Fenomenologia da Eleg√Ęncia II

escher

M√£o com Esfera Espelhada – M. S. Escher 1935

Recomenda-se ler antes esta introdução.

Dorothy Walsh [1] defende que existem, ao menos, dois tipos distintos de¬†eleg√Ęncia: uma eleg√Ęncia que pode ser chamada de¬†comum, aquela dos objetos perceptuais, das vestimentas e do¬†design, dos modos e das coisas do cotidiano; e uma outra eleg√Ęncia dita¬†intelectual,¬†que deve ser apreendida por meio de um¬†insight¬†intelectual, seria aquela das teorias e hip√≥teses cient√≠ficas, dos objetos matem√°ticos e outros entes virtuais. Ambas t√™m ainda em comum o fato de coabitarem o mesmo¬†campo sem√Ęntico da¬†simplicidade¬†e da¬†parcim√īnia.

As rela√ß√Ķes entre simplicidade, parcim√īnia e as “eleg√Ęncias” talvez sejam mais claras no √Ęmbito da filosofia da ci√™ncia [2]. S√£o relativamente comuns textos onde a simplicidade, como um atributo de teorias, √© apresentada como tendo duas no√ß√Ķes principais: simplicidade¬†sint√°tica¬†(relativa ao n√ļmero e a complexidade das hip√≥teses); e a simplicidade¬†ontol√≥gica¬†(relativa ao n√ļmero e a complexidade das coisas postuladas). Esta √ļltima √© chamada de¬†parcim√īnia. A primeira, de¬†eleg√Ęncia;¬†intelectual, por suposto. Walsh argumenta que o princ√≠pio te√≥rico da navalha de Ockham seria uma ferramenta da eleg√Ęncia intelectual e que ela pode sim ter valor epistemol√≥gico como muitos autores j√° v√™m sugerindo.

Mas o que as “eleg√Ęncias” t√™m em comum? Ser√° poss√≠vel encontrar um denominador ou mesmo ess√™ncia comuns que as possa reunir? Antes at√©, ser√° que √© poss√≠vel perguntar por isso? Parece pairar sobre as duas ¬†“eleg√Ęncias” uma certa aura de¬†virtude. Em outras palavras, do ponto de vista axiol√≥gico, n√£o seriam elas ju√≠zos valorativos positivos emitidos sobre algo ou algu√©m? Ambas n√£o seriam experi√™ncias¬†est√©ticas? N√£o¬†poderiam tamb√©m portar certa conota√ß√£o¬†moral, no sentido de representarem, por exemplo, o Bem e o Belo, no sentido grego arcaico desses conceitos? Perceber o elegante parece ser algo “positivo”, parece “fazer bem”, agradar aos “olhos e ao cora√ß√£o”. De quem? De quem percebe, oras. At√© mesmo de quem se percebe como elegante tamb√©m. Talvez o segredo esteja ent√£o, n√£o em estudar os tipos de eleg√Ęncia, mas os tipos de observadores com olhos para ela.¬†Se o que supomos est√° correto, ou seja, que a eleg√Ęncia n√£o est√° na “coisa” elegante, mas nos “olhos” ou no “intelecto” de quem a observa, √© porque ela se manifesta de algum modo a esse observador e h√° pelo menos duas maneiras de estudar tais “manifesta√ß√Ķes”, que passo agora a chamar de fen√īmenos.

Aqui vamos fazer um grande par√™nteses e por isso, pe√ßo a paci√™ncia do leitor. A primeira dessas formas de estudo pode ser exemplificada pelo excerto abaixo retirado do ensaio “O escopo e a linguagem da ci√™ncia” de Willard Van Orman Quine¬†(1908 – 2000).

Eu sou um objeto f√≠sico situado em um mundo f√≠sico. Algumas das for√ßas desse mundo f√≠sico colidem contra minha superf√≠cie. Raios de luz atingem minhas retinas; mol√©culas bombardeiam meus t√≠mpanos e as pontas de meus dedos. Eu revido, emanando ondas conc√™ntricas de ar. Essas ondas tomam a forma de uma torrente de discurso sobre mesas, pessoas, mol√©culas, raios de luz, retinas, ondas de ar, n√ļmeros prim√°rios, classes infinitas, alegria e sofrimento, bem e mal.[3]

Quine foi um dos mais importantes fil√≥sofos norte-americanos do s√©culo XX. Teve alunos famosos como Hillary Putnam, Donald Davidson, Daniel Dennett, Thomas Nagel, entre outros. Suas ideias sobre epistemologia – grosso modo, a teoria do conhecimento -, seguem uma escola de pensamento que pode ser chamada de “naturalista”. Uma das coisas que o naturalismo prop√Ķe √© a ideia de que conhecemos o mundo por meio do impacto de v√°rias formas de energia em nosso sistema sensorial, como fica claro no fragmento acima. Por√©m, Quine se pergunta, como partimos dos est√≠mulos sensoriais e chegamos ao monumento intelectual que √© a ci√™ncia? Quine acha que nosso conhecimento √©, ao menos na sua maior parte, incorporado pela linguagem. A linguagem por sua vez, veicula o conhecimento de forma bastante indireta, mas se analisarmos com cuidado, poderemos tra√ßar uma liga√ß√£o entre os est√≠mulos sensoriais e a produ√ß√£o de certezas por meio de construtos lingu√≠sticos progressivamente mais elaborados. Falar/escrever sobre as coisas que sentimos elabora o conhecimento do mundo. Al√©m disso,¬†Quine leva bastante a s√©rio a ideia de que ‚Äú√© na ci√™ncia, e n√£o em alguma filosofia precedente, que a realidade deve ser identificada e descrita‚ÄĚ [4]. Nossa melhor teoria em um dado momento nos diz tudo o que podemos saber sobre a realidade daquele dado momento. E isso basta.

