A Origem da Press√£o Arterial I

Por tr√°s da pergunta aparentemente inocente do √ļltimo post, est√° uma quest√£o que s√≥ pode ser respondida quando ampliamos o conhecimento m√©dico com conceitos evolutivos, coisa pouco frequente, como j√° se disse.

A press√£o arterial tem obviamente a fun√ß√£o de perfundir tecidos e mant√™-los metabolicamente ativos atrav√©s do fornecimento de fontes energ√©ticas e do pr√≥prio oxig√™nio; pode-se entender isso seja no n√≠vel celular ou microcelular (mitocondrial). Todos os animais citados no √ļltimo post e o pr√≥prio homem t√™m press√£o arterial de 120 x 80 mmHg, independentemente da posi√ß√£o ereta ou prona. Em rela√ß√£o √†s aves, a coisa n√£o difere muito. Seguem exemplos de press√£o arterial m√©dia em mam√≠feros e aves.

Modificado de Altman P L, Dittmer D S. Biological handbooks: Respiration and circulation.
Federation of American Societies for Experimental Biology, Bethesda, 1973

Quando analisamos r√©pteis, anf√≠bios e peixes temos uma surpresa. A tartaruga tem press√£o arterial de 34×29 mmHg. Os sapos, em m√©dia, 35×24. Os peixes t√™m a PA medida na aorta ventral, tudo em mmHg, s√£o exemplos: bacalhau (29×18); dipn√≥icos (40×25), salm√£o (81×48); truta (40×32); ca√ß√£o (30×24). Por que press√Ķes t√£o baixas e nos mam√≠feros e aves, t√£o altas? A quest√£o hidrost√°tica parece realmente ser a determinante no caso da girafa, mas e quanto ao inexplic√°vel peru? Essa ave “natalina” tem a mesma press√£o da girafa e quando n√£o frequenta os fornos de fim-de-ano n√£o √© infrequente morrer de rutura espont√Ęnea de aorta por hipertens√£o! A press√£o de perfus√£o tampouco parece dar conta de toda a explica√ß√£o. Se considerarmos a diferen√ßa entre a press√£o sist√≥lica e a diast√≥lica, no caso do homem, temos 120 – 80 = 40 mmHg, que √© a press√£o de perfus√£o m√©dia do organismo. Por que uma press√£o t√£o alta se poder√≠amos ter a mesma press√£o de perfus√£o com 80×40 ou mesmo 40×0 mmHg como no caso dos peixes?

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Perguntinha Hemodin√Ęmica

Noah Ark at Swipnet

Qual a semelhan√ßa entre as press√Ķes arteriais de um cavalo, de um canguru, de um rato e de um pardal sabi√° com a press√£o arterial de um homem adulto?

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A Dádiva da Doença

A Sindrome da Imunodefici√™ncia Adquirida (SIDA ou AIDS) √© causada por um retrov√≠rus, o HIV, que provoca uma redu√ß√£o dr√°stica na popula√ß√£o de linf√≥citos CD4 (c√©lulas brancas important√≠ssimas na imunidade do organismo) causando o espectro bastante conhecido da doen√ßa. A epidemia que acomete a humanidade desde suas primeiras descri√ß√Ķes na d√©cada de 80, provocou uma explos√£o de artigos sobre o assunto, o que culminou com o pr√™mio Nobel de Medicina de 2008. O sequenciamento do v√≠rus, uma simples fita de RNA, e o sequenciamento de nosso genoma trouxeram √† luz uma enorme surpresa quando descobriu-se que a correspondente sequ√™ncia em DNA do genoma viral estava muito bem integrada ao genoma humano, os chamados retrov√≠rus end√≥genos ou ERVs. As melhores cabe√ßas do mundo come√ßaram a procurar explica√ß√Ķes.

