Ácidos, Bases e a UTI I
“Ácido (latim), azedo, como o vinagre. Álkali (árabe), cinza de plantas”. Assim inicia a edição de 1928 de seu formidável livro The Determination of Hydrogen Ions, o professor W. Mansfield CLARK da Johns Hopkins. Continua: “Das cinzas das plantas foi isolado o Potassium, metal que tem propriedades semelhantes ao Litium e Sodium. Esta série é conhecida como a dos metais alcalinos porque vêm de cinzas de plantas. Tais metais, quando puros, reagem vigorosamente na água e as soluções resultantes tem a incrível capacidade de ‘matar’ a acidez de soluções ácidas. Elas são alcalinas.” Um ácido reage com um álcali e forma um sal. Na Química que privilegiava a importância dos metais e não tinha a noção de molécula ou de ligação química, a Soda e a Potassa eram os principais sais. Elas eram consideradas as bases dos sais. Sua qualidade básica (no sentido de exemplo de uma categoria) emprestou seu nome a todas as substâncias, orgânicas ou não, que agem como as cinzas da madeira ‘matando’ ácidos. Nesta série de posts, algo modificada de outra publicação, tentarei mostrar a evolução do conhecimento científico desde a descoberta dos íons até o uso de conceitos físico-químicos aplicados ao equilíbrio ácido-base para o tratamento de pacientes. Essa fascinante história vai de 1834 a 1952, quase 120 anos. Passemos, portanto, à história de como a jovem Química, tomou de fato o lugar da velha Alquimia, no auxílio à antiga arte de fazer Medicina.
A TEORIA DA DISSOCIAÇÃO ELETROLÍTICA DE ARRHENIUS
A noção de íon foi introduzida na Química por Michael FARADAY (1791-1867) (foto ao lado) em 1834 em seu monumental trabalho publicado na Philosophical Transactions of the Royal Society: Experimental Researches in Electricity I, II, III e IV. Era intrigante a produção da eletricidade e que soluções pudessem conduzí-la. Imaginou que a passagem de eletricidade através das soluções era acompanhada de um movimento de partículas que chamou íons. O termo íon vem do grego e é o particípio do verbo eimi, que quer dizer ir, mover, viajar, sendo portanto traduzida como viajante. Os cátions moviam-se no sentido da corrente e na direção do catodo. Os ânions, contrários a corrente, na direção do anodo. Faraday entretanto, acreditava que os íons só se formavam quando a corrente era ativada. Suas Leis baseavam-se no fato de que a corrente elétrica decompõe a solução através da qual passa e que, quantidades definidas dos produtos de decomposição apareciam nos eletrodos em proporções equivalentes quimicamente. Era de se supor também, que a velocidade de migração dos cátions e ânions devesse ser igual, porém com sentido inverso. Esta era a visão geral até que em 1853, Wilhelm HITTORF (1824-1914), professor de Física e Química na Universidade de Münster, iniciou uma série de experimentos nos quais mostrou que não era esse exatamente o caso. Sua grande habilidade experimental permitiu mostrar por exemplo, que em uma solução de HCl, o íon hidrogênio transportava cerca de 5/6 e o cloreto apenas 1/6 da corrente total. Já numa solução de KCl, ambos íons transportavam aproximadamente a mesma quantidade de eletricidade. Para chegar a essa estranha conclusão, Hittorf teve de admitir que eram os solutos (o que é dissolvido em uma solução) e não os solventes (onde dissolvemos os solutos) os transportadores da corrente, fato que era extremamente controverso na época. Essa foi uma das razões para as fortes críticas teóricas que recebeu e uma demora de quase 50 anos para considerarem correto seu ponto de vista. Enquanto isso, especulações teóricas de Rudolph Julius Emmanuel CLAUSIUS (1822-1888), professor de Física em Zurique, começaram a exercer alguma influência na mesma direção. Esse físico publicou um artigo em 1857 no qual argumentava que se as partículas de um suposto eletrólito fossem realmente rígidos agregados seria de se esperar que, com uma baixa diferença de potencial entre os dois eletrodos, nenhuma corrente passaria. Quando, entretanto, a força eletromotriz atingisse um nível suficiente para romper esses agregados, uma repentina e forte corrente passaria através da solução. Definitivamente, não é o que ocorre. Então, ao invés de pensar em uma estrutura rígida, por que não pensar nas moléculas como estruturas dinâmicas em constantes trocas de átomos com seus vizinhos? Esse modelo melhor se aplicava ao comportamento das soluções. Devemos a Friedrich KOHLRAUSCH o método de medida da condutividade das soluções eletrolíticas. Ele foi professor de física em Göttingen, Zurique, Darmstadt e Würzburg. Conseguiu apuradas medidas por evitar a polarização dos eletrodos utilizando a corrente alternada, grande inovação na época. Após ajustar o método, publicou em 1876 um artigo em que confirmou todo o trabalho de Hittorf. Ele introduziu a noção de condutividade equivalente estudando centenas de soluções com múltiplas diluições. Esse conceito determina que em uma solução, um íon sempre tem uma determinada condutividade (mobilidade) característica, independentemente do sal do qual foi liberado. Entretanto, havia algumas exceções à lei. O amoníaco, por exemplo, era uma delas. Todos esses fatos estão em harmonia com a suposição de que durante a eletrólise os íons já estariam lá, mesmo antes de ativarmos a corrente! A Teoria da Dissociação Eletrolítica moderna estabelece exatamente isso. Infelizmente, Kohlrausch apesar de muito próximo, não conseguiu chegar a essa conclusão pois faltava-lhe uma evidência de peso para que pudesse dar o passo final.
