Climatério e Evolução

A f√™mea da esp√©cie humana sobrevive longamente ap√≥s encerrar suas atividades reprodutivas. Ali√°s, sobrevive mais que qualquer outra f√™mea de outras esp√©cies (para desespero de alguns genros!). Uma das teorias para explicar esse fen√īmeno foi lan√ßada h√° alguns anos: A “hip√≥tese da av√≥”. Ela sugere que uma determinada prole teria mais chance de sobreviver caso a av√≥ materna estivesse viva, pois poderia dividir o trabalho de cuidar dos pequenos, al√©m de passar o know-how disso para a jovem e inexperiente m√£e. Com o indel√©vel passar dos milhares de anos, as meninas tenderiam a viver mais ap√≥s o per√≠odo f√©rtil, tornando-se uma caracter√≠stica de nossas f√™meas.

Independentemente dessa teoria dar conta da explica√ß√£o de todo o fen√īmeno, h√° um fato: as mulheres vivem mesmo muito anos ap√≥s seu per√≠odo f√©rtil. Mesmo ajustando essa observa√ß√£o √† expectativa m√©dia de vida (pouco mais de 30 anos) da √©poca. Como toda solu√ß√£o encontrada pelas esp√©cies, esse fato tem seu lado bom (permitiu que cheg√°ssemos at√© aqui) e o lado ruim. O lado ruim √© o climat√©rio.

O climat√©rio √© o per√≠odo que antecede a √ļltima menstrua√ß√£o (menopausa) at√© aproximadamente 12 meses ap√≥s. Algumas pacientes o definem como “a pior fase de toda a vida”. Al√©m das altera√ß√Ķes org√Ęnicas, calores absurdos, dores de cabe√ßa sem sentido, ins√īnia e varia√ß√Ķes de humor, h√° enfraquecimento √≥sseo, aterosclerose, altera√ß√Ķes cognitivas, disfun√ß√£o sexual e uma constela√ß√£o de problemas menos graves mas n√£o menos importantes, que fazem com que a mulher nessa fase seja um desafio terap√™utico dos grandes. Um dos mais intrigantes problemas √© o rubor/fogacho facial do qual j√° falamos em outra situa√ß√£o cl√≠nica (aqui e aqui).

Os fogachos podem ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite e podem ser ocasionados por uma variedade de est√≠mulos a saber, estresse, √°lcool, caf√©, mudan√ßas bruscas de temperatura entre outros. A sensa√ß√£o subjetiva √© a de aquecimento seguida de sudorese e vermelhid√£o na pele. Pode haver palpita√ß√Ķes. Come√ßa na parte superior do corpo e espalha-se de maneira vari√°vel. Duram de 30 s a 60 min com uma m√©dia de 3 a 4 min. Muitas referem uma “press√£o na cabe√ßa”. Podem permanecer por 1 a 5 anos, mas h√° relatos de calores por 40 anos. √Č um sintoma debilitante. Impede a pessoa de dormir adequadamente por meses a fio o que gera mais ansiedade, queda de desempenho e depress√£o.