Desde a descoberta do DNA, havia uma enorme dificuldade em se explicar a grande variedade de caracter√≠sticas e complexidade dos seres vivos. Bi√≥logos insistiam que a complexidade resultava de pequenos erros (muta√ß√Ķes) que ocorriam quando o genoma era copiado e passado para gera√ß√Ķes futuras. Mas essas pequenas varia√ß√Ķes n√£o davam conta das altera√ß√Ķes observadas nem da velocidade com que elas ocorreram. Perguntas inc√īmodas como: Como nosso genoma aumentou tanto em t√£o pouco tempo? Por que temos tanto “lixo” gen√©tico nele? Por que tantos genes n√£o-funcionantes? Surgiu ent√£o, uma hip√≥tese de que os v√≠rus pudessem ter um papel na evolu√ß√£o dos seres vivos.

Hoje, essa linha de pesquisa já está consolidada. Há evidências para supormos que os vírus de RNA estariam presentes mesmo antes do aparecimento dos LUCA (termo proveniente da sigla em inglês para Last Universal Cellular Ancestor) Рexpressão que indica a primeira célula precursora dos três domínios celulares atuais, a saber Archea, Eucariotas e Bactérias.


Phylogenetic tree showing the relationship between the archaea and other forms of life. Eukaryotes are colored red, archaea green and bacteria blue. Adapted from Ciccarelli et al. at Wikipedia.

Mais ainda, h√° ind√≠cios de que os v√≠rus de RNA podem de fato, ter proporcionado a diferencia√ß√£o celular nos tr√™s tipos b√°sicos de c√©lulas. Uma teoria sugere que o DNA apareceu primeiro em estruturas virais por ser mais est√°vel e por replicar-se de forma mais confi√°vel. A partir disso, foi injetado por interm√©dio dos v√≠rus em c√©lulas primitivas – da mesma forma como ainda hoje ocorre – que se adaptaram a essa “doen√ßa” de v√°rias formas, restando tr√™s, que seriam as formas primordiais dos tr√™s reinos atuais. Essa √© a chamada ‚Äúthree viruses three domains hypothesis‚ÄĚ (Ver Forterre).

Mais interessante ainda seria a origem do n√ļcleo dos eucariotas. Talvez esse seja um dos grandes mist√©rios da evolu√ß√£o dos seres primordiais. O aparecimento do n√ļcleo tem sido explicado pelo endocitose de um archaeon ancestral por uma “paleo”-bact√©ria, processo denominado endo-simbiose e utilizado para explicar o aparecimento de outras organelas celulares. Entretanto, essa hip√≥tese n√£o explica diferen√ßas proteicas existentes entre os reinos. De fato, o n√ļcleo produzido dessa forma n√£o d√° conta do aparecimento de poros em sua membrana, al√©m do que esta √ļltima deveria ser dupla (uma de cada indiv√≠duo de origem). Em 2001, foi sugerido que o n√ļcleo se originaria de um v√≠rus de DNA com dupla fita que infectou organismos procariotas. Essa hip√≥tese resolve o problema dos poros e da duplicidade da membrana nuclear. Realmente, existem v√≠rus com a capacidade de produzir estruturas assim: os poxv√≠rus.

S√≥ para lembrar, pertence √† fam√≠lia dos poxv√≠rus o v√≠rus causador da var√≠ola (al√©m do repons√°vel pelo molusco contagioso), praga que assolou a humanidade desde a antiguidade e que foi a primeira doen√ßa considerada extinta pela OMS por interm√©dio da vacina√ß√£o em massa. N√£o existe almo√ßo gr√°tis. Quando adquirimos uma complexidade, adquirimos junto, uma doen√ßa. Os v√≠rus s√£o o exemplo cl√°ssico disso. S√£o subprodutos do projeto de vida vigente nesse planeta. S√£o “c√≥digos de m√°quina” e por isso mesmo podem incrementar ou acabar com ela de vez.

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Evolução e a Reação de Estresse

Imagine um homin√≠deo – nos prim√≥rdios da esp√©cie. H√° ind√≠cios de protoss√≠mios no quatern√°rio do per√≠odo cenoz√≥ico. Isso quer dizer mais ou menos 50 milh√Ķes de anos atr√°s, “logo ap√≥s” a extin√ß√£o dos dinossauros, que ocorrera dezenas de milh√Ķes de anos antes. A Terra seria ent√£o, povoada por grandes mam√≠feros e alguns macacos estranhos.

