A Fundação Rockefeller e o Modelo Filantrópico de Medicina

FMUSP contrução

Construção da sede da Faculdade de Medicina РFoto de 31 de Julho de 1929. Cortesia do Acervo da FMUSP

Parece ter havido um momento bastante peculiar e relativamente curto, logo no in√≠cio do s√©culo XX, no qual as pr√°ticas de sa√ļde, medicina incluso, sofreram uma modifica√ß√£o estrutural de propor√ß√Ķes gigantescas. A forma√ß√£o m√©dica, que era baseada na transmiss√£o de conhecimentos do pr√°tico a seus aprendizes, muda repentinamente seu eixo em dire√ß√£o √†s grandes institui√ß√Ķes de ensino m√©dico; o estudo aned√≥tico de casos cl√≠nicos d√° lugar, sucessivamente, √† estat√≠stica vital, √† epidemiologia cl√≠nica e, claro, posteriormente √† medicina baseada em evid√™ncias; Galeno sai, finalmente, de cena e entra Claude Bernard; o franc√™s e o alem√£o, como l√≠nguas cient√≠ficas, cedem espa√ßo ao ingl√™s. A maleta do m√©dico √© progressivamente substitu√≠da pelo hospital; tudo isso em n√£o mais que um par de d√©cadas.

Muito tem sido escrito sobre qual o papel desempenhado pelas funda√ß√Ķes filantr√≥picas e, especificamente, a¬†Funda√ß√£o Rockefeller¬†(FR), nessa revolu√ß√£o. Ele n√£o foi pequeno. H√° centenas de livros, document√°rios, artigos e uma simples busca na internet revela uma enorme quantidade de informa√ß√Ķes confi√°veis em meio a outras cuja veracidade √© dif√≠cil comprovar. A atua√ß√£o da FR, bem como de outras entidades filantr√≥picas, na √°rea educacional em geral e no ensino m√©dico em particular, al√©m de sua influ√™ncia na sa√ļde p√ļblica, agricultura, e outras tantas √°reas nas quais a ci√™ncia estava em pleno desenvolvimento na √©poca, tem sido tanto objeto de cr√≠ticas violentas, como defendida com fervor e devo√ß√£o at√© hoje. Mas, uma quest√£o permeia incomodamente todo esse corpus monumental de ideias: Por que os maiores de todos os filantropistas, os Rockefellers, Senior e J√ļnior, orientados pelo reverendo batista¬†Frederick Taylor Gates, escolheram a medicina? Tal decis√£o n√£o parece ter sido tomada de modo s√ļbito e consciente desde o in√≠cio.¬†A quest√£o do saneamento b√°sico era premente naquela √©poca: esgotos a c√©u aberto, pobreza, √°gua n√£o tratada, epidemias de c√≥lera, febre tif√≥ide, ancilostom√≠ase, febre amarela e mal√°ria dizimavam a popula√ß√£o e diminu√≠am drasticamente a produtividade dos trabalhadores, em especial no Sul dos Estados Unidos. Com esse quadro ca√≥tico, nada mais natural que os incentivos √†s campanhas de erradica√ß√£o de pragas, √† pesquisa de novas t√©cnicas agr√≠colas e ao fomento da ci√™ncia biom√©dica, bem como a constru√ß√£o de escolas e outros tantos projetos desenvolvidos por Gates e financiados pelos Rockefellers. Inicialmente com a funda√ß√£o do¬†Rockefeller Institute for Medical Research (hoje a Rockefeller University) em 1901, e depois,¬†por meio do General Education Board¬†a partir de 1903, a predile√ß√£o quase obsessiva pelo ensino m√©dico s√≥ viria manifestar-se com todas as suas caracter√≠sticas ap√≥s o estabelecimento da Funda√ß√£o Rockefeller em 1913 (perfazendo seu centen√°rio¬†em 2013, portanto).