Mecanismos

O fogacho √© o resultado de um dist√ļrbio do sistema de regula√ß√£o de temperatura do organismo. Entretanto, dentre os homeot√©rmicos, a f√™mea humana parece ser a √ļnica a apresentar esse dist√ļrbio apesar de modelos animais em ratos e primatas terem sido desenvolvidos. Altera√ß√Ķes de temperatura de fato ocorrem e podem ser demonstradas por meio da termografia. Por exemplo, a temperatura nos dedos das m√£o e dos p√©s chega a variar entre 20 a 33 ‚ó¶C. Como resultado do aumento da temperatura na periferia, h√° uma diminui√ß√£o na temperatura central que pode ser medida por meio da temperatura retal e timp√Ęnica. A sensa√ß√£o maior entretanto, √© mesmo na regi√£o cervical e facial apesar das varia√ß√Ķes de temperatura serem bem menores – em torno de 1‚ó¶C. Esse aumento de temperatura √© causado por intensa vasodilata√ß√£o local. O papel dos estr√≥genos na gera√ß√£o dos fogachos ainda n√£o est√° bem estabelecido apesar de sabermos que mesmo doses baixas s√£o eficazes em elimin√°-los. A explica√ß√£o mais interessante foi dada por Robert Freedman que utilizou o conceito de zona termoneutra. Em uma mulher normal e assintom√°tica a zona termoneutra √© de 0,4 ‚ó¶C. Isso significa que varia√ß√Ķes dentro desse intervalo n√£o gerar√£o nenhum tipo de resposta para autorregular a temperatura. Esses reflexos s√£o integrados no hipot√°lamo. A supress√£o repentina do estr√≥geno ao qual o hipot√°lamo esteve “acostumado”, aumentaria sua sensibilidade e mesmo varia√ß√Ķes dentro do intervalo normal desencadeariam respostas termorregulat√≥rias. O que a hip√≥tese n√£o explica √© que as mulheres com fogachos n√£o t√™m calafrios em ambientes mais frescos sugerindo que a explica√ß√£o s√≥ serviria para um dos limites da curva.

Evolução

Hormonal ShiftsUma das perguntas evolutivas que subjaz a toda essa complexidade seria sobre qual a rela√ß√£o que horm√īnios sexuais teriam com a regula√ß√£o da temperatura? Uma poss√≠vel resposta seria a ovula√ß√£o. A ovula√ß√£o √© um fen√īmeno altamente dependente da temperatura. Em animais pecilot√©rmicos, a temperatura do ambiente √© crucial para a sobreviv√™ncia dos ovos fecundados cujo exemplo cl√°ssico s√£o os peixes. O gr√°fico ao lado mostra como a temperatura corporal da mulher sobe no momento da ovula√ß√£o, fen√īmeno que j√° foi utilizado para monitorar o per√≠odo f√©rtil com resultados conflitantes. Horm√īnios sexuais t√™m influ√™ncia sobre a termog√™nese apesar dos mecanismos n√£o terem sido completamente elucidados.

Ficam ent√£o, as perguntas: Seriam os inc√īmodos fogachos das mulheres rec√©m-menopausadas, resqu√≠cios de um imprinting hipotal√Ęmico pelos horm√īnios sexuais com fins reprodutivos? Seria o climat√©rio, ao menos no que se refere a altera√ß√£o da regula√ß√£o da temperatura corporal, um “f√≥ssil fisiol√≥gico” desenterrado pela estranha sobrevida prolongada p√≥s-f√©rtil da f√™mea humana? Talvez seja esse o pre√ßo a pagar pela longevidade. Talvez seja esse o pre√ßo para ver crescer os netos.

Fontes
1. Sturdee DW. The menopausal hot flush–Anything new? Maturitas 60 (2008) 42-49.
2. Hampl R et al. Steroids and Thermogenesis. Physiol. Res. 55: 123-131, 2006.

A Doença

Participar de grupos de blogs científicos como o ScienceblogsBrasil tem, confesso, um lado ruim! Esse lado ruim é constituído pela fórmula a seguir:

“cabe√ßa-de-m√©dico” + “vis√£o cr√≠tica geral proveniente das mais variadas √°reas do conhecimento” = “n√≥-na-cabe√ßa”
Se n√£o vejamos. Uma sensacional discuss√£o esquenta o debate ecol√≥gico no Ge√≥fagos. O que est√° em jogo √© o conceito de “crescimento sustent√°vel”. Na verdade, discute-se¬†mesmo se ele existe! Parece haver um consenso de que, de alguma forma, ao crescer economicamente, depauperamos o planeta sem d√≥ nem piedade. Coloquei a quest√£o de que, se somos feitos de compostos de carbono e √°gua (ainda), o salto populacional de seres humanos dos √ļltimos 10.000 anos (que para o povo do Ge√≥fagos √© quase um minutinho) de alguns milhares de indiv√≠duos para os quase 7 bilh√Ķes atuais, deve ter tirado carbono e √°gua de algum outro lugar. A hist√≥ria da lagarta¬†que cuida das larvas que a devoram internamente se constitui na melhor met√°fora para nossa exist√™ncia na Grande Lagarta Terra, que parece ainda tentar nos proteger. N√£o √© √† toa que me senti doen√ßa. Logo eu, humanista que sempre as combati, que sempre as vi como o inimigo. Talvez essa seja uma das raz√Ķes pelas quais¬†m√©dicos sejam a classe profissional¬†que mais atenta¬†contra a pr√≥pria vida. A consci√™ncia √© um fardo.