Imagine esse macaco caminhando numa floresta repleta de amea√ßas como tigres-dente-de-sabre, cobras gigantes, manadas de mamutes e outros bichos medonhos. Eis que, ao procurar frutas silvestres ou insetos para comer, se desgarra do grupo e se v√™ h√° alguns metros de dist√Ęncia em uma mata fechada, dando de cara com um esfomeado e enorme tigre-dente-de-sabre que o espreitava, lambendo os bei√ßos. O quadro abaixo mostra um esquema das rea√ß√Ķes hormonais que se seguem, convencionalmente chamadas de rea√ß√Ķes de luta ou fuga, comuns a todos os mam√≠feros

Como funciona o medo

por Julia Layton – traduzido por HowStuffWorks Brasil

O aumento dos horm√īnios de estresse, adrenalina, noradrenalina e cortisol causa mudan√ßas no organismo:

  1. aumento da press√£o arterial e freq√ľ√™ncia card√≠aca, preparando o organismo para um exerc√≠cio intenso;
  2. as pupilas dilatam para receber a maior quantidade poss√≠vel de luz; O importante n√£o √© o foco. Aqui, muito mais importante s√£o as varia√ß√Ķes m√≠nimas de luz e sombra que podem definir um ataque, uma sa√≠da, algo que pode colocar o indiv√≠duo em vantagem;
  3. as art√©rias da pele e tecido subcut√Ęneo se contraem (vasoconstri√ß√£o) desviando o fluxo sangu√≠neo aos grupamentos musculares mais importantes (rea√ß√£o respons√°vel pelo “calafrio” muitas vezes associado com o medo – h√° menos sangue na pele para mant√™-lo aquecido); O indiv√≠duo fica p√°lido;
  4. o teor do suor se modifica; Esse suor associado √† vasoconstri√ß√£o perif√©rica resulta na sudorese fria bastante conhecida nessas situa√ß√Ķes. Em situa√ß√Ķes de estresse, emitimos cheiros diferentes. Isso √© usado como esquiva em muitos animais;
  5. H√° uma tonifica√ß√£o dos m√ļsculos, a piloere√ß√£o ocorre quando pequenos m√ļsculos conectados a cada p√™lo da superf√≠cie da pele tensionam, os fios s√£o for√ßados para cima, puxando a pele com eles; Essa √© uma resposta muito importante. Os animais com a pele recoberta de pelos ficam “arrepiados” dando a impress√£o que s√£o maiores e mais amea√ßadores. Animais como o porco-espinho, permitem que seus grossos e afiados p√™los se desprendam, causando les√Ķes em seus agressores;
  6. O cérebro trabalha em ritmo acelerado. Não há prioridade em se concentrar em tarefas pequenas (deve-se concentrar apenas em sobreviver).

Esse tipo de resposta estereotipada foi conservado pela evolução. Daí concluirmos que ele deve conferir algum tipo de vantagem pois os organismos que a possuiam tinham mais chances de sobreviver e passá-la a seus descendentes. Temos portanto, o mesmo tipo de resposta até hoje. Basta levarmos um grande susto, ou recebermos uma notícia muito ruim, ou mesmo termos a nítida sensação de que vamos ser assaltados. Essa sensação é uma reação de estresse.

Ent√£o, o “macaco” veio morar na cidade. Nosso modo de vida urbano, transformou nosso cotidiano em um constante estado de estresse. Ficamos ansiosos com tr√Ęnsito, viol√™ncia, dinheiro, trabalho, etc. Nossas fontes de estresse pr√©-hist√≥rico, em especial a fome, n√£o s√£o o problema principal (pelo menos nos pa√≠ses industrializados!). Esse estresse constante tem como consequ√™ncia uma “pr√©-ativa√ß√£o” desse sistema de luta ou fuga. √Ās vezes, essa rea√ß√£o √© desencadeada desproporcionalmente em resposta a est√≠mulos pequenos. Pior, em determinadas situa√ß√Ķes, n√£o conseguimos identificar o est√≠mulo que est√° a caus√°-la! Agora, imagine, todas essas rea√ß√Ķes descritas (dilata√ß√£o pupilar, sudorese fria, taquicardia e palpita√ß√Ķes, respira√ß√£o curta e r√°pida, e etc) sem uma causa identific√°vel. O quadro √© desesperador!