Duas linhas de pensamento orientavam as pr√°ticas m√©dicas na segunda metade do s√©culo XIX. A medicina social era, como vimos, um campo em pleno desenvolvimento e nomes como¬†Villerm√©, Buchez e Gu√©rin na Fran√ßa; Neumann, Virchow, e Leubuscher na Alemanha, estudavam as causas sociais e ocupacionais¬†das doen√ßas. Rudolf Virchow¬†(1821-1902), um dos pais da patologia celular moderna e um dos m√©dicos mais importantes do s√©culo XX, defendia que a medicina “deveria intervir na vida pol√≠tica e social”. ¬†Por outro lado, desde Pasteur e Koch, proponentes da teoria infecciosa das doen√ßas, uma vis√£o algo mais “conservadora” come√ßou a dominar a pesquisa m√©dica j√° que a identifica√ß√£o de agentes respons√°veis por toda a constela√ß√£o cl√≠nica de sinais e sintomas que uma doen√ßa espec√≠fica causa, encorajou a ideia de que terapias espec√≠ficas tratariam doen√ßas espec√≠ficas. A descoberta de tais terapias deveria ter preced√™ncia sobre fatores econ√īmicos e sociais. N√£o por acaso, Virchow se envolveu em embates sobre o assunto com Koch e Semmelweis, este √ļltimo, o descobridor de que a causa da febre puerperal era a falta de higiene das m√£os dos m√©dicos. Quando da apresenta√ß√£o de Koch na Sociedade de Fisiologia de Berlim em 1882 sobre a descoberta de que um bacilo causava a tuberculose, Virchow, cuja vis√£o podia ser classificada como “anticontagionista”, se op√īs veementemente. Para Virchow, o fato de carregarmos bact√©rias em nosso organismo era sinal de que tais “micr√≥bios” s√≥ causariam doen√ßas se, por algum motivo, o hospedeiro se enfraquecesse. O anticontagionismo teimoso de Virchow foi uma rea√ß√£o √† passagem para segundo plano de sua “teoria social das doen√ßas”.¬†Ambos m√©dicos receberam verbas de seu pa√≠s, montaram laborat√≥rios influentes, receberam fellows e foram pesquisadores reconhecidos mundialmente, mas a vis√£o “cient√≠fica” de Koch e Pasteur era a mais adequada a quem tinha a “caneta na m√£o”. Para Gates, a mis√©ria era uma quest√£o t√©cnica, n√£o social. Como escreveu Brown [1]

Quando Gates, [Rockefeller] J√ļnior e outros homens da Funda√ß√£o Rockefeller decidiram estabelecer a primeira escola de sa√ļde p√ļblica dos EUA, eles selecionaram o Dr. Welch e a Johns Hopkins como seus ve√≠culos sabendo que a nova escola deveria ter forte √™nfase nas ci√™ncias b√°sicas e n√£o divagar em quest√Ķes sociais.

A resposta √† pergunta “por que a medicina?” pode servir de base para entendermos a medicina que √© praticada em grande parte dos pa√≠ses ocidentais e tamb√©m no Brasil atualmente. Quando John D. Rockefeller o chamou para coordenar as a√ß√Ķes filantr√≥picas do que viria a se tornar a Funda√ß√£o Rockefeller em 1890, Gates comprou um exemplar do livro do canadense¬†William Osler¬†da Johns Hopkins (que, ali√°s, estagiou com Virchow em 1873), um dos m√©dicos mais influentes da √©poca [2]. Gates ficou fissurado pelo livro. Em uma s√©rie de memoranda enviadas ao seu “chefe”, ele defende que o desejo por sa√ļde √© uma for√ßa unificadora “cujos valores permeiam tanto o pal√°cio do rico quanto a cabana do pobre. A medicina √© um servi√ßo que penetra todos os lugares”. Portanto, “os valores da pesquisa m√©dica s√£o os valores mais universais da Terra e eles s√£o os mais importantes e individuais de cada ser vivente”[3]. Com a medicina, o reverendo Gates queria converter pag√£os e angariar mercados de mat√©rias-primas e viu nela um quebra-nozes cultural, capaz de transpor as barreiras que ex√©rcitos n√£o poderiam transpor. A medicina tecno-cient√≠fica seria o substituto secular do proselitismo crist√£o com as vantagens de poder exibir resultados incontest√°veis na melhoria da vida das pessoas. A FR injetou 45 milh√Ķes de d√≥lares na China para modificar a Peking Union Medical¬†College¬†e quantidade similar nas Filipinas, Tail√Ęndia, M√©xico, entre outros tantos pa√≠ses. Para o nosso pa√≠s, valem as palavras da professora Maria Gabriela Marinho [4], maior estudiosa do assunto:

No Brasil, nas primeiras d√©cadas do s√©culo XX,¬†mais particularmente em S√£o Paulo, o ensino e a pesquisa¬†na √°rea biom√©dica foram dimens√Ķes privilegiadas desse¬†apoio institucional cujas origens podem ser identificadas¬†em 1916, quando estabeleceram-se os primeiros contatos¬†entre a Funda√ß√£o Rockefeller e a Faculdade de Medicina¬†e Cirurgia de S√£o Paulo. Desses contatos iniciais resultaram¬†dois grandes acordos, envolvendo recursos espec√≠ficos e¬†de grande monta: o primeiro, com vig√™ncia entre 1918 e¬†1925, destinado √† cria√ß√£o do Instituto de Hygiene e para o¬†qual foram enviados dois pesquisadores norte-americanos,¬†Samuel Taylor Darling e Wilson Smillie. Como desdobramento¬†deste mesmo acordo, foi criado ainda o Instituto¬†de Pathologia, onde atuaram, entre 1922 e 1925, dois outros¬†pesquisadores estrangeiros: o canadense Oskar Klotz¬†e o norte-americano Richard Archibald Lambert.¬†Especificamente no campo da Higiene, o processo¬†traduziu-se pela cria√ß√£o, sucessivamente, da Cadeira de¬†Hygiene (1916), depois Departamento de Hygiene (1917),¬†posteriormente Instituto de Hygiene (1918), que resultou,¬†finalmente, em 1946, na implanta√ß√£o da Faculdade de¬†Higiene e Sa√ļde P√ļblica.¬†O segundo grande acordo visou especificamente¬†√† reformula√ß√£o da estrutura acad√™mica da Faculdade de¬†Medicina com o objetivo de transform√°-la em institui√ß√£o modelo¬†para a Am√©rica Latina, com base no projeto de¬†excel√™ncia das Rockefeller‚Äôs Schools, disseminado em escala¬†planet√°ria e assentado no modelo uniforme de tempo¬†integral para pesquisa e doc√™ncia nas disciplinas pr√©-cl√≠nicas,¬†numerus clausus (limita√ß√£o do n√ļmero de vagas) e¬†cria√ß√£o do Hospital de Cl√≠nicas, recomenda√ß√Ķes preconizadas¬†em 1910 pelo Relat√≥rio Flexner, encomendado pela¬†Funda√ß√£o Carnegie e substrato das reformas do ensino¬†m√©dico norte-americano no per√≠odo.¬†A abrang√™ncia da interven√ß√£o na Faculdade de¬†Medicina de S√£o Paulo pode ser aferida, entre outros¬†indicadores, pelo volume de recursos a ela destinados¬†pela FR: foram transferidos cerca de um milh√£o de¬†d√≥lares entre 1916 e 1931 para a remodela√ß√£o do ensino¬†m√©dico. Aproximadamente no mesmo per√≠odo ‚Äď 1916-1940 ‚Äď a mesma ag√™ncia destinou cerca de quatro¬†milh√Ķes de d√≥lares para o combate √† febre amarela em¬†todo o territ√≥rio brasileiro.

A Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo¬†estabeleceu-se como uma “Rockefeller School”. Muitas outras escolas m√©dicas a seguiriam em seu modelo hopkinsniano de ensino e pesquisa, algo avesso √†s “divaga√ß√Ķes sociais” e que floresceria na √Āsia, Europa e Am√©rica na primeira metade do s√©culo XX. Podemos afirmar que a forma√ß√£o m√©dica no Brasil jamais seria a mesma ap√≥s sua funda√ß√£o. A pergunta que se imp√Ķe agora √© saber quais os poss√≠veis efeitos colaterais desse modelo vencedor de fazer medicina dado que os efeitos desejados, j√° s√£o conhecidos: a FMUSP vem cumprindo seu papel de lideran√ßa no cen√°rio m√©dico brasileiro e latino-americano com proje√ß√£o internacional. Quando perguntei se “ao trazermos, com for√ßa, ao debate acalorado de hoje, a¬†ci√™ncia¬†que nos embasa e nossa pr√≥pria¬†sabedoria pr√°tica m√©dica¬†como argumentos inelut√°veis ao criticismo ‚Äúlaico‚ÄĚ, n√£o estar√≠amos tamb√©m invocando os fantasmas de um certo ‚Äúconservadorismo sofisticado‚ÄĚ, autorit√°rio e paternalista, aos moldes dos grandes filantropistas √† frente de suas poderosas funda√ß√Ķes?” era sobre isso que eu gostaria de saber. Sempre que somos chamados a nos posicionar sobre assuntos que nos dizem respeito – da vinda de m√©dicos estrangeiros e sua forma de fazer medicina, √†s pol√≠ticas de sa√ļde, formas de remunera√ß√£o e rela√ß√£o com outros profissionais -, n√£o devemos nos esquecer das bases hist√≥ricas, pol√≠ticas e sociais nas quais nossa forma√ß√£o se insere, sob o risco de, ou¬†associarmo-nos a¬†mudan√ßas sociais indesej√°veis, ou¬†retardarmos as que legitimamente representam um anseio da popula√ß√£o, dado o papel singular que a medicina desempenha na sociedade, como j√° notava Gates. √Č preciso olhar um pouco para baixo e ver do lugar a partir do qual falamos. O “modelo filantr√≥pico de medicina” foi uma alternativa norte-americana ao modelo “social” de medicina proposto por Virchow, pela Columbia¬†e¬†por outros tantos autores de orienta√ß√£o marxista. Sem ju√≠zo de valor, para que nos utilizemos melhor dele, ser√° preciso nos emancipar de seus eloquentes resultados e considerar tamb√©m o que foi deixado para tr√°s, em especial, aquilo que ainda n√£o nos √© dado ver.