Design Inconsequente II

O raciocínio desenvolvido no início do post, as figuras e a concepção geral foram retiradas do sensacional artigo de John West.

Suponha que algu√©m pe√ßa a voc√™ que projete um dispositivo para resfriar algo, como um radiador de carro por exemplo. Um projeto poderia ser um tipo de uma bomba que fizesse circular um fluido resfriante, como a √°gua, atrav√©s de uma grelha com pequenos tubos. O ar quente que viesse do motor poderia ser empurrado atrav√©s dessa grelha por um ventilador, resfriando, desta forma, o motor aquecido do ve√≠culo. Que beleza! Acabamos de inventar o projeto de radiador mais utilizado, com algumas sofistica√ß√Ķes, at√© hoje na ind√ļstria automobil√≠stica.

Mas poder√≠amos escolher um outro projeto. Por exemplo, um no qual os pequenos tubos contendo o l√≠quido resfriante estivessem inseridos em foles de forma que estes √ļltimos pudessem ser inflados e desinflados. O ar nos foles seria aquecido e ent√£o expelido, resfriando o motor. Poder√≠amos at√© pensar num projeto no qual os pequenos tubos fossem eles mesmos,¬†as paredes¬†do fole! Sim, √© um sistema complicado e propenso a problemas principalmente devido ao fato de os pequenos tubos constituirem mesmo o fole. Imagine! Ningu√©m faria um fole t√£o delicado. Um projeto assim provavelmente n√£o teria custo-efetividade. Seria arriscado, para dizer o m√≠nimo. Talvez at√© inconsequente…

West Lung Design copyDesafortunadamente, esse foi o projeto escolhido na licita√ß√£o de nossos pulm√Ķes! O radiador pode ser encarado, grosso modo, como um trocador de gases, a exemplo dos pulm√Ķes. Ele troca ar quente por ar frio. No pulm√£o o que ocorre √© uma troca de g√°s carb√īnico por oxig√™nio. √Č, portanto, um radiador no qual os pequenos tubos constituem o fole de forma bastante perigosa. Bom, mas deu certo, argumentariam alguns. Ter√≠amos alguma outra alternativa que pudesse respirar ar melhor do que a escolhida? Lamento informar que, do ponto de vista m√©dico – √© sempre bom frisar – a resposta √©: Sim. E bem melhor! Se n√£o vejamos.

A figura ao lado, foi retirada do artigo de John West citado acima. Ela mostra os aspectos principais dos dois sistemas respirat√≥rios em quest√£o aqui. As duas alternativas evolutivas foram o pulm√£o broncoalveolar dos mam√≠feros e os sacos a√©reos/parabr√īnquios das aves. Interessante que nos r√©pteis temos misturas dos dois. Os crocodilianos t√™m um pulm√£o parecido com o dos mam√≠feros por√©m com espa√ßos maiores. O das cobras lembram os dos p√°ssaros.

Aqui devemos definir alguns termos antes de prosseguir. Existe uma diferen√ßa entre a respira√ß√£o e a ventila√ß√£o. A respira√ß√£o √© um processo bioqu√≠mico¬†redu√ß√£o¬†onde ocorre a quebra de mol√©culas complexas por meio da oxida√ß√£o. A ventila√ß√£o √© um processo biof√≠sico no qual o ar alveolar √© trocado por ar fresco atrav√©s da a√ß√£o de m√ļsculos especializados. Ap√≥s isso, ocorre a troca gasosa ou hematose, onde o g√°s carb√īnico do sangue venoso √© retirado e eliminado e o oxig√™nio do ar alveolar √© incorporado ao sangue. O transporte de oxig√™nio √†s c√©lulas √© chamado de “transporte de oxig√™nio”. N√£o respira√ß√£o, como a Wikipedia insiste em portugu√™s e ingl√™s!