Associe-se a isso a hipocalcemia. Sim, o c√°lcio √© um c√°tion que no sangue est√° dividido em duas grandes por√ß√Ķes: a livre, que age na contra√ß√£o muscular principalmente, e a ligada √† prote√≠nas. Quando um indiv√≠duo tem uma crise como a descrita, sua tend√™ncia √© fazer uma hiperventila√ß√£o. Essa hiperventila√ß√£o reduz drasticamente o teor de g√°s carb√īnico no sangue causando um aumento do pH sangu√≠neo o que leva a uma maior afinidade das prote√≠nas pelo c√°lcio. Ele √© “sequestrado” da por√ß√£o livre no plasma o que leva a uma hipocalcemia aguda. A hipocalcemia causa contra√ß√Ķes involunt√°rias dos m√ļsculos, principalmente faciais e dos membros superiores. Invariavelmente, o indiv√≠duo pensa que est√° tendo um derrame! Sua boca se fecha, sua l√≠ngua enrola, suas m√£os n√£o se movimentam direito, al√©m do que apresentam intenso “formigamento”. (Da√≠ a pr√°tica, n√£o recomendada, de respirar num saco. O g√°s carb√īnico aumenta e o efeito desaparece).

Esse tipo de rea√ß√£o intensa e extenuante leva o indiv√≠duo √† um pronto-socorro. L√° chegando, recebe o diagn√≥stico de ansiedade aguda, crise de p√Ęnico, piripaque, piti, dist√ļrbio neuro-vegetativo (jarg√£o m√©dico que n√£o quer dizer absolutamente nada!) e um calmante (normalmente, benzodiazep√≠nico). O quadro melhora progressivamente e o paciente √© liberado. Nunca ser√° curado assim! Casos com essa gravidade merecem acompanhamento minucioso. Medica√ß√£o ajuda muito na fase aguda, terapia funciona a longo prazo. Tudo devido a uma resposta org√Ęnica mal-utilizada, mal-adaptada. Temos rea√ß√£o de estresse quando praticamos esportes e damos aquela “ra√ßa” para ganhar um jogo; ou quando vemos de fato o perigo a nos amea√ßar. Poder√≠amos dizer que s√£o “instintos b√°sicos” de sobreviv√™ncia como fome, sede, cuidar dos filhos. Mas quando presentes em situa√ß√Ķes inadequadas, eles s√£o perigosos e devemos entender como funcionam para evitar seus efeitos ruins. Esse entendimento n√£o ocorre se n√£o tivermos conceitos de teoria da evolu√ß√£o presentes. Evolu√ß√£o e Medicina. Separ√°-los √© perder a possibilidade de compreend√™-los.

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A Vingança dos NERDS

In press na revista Intelligence:
Intelligence and semen quality are positively correlated