 

[1] Brown, ER.¬†Rockefeller Medicine Men: Medicine e Capitalism in America. Berkeley, University of California Press, 1979. Dispon√≠vel para download em¬†Rockefeller medicine men : medicine and … – Revalvaatio.org

[2] Osler constituiu um dos quatro cavaleiros fundadores da Escola de Medicina da Johns Hopkins, chamados de¬†The “Big Four” junto com¬†William Stewart Halsted, Professor de Cirurgia,¬†Howard A. Kelly, Professor de Ginecologia e ¬†William H. Welch, Professor de Patologia. Um dos grandes m√©ritos de Osler foi insistir na Resid√™ncia como parte integrante e insubstitu√≠vel da forma√ß√£o do m√©dico.

[3]¬†Gates, FT. “Address on the Tenth Anniversary of the Rockefeller Institute,” 1911, Gates collection, Rockefeller Foundation Archives, in Brown, ER.

[4] Marinho, MGSMC. Horizontes, Bragança Paulista, v. 22, n. 2, p. 151-158, jul./dez. 2004 (pdf)

USP – Universidade Classe Mundial?

Publico aqui, com autoriza√ß√£o da autora, carta da professora Rita Cruz, Coordenadora do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Geografia Humana da FFLCH/USP. √Č uma carta-reflex√£o sobre a proposta de altera√ß√£o regimental na p√≥s-gradua√ß√£o da USP de que fal√°vamos. De forma clara e brilhante, ela exp√Ķe os desencontros da pol√≠tica universit√°ria do Estado de S√£o Paulo que, a pautar-se pela interpreta√ß√£o fria de rankings e pelas compara√ß√Ķes grosseiras entre as institui√ß√Ķes, afeta diretamente a maior universidade do pa√≠s com consequ√™ncias desastrosas. Mais que isso, provoca uma reflex√£o sobre qual o papel da universidade na sociedade paulista e brasileira atuais deixando a pergunta: qual a melhor forma de uma universidade latino-americana portar-se para estar entre as melhores do mundo? Um simples “copy-paste” resolve?

~ o ~

Universidade Classe Mundial: paradoxos de um  pensamento ao mesmo tempo neoliberal e neocolonialista

Como √© do conhecimento de todos, estamos vivendo um processo de reformula√ß√£o do Regimento Geral da P√≥s-Gradua√ß√£o da USP.¬†Conforme declara√ß√Ķes p√ļblicas da Pr√≥-Reitoria de P√≥s-Gradua√ß√£o, as mudan√ßas propostas fazem-se necess√°rias no sentido de transformar a USP em uma Universidade Classe Mundial.

Todavia, o que nos tem inquietado a muitos, alunos e professores da USP, diz respeito à pertinência/necessidade de algumas das mudanças anunciadas, entre as quais se pode destacar:

  1. exame de qualificação obrigatório para todos os alunos da pós-graduação, a realizar-se em até 12 meses de seu ingresso;
  2. exclusão da possibilidade de re-apresentação do Relatório de Qualificação no caso de reprovação;
  3. necessidade de parecer prévio por escrito, para teses de doutorado, podendo o candidato/aluno ser impedido de defender publicamente seu trabalho no caso de a maioria dos pareceres escritos indicar inaptidão à defesa;
  4. orientador sem direito a voto nas bancas examinadoras finais.