Em 1884, Svante August ARRHENIUS (1859 – 1927), um sueco de Vik, povoado próximo a Upsala, publica seu primeiro trabalho importante. Tinha acabado de terminar seus estudos em Estocolmo e apresentou à Academia Sueca de Ciências sua tese de doutoramento sobre eletrólise. Trabalhando com a condutividade eletrolítica de Kohlrausch, com quem estagiara anos antes em Würzburg, descobriu que ela aumentava com a diluição da solução, para alguns solutos assintoticamente em direção a um valor de equilíbrio; para outros, fortemente ascendente até o limite da diluição (como o amoníaco). Para explicar esse estranho fato, Arrhenius imaginou que os eletrólitos eram constituídos por duas partes em equilíbrio, uma ativa, outra inativa. Somente a ativa conduziria eletricidade
e o equilíbrio se deslocaria a seu favor com a diluição. Nos eletrólitos bons condutores, a porção ativa deveria ser alta e nos maus, baixa, mas elevando-se com a diluição. Assim, Arrhenius não deu grande importância a alguns dos fenômenos descritos por Kohlrausch porque eles alteravam-se em grandes diluições. Recorreu à antiga (quase 30 anos) hipótese de Clausius de que as moléculas de alguma maneira, poderiam dissociar-se. Nessa comunicação, entretanto, Arrhenius deixa claro que não está nada à vontade em falar de íons existentes nas soluções antes da passagem da corrente. Mais tarde, ele confessou que em seu primeiro trabalho, que foi sua tese de Doutorado, ele deixou essa questão em segundo plano. Nessa época, a Química e a Física eram ciências completamente separadas e o orientador de Arrhenius, o professor Cleve, era um químico “às antigas” e tinha pouco conhecimento de Física. Sobre isso, Arrhenius posteriormente afirmou: “Eu conhecia meus professores em Upsala muito bem e sabia que seria impossível fazê-los acreditar que moléculas de sais estariam dissociadas em solução. Por isso, se tivesse feito tal afirmação na minha tese de doutoramento, eu fatalmente não teria sido aprovado”. Mesmo assim, Arrhenius foi aprovado com a nota mínima.
Se, alguns anos mais tarde, Arrhenius encontrou condições de publicar sua Teoria da Dissociação Eletrolítica de forma irrefutável, foi graças ao grande impulso que recebeu do célebre trabalho do gênio holandês Jacobus Hendricus VAN`T HOFF (1852-1911). Um amigo de Van’t Hoff, Hugo de VRIES, grande biólogo e botânico de Amsterdam, estava fazendo experimentos com folhas notando que, quando colocadas em água pura, elas mostravam uma tendência a inchar, enquanto que em soluções mais concentradas, murchavam. Entre estes extremos, era possível preparar as assim chamadas soluções isotônicas, nas quais nada ocorria, ou seja, tinham a mesma Pressão Osmótica que a célula vegetal. Já nessa época, se conhecia a Pressão Osmótica e PFEFFER em 1877, professor de Botânica da Universidade de Bönn, havia feito medidas relativamente precisas dela em células vegetais. De Vries foi então, capaz de preparar tais soluções a partir de uma grande variedade de sais e pôde fazer a importante observação de que tais soluções isotônicas, que ele sabia possuírem a mesma pressão osmótica, tinham também o mesmo ponto de congelamento. Em 1884, de Vries, quase que por acidente, comunicou seus resultados a van’t Hoff que imediatamente captou a relevância dessa descoberta. Começou a investigar o que hoje conhecemos como Propriedades Coligativas (pressão osmótica, ponto de ebulição, ponto de congelamento e pressão de vapor) e qual a relação entre elas que poderia explicar o fenômeno. Ele fez um extenso estudo sobre a pressão osmótica e conseguiu encontrar uma explicação bem mais simples do que era de se supor, apesar de nada intuitiva. Tendo conhecimento amplo de Química e Física, van’t Hoff imaginou que quando uma substância é dissolvida em um líquido, suas moléculas exercem sobre o líquido uma pressão osmótica que não é