Authors: Rosalind Ardena, Linda S. Gottfredsonb, Geoffrey Millerc and Arand Pierced
Social, Genetic, Developmental & Psychiatry Centre, Institute of Psychiatry, King’s College London, London SE5 8AF, United Kingdom
School of Education, University of Delaware, Newark, DE 19716 USA
Psychology Department, Logan Hall 160, University of New Mexico, MSC03 2220 Albuquerque, NM 87131 USA
Department of Pathology, School of Medicine, University of New Mexico, MSCO8 4640, Albuquerque, NM 87131 USA
Abstract
Human cognitive abilities inter-correlate to form a positive matrix, from which a large first factor, called ‚ÄėSpearman’s g‚Äô or general intelligence, can be extracted. General intelligence itself is correlated with many important health outcomes including cardio-vascular function and longevity. However, the important evolutionary question of whether intelligence is a fitness-related trait has not been tested directly, let alone answered. If the correlations among cognitive abilities are part of a larger matrix of positive associations among fitness-related traits, then intelligence ought to correlate with seemingly unrelated traits that affect fitness‚ÄĒsuch as semen quality. We found significant positive correlations between intelligence and 3 key indices of semen quality: log sperm concentration (r = .15, p = .002), log sperm count (r = .19, p < .001), and sperm motility (r = .14, p = .002) in a large sample of US Army Veterans. None was mediated by age, body mass index, days of sexual abstinence, service in Vietnam, or use of alcohol, tobacco, marijuana, or hard drugs. These results suggest that a phenotype-wide fitness factor may contribute to the association between intelligence and health. Clarifying whether a fitness factor exists is important theoretically for understanding the genomic architecture of fitness-related traits, and practically for understanding patterns of human physical and psychological health.

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Blogs, Ciência, Religião e o Debate no Lablog

Talvez, o que mais irrite nos creacionistas e defensores do design inteligente (DI) √© a forma de argumenta√ß√£o, principalmente quando utilizam-se de argumentos “cient√≠ficos”, mas que em geral, s√£o bastante diferentes dos utilizados por n√≥s, simpatizantes da ci√™ncia. Tamb√©m cometemos os mesmos erros quando tentamos discutir assuntos metaf√≠sicos com nosso arsenal argumentativo e quando esquecemos da metaf√≠sica presente na pr√≥pria ci√™ncia! (Tenho um artigo interessante sobre a metaf√≠sica das esp√©cies).
Quando colocamos um blog no ar, temos uma responsabilidade p√ļblica e social. Quero testar minhas opini√Ķes sobre as coisas nas quais gosto de pensar. Quero testar a opini√£o de outras pessoas. Quero melhorar o mundo, por que n√£o?! Posso tanto mudar de id√©ia, como tamb√©m fazer com que outras pessoas comecem a raciocinar de forma diferente. Que fazer com id√©ias divergentes, muitas vezes agressivamente opostas, √†s vezes com objetivo expl√≠cito apenas de provocar? Acho “deletar” um tanto autorit√°rio. Acredito (e isso √© f√© pura) na raz√£o compartilhada. Isso implica em aceitar opini√Ķes diversas e construir juntos afirma√ß√Ķes com valor de verdade. E n√£o em amar a Verdade. A Verdade √© t√£o intang√≠vel quanto fadas, duendes e amigos imagin√°rios deificados. Substituir Deus pela Verdade n√£o alivia. Nietzsche j√° dizia que ci√™ncia e religi√£o est√£o no mesmo terreno pois ambas acreditam na inestimabilidade e incriticabilidade da verdade e nisso, sempre ser√£o aliadas (GM¬ß25, 3a Disserta√ß√£o). Da mesma forma como existem defensores irasc√≠veis do DI, tamb√©m conheci v√°rios “ativistas” do ate√≠smo dogm√°tico que agem como se a ci√™ncia fosse a sua religi√£o. Demolir, destruir ou ridicularizar argumentos contr√°rios √© para quem acha que det√©m a Verdade (com “v” mai√ļsculo mesmo). √Č fazer o que um provocador quer. √Č n√£o reconhecer aquela parcela de f√© √ļnica e exclusiva da qual a ci√™ncia tamb√©m depende.
Qual a diferen√ßa entre a cren√ßa nessa Verdade quase absoluta que achamos que possu√≠mos e a cren√ßa em ETs? Qual √© a raz√£o de estudarmos ci√™ncia se n√£o adquirirmos toler√Ęncia? Isso j√° n√£o deu certo outras vezes. Que ao menos n√£o se repita o mesmo erro.