Qual a grande “sacada” do sistema respirat√≥rio das aves? O local onde ocorre a ventila√ß√£o

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(troca do ar “velho” pelo ar fresco) √© separado do local onde ocorre a troca gasosa. Nos mam√≠feros e no homem, isso tudo √© feito no alv√©olo pulmonar. A figura ao lado (retirada daqui) mostra uma sequ√™ncia de movimentos respirat√≥rios em um esquema bem simplificado de pulm√£o de ave.

Numa primeira inspira√ß√£o, o ar n√£o se dirige diretamente aos parabr√īnquios (em vermelho na figura). Vai em dire√ß√£o caudal e preenche o saco a√©reo posterior. Apenas uma pequena parte chega aos parabr√īnquios.

Somente quando a ave expira, o ar do saco alveolar atinge a √°rea de troca gasosa. Durante uma segunda inspira√ß√£o, o ar que estava em vermelho nos parabr√īnquios, se dirige ao saco a√©reo anterior (agora em azul) e, ap√≥s a segunda expira√ß√£o √©, finalmente expelido.

H√° duas refer√™ncias imperd√≠veis para quem quer se aprofundar no assunto. A primeira √© esse site. No final da p√°gina h√° uma anima√ß√£o que descreve esse processo de forma muito elegante. A segunda √© o Pharyngula que faz a compara√ß√£o com os pulm√Ķes dos dinossauros. Bem interessante.

Bem, mas faltou explicar porque esse processo √© uma “grande sacada”. Os dois sistemas foram capazes de fornecer quantidades suficientes de suprimentos a animais de grande consumo energ√©tico. Entretanto, o pulm√£o dos mam√≠feros cria uma s√©rie de vulnerabilidades que o exp√Ķem a processos de malfucionamento, tamb√©m conhecidos como doen√ßas.

A mais comum e principal delas √© que o pulm√£o dos mam√≠feros, exatamente por ter o “fole” associado √† √°rea de troca √© uma estrutura delicada e pode murchar. O pulm√£o das aves n√£o murcha. Qual √© o problema disso? Bem, isso fica para o √ļltimo post da s√©rie.

Design Inconsequente e a Respiração Humana

Essa sequ√™ncia de posts que se iniciou com uma pergunta,¬†passou por uma provoca√ß√£o, chega, finalmente aos fatos. Seu objetivo √© demonstrar que do ponto de vista m√©dico, o sistema respirat√≥rio humano tem alguns do que poderiamos¬†chamar¬†“erros de projeto” que s√£o causas de quadros patol√≥gicos de relev√Ęncia. VASx.JPG

¬†Vamos come√ßar pelo come√ßo. O ar deve vir do nariz (ou da boca) e entrar na traqu√©ia. Os alimentos e l√≠quidos devem vir da boca e entrar no es√īfago. Certo? At√© aqui, tudo bem. Agora responda r√°pido: Quem, em s√£ consci√™ncia, e por qual infernal raz√£o, cruzaria as duas vias, de modo a permitir o ar entrar no es√īfago e, pior, os alimentos e l√≠quidos adentrarem o sacrossanto espa√ßo respirat√≥rio?