Uma abordagem bastante diversa de analisar os fen√īmenos que se nos apresentam √© exemplificada pelo excerto abaixo retirado de um texto de Edmund Husserl¬†(1859-1938)[5]:

Sou consciente de um mundo infinitamente estendido no espa√ßo, infinitamente se transformando e tendo infinitamente se transformado no tempo. Eu sou consciente dele: isso significa, sobretudo, que intuitivamente eu o encontro imediatamente, que eu o experiencio. Pela minha vis√£o, tato, audi√ß√£o e assim por diante, e nos diferentes modos de percep√ß√£o sens√≠vel, coisas f√≠sicas corp√≥reas com uma distribui√ß√£o espacial ou outra est√£o simplesmente a√≠ para mim, “a m√£o” no sentido literal ou figurativo, esteja eu ou n√£o particularmente atento a elas e ocupado com elas em meu considerar, pensar, sentir, ou querer. Entes animados tamb√©m – entes humanos, vamos dizer – est√£o imediatamente a√≠ para mim: eu olho; eu os vejo; eu os ou√ßo se aproximarem; eu aperto suas m√£os; falando com eles eu entendo imediatamente o que pretendem dizer e pensam, que sentimentos os movem, o que eles desejam ou querem.

Husserl √© um dos fil√≥sofos mais importantes do s√©culo XX. √Č considerado o fundador da escola de pensamento filos√≥fico chamada de Fenomenologia e seus estudos se desdobram em v√°rios de seus alunos e seguidores como Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Jean-Paul Sartre e Paul Ricoeur. A diferen√ßa mais importante entre os dois fragmentos √© que, enquanto para Quine a percep√ß√£o √© algo totalmente passivo – ele √© “bombardeado” pelo mundo que o cerca e reage a isso -, para Husserl, n√£o. As coisas e pessoas, entes em geral do mundo, est√£o a√≠ para ele. O que isso quer dizer? Quer dizer primeiro que, para Husserl, h√° um mundo inesgot√°vel de coisas dado cuja varia√ß√£o temporal gera uma facticidade (produz um filme ou conta uma est√≥ria) que √© percebida por n√≥s e, segundo, h√° uma inten√ß√£o¬†da consci√™ncia¬†(posso prestar aten√ß√£o ou n√£o no filme ou est√≥ria) em conhecer esta ou aquela coisa desse mundo. Sem essa inten√ß√£o origin√°ria n√£o h√° como iniciar o processo do conhecimento. Se n√£o temos acesso √†s coisas-em-si do mundo, temos, ao menos, acesso direto aos fen√īmenos manifestos por elas na nossa consci√™ncia.

Se Quine lan√ßa m√£o de um recurso altamente complexo e intelectualizado (linguagem) para compor sua teoria do conhecimento poss√≠vel a partir das sensa√ß√Ķes recebidas do mundo externo, Husserl se apega √†s sensa√ß√Ķes elas mesmas. N√£o sob o ponto de vista neurofisiol√≥gico, mas √†s sensa√ß√Ķes tal como elas se apresentam √† nossa consci√™ncia, cruas e nuas, o que Husserl chama de realidade imanente. Para ele, “toda consci√™ncia √© consci√™ncia de alguma coisa”! O que ele mesmo desdobra nas f√≥rmulas “toda percep√ß√£o √© percep√ß√£o do percebido”, “todo desejo √© desejo do desejado”, etc. N√£o h√° percep√ß√£o nem desejo e, portanto, nem consci√™ncia, vazios. Em outras palavras, a partir do momento que a inten√ß√£o se abre ao “querer”, se cria um espa√ßo para que o “querido” apare√ßa. A velha constitui√ß√£o fundacional do conhecimento na rela√ß√£o do sujeito com seu objeto, na fenomenologia, √© posta entre par√™nteses. Suspensa, como todas as teorias que a estruturam, e que Husserl chama de hipostasias, na “atitude natural” que a ci√™ncia deve pressupor antes de descrever o mundo. Tanto o conhecedor quanto a coisa conhecida s√£o elementos da e na experi√™ncia. Sem o ato¬†(intencional) de atribuir significados √† experi√™ncia, n√£o h√° sujeito nem objeto, o que a teoria quineana/naturalista deve pressupor.

Por isso, parece que estudar a eleg√Ęncia sob um ponto de vista fenomenol√≥gico se justificaria por meio de tais argumentos. De fato, com isso j√° conseguimos de antem√£o escapar da divis√£o – agora √© mais f√°cil diz√™-lo – artificial entre eleg√Ęncia intelectual e perceptual, pois ambas s√£o fen√īmenos de uma mesma natureza e nos afetam de modo id√™ntico. Parece ficar evidente tamb√©m que essa divis√£o est√° ainda presa ao c√Ęnone tradicional da divis√£o entre “corpo e mente”, justamente aquele que n√£o d√° conta de explicar o que queremos entender. Se considerarmos ainda que o mundo f√°ctico da vida √© a “casa” onde mora o que √© elegante, seja ele um terno, um vestido ou uma teoria cient√≠fica, e que est√£o-a√≠, “a m√£o”, talvez a fenomenologia nos ajude a entender como ao “intencionarmos” a eleg√Ęncia, criamos imediatamente um espa√ßo para que o “elegante” se nos apare√ßa.

 

1. Walsh, D. Occam’s Razor: A principle of intellectual elegance. American Philosophical Quarterly. V 16 N 3 Jul 1979.

2. Baker A. Quantitative parsimony and explanatory power. The British Journal for the Philosophy of Science. Br Soc Philosophy Sci; 2003;54(2):245‚Äď59. (pdf)

3. Quine, W.V. The Ways of Paradox and Other Essays. Cambridge, MA: Harvard University Press. Citado por Cerbone, D. R. Fenomenologia. Trad Caesar Souza. Petrópolis, RJ. Vozes (Série Pensamento Moderno) pág 21.

4. Hylton, P., “Willard van Orman Quine”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.) [link]

5. Husserl, E. Ideias I: § 27. Citado por Cerbone, D. R. Fenomenologia. Trad Caesar Souza. Petrópolis, RJ. Vozes (Série Pensamento Moderno) pág 23.