apenas semelhante, mas muitas vezes numericamente igual, à pressão exercida se a substância fosse um gás confinado no mesmo volume. Pôde então, aplicar a equação geral dos gases perfeitos à pressão osmótica (PV = nRT), onde é a pressão osmótica, n é o número de moles de soluto em 1 litro, fixando assim o volume (V) na unidade, R é a constante dos gases (0,082 L atm K-1 mol-1) e T é a temperatura. Mas, van’t Hoff percebeu que existiam várias exceções à sua lei e acrescentou o fator de correção (i) à fórmula. Se i = 1, significa que a pressão osmótica é exatamente aquela definida pela lei. Se i = 2, a pressão osmótica é duas vezes a prevista pela lei e assim por diante. Os valores de i foram tirados das medidas feitas por François-Marie RAOULT (1830-1901), então professor em Grenoble, França. Raoult efetuou um minucioso trabalho sobre o abaixamento do ponto de congelamento das soluções em relação ao solvente na forma pura pulblicado no Comptes Rendus 95, 1030-3 (Nov. 27, 1882) como a Lei Geral do Congelamento de Soluções. Ao analisar sais constituídos por 2, 3 ou mais íons, ele pôde correlacionar o número de partículas na solução com a capacidade de abaixar o ponto de congelamento, comparando com a água pura. Esses dados caíram sob medida para van’t Hoff, pois ele comparou seu i com os fatores de Raoult, mostrando que tinham valores muito próximos. Van’t Hoff termina então, por fazer a generalização que imortalizou seu trabalho [Zeitschrift fur physikalische Chemie vol. 1, pp. 481-508 (1887)], relacionando as propriedades coligativas das soluções com a Segunda Lei da Termodinâmica, e mostrando que a diluição ocorre com acomodação de energia. (Quando, por exemplo, diluímos uma pequena quantidade de NaCl em água, a solução esfria. Essa queda de temperatura é muito mais evidente quando diluímos o sal em álcool etílico.) Com essa explicação van’t Hoff fundou o ramo da Ciência conhecido hoje como Físico-Química e arrebatou o primeiro prêmio Nobel de Química da História em 1901. Assim que Arrhenius tomou conhecimento do artigo de van’t Hoff, imediatamente imaginou que as substâncias que teriam um i maior que 1, quando diluídas, forneceriam íons. Através de uma combinação genial desse fato com sua hipótese de 1884, de acordo com a qual os eletrólitos seriam formados de uma parte ativa e de uma inativa, ele promulgou a Teoria da Dissociação Eletrolítica Moderna (1887) escrevendo o trecho seguinte: “A parte ativa das moléculas é completamente dissociada em íons livres… A fração inativa não é dissociada. A condução da corrente é realizada pela parte dissociada em íons livres, e a pressão osmótica que a solução exerce não é devido às moléculas não-dissociadas, mas aos íons livres; cada íon exerce a mesma pressão que uma molécula não-dissociada.” Arrhenius chama de α – o que hoje chamamos de grau de dissociação – à relação entre o número de moléculas dissociadas e não-dissociadas. Ele propôs, exatamente como seu estudo de 1884 que o α aumenta com a diluição de modo que em uma diluição infinita, α = 1. Utilizando valores de condutividade tirados de Kohlrausch e das experiências de Ostwald (do qual falaremos mais tarde), Arrhenius pôde calcular o α de uma série de eletrólitos. Quando uma molécula é quebrada por dissociação eletrolítica, em n íons, a solução contem α íons e (1-α) moléculas não dissociadas. O total de partículas é, portanto: αn + (1-α) que pode ser rearranjado para 1 + (n-1)α. Como para a pressão osmótica o que importa é o número de partículas, se a teoria estivesse correta, 1+(n-1)α deveria ser igual ao coeficiente i calculado por van’t Hoff para corrigir o cálculo da pressão osmótica quando moléculas do soluto se dissociam em duas ou mais partículas. A Tabela abaixo, retirada do original de Arrhenius, mostra algumas substâncias por ele testadas. Foi relacionando duas grandezas que ninguém antes pensou fossem próximas – a condutividade elétrica e a pressão osmótica – que
Arrhenius chegou à Teoria da Dissociação Eletrolítica, praticamente nos mesmos termos que utilizamos até hoje.