A principal argumenta√ß√£o utilizada pela Pr√≥-Reitoria de P√≥s-Gradua√ß√£o para justificar tais mudan√ßas √© a refer√™ncia a IES [institui√ß√Ķes de ensino superior] estrangeiras, as quais t√™m modus operandi similares ou iguais a este que se prop√Ķe hoje para o Regimento da P√≥s-Gradua√ß√£o da USP, ressaltando-se o fato de que tais Institui√ß√Ķes s√£o melhores ranqueadas internacionalmente que n√≥s.¬†Naturalmente, n√£o ignoramos o fato de que h√° muitas experi√™ncias vividas em outros lugares no mundo, no campo cient√≠fico e acad√™mico, pass√≠veis de serem assimiladas por n√≥s de forma positiva, ou seja, produzindo-se aqui, em nosso contexto social, econ√īmico, pol√≠tico e geogr√°fico, as mesmas benesses que produziram em seus lugares de origem.

Entretanto, entendemos, tamb√©m, que n√£o h√° um modelo universal para se produzir uma Universidade Classe Mundial e, se considerarmos as condi√ß√Ķes em que fizemos ci√™ncia no Brasil e na USP, particularmente, desde a sua funda√ß√£o, podemos afirmar, sem d√ļvida, que somos muito mais Classe Mundial que diversas universidades melhores colocadas nos diversos ranqueamentos internacionais. Por que podemos afirmar isso? Pensemos em alguns dados/informa√ß√Ķes.

Ranking das 10 melhores universidades do mundo segundo a TIMES HIGHER EDUCATION ‚Äď informa√ß√Ķes elementares

Universidade

Ano

Orçamento Anual*

No. de Alunos

Orçamento/Aluno¶

Doc/Pesq por Aluno¶

USP

1934

3

76.000

39.473,68

1/14,5

CalTech

1921

6,3[1]

22.000

286.363,60

1/1,13

Harvard

1636

57.6[2]

21.000

2.742.857,10

1/10

Stanford

1891

37[3]

18.500

2.000.000,00

1/1,73

Oxford

1096

3[4]

20.000

150.000,00

1/ 2,35

Princeton

1746

17,2[5]

12.000

Cambridge

1209

3,4[6]

10.000

340.000,00

1/3,3

MIT

1861

4,8[7]**

11.000

436.363,36

1/11

Imperial College

1891

2[8]

14.000

142.857,14

1/12

Chicago

1907

4,6[9]

15000

306.666,66

Berkeley

1868

3,5

36.000

97.222,22

1/15

Obs.: as informa√ß√Ķes e dados acima expostos foram extra√≠dos das p√°ginas das respectivas universidades, dispon√≠veis na web.*Valores aproximados em bilh√Ķes de Reais.**Excluindo-se or√ßamento destinado ao Laborat√≥rio do MIT que tem parceria com a NASA.¬∂ Em Reais.

Como se pode ver na tabela acima, a Universidade de Harvard,¬† Estados Unidos, desenvolveu sua reconhecida capacidade de produzir conhecimento ao longo de pouco mais de tr√™s s√©culos e com or√ßamentos, muito provavelmente, bem superior aos nossos. Vale lembrar que se hoje Harvard tem um or√ßamento anual quase vinte vezes superior ao da USP, com um n√ļmero total de alunos 60% menor, h√° poucos anos atr√°s, o or√ßamento total da USP ‚Äď 2005, por exemplo ‚Äď n√£o chegava aos 2 bilh√Ķes de reais. Entre outras coisas, pode-se notar que enquanto a USP investe menos de R$ 40.000,00 por aluno, em Harvard esta conta chega ao estratosf√©rico valor de quase 3 milh√Ķes de reais!!! D√° para comparar?

Oxford, por sua vez, tem, aparentemente, um orçamento igual ao da USP hoje, mas como a comunidade estudantil oxfordiana é 70% menor que a nossa, a universidade inglesa, com  quase mil anos de história, empenha cerca de 150.000 reais por aluno. Certamente, os seus quase dez séculos de história foram importantes na definição de suas políticas acadêmicas e, especialmente, de pesquisa. Estaremos nós querendo ser mais oxfordianos que nossos colegas ingleses? Ou será que queremos mesmo é ser mais realistas que o rei?