Fenomenologia da Eleg√Ęncia

andrea-laliberte-femme-elegante-iiiPor que n√£o costumamos dizer que cachoeiras ou praias s√£o elegantes? Quem pode ter o atributo da eleg√Ęncia? Seria a eleg√Ęncia um modo-de-ser exclusivo das coisas do humano? Um terno ou um vestido n√£o s√£o elegantes em si. Tornam-se (ou n√£o) quanto vestem algu√©m. J√° um m√≥vel pode ser elegante mesmo que n√£o haja ningu√©m por perto. Uma floresta n√£o √© elegante. Um jardim pode ser. Mas por qu√™? Qual caracter√≠stica (humana?) singulariza a n√≥s e nossas coisas como candidatos √† eleg√Ęncia?

E por fim, mas n√£o menos importante: o que √© eleg√Ęncia e qual a import√Ęncia em ser elegante? √Č poss√≠vel uma atividade humana, por exemplo, a ci√™ncia ou a medicina, ser desempenhada de forma elegante? Se sim, como isso se d√°? Um artigo recente em uma importante revista de nefrologia (ver abaixo) ressalta a import√Ęncia de uma ci√™ncia elegante. Basicamente, os autores defendem a ideia de que a eleg√Ęncia teria um valor epistemol√≥gico em si dado que pode emergir na forma de s√≠ntese (organiza√ß√£o de dados de uma forma diferente que permita ver algo novo, como no exemplo da descoberta da vacina da var√≠ola por Jenner); na forma de uma combina√ß√£o entre simplicidade e equil√≠brio (como na hip√≥tese do trade-off¬†de¬†Bricker & Slatopolsky¬†para o equ√≠librio entre c√°lcio e f√≥sforo nos mam√≠feros); ou, finalmente, na forma de simplicidade e linearidade (como na hip√≥tese dos supern√©frons de Barry Brenner). Seria um tipo de Navalha de Ockham est√©tica e parcimoniosa. Em algumas √°reas da matem√°tica, isso parece mesmo ser o m√©todo. A conclus√£o do artigo, que reproduzo agora em tradu√ß√£o livre do ingl√™s, me parece reveladora.

Um estudo sistem√°tico da eleg√Ęncia requer uma abordagem interdisciplinar que envolva a pesquisa biom√©dica contempor√Ęnea, uma perspectiva hist√≥rica e uma compreens√£o filos√≥fica das bases da ci√™ncia. Como na famosa frase de Kuhn: “√© especialmente em per√≠odos de reconhecida crise¬†que os cientistas voltam-se √†s an√°lises filos√≥ficas como dispositivo para decifrar os enigmas de suas atividades”. N√≥s acreditamos que a hist√≥ria e a filosofia t√™m um papel na pr√°tica cientifica cotidiana, n√£o apenas nos momentos de crise. A perspectiva hist√≥rica e a reflex√£o filos√≥fica n√£o s√£o elementos tangenciais mas componentes fundamentais da pesquisa cient√≠fica. Em especial, elas nos permitem desenvolver caracter√≠sticas da ci√™ncia que a tornam elegante e melhor compreender porque uma mente elegante √© um propulsor do progresso cient√≠fico.

Se essa f√≥rmula √© v√°lida ou n√£o, podemos tentar discutir mais adiante. A eleg√Ęncia contudo nos afeta cotidianamente e provoca em n√≥s um vislumbre do sublime. Antes de saber o que seria uma “medicina elegante” por exemplo, √© preciso entender como algo elegante, pessoa, objeto ou a√ß√£o, se apresenta a n√≥s. Como se destacaria tal eleg√Ęncia no mundo que me cerca visto que a discri√ß√£o, e n√£o a ostenta√ß√£o, e a parcim√īnia, e n√£o o excesso, s√£o caracter√≠sticas do que √© elegante? Que impress√£o causa em mim tal fen√īmeno √© um trabalho que pode ser abordado de m√ļltiplas formas. Tentarei, com todos os riscos inerentes a um amador (no sentido forte do termo) no assunto, a via fenomenol√≥gica. O tema me √© caro e mereceria uma abordagem menos diletante dado que pode constituir a “via est√©tica” como uma alternativa concreta como perceberam os colegas do artigo abaixo. Mas considerem como um exerc√≠cio. (Se eu errar, corrijam, por favor!).

Ver Fenomenologia da Eleg√Ęncia II e III.

ResearchBlogging.org

Nathan MJ, & Brancaccio D (2013). The importance of being elegant: a discussion of elegance in nephrology and biomedical science. Nephrology, dialysis, transplantation : official publication of the European Dialysis and Transplant Association – European Renal Association PMID: 23378419

O Filme

filme2Vou dar só um exemplo, macaco pelado. Só um. Então, agarre-o com as suas mãozinhas glabras e suadas de desespero, com toda a força que puder. Veja só.

Pegue uma boa c√Ęmera de filmar. Pode ser celular com c√Ęmera tamb√©m, √≥bvio. Mas bom. Nossa, como voc√™ se prende a detalhes irrelevantes, n√£o? Depois de pegar a c√Ęmera, des√ßa pelo elevador e ganhe as ruas. Nas ruas mora o monstro do cotidiano. Mora a vida comum. Nas ruas h√° vitrines e galerias e √© onde est√° o mundo da vida. Escolha um lugar movimentado qualquer. Ligue a c√Ęmera e comece a filmar o que voc√™ v√™ ao seu redor. Filme tudo; v√° filmando. Filme os carros, os pr√©dios, as pessoas. Filme-as conversando, paradas ou simplesmente andando. Filme ABSOLUTAMENTE tudo. At√© acabar a bateria.

Macaco pelado, você sabe manipular esses aparelhos, não? Sabe sim. Só não sabe muito bem o que fazer com eles, mas vou lhe dizer. Chegue em casa e passe o que você filmou para o computador. Assista. Passe horas, dias, assistindo até quando não aguentar mais ver o filme e me responda com toda a sinceridade Рsinceridade com a qual você normalmente não está acostumado a lidar Рme responda, macaquinho pelado Рà pergunta que farei e que sei, sim, que é a pergunta que você mais teme que eu faça. Na verdade, é a pergunta que você luta para não se fazer!

