oferece um ocaso tranquilo e feliz pela n√≠tida no√ß√£o do dever cumprido.

Prof. Dr. Arrigo Antonio Raia Médico Cirurgião e Professor Emérito da FMUSP