Entre as dez melhores do mundo, ainda segundo o ranking ‚ÄúTimes Higher Education‚ÄĚ, por exemplo, aquela que tem o menor investimento per capita por aluno ‚Äď Calif√≥rnia University at Berkeley ‚Äď empenha duas vezes e meia os valores investidos pela USP.¬†Apesar de a USP ter, proporcionalmente √†s melhores universidades do mundo, or√ßamentos bem mais modestos, parte da sociedade brasileira, ao contr√°rio do que ocorre nos pa√≠ses que abrigam as ‚Äútop 10 do mundo‚ÄĚ, estimulada por uma vis√£o tupiniquim de uma imprensa irrespons√°vel, nos rotula de ‚Äúburgueses gast√Ķes‚ÄĚ .

Outro elemento importante neste debate e que n√£o pode ser negligenciado diz respeito √† hegemonia ling√ľ√≠stica mundial da l√≠ngua inglesa, ou seja, pesquisadores/cientistas angl√≥fonos levam reconhecida vantagem em termos da reverbera√ß√£o internacional de seus trabalhos em rela√ß√£o, por exemplo, a pesquisadores/cientistas n√£o-angl√≥fonos.

Em sua competente an√°lise acerca de classifica√ß√Ķes internacionais de universidades e, especialmente sobre a classifica√ß√£o ‚ÄúXangai‚ÄĚ[10], Herv√© Th√©ry (2010: 192) diz a esse respeito:

Outro fator de distorção é que o inglês tornou-se, na maior parte dos campos científicos, a língua internacional e que os universitários do mundo anglófono são muito mais integrados ao circuito internacional que os seus homólogos dos outros blocos culturais. Consequentemente, essa classificação das universidades favoreceu claramente os países para os quais o inglês é a língua materna.

Outra distor√ß√£o apontada por Herv√© Th√©ry (2010: 191-2) quanto √† classifica√ß√£o ‚ÄúXangai‚ÄĚ, diz respeito √† subestima√ß√£o clara das ci√™ncias sociais e humanas. Conforme o autor:

O lugar das ciências sociais e humanas é claramente subestimado nessa classificação, os próprios autores o reconhecem, mas eles confessam não ter encontrado, para esses campos científicos, critérios que correspondam às exigências que tinham fixado: medidas universalmente reconhecidas como válidas e livremente acessíveis na internet. Em especial, o fato de não poder dispor de uma classificação dos livros, um dos principais meios de expressão dessas ciências, prejudicou a sua inclusão correta na classificação.

Se, entretanto, insistem alguns em comparar o incompar√°vel, uma das conclus√Ķes a que podemos chegar √© a de que a USP √© muito mais Classe Mundial que as dez melhores universidades do mundo, afinal de contas, conseguimos ser a melhor universidade da Am√©rica Latina e estar hoje entre as 70 melhores do mundo, com pouco mais de 70 anos de hist√≥ria, utilizando muito menos recursos que a maioria delas e abrigando 3, 4 ou 5 vezes mais alunos que a maior parte dessas institui√ß√Ķes.

ISTO POSTO, N√ÉO DEVER√ćAMOS N√ďS ENSINAR A ELES OS NOSSOS M√ČTODOS E N√ÉO O CONTR√ĀRIO?

Entre os rankings internacionais e as avalia√ß√Ķes nacionais

Na onda dos ranqueamentos internacionais, outro processo em curso na USP é o de criação de um novo sistema de avaliação da qualidade de sua pós-graduação.

Para que e a quem servem os sistemas de avalia√ß√£o seja de universidades ‚Äúclasse mundial‚ÄĚ ou de programas de p√≥s-gradua√ß√£o?

1. No caso da avaliação da pós-graduação, o sistema Capes tem servido, entre outras coisas, para fomentar a competição entre Programas, em escala nacional. Como? Os Programas melhor classificados são aqueles que recebem mais recursos. Assim, esse sistema trabalha para manter na penumbra aqueles que apresentam maiores dificuldades; enquanto isso, os melhores têm suas receitas fortalecidas.

2. Um sistema de avalia√ß√£o pautado na competi√ß√£o contribui, efetivamente, para ‚Äúvarrer‚ÄĚ do universo da p√≥s-gradua√ß√£o os Programas que n√£o conseguem melhorar suas notas, por raz√Ķes diversas, entre as quais a dificuldade em vencer os mecanismos vorazes da competi√ß√£o (fatores temporais ‚Äď programas jovens; fatores geogr√°ficos ‚Äď dificuldade em fixar professores/pesquisadores em lugares distantes dos centros econ√īmicos mais din√Ęmicos do pa√≠s, fatores financeiros ‚Äď escassez de recursos, por exemplo).