Genes e Nosologia

Ainda sobre o artigo de Pollack, que muito me intrigou:

Se considerarmos minimamente a evolu√ß√£o humana, podemos entender que somos fruto de uma s√©rie de conting√™ncias que por uma ou outra raz√£o, possibilitaram nossa sobreviv√™ncia e de nossos descendentes, sob as mais variadas e hostis condi√ß√Ķes ambientais. Condi√ß√Ķes que ou deixaram de existir, ou foram substitu√≠das por outras, mais recentes. Por exemplo, recente nosso acesso ao sal e √†s gorduras insaturadas. A avidez por essas subst√Ęncias foi muito √ļtil em determinados per√≠odos da evolu√ß√£o, mas com certeza, n√£o √© o caso agora.

Ao desenhar o mapa das doenças, quem vai contar essa história? De que me adianta saber que a distrofia de Duchenne está ligada a doenças cardiovasculares? A pergunta muito mais interessante é: Por que elas estão ligadas?

Para evoluir e sobreviver, ganhamos doenças! A Vida carrega a Morte dentro de si. Essa continua sendo a grande contradição da existência.

Teleologia II

Ernst Mayr defendia uma filosofia particular para a Biologia. Uma das raz√Ķes para isso √© o fato de o pensamento biol√≥gico contar com certas caracter√≠sticas pr√≥prias. Talvez, a principal delas seja o pensamento teleol√≥gico. A linguagem m√©dica √© obscenamente teleol√≥gica com a desculpa de ser pragm√°tica. At√© posso aceitar esse argumento. Por√©m, n√£o concordo quando os interlocutores comunicam-se assim por desconhecimento total do assunto e sua pol√™mica no universo da Biologia. O texto que se segue pertence ao portal Talk Origins

“There are two forms of teleological explanation (Lennox 1992). External teleological explanation derives from Plato – a goal is imposed by an agent, a mind, which has intentions and purpose. Internal teleological explanation derives from Aristotle, and is a functional notion. Aristotle divided causes up into four kinds – material (the stuff of which a thing is made), formal (its form or structure), efficient (the powers of the causes to achieve the things they achieve) and final (the purpose or end for which a thing exists). Internal teleology is really a kind of causal explanation in terms of the value of the thing being explained. This sort of teleology doesn’t impact on explanations in terms of efficient causes. You can, according to Aristotle, use both.

Evolutionary explanations are most nearly like Aristotle’s formal and efficient causes. Any functional explanation begs the further question – what is the reason why that function is important to that organism? – and that begs the even further question – why should that organism exist at all? The answers to these questions depend on the history of the lineage leading to the organism.

External teleology is dead in biology, but there is a further important distinction to be made. Mayr [1982: 47-51] distinguished four kinds of explanations that are sometimes called teleology: telenomic (goal-seeking, Aristotle’s final causes, ‘for-the-sake-of-which’ explanations); teleomatic (lawlike behaviour that is not goal-seeking); adapted systems (which are not goal seeking at all, but exist just because they survived); and cosmic teleologyO’Grady and Brooks 1988]. Only systems that are actively directed by a goal are truly teleological. Most are just teleomatic, and some (e.g., genetic programs) are teleonomic (internal teleology), because they seek an end.”

How the four forms of apparent teleology relate.
Venn diagram with Teleological systems in Teleonomic systems in Teleomatic systems with Adapted systems overlapping some (but not all) of each of the other four but entirely within Teleomatic systems

Exemplos de processos teleom√°ticos s√£o aqueles em que a lei da gravidade e a 2a lei da termodin√Ęmica regulam as transforma√ß√Ķes. N√£o apresentam um objetivo final. Os processos teleon√īmicos s√£o guiados por programas e dependem da exist√™ncia de uma meta que pode ser uma estrutura, uma fun√ß√£o fisiol√≥gica ou mesmo um comportamento. Os programas est√£o sujeitos √† sele√ß√£o natural. Para Mayr, o programa gen√©tico proporciona em exemplo de processo teleon√īmico. Os sistemas adaptativos (por exemplo, fun√ß√Ķes de org√£os ou comportamentos de esp√©cies) t√™m sido erroneamente chamados de teleol√≥gicos. Segundo Munson (1971) isso ocorre porque ao estudar um tra√ßo adaptativo buscamos uma explica√ß√£o. Essa explica√ß√£o √© dada contando-se a hist√≥ria evolutiva desse tra√ßo como sendo um sucesso da sele√ß√£o natural. De novo, n√£o h√° metas.
Esse racioc√≠nio muitas vezes explica o aparecimento de doen√ßas que, assim, n√£o necessitam mais ser vistas como maldi√ß√Ķes √† esp√©cie humana. A raz√£o m√©dica se beneficiaria do pensamento evolucion√°rio que pode estar distante da pr√°tica cl√≠nica, mas traria de volta sua historicidade. Afinal, a hist√≥ria de um ser vivo, t√£o cara a Mayr, √© o que o diferencia de um ente inanimado; e o que o torna irredut√≠vel √† f√≠sico-qu√≠mica, sem recorrer a explica√ß√Ķes vitalistas.