A nova teoria gerou espanto na comunidade científica seguido de indignação. Houve ataques fortíssimos nos anos subsequentes (TRAUBE, 1890 e PICKERING, 1891). Sua aceitação exigia uma nova forma de pensar, não intuitiva para época. Como, por exemplo, separar o clo
ro do sódio e conseguir que ambos fiquem em solução sem reagir entre si para formar novamente o NaCl ou, com a água, liberando o H2? Obviamente, isso provém de um erro de interpretação da teoria pois, o que está em solução são os íons cloreto e sódio, carregados eletricamente, e não os elementos puros. Graças aos resultados obtidos pela Física 20 anos depois, podemos hoje compreender sem dificuldade a natureza da dissociação eletrolítica. O modelo atômico de RUTHERFORD-BOHR estabelece que uma configuração eletrônica mais estável é o estado de menor energia de um átomo. Assim, são considerados idênticos os sistemas eletrônicos do íon sódio (Na+) e do gás inerte neon. Arrhenius ainda explicou de maneira simples o fenômeno através do qual todos os ácidos fortes liberam a mesma quantidade de calor por equivalente-grama na reação de neutralização com uma base forte, fato considerado quase que sobrenatural na época. Pela dissociação eletrolítica, todas as reações de neutralização são consideradas o mesmo fenômeno caracterizado pela formação da água através da reação H++ OH– ⇋ H2O, é claro que a liberação de calor deve ser a mesma para todas elas. A nós interessa a definição de ácido e base dada por Arrhenius, onde ácido é todo doador de H+ e base todo doador de OH– (hidroxila). Isso resgatou as idéias de Humphry DAVY, o grande químico inglês da Royal Society, “descobridor” de Faraday e do gás hilariante, que propusera em 1813 que o hidrogênio e não o oxigênio, era o elemento presente em todos os ácidos. Durante os anos seguintes, a Teoria da Dissociação Eletrolítica foi pouco a pouco sendo aplicada aos os mais variados problemas da Química provocando uma verdadeira revolução. Juntamente com Arrhenius, coube a Ostwald e van’t Hoff aplicar e ensinar a teoria divulgando-a para o mundo, principalmente o primeiro, cujo laboratório foi chamado de “fábrica de cientistas”. Arrhenius ganhou o prêmio Nobel de Química em 1903 e foi condecorado com a medalha Davy, em Londres, no ano de 1905.
Bibliografia
1. Arrhenius, S. A. (1887). “On the Dissociation of Substances Dissolved in Water.” Zeitschrift fur physikalische Chemie I: 631.
2. Arrhenius, S. A. (1911). Electrolyte dissociation. Willard Gibbs lecture, American Chemical Society.
3. Clark, W. M. (1928). Determination of hydrogen ions: an elementary treatise on electrode, indicator and supplementary methods, with an indexed bibliography on applications. Baltimore, Williams & Wilkins. (na biblioteca do IQ da USP Identificador: 5476. Loc. 541.39 C596D. Tem uma edição de 1923 online aqui.
4. Faraday, M. (1834). “On electrical decomposition.” Philosophical Transactions of the Royal Society.
5. Jörgensen, H. (1950). Theorie, mesure et applications du pH. Paris, Dunod. Tirei muita coisa desse livro. Na biblioteca do IQ Identificador: 5416 Classificação: 541.3728 J82T
6. Wald G. How the theory of solutions rose. J Chem Educ 23:8-26.1986.
7. J.H. van’t Hoff, “Die Rolle osmotischen Drucks in der Analogie zwischen Losungen und Gasen”, Zeitschrift fur physikalische Chemie, vol 1, pp. 481-508 (1887) J.H. van’t Hoff, “The Function of Osmotic Pressure in the Analogy between Solutions and Gases“, translated by W. Ramsay, Philosophical Magazine, S. 5. vol 26. No. 159. Aug, pp. 81-105 (1888) J.H. van’t Hoff, “The Role of Osmotic Pressure in the Analogy between Solutions and Gases“, in: The Modern Theory of Solution, Memoirs by Pfeffer, van’t Hoff, Arrhenius, and Raoult,
translated and edited by Harry C. Jones, Harper & Brothers Publishers, New York and London, pp. 11-42 (1899). Se você nunca leu um artigo de um Nobel, esse é o que você deve ler. Van’t Hoff ganhou o primeiro Nobel de Química.

Espanha e Holanda

Espanha e Holanda disputam nesse domingo (11/07/10) a final da Copa do Mundo da FIFA 2010. O ineditismo desse combate futebolístico não é o mesmo na história desses dois países que se enfrentaram em outras épocas, não pelo domínio da bola e do campo de jogo, mas pelo domínio do mar. Como mostra a belíssima música de Milton Nascimento:
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Por que não sabem que o mar
Por que não sabem que o mar
Por que não sabem que o mar
É de quem sabe amar…

Bjorn Ibsen 1915 – 2007
Mexendo em algumas coisas antigas que escrevi, achei essa foto de Bjorn Ibsen. No texto, escrevi assim: Bjorn Ibsen, 1915 – ?
Descobri HOJE que ele veio a falecer em 7 de Agosto de 2007 [1]. Fiquei (mó) triste porque esse cidadão, foi o inventor de uma “coisa” chamada unidade de terapia intensiva, coisa essa que sustenta a mim e a minha família até hoje.
Eu contei essa história em outro lugar. Vou contar de novo aos leitores do blog em breve. Aqui deixo apenas minha singela (e bem atrasada) homenagem a esse cara que teve uma sacada sensacional na epidemia de poliomielite da sua cidade nos idos de 1952, e de quebra, “inventou” a UTI.
Abração, Bjorn. E um beijo na Ingrid.
Bjørn Aage Ibsen, anaesthetist and intensivist, Rigshospitalet,Kommunehospitalet, and Anaesthesiology Centre, Copenhagen (b30 August 1915; q Copenhagen 1940), d 7 August
2007.