3. Coincide, historicamente, com a instala√ß√£o do sistema de avalia√ß√£o da Capes uma reconhecida perda de qualidade na forma√ß√£o geral de p√≥s-graduandos no Brasil. Naturalmente, n√£o se pode atribuir √ļnica e exclusivamente √† avalia√ß√£o Capes algo que decorre de um sucateamento do ensino em todos os n√≠veis no pa√≠s, reinante durante d√©cadas. Todavia, algu√©m duvida de que existe rela√ß√£o direta entre avalia√ß√£o Capes e encurtamento de prazos na p√≥s-gradua√ß√£o stricto sensu? Algu√©m tem d√ļvida de que o sistema de avalia√ß√£o Capes fomentou, de forma incomensur√°vel, o produtivismo no pa√≠s? Algu√©m¬† duvida de que prazos menores e professores e alunos focados na produ√ß√£o-fim (ou seja, a produ√ß√£o por ela mesma) contribuem significativamente para piorar a qualidade da p√≥s-gradua√ß√£o?

Tais inquieta√ß√Ķes me conduzem a perguntar: como se fazia a avalia√ß√£o da produ√ß√£o na USP, por exemplo, nos anos 50, 60 e 70?

O reconhecimento nacional e internacional da USP, historicamente constru√≠do, subordinou-se, durante d√©cadas, √ļnica e exclusivamente¬† √† inser√ß√£o social de seus formandos, graduados e p√≥s-graduados, bem como √† sua produ√ß√£o cient√≠fica, que revolucionou diversos setores da vida social.

Todavia, na medida em que, p√≥s anos 80, come√ßa a ampliar-se, substancialmente, o universo da p√≥s-gradua√ß√£o brasileira, ‚Äúa fatia do bolo‚ÄĚ para cada um tinha de diminuir!

√Č nesse contexto que assumimos uma l√≥gica empresarial de avalia√ß√£o, fundada n√£o somente na produ√ß√£o, mas sobretudo e principalmente na produtividade. Paradoxalmente, enquanto o setor produtivo se flexibiliza, supera o paradigma fordista e incorpora princ√≠pios toyotistas, a vida cotidiana na universidade volta-se para a produ√ß√£o em massa al√©m de tornar-se cada dia mais inflex√≠vel!

A melhor avalia√ß√£o da USP foi e continua sendo feita pela sociedade brasileira, de modo geral, e paulistana, especificamente. A inser√ß√£o de nossos egressos, tanto da gradua√ß√£o como da p√≥s-gradua√ß√£o em todos os setores do mercado de trabalho, incluindo-se postos de lideran√ßa em escolas de ensino fundamental e m√©dio, universidades, empresas de todos os ramos e governos em todas as escalas expressa a verdadeira reverbera√ß√£o do investimento p√ļblico onde ele deve reverberar.

Por fim concluo acreditando que temos empenhado muito tempo e energia na constru√ß√£o de par√Ęmetros, indicadores e relat√≥rios de avalia√ß√£o, os quais alimentam uma verdadeira esquizofrenia avaliativa nacional. Enquanto isso, nossos alunos clamam, simplesmente, por uma boa aula, por um pouco de aten√ß√£o, por uma boa conversa, enfim, atividades elementares, ¬†cada vez mais dif√≠ceis de serem desenvolvidas em um cotidiano acad√™mico regido pela competi√ß√£o. Quanto ao tempo para a pesquisa, passou a ser um sonho de todos n√≥s. Algo me parece estar errado.

Sem mais, despeço-me, cordialmente,

Profa. Dra. Rita de C√°ssia Ariza da Cruz

Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH/USP

 

[10] Instituição Escore (2008)

1 Harvard University 100

2 Stanford University 73,7

3 University of California ‚Äď Berkeley 71,4

4 University of Cambridge 70,4

5 Massachusetts Institute of Technology (MIT) 69,6

6 California Institute of Technology 65,4

7 Columbia University 62,5

8 Princeton University 58,9

9 University of Chicago 57,1

10 Oxford University 56,8

Fonte: TH√ČRY, Herv√©. Classifica√ß√£o de universidades mundiais: ‚ÄúXangai‚ÄĚ e outras. estudos avan√ßados 24 (70), 2010. Dispon√≠vel aqui.

USP em Tudo, USP ent√£o?