A imagem ao lado (retirada daqui) mostra uma seta verde – o caminho correto para os alimentos -, e uma seta azul – que seria o caminho a√©reo certo. Elas formam um X!¬†Muitos mam√≠feros t√™m o mesmo problema, mas no homem, ele √© mais sens√≠vel. Alguns animais t√™m um p√°lato mais prolongado, outros, mecanismos diferentes de degluti√ß√£o. Quando dormimos, broncoaspiramos pequenas quantidades de saliva que qualquer pigarreada pode clarear. Entretanto, em situa√ß√Ķes onde o n√≠vel de consci√™ncia fica comprometido (traumas, excesso de drogas ou √°lcool), ou quando temos problemas de degluti√ß√£o – sejam anat√īmicos (edema, tumores, cirurgias no local); sejam funcionais (quadros neurol√≥gicos que provoquem descoordena√ß√£o no mecanismo de degluti√ß√£o, como acidentes vasculares cerebrais) -, o risco de aspira√ß√£o de grandes quantidades de alimentos √© enorme. De fato, em unidades de terapia intensiva, esse √© um dos problemas mais comuns. A ponto de uma manobra extremamente simples, que √© a de elevar a cabeceira da cama em 30 a 45 graus, diminuir significativamente a incid√™ncia de pneumonias hospitalares com impacto na mortalidade e morbidade desses pacientes.

Mas isso, infelizmente, não é tudo. Nos próximos posts tentarei mostrar como é frágil essa estrutura e como a natureza escolheu caminhos diferentes para o sistema respiratório das aves.

O Sopro Divino

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O que Deus fez quando resolveu dar vida ao amontoado de barro que moldou e batizou de Ad√£o (lembrar que adamah √© argila em hebraico)? Massagem card√≠aca seguida de choques no t√≥rax de 200 joules? Alimentos de alto valor prot√©ico? Enteroclismas? Transfus√Ķes de sangue? Plasma? Hemoderivados?

N√£o. Nada disso. Como mostra a figura acima, Deus simples e majestosamente soprou vida em Ad√£o. Ad√£o ganhou vida atrav√©s de seu sistema respirat√≥rio e n√£o atrav√©s do cora√ß√£o, intestinos ou mesmo do sangue, t√£o simb√≥lico! Essa alegoria do mito da cria√ß√£o d√° bem a dimens√£o do que representa a respira√ß√£o na antiguidade (ver tamb√©m Shakespeare, Rei Lear). Por milhares de anos, respirar foi o mesmo que viver. (Apenas recentemente, com a necessidade de se definir tecnicamente a vida com objetivo de transplante de org√£os s√≥lidos √© que criou-se a figura da “morte cerebral”).

Tudo isso para dizer que atrav√©s dos s√©culos, a respira√ß√£o pode ser considerada a mais divina das fun√ß√Ķes fisiol√≥gicas. Sob uma perspectiva creacionista na qual somos seres perfeitos criados a partir da imagem divina, a mais divina das fun√ß√Ķes deveria sobressair-se sobre outras criaturas. Nosso sistema circulat√≥rio √© muito bem adaptado ao que fazemos; n√£o h√° absolutamente nada igual a nosso sistema nervoso; que dizer da maravilha de nosso aparelho locomotor? – e assim por diante. Mas, creiam-me, perdemos na respira√ß√£o. Nossos pulm√Ķes n√£o s√£o os mais bem projetados para uma vida terrestre. Perdemos porque temos um “erro de projeto” que eu considero mais ou menos s√©rio. Erro esse que rende milhares de publica√ß√Ķes m√©dicas anualmente, consome milh√Ķes de d√≥lares em recursos de pesquisas, al√©m de estimular a produ√ß√£o de equipamentos m√©dicos altamente sofisticados cujo custo est√° na ordem de centenas de milhares de d√≥lares por aparelho. Todo esse dinheiro e tempo seria economizado se f√īssemos aves. Sim, √© delas o sistema respirat√≥rio mais sofisticado, pelo menos do ponto de vista m√©dico. √Č o que tentarei demonstrar nos pr√≥ximos posts.

sleucogaster_caapora.jpgParabéns ao Hotta que além de matar a charada, ainda adiantou o tema.
A foto é do Caapora. Pássaros são mesmo incríveis, Luciano. Obrigado.



Brócoli e Helicobacter

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O br√≥coli √© o tipo de vegetal sem muita moral entre os humanos. Quem j√° n√£o ouviu a express√£o “Aquele ali √© um QI de br√≥coli!” Ele e o alface sofrem o mesmo tipo de discrimina√ß√£o. Por exemplo, ambos s√£o exemplos de dietas radicais: “Menina, n√£o aguentei o spa, s√≥ comia br√≥coli (ou alface) e uma azeitona!!”