Teleologia I


Certa vez, ao assistir uma aula de fisiologia, fiz a pergunta que todo aluno do 2o ano de Medicina faz ao seu professor de fisiologia (ou pelo menos tem vontade de fazer!): “Mas, para que serve o sistema l√≠mbico?” (era uma aula de neurofisiologia). O professor, deixou o giz cair na calha, inverteu as sombrancelhas – at√© ent√£o, amig√°veis – e me respondeu: “Voc√™ n√£o deve pensar assim!”. Por qu√™? “Por qu√™?! Passamos anos tentando nos livrar dessa pergunta! Esse tipo de pergunta n√£o leva a lugar nenhum!” Fiquei um pouco humilhado pelas risadas da classe e n√£o quis me alongar no debate, mas a resposta nunca me satisfez. Principalmente porque ningu√©m nunca tinha me dito como n√£o pensar antes!
Para que serve o rim? Para livrar o organismo de subprodutos t√≥xicos, eliminar ou economizar √°gua e manter o equil√≠brio √°cido-b√°sico. Nada mais simples. Entretanto, essa linguagem teleol√≥gica √© quase um tabu na Biologia e mostra como a Medicina desconhece conceitos b√°sicos de Teoria da Evolu√ß√£o. Nos pr√≥ximos posts, tentarei refletir sobre o pensamento teleol√≥gico, principalmente √† luz de Ernst Mayr. Extrapola√ß√Ķes para a Ci√™ncia M√©dica e a Medicina propriamente dita ser√£o permitidas, aceitas e at√© encorajadas. Nada faz muito sentido sen√£o √† luz da evolu√ß√£o, n√£o √© mesmo?

Isaac, Albert ou Charles

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Ernst MayrPhoto by Kris Snibbe

Ernst Mayr defendia uma filosofia própria para a Biologia (Toward a New Philosophy of Biology). Acreditava que a Biologia não poderia nunca ser reduzida à Física, como sonhavam mecanicistas de outrora. Por que falamos em darwinismo e não existe um newtonismo ou eisteinismo?

Chamou a aten√ß√£o por exemplo, √† diferen√ßa entre a Biologia Funcional e a Evolucion√°ria. A pergunta principal do bi√≥logo funcional √© “Como?”. Como isso funciona? Como aquilo interage com isso? e etc. A pergunta do bi√≥logo evolucion√°rio √© “Por qu√™?”. No sentido de “Como aconteceu?” e n√£o no sentido de “Para qu√™?”, a pergunta que Arist√≥teles fez e que gerou uma confus√£o que atravessou mil√™nios! Voltaremos a ela, com Mayr em outro post.

Para usar uma analogia didática de Mayr, podemos comparar o trabalho dos campos da Biologia com a tecnologia da informação: o biólogo funcional quer decodificar a informação programada no DNA. Entender os mecanismos de funcionamento do processo. O biólogo evolucionista, por outro lado, está interessado na história destes programas de informação e nas leis que controlam suas mudanças de geração a geração. Ou seja, nas causas destas mudanças.

Os seres humanos são produtos de uma infinidade de experiências casuais da natureza culminando no que somos hoje. Para onde caminha a Ciência Médica? A quem ela almeja desposar: Isaac, Albert ou Charles ?