Pobre macaco pelado… N√£o vou poup√°-lo porque voc√™ tem andado meio arrogante nos √ļltimos tempos, viu? √Č isso mesmo. Ent√£o l√° vai. Depois de ter filmado tudo o que podia l√° fora – no mundo da vida – depois de ter visto esse filme v√°rias e v√°rias vezes, me diga macaco pelado, qual √© o sentido desse filme que voc√™ acabou de fazer e que viu tantas vezes? Qual √©, diz? NENHUM?! Como assim? Mas voc√™ filmou o mundo REAL, coisas REAIS, pessoas REAIS, com uma c√Ęmera boa, n√£o foi? O que foi que voc√™ captou, ent√£o? N√£o foi a REALIDADE? Por que isso tudo n√£o faz sentido, macaco? Ser√° que a realidade n√£o faz sentido?

Nenhum sentido. A ¬†r e a l i d a d e ¬†n √£ o ¬†f a z ¬†n e n h u m ¬†s e n t i d o. Descrever a realidade o mais fielmente poss√≠vel N√ÉO GARANTE que haja sentido! Explicar √© diferente de compreender. Por melhor que seja a c√Ęmera, por mais tempo que se filme, por mais longe que se v√°, ainda assim, nada far√° sentido.

Essa √© a sua Ci√™ncia, macaco pelado. Uma c√Ęmera. Cuidado com os filmes que voc√™ faz e principalmente com os que voc√™ v√™. Agora, quer saber um jeito de como dar algum sentido para as coisas que voc√™ filma? Quer sim, eu sei. √Č f√°cil. Da pr√≥xima vez, conte uma hist√≥ria. N√£o precisa nem de c√Ęmera. Esse √© o exemplo. Sacou?

Kehl, Freud e o Processo da Verdade

Craig Kiefer no Street Anatomy - clique para ver os créditos

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A verdade social não é ponto de chegada, é processo

Maria Rita Kehl

Maria Rita Kehl √© dessas mulheres fascinantes. Sou seu f√£ desde h√° muito e adoro ouvi-la falar de qualquer assunto. Tamb√©m adoro l√™-la. N√£o foi √† toa que li com carinho seu artigo na Folha de SP no √ļltimo domingo – 24 de Mar√ßo de 2013 – data emblem√°tica desde que a ONU a escolheu como o Dia Internacional do Direito √† Verdade. Para “rememor√°-lo”, como membro integrante da Comiss√£o Nacional da Verdade, Maria Rita escreveu, sobre Psican√°lise e Estados Totalit√°rios, um artigo com o t√≠tulo sugestivo de “A verdade e o recalque“.

No artigo, Maria Rita associa o conceito freudiano de “recalque” – interdi√ß√£o de fragmentos de lembran√ßas e/ou fantasias sexuais, por exemplo – √† repeti√ß√£o de sintomas neur√≥ticos que, como uma v√°lvula de escape, permitem dar vaz√£o ao que foi aprisionado √† for√ßa, no inconsciente. Freud prop√Ķe a quebra desse bin√īmio esquecimento/sintoma ps√≠quico pela elabora√ß√£o do trauma. At√© aqui, esse seria, talvez, o pensamento padr√£o de um psicanalista.

O problema, na minha humilde opini√£o, est√° na seguinte frase: “Se o sintoma neur√≥tico √© a verdade recalcada que retorna como uma esp√©cie de charada que o sujeito n√£o decifra, o mesmo vale para os sintoma sociais”. Bom – pensei -, ao juntar psican√°lise e sintomas sociais vamos acabar na Frankfurt do p√≥s-guerra e sua mistura “explosiva” de Freud com¬†Marx de seu Instituto para Pesquisa Social. Depois de uma aproxima√ß√£o pac√≠fica, j√° em “Eros e Civiliza√ß√£o” (1955), Marcuse articula uma cr√≠tica ao conceito freudiano de uma repress√£o org√Ęnica e biol√≥gica com a qual ter√≠amos que conviver. No lugar desse “biologismo” freudiano, ele afirma com Marx, que ‚Äúa submiss√£o efetiva das puls√Ķes atrav√©s de regras repressivas n√£o √© imposta pela natureza, mas pelo homem”[1]. No texto, Maria Rita chega a afirmar que “Freud poderia ter lido Marx a respeito das repeti√ß√Ķes farsescas dos cap√≠tulos mal resolvidos da hist√≥ria”. Se Freud leu Marx eu n√£o sei, mas n’ “O Futuro de Uma Ilus√£o” chega a esbo√ßar uma luta de classes (em livre tradu√ß√£o do espanhol de [2]):

Mas quando uma cultura n√£o superou a situa√ß√£o na qual a satisfa√ß√£o de um n√ļmero de seus membros tem como pressuposto a opress√£o de outros, qui√ß√° de uma maioria – e este √© o caso de todas as culturas atuais -, se compreende que os oprimidos desenvolvam uma intensa hostilidade contra essa cultura que tornam poss√≠vel com seu trabalho, mas de cujos bens t√™m escassa participa√ß√£o.

Horkheimer e Adorno, a partir de sua volta a Frankfurt depois de ex√≠lio for√ßado nos EUA, Marcuse, que ficou por l√°, e em especial, Habermas alguns anos depois, reformulam suas interpreta√ß√Ķes¬†p√ļblicas das teorias freudianas[2], mas mesmo as cr√≠ticas da Escola de Frankfurt se tornaram obsoletas quando se viram obrigadas a lidar com a dissolu√ß√£o dos conceitos de totalidade postulados por Marx e Hegel. O pr√≥prio Habermas constatou que sua “‘teoria da hist√≥ria da esp√©cie’, elaborada no texto Para a reconstru√ß√£o do materialismo hist√≥rico (1976), tamb√©m continuava presa, a exemplo da teoria marxiana, a categorias da filosofia do sujeito e da reflex√£o, porquanto entendia que os processos de aprendizagem da hist√≥ria mundial se concretizariam em classes sociais e povos, isto √©, sujeitos superdimensionados“.[3] (grifos meus). Da√≠ em diante, vem o “Giro Lingu√≠stico” e todos os seus desdobramentos, em especial, no que se refere a dissolu√ß√£o do paradigma do sujeito.