Talvez pensando nesse tipo de comportamento preconceituoso por parte da humanidade, não é de hoje, cientistas começaram a procurar utilidades para a famigerada verdura. E acharam.

O Helicobacter pylori √© uma bact√©ria que resiste ao pH extremamente baixo do suco g√°strico (aproximadamente 2). Recentemente, foi vinculada ao aparecimento de √ļlcera p√©ptica e tamb√©m do c√Ęncer g√°strico.¬†Por incr√≠vel que possa parecer, a √ļlcera, que num passado recente era tratada com a retirada cir√ļrgica do est√īmago,¬†passou a ser tratada com antibi√≥ticos.¬†Isso foi t√£o surpreendente que seu descobridor ganhou o Nobel de Medicina em 2005.¬†O complexo e engenhoso mecanismo de a√ß√£o da infec√ß√£o pelo Helicobacter √© esbo√ßado na figura abaixo retirada da Nature¬†Pois bem, brotos de br√≥coli podem minimizar os efeitos da infec√ß√£o do Helicobacter nas mucosas g√°strica e duodenal. Alguns exagerados, j√° afirmam que pode prevenir o c√Ęncer, mas da√≠ a isso ocorrer de fato, ainda √© um caminho longo.

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O cidad√£o da foto acima¬†√© Jed Fahey, cientista da Johns Hopkins que descobriu em 2002 que brotos de br√≥coli cont√©m uma subst√Ęncia chamada glucorafanina, precursora de um¬†potente bactericida chamado¬†sulforafano. Em ratos, a subst√Ęncia bloqueia o mecanismo respons√°vel pela inflama√ß√£o. Um pequeno estudo piloto com¬†48 pacientes foi conduzido com intuito de demonstrar que a ingest√£o de aproximadamente 70 g di√°rios de broto de br√≥coli¬†poderia reproduzir esses efeitos em humanos. Atrav√©s de medidas indiretas de quantifica√ß√£o da infec√ß√£o, foi poss√≠vel demonstrar¬†uma redu√ß√£o da quantidade de bact√©rias e de seus subprodutos metab√≥licos.

A infec√ß√£o por Helicobacter pylori afeta um n√ļmero de pessoas que¬†est√° atualmente na casa dos bilh√Ķes ao redor do mundo.¬†Se tal estudo de fato se consolidar como uma alternativa¬†√†s terapias atuais (inibidores da bomba de pr√≥ton e antibi√≥ticos) ser√° mais uma arma na preven√ß√£o do que hoje √© considerada uma epidemia de c√Ęncer g√°strico. A esperan√ßa √© tanta que foi criada uma¬†empresa pela Johns Hopkins que produzir√° brotos de¬†br√≥coli em escala industrial. Pensando bem, d√° para entender a admira√ß√£o de Jed Fahey pela discriminada verdura.¬†Ele √© um dos s√≥cios.

(Créditos: Cortesia da imagem: Johns Hopkins Medical Institutions)

Perguntinha Sufocante

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Sunset in Kemi by catarina_555 at Flickr

√Č inevit√°vel a procura humana por prop√≥sito, por sentido… Algumas respostas ajudam outras, nem tanto…

Qual é o bicho que tem o sistema respiratório mais evoluído apropriado para respirar o ar terrestre?

A Origem da Press√£o Arterial III

Chegamos ao final desse exerc√≠cio evolucion√°rio que fiz quando era R3. Fiquei impressionado com esse tipo de racioc√≠nio e procurei repeti-lo sempre que me defrontei com problemas complicados na Medicina – n√£o, isso n√£o vale para doen√ßas raras e esquisitas. √Č muito mais produtivo – no sentido de propiciar insights e apontar caminhos para pesquisa -, aplic√°-lo a doen√ßas altamente prevalentes que envolvam dificuldades de tratamento.