Correções do artigo acima aqui.[2]
[1]Richmond, C. BMJ 2007;335:674 (29 September), doi:10.1136/bmj.39344.561250.
[2]Trubuhovich,RV. BJØRN IBSEN: COMMEMORATING HIS LIFE, 1915-2007. Crit Care Resus 2007(Dec); 9(4).
Rosset, Acaso e a Tragédia do Ser
De vez em quando ouvimos alguém dizer: “No meu tempo, isso não era assim! O mundo está perdido…” e coisas semelhantes. Esse saudosismo, uma sensação de que as coisas vêm piorando progressivamente, é um sentimento que nos acomete volta-e-meia. Alguns dizem que é a “idade” que nos deixa assim. Outros, que somos pessimistas (o que não é totalmente correto, como vou mostrar). Mas, o que estaria por trás disso? Assumindo como “moderno” aquilo que está presente em nosso cotidiano, o que subjaz a essa nossa crítica à modernidade? A pergunta poderia também ser: “Por que o presente nos causa, muitas vezes, essa sensação de que é uma degeneração de algo que tínhamos em tão alta conta?” Seja a poluição do planeta (a natureza), seja as relações humanas (a sociedade), seja jogar futebol por amor à camisa (a moral), exemplos cotidianos desse sentimento.
A facticidade do presente é poderosa. Chega a ser aterrorizante. Não é uma memória construída de sentimentos do passado, filtrada para que eu consiga sobreviver. Não é uma esperança do futuro projetada para que eu não pereça. (E aqui sim, se essa projeção for negativa, serei pessimista; no caso contrário, tendo uma visão positiva do futuro, serei otimista.) A facticidade do presente é palpável e nossa maior fonte de certezas. Por que insistimos, ao analisar determinadas situações, em denegá-la? Em descaracterizá-la e desvalorizá-la julgando uma hipotética situação passada mais adequada ou melhor do que a atual?
A resposta é que assumir o presente é problemático e perigoso. O presente e sua produção interminável de fatos, a que chamamos inocentemente de realidade, nos levam para bem longe de nosso mundinho ideologizado no qual queremos e precisamos acreditar, seja esse mundo objeto de uma razão instrumental que utilizo para prever fenômenos e criar tecnologia; seja um “outro” mundo que conhecerei depois de morrer; seja qualquer tipo de mundo construído de forma a dar abrigo e aconchego para um tal ser-para-a-morte. E aqui preciso exercitar meu desprezo pela palavra fato, tão cara a cientistas e seres humanos em geral, utilizada para “bombar” argumentos e “vencer” discussões. Da palavra latina factum resultam dois sentidos: o que existe (o facto real, em oposição à ilusão e ao sonho) e o que é fabricado (de onde vem fábrica e factory, o artificial, em oposição à natureza).
O paradoxo do presente está então, em nos afogar com fatos que se por um lado, nos dão uma dimensão do real, por outro, são instantâneos e artificiais. Instantâneos, porque o que se apresenta é a profusão de sucessões. Artificiais, porque são anti-naturais, desligados de uma essência passada e futura. Isso é o que alguns chamam de devir. Seria preciso, para sobreviver a esses tsunamis um tipo de boia? Algo em que se possa agarrar, de preferência, algum tipo de terra firme, mesmo que seja uma miragem?
Reconhecer o presente é aceitar a instantaneidade e a artificialidade do fato. Em outras palavras, é afirmar o acaso. O acaso nos é por isso, impensável; e humilhante. É dessa postura frente ao acaso que deveria surgir nossa felicidade. Mas que fique claro que essa fórmula é diferente da moral/religiosa: “sede primeiro humildes, e vereis em seguida a felicidade”. A fórmula jubilatória é: “sede primeiro feliz, e sereis necessariamente humildes”. Segundo Clement Rosset, “a segunda fórmula é mais segura que a primeira, pois a alegria garante a humildade, enquanto a humildade não garante a alegria.” A mais profunda sabedoria não recomenda ser primeiro humilde, mas feliz: Amor Fati.
Referência
Clément Rosset. A Anti-Natureza. Elementos para uma Filosofia Trágica. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. Tradução Getúlio Puell.Páginas 298-301.

DEK – Baço
Vamos para a letra “B”. Para ver mais verbetes, tente a tag “DEK”. Para ver a anterior, ver Aspirina.