Acho problem√°tico¬†que a teoria freudiana do recalque, t√£o criticada, seja aplicada a um contexto sociol√≥gico atual com intuito de estabelecer uma explica√ß√£o da doen√ßa social causada pela interdi√ß√£o da verdade; em que pese a nobreza da causa. N√£o sei bem porque Maria Rita escolheu esse caminho. Poderia ter usado algo da Teoria Cr√≠tica ou mesmo de¬†Hannah Arendt, sei l√°. Talvez por objetivos did√°ticos, j√° que Freud “pega na veia” e esses autores n√£o s√£o popstars como Freud e ela quisesse causar impacto. Ou talvez por familiaridade com o tema; fico pensando se o n√£o dito, ou no caso, o n√£o citado, tamb√©m n√£o falaria por si. Tamb√©m acredito que para dizer, como ela disse lindamente no artigo, que “√© preciso construir uma narrativa forte e bem fundamentada, capaz de transformar os restos traum√°ticos da viv√™ncia do per√≠odo ditatorial em experi√™ncia coletiva” pudesse prescindir de Freud. Esse “coletiva” a que ela se refere parece n√£o estar ainda na obra do m√©dico vienense. Essa liga√ß√£o entre os desejos individual e o coletivo na constru√ß√£o da sociedade moderna talvez s√≥ viesse anos depois com a Teoria Cr√≠tica. J√° a bel√≠ssima frase que epigrafa o post demanda algo mais. A verdade como processo √© aquisi√ß√£o kafkiana recente da sociedade. Livre.

Por isso, Maria Rita é essencial.

 

 ~ o ~

 

PS. Sensacional, diga-se de passagem, o elegante cruzado de direita que ela d√° em Contardo Calligaris pelo famigerado artigo sobre tortura.

 

[1] Souza, MA. Eros e Logos: Marcuse, crítico de Freud. Filosofonet. Publicado em 11/11/2007.

[2] McCarthy, T. La Teor√≠a Cr√≠tica de J√ľrgen Habermas. 4a ed. Tecnos. 1998. pp 230-51.

[3] Siebeneichler, FB. Apresenta√ß√£o √† edi√ß√£o brasileira da “Teoria do Agir Comunicativo” de J√ľrgen Habermas. Martins Fontes. 2012. pp XVIII- XIX.

Perguntinha Extempor√Ęnea

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Qual é o oposto de tempo? O que é ou qual é o outro do Tempo; o seu não-ser?

Antropofagia

1¬į Ato

E se um dia, ou uma noite, um dem√īnio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solid√£o e dissesse: “Este corpo, como voc√™ v√™ e toca, jamais ver√° e tocar√° de novo.” Se ele dissesse que seus olhos ser√£o feitos de tal modo que nenhuma parte do seu corpo se expor√° ao seu olhar e que um dispositivo maligno, deixando-o livre para alcan√ßar todas as coisas, o impedir√° de tocar sua pr√≥pria carne. Que a partir desse fat√≠dico momento, voc√™ ser√° como uma part√≠cula de poeira dotada apenas de consci√™ncia, sem a viv√™ncia de seu pr√≥prio corpo.

 

2¬į Ato

“A universidade aos poucos sucumbe aos efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita “ideias modernas”. Os processos de democratiza√ß√£o do saber, como suspeitava nosso fil√≥sofo, s√£o processos de produ√ß√£o de nulidades em grandes quantidades.(…) A universidade est√° morta e s√≥ n√£o sente o cheiro do cad√°ver quem tem voca√ß√£o para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre n√≥s, acad√™micos, nos colocaria com cara de ratos.” (LF Pond√© na FSP).

 

3¬į Ato

“Ai – dizia o rato – o mundo se torna cada dia mais pequeno. Primeiro era t√£o amplo que eu tinha medo, seguia adiante e sentia-me feliz ao ver √† dist√Ęncia, √† direita e √† esquerda, alguns muros, mas esses longos muros se precipitam t√£o velozmente uns sobre os outros que j√° estou no √ļltimo quarto e, ali no canto, est√° a armadilha para a qual vou. – Apenas tens de mudar a dire√ß√£o de tua marcha, disse o gato, e comeu-o.” (Franz Kafka – apud¬†Jac√≥ Guinsburg).

 

4¬į Ato

“A aus√™ncia de corpo n√£o √© tua alma, Rato. O melhor √© comer-te a ti mesmo se o queres desprezar.” E assim, se fez…

Gran Finale

HdH Prado JrAgradecimento especial ao Dr. Hermes Prado Jr que gentilmente cedeu a figura que inspirou o texto.

 

Ricoeur, Met√°foras, Narrativas e a Medicina

Tempo NarrativaConhe√ßo muita gente boa – boa mesmo – que n√£o gosta de ler fic√ß√£o. Mais especificamente, romances ou hist√≥rias contadas, ou mesmo narrativas. Uma vez, escrevi que os romances s√£o como ensaios cl√≠nicos randomizados duplo-cegos, placebo controlados do mundo da vida¬†e continuo concordando com isso. Mas, confesso, ainda me faltava um certo embasamento te√≥rico para sustentar isso. Paul Ricoeur talvez tenha resolvido o problema. Ele teve reeditada no Brasil sua obra m√°xima “Tempo e Narrativa” pela editora Martins Fontes. Segundo o que o pr√≥prio autor exp√Ķe na introdu√ß√£o ao livro, Tempo e Narrativa √© uma obra g√™mea de A Met√°fora Viva. Este livro pode ser considerado uma consequ√™ncia da¬†“experi√™ncia de Ricoeur na academia norte-americana, especialmente por seu contato com a filosofia anal√≠tica anglo-sax√īnica e sua inclina√ß√£o por estudar n√£o apenas a natureza ontol√≥gica de cada categoria, mas seus mecanismos de funcionamento e de intera√ß√£o com o mundo”[1]. Em A Met√°fora Viva, de 1975,¬†Ricoeur defende, a exemplo de Rorty, que a met√°fora provoca uma inova√ß√£o, ou como gostaria o americano, uma redescri√ß√£o.