T√™m sido divulgados na m√≠dia, dados interessantes sobre a Universidade de S√£o Paulo. Primeiro, a quest√£o do n√ļmero de doutores: a USP √© a que mais forma doutores no mundo. Carlos Orsi no Twitter¬†observou que Oxford estava apenas em 28o lugar nesse quesito e a pergunta que ficou no ar √©: o que isso quer exatamente dizer? A USP √© seguida pela¬†Universidade da Jord√Ęnia e pela Universidade de T√≥quio na forma√ß√£o de acad√™micos.

Recentemente, no dia 14 de mar√ßo de 2012, foram publicados os novos dados da¬†Times Higher Education¬†parabenizando os new entrants¬†no top 100, a saber “Hebrew University of Jerusalem, University of S√£o Paulo, in Brazil, and the Middle East Technical University, in Turkey”, que ultrapassaram universidades do velho mundo. (Veja aqui, reportagem d’O Estado)

Em que pesem as cr√≠ticas metodol√≥gicas sobre os tais “rankeamentos” em geral e de universidades, em especial (veja, por exemplo, a eterna briga dos rankings de clubes de futebol), h√° mais de 40 rankings de universidades publicados no mundo, inclusive alguns no Brasil e que sempre fazem muito barulho. A discuss√£o √© v√°lida enquanto for um instrumento para mudan√ßas. (Veja excelente post do Quipronat¬†sobre o assunto, no ano passado).

Lado Ruim

Eu, particularmente, acho que esse tipo de propaganda acaba n√£o agregando muito √† universidade. A USP n√£o cobra mensalidade. Tal exposi√ß√£o, positiva de fato, acaba por servir √† acirrada pol√≠tica paulista – lembrar que estamos em ano de elei√ß√£o -, servindo tamb√©m √† in√©rcia, t√£o cara a alguns administradores p√ļblicos, de manter as coisas como est√£o. Pior, no caso do n√ļmero de doutores, h√° em curso um projeto que talvez acelere sua forma√ß√£o, coisa que j√° vem acontecendo h√° alguns anos, como se o n√ļmero de acad√™micos formados fosse um fim em si.

Lado Bom

Mas h√° um aspecto positivo. A Lei de Diretrizes Or√ßament√°rias prev√™ uma destina√ß√£o fixa de verbas para as universidades estaduais paulistas: os tais 9,57% da Quota Parte do Estado do ICMS (QPE). O Brasil tem v√°rias universidades estaduais mas acho que s√≥ as paulistas gozam desse tipo de estatuto (quem tiver dados contr√°rios, por favor me avise, eu procurei mas n√£o achei isso). Justamente, USP, UNICAMP e UNESP que t√™m aparecido em posi√ß√Ķes bastante destacadas nos rankings de universidades latinas. Os governos de outros estados poderiam se “animar” com esse tipo de propaganda (que n√£o √© ponte, nem estrada!) e destinar mais verbas as suas pr√≥prias universidades e para a educa√ß√£o em geral.

Lado Pior

Mas, no melhor estilo “tirar doce da boca de crian√ßa”, segundo a ANDES (Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior ), ¬†“os dados mostram que as universidades n√£o receberam o percentual sobre cerca de R$ 1.422,2 milh√£o, valor correspondente a impostos recebidos em atrasos e suas respectivas multas e juros de mora, e sobre aproximadamente R$ 741,1 milh√Ķes, referentes ao repasse para Habita√ß√£o, sistematicamente subtra√≠do antes do c√°lculo dos 9,57%.¬†Ou seja, as universidades p√ļblicas paulistas deixaram de receber, no ano passado, um total de R$ 207 milh√Ķes (R$ 108,8 mi da USP, R$ 50,7 mi da Unesp e R$ 47,5 mi da Unicamp), montante que deveria ser repassado √† educa√ß√£o superior p√ļblica paulista, por for√ßa de lei, e que o governo Alckmin destinou outro fim.” (it√°licos meus).

A ADUSP afirma que a sangria or√ßament√°ria¬†foi feita com a anu√™ncia dos reitores (CRUESP). Aqui vale aquele ditado que diz que “nego s√≥ v√™ as pinga que a gente bebe, n√£o v√™ os tombo que a gente leva”…. Por tudo isso, vejo esses n√ļmeros com uma alegria contida e uma aten√ß√£o redobrada para avaliar¬†como eles ser√£o, ou est√£o sendo, utilizados. E por quem.

PS. Lamentável a morte do professor César Ades, sob todos os aspectos. Veja homenagens de quem o conheceu de perto aqui, aqui e aqui.