De onde vem o nome do orgão que, ficando a esquerda do abdome, é mais conhecido por contrapor-se ao fígado, este à direita? Dizem os corredores que, no início de um exercício, sentem uma dor no “baço” ao se referirem a uma pontada do lado esquerdo. A pontada não tem nada a ver com o pobre do baço, mas é interessante saber a origem da palavra. Não achei nenhuma definição melhor que a do professor Joffre Resende a quem tive a oportunidade e a honra de conhecer em Goiânia. Aprendi muito, por isso, transcrevo alguns trechos integrais de seu verbete:
“O baço é designado nos diversos idiomas por termos oriundos de mais de uma raiz etimológica. A palavra original grega usada por Hipócrates para nomear o baço é splén, da qual derivam todos os termos médicos relacionados com este órgão, tais como esplênico, esplenite, esplenectomia, esplenomegalia etc.Em latim o baço era designado por lien, conforme se encontra nos livros de Celsus.[1] Skinner observa com muita propriedade que lien é quase a mesma palavra grega, com perda das duas consoantes iniciais.[2]; De lien deriva, em português, o adjetivo lienal, com o mesmo sentido de esplênico. Em alemão o baço é denominado milz e, em italiano, milza. Segundo Guttmann, milz provém do alto-alemão milde que significa mole, macio, esponjoso, atributos característicos do órgão.[3] Em inglês o baço recebe dois nomes: o primeiro, pouco usado, milt (primitivamente milte); o segundo, spleen, de uso generalizado, procede do grego através do francês antigo splen, forma arcaica igualmente encontrada na língua inglesa, até sua ulterior evolução para spleen.[4] Na língua francesa o baço é chamado de rate, que também significa fêmea do rato. Segundo Dauzat, rate, víscera, origina-se do neerlandês râte, favo de mel.[5] Em espanhol e português temos, respectivamente, bazo e baço, de origem controvertida. Três possíveis étimos são admitidos:
1. Corominas ensina que bazo, nome de víscera, provém de bazo, adjetivo, cujo significado é “moreno tirado a amarillo”.[6] Em seu apoio, Carolina de Michaelis identifica baço no Cancioneiro da Ajuda, com o sentido de “moreno escuro”.[7]
2. Gonçalves Viana deriva baço do latim opacium, comparativo de opacum, pela queda da vogal inicial e abrandamento de p em b.[8]
3. José Pedro Machado, citando Piel (Miscelania de etimologia portuguesa e galega), considera baço vocábulo erudito, oriundo do grego hepátion, através do latim.[9] Nascentes, em seu DicionárioEtimológico admitiu que o termo anatômico tenha-se originado do adjetivo baço, “por causa da cor vermelha do órgão”.[7] Posteriormente, julgou preferível considerar o substantivo de origem incerta, enquanto o adjetivo baço seria derivado do latim badium, “moreno pálido”.[10]” (O Dicionário Etimológico Nova Fronteira de António Geraldo da Cunha também atribui baço a hepátion, com o que eu, Karl, não concordo.)
Referências bibliográficas
1. CELSUS, A.C. – De Medicina. The Loeb Classical Library, Cambridge, Harvard University Press, 1971.
2. SKINNER, H.A. – The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1961, p. 381.
3. GUTTMANN, W. – Medizinische Terminologie, 4.ed. Berlin, Urban & Schwarzenberg, 1911.
4. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
5. DAUZAT, A., DUBOIS, J., MITTERRAND, H. – Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 3.ed. Paris, Larousse, 1964.
6. COROMINAS, J. – Breve diccionario etimológico de la lengua castellana, 3.ed., Madrid, Ed. Gredos, 1980.
7. NASCENTES, A. – Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1932.
8.. VIANA, A.R.G. – Apostilas aos dicionários portugueses. Lisboa, Liv. Clássica Ed., 1906, p. 173.
9. MACHADO, J.P. – Dicionário etimológico da língua portuguesa, 3.ed. Lisboa, Livros Horizonte, 1977.
10. NASCENTES, A. – Dicionario etimológico resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.

Sindrome do Coração Partido e as Chagas do Coração
Essa é mais uma daquelas situações improváveis, mas que teimam em existir. Poderia uma emoção muito forte causar uma alteração cardíaca tão grave capaz de levar um indivíduo à morte? Não estou falando de arritmias. Alterações elétricas do coração podem fazê-lo perder seu ritmo regular e, eventualmente, produzir uma situação onde há, de fato, uma parada cardíaca. Arritmias podem ser causadas por uma série de fatores, inclusive traumas, distúrbios eletrolíticos, drogas e também emoções. Mas falo aqui de alterações anatômicas, detectáveis por exames como o ecocardiograma ou ventriculografia realizada no cateterismo. É possível uma forte emoção causar tipo, uma insuficiência cardíaca?
Sim. É possível. E essa situação clínica é chamada de cardiomiopatia de tako-tsubo, mas que também é conhecida como sindrome do balonamento apical transitório, cardiomiopatia de balonamento apical, cardiomiopatia estresse-induzida, sindrome do coração partido, simplesmente cardiomiopatia do estresse. Não sei se tako-tsubo se encaixaria na definição de epônimos porque não é o nome de um médico ou pesquisador. Tako-subo é uma gaiola para captura de polvos no Japão. Devido ao seu formato bojudo, acharam-na semelhante ao formato do coração de quem teve uma forte emoção e ficou seriamente comprometido (ver figura abaixo).

Esquerda. Ventriculografia mostrando grande dilatação anterior do coração. Direita. Vaso tako-tsubo.