Com a met√°fora, a inova√ß√£o consiste na produ√ß√£o de uma nova pertin√™ncia sem√Ęntica por meio de uma atribui√ß√£o impertinente: “A natureza √© um templo onde viventes pilares…” A met√°fora continua viva enquanto percebermos, atrav√©s da nova pertin√™ncia sem√Ęntica – e de certo modo em sua espessura -, a resist√™ncia das palavras em seu emprego usual e, portanto, tamb√©m sua incompatibilidade no n√≠vel de uma interpreta√ß√£o literal da frase.”

Dito isso, Ricoeur passa a explicar que Tempo e Narrativa é fruto de uma tentativa de paralelismo entre metáforas e narrativas, veja só! No caso das narrativas,

… a inova√ß√£o sem√Ęntica consiste na inven√ß√£o de uma intriga que, tamb√©m ela, √© uma obra de s√≠ntese: pela virtude da intriga, objetivos, causas, acasos s√£o reunidos sob a unidade temporal de uma a√ß√£o total e completa. √Č essa s√≠ntese do heterog√™neo que aproxima a narrativa da met√°fora. Em ambos os casos, algo novo – algo ainda n√£o dito, algo in√©dito – surge na linguagem: aqui, a met√°fora viva, isto √©, uma nova pertin√™ncia na predica√ß√£o, ali, uma intriga inventada, isto √©, uma nova congru√™ncia no agenciamento dos incidentes.

S√≥ por isso, o estudo de tais “literatices” por profissionais de sa√ļde j√° estaria justificado, contudo, ainda assim, estar√≠amos a pisar em um campo bastante te√≥rico. Mas, Ricoeur avan√ßa mais. Para ele, a imagina√ß√£o produtiva √© quem possibilita a compreens√£o. Met√°foras e narrativas simulam (n√£o estaria aqui embutida a ideia de ensaio?!) num n√≠vel superior de uma metalinguagem, a intelig√™ncia enraizada no esquematismo que nos aprisiona: o da linguagem. Como grande hermeneuta que √©, escreve:

Consequentemente, quer se trate de met√°fora ou de intriga, explicar mais √© compreender melhor. Compreender, no primeiro caso [met√°fora], √© voltar a captar o dinamismo em virtude do qual um enunciado metaf√≥rico, uma nova pertin√™ncia sem√Ęntica emergem das ru√≠nas da pertin√™ncia sem√Ęntica tal como aparece numa leitura literal da frase. Compreender, no segundo caso [narrativa], √© voltar a captar a opera√ß√£o que unifica numa a√ß√£o inteira e completa a diversidade constitu√≠da pelas circunst√Ęncias, pelos objetivos e pelos meios, pelas iniciativas e pelas intera√ß√Ķes, pelas reviravoltas da fortuna e por todas as consequ√™ncias n√£o desejadas da a√ß√£o humana.

√Č isso! Hoje, o discurso cient√≠fico, por seus poderes pre-vision√°rios e seus resultados, sobrescreve a medicina de tal forma que o m√©dico se torna quase como um “papagaio-de-estudos-cl√≠nicos”, repetindo-os sem parar at√© que novos estudos substituam os antigos. Nossos pacientes n√£o querem s√≥ isso. Sem abandonar a ci√™ncia, √© preciso dar algum valor aos discursos que, feitos de linguagem, s√£o quase como que abstra√≠dos da rela√ß√£o entre os m√©dicos e seus pacientes (e entre m√©dicos tamb√©m!), como interferentes, ru√≠dos indesej√°veis. Como fazer isso? Trata-se de um problema epistemol√≥gico pois refere-se ao valor de verdade que atribu√≠mos a determinadas informa√ß√Ķes. Ricoeur vai no nervo:

O problema epistemológico levantado, quer pela metáfora, quer pela narrativa, consiste em grande medida em ligar a explicação empregada pelas ciências semio-linguisticas à compreensão prévia que decorre de uma familiaridade adquirida com a prática linguageira, tanto poética como narrativa.

Seria a partir do “estranhamento” √† “familiaridade da pr√°tica linguageira” causado¬†pela poesia (met√°foras em tr√Ęnsito) e pelas narrativas (ensaios de intrigas sint√©ticas do mundo da vida) que quebrar√≠amos o transe cognitivo causado pelo costume. Se o discurso po√©tico permite √† linguagem acessar realidades que n√£o s√£o atingidas pelo discurso meramente descritivo, permitindo inclusive a Ricoeur falar em refer√™ncia metaf√≥rica, em especial nos campos “sensorial, p√°tico, est√©tico e axiol√≥gico, constituintes do mundo habit√°vel”,¬†a fun√ß√£o mim√©tica das narrativas, por sua vez, se exerce de prefer√™ncia no campo da a√ß√£o e de seus valores temporais.¬†As narrativas reconfiguram nossas experi√™ncias temporais. √Č daqui que elas retiram seu valor de verdade. Heidegger √© foda.

(Desculpem o palavr√£o)

[1] Ver resenha “profissa” do livro aqui.

Os Mestres do Preconceito

“Cl√≠nicos s√£o¬†int√©rpretes¬†prudentes das experi√™ncias de sa√ļde de seus pacientes”.

R.E.G. Upshur [1] (grifos meus)

Ao GENAM, com carinho

O esfor√ßo do Homem (antropos) para compreender o cipoal de significados sobre o qual √© lan√ßado no momento em que nasce √© crucial para sua sobreviv√™ncia. Hoje, a infinidade de c√≥digos e linguagens que devemos interpretar e traduzir para lidar com o mundo √© gigantesca. A medicina, da forma como a entendo, qual seja, centrada na rela√ß√£o entre o m√©dico e o paciente, prop√Ķe um desafio interessante porquanto aproxima duas vis√Ķes de mundo, √†s vezes muito diferentes. Ao m√©dico, cabe ainda um outro desafio que √© o de aplicar o conhecimento cient√≠fico ¬†– quase uma¬†epist√©me aristot√©lica¬†– a uma pr√°tica fron√©tica¬†ou prudente, reconhecida desde sempre como t√©cnica (techn√©), citando Arist√≥teles, o pai dessa zorra toda que, ali√°s, j√° tem alguns mil√™nios.