O aumento da press√£o arterial de aves e mam√≠feros se faz atrav√©s de um impressionante aumento da resist√™ncia circulat√≥ria dos animais de sangue quente. Esse aumento da resist√™ncia perif√©rica √© a alternativa mais “econ√īmica” encontrada pela natureza para propiciar a redistribui√ß√£o do fluxo de sangue. A tabela abaixo mostra a varia√ß√£o de fluxo sangu√≠neo regional no repouso e no exerc√≠cio. O aumento do fluxo pode chegar a 20 vezes o valor de repouso. Como conseguir um aumento t√£o grande de fluxo economizando o m√°ximo de energia? O aumento simples do d√©bito card√≠aco n√£o seria a sa√≠da mais econ√īmica por duas raz√Ķes: a primeira √© que v√°rias regi√Ķes seriam perfundidas sem necessidade – apenas os grupamentos musculares envolvidos necessitam de maior suprimento. A segunda √© que uma bomba capaz de aumentos abruptos de fluxo dessa monta teria que ter uma estrutura muscular muito maior que o cora√ß√£o dos mam√≠feros  e aves atuais. Provavelmente, essa alternativa terminou num beco sem sa√≠da e nosso cora√ß√£o foi poupado de mais essa carga, mesmo assim, ainda nos causa muitos problemas!

Data on flow from Wade 0 L, Bishop J M. Cardiac output and regional blood flow. Oxford: Blackwell, 1962. It has been assumed that the arterial pressure rises from 100 to 130 mmHg (13.3 to 17.3 kPa) in exercise while the venous pressure remains approximately constant. Pressure = kPa; Flow = litres.min-1;Resistance = kPamin.litres-1

Com esse conceitos, entendemos perfeitamente o que √© um choque circulat√≥rio; conceito que m√©dicos de unidades de terapia intensiva explicam a familiares de pacientes com certa dificuldade. N√£o √© para menos! Choque circulat√≥rio √© quando essa capacidade de dirigir o fluxo de sangue para os mais variados org√£os, em especial, os m√ļsculos que s√£o, em kilos, os maiores do organismo, √© perdida. Isso gera muita fraqueza, hipotens√£o postural (queda da press√£o na posi√ß√£o em p√©), diminui√ß√£o da diurese, entre outras altera√ß√Ķes. A press√£o costuma estar baixa, mas nem sempre. Claro, √© uma quest√£o de conte√ļdo e continente; quando a resist√™ncia circulat√≥ria cai, o continente aumenta para o mesmo conte√ļdo.

Referência: Harris, P. Evolution and the cardiac patient. Cardiovascular Research, 1983, 17, 373-378.

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A Origem da Press√£o Arterial II

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Tipos de cardiomiopatia. A hipertens√£o cr√īnica pode causar a hipertr√≥fica (HCM). O cora√ß√£o fica “musculoso” para vencer a alta press√£o sist√™mica.
O problema √© que os vasos que o nutrem, n√£o “crescem” na mesma propor√ß√£o. Tirado do e-heart.

Voltando ao nosso exercício evolucionário.

Quem respondeu metabolismo e homeotermia acertou parcialmente. Homeotermos gastam mais. Se o consumo de oxig√™nio de um peixe gira em torno de 1 mL/kg/min, um mam√≠fero consome 4 a 8 mL/kg/min – 4 a 8 vezes mais. Um homem adulto em repouso consome 250 mL de O2/min, o que d√° uns 3-4 mL/kg/min se tiver 70 kg. Morcegos 30 mL/kg/min, aves mais ou menos 10 mL/kg/min. Uma das alternativas evolucion√°rias para manter esse alto consumo foi o aumento do d√©bito card√≠aco, quantidade de sangue bombeada pelo cora√ß√£o em 1 minuto. Podemos dizer sem medo de cometer um erro grosseiro que o d√©bito card√≠aco de aves e mam√≠feros √© aproximadamente 4 a 8 vezes maior que o de peixes, anf√≠bios e r√©pteis. Com isso, ele d√° conta do aumento do consumo, mas n√£o explica o porqu√™ das altas press√Ķes. Qual seria a necessidade de trabalharmos com press√Ķes sist√™micas t√£o estranhamente elevadas? Andamos em c√≠rculos!