Recentemente, um artigo chamou a atenção para o fato de que esses pacientes podem apresentar-se em situação de choque cardiogênico, uma falência tão grande do coração, que a pressão arterial e o fluxo de sangue são insuficientes para manter os orgãos funcionando adequadamente. É grave e tem que internar em UTI. No artigo, os autores mostram diferenças clínicas, laboratoriais e ecocardiográficas nesses pacientes. Ao ler o artigo, tive uma ideia brilhante!!
Não pude deixar de lembrar das minhas aulas de patologia onde vi vários corações acometidos com a brasileiríssima Doença de Chagas.

Muitos desses corações apresentam o que os patologistas chamam de “aneurisma de ponta” (ver figura ao lado do excelente artigo do Eduardo Nogueira da UNICAMP). Esse aneurisma da ponta do ventrículo esquerdo é muito semelhante à dilatação produzida pela cardiomiopatia de tako-tsubo.
Segundo o saudoso professor Köberle da USP de Ribeirão Preto, a explicação para o aneurisma da ponta nos chagásicos é um desbalanço entre os sistemas nervosos autonômicos simpático e parassimpático. As terminações parassimpáticas desaparecem do tecido miocárdico e há uma hiperatividade simpática, “suficiente o bastante para causar lesões miocárdicas”. Köberle conseguiu reproduzir o mesmo tipo de lesão em ratos injetando adrenalina, o hormônio do sistema simpático.
Minha ideia brilhante foi imaginar que a explicação para a cardiomiopatia de tako-tsubo fosse a mesma! Fortes emoções causam uma sobrecarga de estímulos simpáticos no coração e podem – por que, não? – causar uma alteração anatômica semelhante ao aneurisma de ponta da cardiomiopatia chagásica. Fiquei muito feliz com a minha “inteligência” e pensei em mandar um artigo para uma revista internacional.
Mas, como acontece com a quase totalidade das minhas ideias brilhantes, alguém, em geral, um norte-americano, já a concebeu antes de mim. E para evitar que os leitores desse blog postem a referência antes, aqui está ela e abaixo. Não ganharei medaglia porque não mereço. Ia escrever um paper. Escrevi um post. Meno male.
Figuras. Ventriculografia: Nature Medicine; Vaso: Canadian Journal General Internal Medicine.
Wittstein IS, Thiemann DR, Lima JA, Baughman KL, Schulman SP, Gerstenblith G, Wu KC, Rade JJ, Bivalacqua TJ, & Champion HC (2005). Neurohumoral features of myocardial stunning due to sudden emotional stress. The New England journal of medicine, 352 (6), 539-48 PMID: 15703419

Ateus e Afins
Algumas definições: Se você acredita que a existência de Deus pode ser provada então você é um gnóstico. Se acha que não, então é um agnóstico. Podemos chamar de teísta o que tem fé na existência divina. Ateu, seria o que não tem. Quem é não-religioso é laico. Quem é religioso é… religioso mesmo. Ateísmo não é uma crença. É ausência de crença e isso faz muita diferença: ausência de crença em Deus é bem diferente da crença que não há nenhum Deus. Pode-se chamar de “anti-teísmo” (ou “não-teísmo”, que apesar de logicamente correto, eu particularmente acho estilisticamente inadequado) a “crença” e/ou procedimentos racionais que geram argumentos a favor da não-existência de Deus. Há quem não concorde com essas definições. Aguardo os protestos.
Mas, um jeito interessante de saber a diferença entre o que chamei de ateísmo e anti-teísmo é dizer ao suposto ateu “eu não acredito que você não acredita!” Sim, porque se ele for anti-teísta vai entrar no processo de explicação de sua não-crença, o que, além de ser muito chato, é inócuo ao interlocutor teísta. Surge a discussão-sem-fim, o sexo dos anjos e tudo aquilo que quem é ateu já viu (e participou) pelo menos alguma vez na vida. Se ele for ateu e a declaração do interlocutor for, de fato, sincera, terá que se acostumar a conviver com a dúvida de outrem. A resposta seria um “então, tá…” o que encerraria a discussão ou então começaria outra, no campo do respeito pessoal. No caso de tratar-se de uma pessoa com a qual se convive (ou até se gosta), acostumar-se com a desconfiança do outro pode se constituir num problema não desprezível. Seria algo que a outra pessoa não reconhece em você, ou não aceita.
Para alguns, a convivência com essa dúvida é realmente muito desconfortável. Daí, a meu ver, surgir o anti-teísmo engajado a la Dawkins de modo que a atitude pró-ativa em combater o teísmo e seus efeitos colaterais se converta na certeza de um ateísmo interno castiço e iluminado. Combater é um jeito de personificar o “inimigo” e, por oposição, se diferenciar dele.
Por outro lado, a inquietação de não conseguir demonstrar o que se passa no interior da “pessoa-do-seu-ser” dado que é bastante difícil falar de algo que não se tem, torna o ateu, um solitário par excellence. Isso nos remete ao problema do Bem já discutido em outro post. Será que o ateu mais profundo é o mais solitário? Lembremos que TODOS os cultos religiosos envolvem cerimônias em grupo e manifestações de fé compartilhadas.