O que tentarei demonstrar nesse pequeno espaço, seguindo os caminhos do autor abaixo [1], é que um pouquinho de preconceito é bom para o médico, tanto em sua tarefa de fundir sua visão de mundo àquela que o paciente vê, como quando lida com a massa enorme de conhecimento científico e tenta aplicá-la no ser que lhe pede socorro. Thomas Bayes (1701?-1761) e Hans-Georg Gadamer (1900-2002), cada um a seu tempo e a seu modo, trataram desse preconceito filosófico. Um obscuro monge inglês pertencente a uma seita não-conformista (seja lá o que isso realmente queira dizer) e um alemão, brilhante aluno do sacana do Martin Heidegger, nascidos com 200 anos de intervalo, teorizaram sobre o valor do preconceito, ou pré-conceito, ou pré-juízo (como no inglês, prejudice) no ato de compreensão humana das coisas do mundo. Eu os chamo mestres do preconceito.

Bayes

Thomas Bayes (1701? – 1761)

A Estat√≠stica pode ser entendida como a ci√™ncia que se ocupa da quantifica√ß√£o da incerteza e, por essa raz√£o, o c√°lculo probabil√≠stico ocupa um papel central nela. H√° duas formas b√°sicas de se abordar a probabilidade de um evento ocorrer. Um, chamado¬†objetivo, √© testar a ocorr√™ncia do evento em um n√ļmero muito grande de vezes, de modo a estabelecer a¬†frequ√™ncia¬†do resultado que se quer estudar. √Č chamado de¬†frequentista. O outro leva em considera√ß√£o a probabilidade desse evento ocorrer antes que procedamos ao teste. Poder√≠amos at√© pegar os dados de um frequentista que trabalhou duro para obt√™-los e ter acesso a essa distribui√ß√£o antes de testar o evento. Chamamos isso de probabilidade¬†a priori. De posse dessa probabilidade a priori, podemos modificar nossas expectativas ao avaliar, por exemplo, o risco de uma paciente com mamografia positiva ter, de fato, c√Ęncer de mama [2]. O interessante √© que, quando essa distribui√ß√£o n√£o est√° dispon√≠vel, podemos colocar nossas pr√≥prias expectativas na f√≥rmula. Para a estat√≠stica¬†bayesiana¬†vale a opini√£o pessoal sobre o evento, vale a nossa propens√£o em acreditar na distribui√ß√£o¬†a¬†priori, por isso, tamb√©m √© chamada de¬†subjetiva. A n√≥s, interessa a origem dos¬†a prioris¬†cl√≠nicos. H√° evid√™ncias de que cl√≠nicos utilizamos a experi√™ncia pr√©via muito mais que dados estat√≠sticos consistentes [3]. De qualquer forma, o teorema de¬†Bayes permite que reajustemos o grau de cren√ßa em uma hip√≥tese com base em novas informa√ß√Ķes. Ou em outras palavras, nossas preconcep√ß√Ķes, sejam diagn√≥sticas, progn√≥sticas ou terap√™uticas, devem ser reavaliadas a cada novo dado, cotejadas com novas evid√™ncias e, por fim, modificadas em novas possibilidades.

Gadamer

Hans-Georg Gadamer (1900 – 2002)

Em 1960, Gadamer publica¬†Verdade e M√©todo,¬†seu¬†magnum¬†opus,¬†onde refor√ßa a caracter√≠stica ontol√≥gica da compreens√£o humana, ou como ficou conhecida mundialmente, da¬†hermen√™utica¬†filos√≥fica. “Compreender¬†n√£o √© um ideal resignado da experi√™ncia de vida humana na idade avan√ßada do esp√≠rito, como em Dilthey; mas tampouco √©, como em Husserl, um ideal metodol√≥gico √ļltimo da filosofia frente √† ingenuidade do ir vivendo. √Č, ao contr√°rio, a¬†forma origin√°ria de realiza√ß√£o da pre-sen√ßa, que √© ser-no-mundo”- diz ele l√° na p√°gina 347 [4] (it√°licos originais). Gadamer demonstra que a interpreta√ß√£o e a compreens√£o s√£o constitutivos do homem lan√ßado ao mundo. Nessa demonstra√ß√£o, o pr√©-conceito tem um papel fundamental. Quando interpretamos um texto, realizamos, na linguagem de Gadamer, um projeto. Como nessa cita√ß√£o:

“√© preciso (…) considerar que cada revis√£o do projeto inicial comporta a possibilidade de esbo√ßar novo projeto de sentido; que projetos contrastantes podem se entrela√ßar em uma elabora√ß√£o que, no fim, leve √† vis√£o mais clara da unidade do significado; que a interpreta√ß√£o come√ßa com pr√©-conceitos que s√£o, pouco a pouco, substitu√≠dos por conceitos mais adequados. (…) Aqui, a √ļnica objetividade √© a confirma√ß√£o que uma pr√©-suposi√ß√£o pode receber atrav√©s da elabora√ß√£o. E o que distingue as pr√©-suposi√ß√Ķes inadequadas sen√£o o fato de que, desenvolvendo-se, elas se revelam insubsistentes? (…) H√°, portanto, um sentido positivo em dizer que o int√©rprete n√£o chega ao texto simplesmente permanecendo na moldura das pr√©-suposi√ß√Ķes j√° presentes nele, mas muito mais quando, em rela√ß√£o com o texto, p√Ķe √† prova a legitimidade, isto √©, a origem e a validade, de tais pressuposi√ß√Ķes”. [5]