Insisto na relev√Ęncia disso pois, nessa quest√£o reside n√£o s√≥ a base evolucion√°ria de, se n√£o todas, pelo menos da grande maioria das doen√ßas cardiovasculares, e tamb√©m da compreens√£o do que √© o choque circulat√≥rio. Ent√£o, qual √© o conceito-chave que explicaria o aumento press√£o arterial dos mam√≠feros e, consequentemente, do homem?

A reposta virá, prometo, no próximo post da série.

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Honestidade Evolutiva?

Marine iguanas (Amblyrhynchus cristatus) line up on each others’ backs on Genovesa Island, Galapagos, Ecuador
(Image: David Day /SplashdownDirect / Rex) retirada da própria página da New Scientist

Aproveito para comentar um artigo da New Scientist de 29 de Janeiro. Foi solicitado a vários biólogos midiáticos (Dawkins, Elaine Morgan, entre outros) que escrevessem quais as lacunas da teoria da evolução a serem preenchidas nos próximos 200 anos. Essa pérola foi escrita por Frans de Waals (primatologista da Universidade de Emory, Atlanta, EUA):

“Why do humans blush? We’re the only primate that does so in response to embarrassing situations (shame), or when caught in a lie (guilt), and one wonders why we needed such an obvious signal to communicate these self-conscious feelings. Blushing interferes with the unscrupulous manipulation of others. Were early humans subjected to selection pressures to keep them honest? What was its survival value?”

Vi a chamada no blog do Marcelo Leite, ali√°s com um coment√°rio que tem a mesma linha de argumenta√ß√£o deste post. Essa pergunta n√£o faz o menor sentido se entendermos que doen√ßas (no caso da ruboriza√ß√£o, apenas uma altera√ß√£o da fisiologia normal) s√£o respostas maladaptadas de rea√ß√Ķes normais do indiv√≠duo. A liga√ß√£o do rubor facial com emo√ß√Ķes √© mero uso inadequado da rede vascular facial, assim como o rubor causado pela ingest√£o de nifedipina (medica√ß√£o para abaixar a press√£o), o dos sintomas climat√©ricos (menopausa) e tamb√©m o associado ao pr√≥prio frio. N√£o passou pela cabe√ßa de ningu√©m que a ruboriza√ß√£o facial poderia ter uma outra fun√ß√£o e estar sendo utilizada de forma ileg√≠tima por uma outra via, sem rela√ß√£o com comportamentos habituais sujeitos portanto, a uma press√£o seletiva? A face est√° envolvida em reflexos hemodin√Ęmicos complexos, via nervo trig√™mio, como por exemplo, o reflexo do mergulho – um est√≠mulo parassimp√°tico fortemente bradicardizante causado pela imers√£o da face humana em √°gua a 10¬ļC. Esse reflexo √© t√£o poderoso que pode curar arritmias graves! S√≥ funciona na face. Por qu√™? Quando todos os outros vasos se contraem no frio, os da face dilatam (ou permanecem inalterados) e nos deixam de bochechas vermelhas. Por qu√™? Esses vasos t√™m um comportamento peculiar que precisamos decifrar ou homin√≠deos foram submetidos a press√Ķes seletivas que os obrigaram a n√£o enfiar a cara em bacias de √°gua fria?

Caberia aos bi√≥logos evolucionistas (sim, porque m√©dicos, ainda n√£o h√°!) linkar fatos relevantes como se fez com a anemia falciforme, fibrose c√≠stica e a pr√≥pria insufici√™ncia card√≠aca, entre outros, de modo a descobrir qual a implica√ß√£o de cada resposta, contar sua hist√≥ria evolucion√°ria e entender qual seria a resposta maladaptada para, no caso da Medicina, trat√°-la. Isso sim seria muito interessante e, diria, necess√°rio √† Medicina atual, ref√©m que est√° do paradigma do risco. Pensar numa “press√£o seletiva para se manter honesto” √© de dar d√≥. Depois, a gente fica chateado quando querem cortar nossas bolsas no exterior!!

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