A fórmula “não-acredito-que-não-acreditas” obriga o ateu a raciocinar se o que ele tem é uma Não-Fé ou uma Fé-No-Não. Em declarando-se ateu, onde você se posicionaria?
Foto daqui.

Termina a Campanha de Vacinação contra Gripe A H1N1

Em meio a centenas de protestos ao redor do mundo, terminou ontem, no Brasil, a campanha de vacinação contra a gripe A H1N1. Já foram registradas 70,5 milhões de doses aplicadas, na maior campanha de imunização realizada no país, superando a campanha de vacinação contra rubéola, que imunizou 67 milhões de pessoas em 2008. “No mundo, o Brasil é o país que, proporcionalmente, mais vacinou a sua população. Isso demonstra o grande trabalho desenvolvido pelos profissionais de saúde vacinadores e a confiança da população no programa de imunizações”, afirmou o ministro José Gomes Temporão.
Em 2010, já foram registradas 540 internações e 64 mortes em decorrência da gripe H1N1, até 8 de maio. Desse total, 18% dos casos graves e 30% dos óbitos foram em gestantes. Por isso, o Ministério da Saúde reforça a importância de todas as grávidas, em qualquer período da gestação, procurarem um posto para tomar a dose da vacina. Dados do ministério dão conta de que no ano passado, foram registrados 2.051 óbitos em decorrência da gripe A H1N1. Desse total, 1.539 (75%) ocorreram em pessoas com doenças crônicas e 189 entre gestantes. Adultos de 20 a 29 anos concentraram 20% dos óbitos (416, no total) e os de 30 a 39 concentraram 22% das mortes (454, no total).
Aqui um resumo do New England de 6 de Maio de 2010 fazendo um balanço geral. Tem medaglia, vale a pena.
Médicos e a BigPharma
A manchete na edição de hoje da Folha de São Paulo (aqui para assinantes) não deixa margem a dúvidas: “Quase metade dos médicos receita o que a indústria quer”. Tirando o fato que a pesquisa foi encomendada pelo Cremesp ao Datafolha e que a Folha conseguiu os dados com “exclusividade” (só faltava essa, né Claudinha!), não vejo porque isso deveria ser a manchete de um jornalão.
Em primeiro lugar, porque é um assunto antigo. Em 2007, o New England publicou extenso artigo abordando o problema. Lá, nos States, 94% dos médicos recebem algum tipo de incentivo dos laboratórios farmacêuticos, número muito semelhante ao nosso. O assunto foi discutido no Brasil, em especial devido ao lançamento do blockbuster “A Verdade Sobre os Laboratórios Farmacêuticos” de Marcia Angell, ex-editora do New England Journal of Medicine, no mesmo ano e que aliás, está na 3a edição. Isso culminou com a modificação do Código de Ética Médica, em vigor desde 13 de Abril de 2010, com citações explícitas sobre as relações dos médicos com a indústria farmacêutica em seus artigos 68,69,104 e 109. Segundo, porque é preciso analisar com cuidado as relações dos médicos com os grandes conglomerados farmacêuticos – o que se convencionou chamar de Big Pharma. A reportagem entrevista o presidente do Cremesp, prof. Luiz Bacheschi e Bráulio Luna Filho, cardiologista e coordenador da pesquisa. Ouve a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) e a Alanac (Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais). A íntegra da pesquisa pode ser baixada aqui.
O marketing da Big Pharma é um marketing estranho. O público-alvo das campanhas não é o consumidor final, mas sim, um agente (médico) que veicula o produto (medicamento, prótese, procedimento, etc) ao consumidor final (paciente). Essa triangulação não é vista em outras áreas onde um produto precisa ser inserido no mercado. O assédio não vem só desse front. Os médicos empregados em grandes
conglomerados assistenciais (“convênios”) sofrem um tipo de pressão “ao
contrário” desse descrito: aversão total ao novo e, em geral, caro, o
que inibe novas terapias e potenciais benefícios reais que possam vir a apresentar. Qualquer que seja a forma de assédio – e creiam-me os leitores desse blog, elas são inúmeras e a cada dia são criadas novas – qual seria o escudo protetor do médico? Não há outra forma de proteger-se a não ser pelo espírito crítico desenvolvido pelo médico frente aos novos dados e estudos publicados.
Temos aqui um caso em que a Ética é reforçada pela visão crítica do conhecimento produzido. Isso seria inimaginável na época de Aristóteles: como um saber epistêmico influenciaria um procedimento fronético? Daí, a especificidade da filosofia da medicina, mas isso é outra história…
O que eu sinceramente, gostaria de saber é como incutir essa independência de pensamento e crítica com 31 cursos de medicina, só em São Paulo. Chego a pensar que isso sim, foi uma grande jogada de marketing…
Foto:Daqui