A aproxima√ß√£o inicial a um assunto provoca uma impress√£o que nos impele emitir ju√≠zos que definem padr√Ķes l√≥gicos ou generaliza√ß√Ķes em nosso esfor√ßo eterno de tentar prever comportamentos, sequ√™ncias ou comparar coisas novas com aquelas que j√° conhecemos. Essa primeira impress√£o n√£o √© a que fica. Ela deve ser continuamente corrigida √† luz de novas informa√ß√Ķes. Os a prioris bayesianos e os projetos hermen√™uticos¬†est√£o muito mais pr√≥ximos do que poder√≠amos jamais supor. Eles t√™m valor ontol√≥gico ou, em outras palavras, s√£o criadores de conhecimento v√°lido. Na medicina, essa proximidade sempre foi patente; s√≥ n√£o tinha nome. Como diz Upshur “a dimens√£o hermen√™utica da medicina desvia nossa aten√ß√£o de discuss√Ķes sobre dicotomias simplistas tais como se a medicina √© uma arte ou uma ci√™ncia; ou se o conhecimento cl√≠nico √© subjetivo”. A medicina √© um humanismo. A doen√ßa tira o Homem de sua unidade habitual e abre caminho para vis√Ķes n√£o-totalizantes de seus padecimentos. O que √©, ent√£o, o esfor√ßo cl√≠nico em compreender o Homem em suas profundidade espiritual e complexidade biol√≥gica? Nesse contexto, Arte e Ci√™ncia s√£o interpreta√ß√Ķes, discursos poss√≠veis sobre uma mesma coisa-em-si humana. Subjetivos? √Č √≥bvio que somos; dado que sempre tratamos de individuais subjeitos.

 

[1] Upshur, REG.¬†Prior and Prejudice.¬†Theoretical Medicine and Bioethics 20: 319‚Äď327, 1999.

[2] Pena, SD. Thomas Bayes “√© o cara”.¬†CI√äNCIA HOJE ‚ÄĘ vol. 38 ‚ÄĘ n¬ļ 228, pg 22-29 – Julho/2006 (ver o¬†pdf)

[3]¬†Gill CJ, Sabin L, Schmid CH. Why clinicians are natural bayesians. BMJ. 2005 May 7;330(7499):1080‚Äď3. DOI:¬†10.1136/bmj.330.7499.1080 (Open Access) – veja tamb√©m as cartas, corre√ß√Ķes e coment√°rios.

[4] Gadamer HG. Verdade e Método. II Parte, Volume I. Editora Vozes. Tradução Flávio Paulo Meurer.

[5] Reale & Antiseri. Hans-Georg Gadamer e a Teoria Hermenêutica. in História da Filosofia, pag 627-639.

PS. A conota√ß√£o extremamente negativa que temos hoje do¬†preconceito¬†vem do Esclarecimento. Para o homem iluminista, cartesiano, um ju√≠zo acerca de alguma coisa deve ser tomado de forma isenta e desprovida de qualquer¬†pr√©-concep√ß√£o¬†a respeito do assunto. Como uma¬†tabula rasa, dever√≠amos absorver as evid√™ncias e chegar a conclus√Ķes √≥bvias, conclus√Ķes as quais qualquer pessoa racional chegaria ao analisar as mesmas provas. No Esclarecimento, o objetivo √© o projeto cartesiano de obter um conhecimento metodologicamente seguro, limpo de interfer√™ncias e infer√™ncias pessoais.¬†Posteriormente, essa pre-concep√ß√£o das coisas adquiriu um valor moral – como no pecado de “julgar um livro pela capa” -, at√© incorporar temas diversos como racismo, xenofobia, diversidade cultural, sexual e etc.

UTI. Uma boa refer√™ncia √†s virtudes de Arist√≥teles, al√©m claro, do “√Čtica a Nic√īmaco” √© o livro de Enrico Berti “As Raz√Ķes de Arist√≥teles“.

Eu Sem Mim

ET de MIB I "aprisionado" em seu corpo

A caracter√≠stica principal de quem dirige um ve√≠culo com pr√°tica √© a automaticidade dos procedimentos. Mudam-se marchas e acionam-se dispositivos de maneira quase inconsciente. O todo das a√ß√Ķes forma ent√£o, um conjunto harm√īnico de atitudes que fazem com que a condu√ß√£o do carro se torne parte de um ambiente “normal”. Dessa forma, √© poss√≠vel ouvirmos m√ļsicas e at√© conversarmos dentro de um ve√≠culo, esquecendo-nos que ele est√° em movimento, por vezes, em alta velocidade. Assim √© o funcionamento do nosso organismo. Quantos processos autom√°ticos n√£o coexistem sem que sequer saibamos de suas causas ou de seus efeitos? Rea√ß√Ķes, pulsa√ß√Ķes, contra√ß√Ķes, explos√£o de -a√ß√Ķes em um concerto mudo. J√° se disse que a sa√ļde √© a vida no sil√™ncio dos org√£os. Mas algumas parcas notas dessa sinfonia nos s√£o dadas a ouvir. Imagine-se, por exemplo,¬†como seria se tiv√©ssemos de nos “lembrar” de nossas “fun√ß√Ķes fisiol√≥gicas”, como evacuar ou esvaziar a bexiga de tempos em tempos, se o corpo n√£o nos “avisasse” de suas necessidades. Suponhamos que n√£o sent√≠ssemos fome, sono, sede, libido, amor (?)…

A continuarmos por esse caminho, podemos come√ßar a supor que muitas de nossas escolhas “conscientes” podem ser origin√°rias de uma outra fonte que n√£o a pr√≥pria vontade do nosso Eu. Um caminho que levado √†s √ļltimas consequ√™ncias pode conduzir √† armadilha – sem√Ęntica e vazia – do fisicalismo, por¬†um lado, e, por outro, a um determinismo biol√≥gico muito pr√≥ximo de um materialismo cientificista, tamb√©m incapaz de satisfazer as condi√ß√Ķes de possibilidade desse Eu, alma, Self, Selbst, sujeito, ou o que quer que seja. Mas como negar a exist√™ncia desse Eu, sujeito ou Self, propriet√°rio de um corpo que o carrega para l√° e para c√° e o insere no mundo da vida? Existiria algo como o ET do filme “Homens de Preto“, que, autopsiado, revela seu verdadeiro Eu como o propriet√°rio de uma carca√ßa mec√Ęnica (figura) que fingia ser um ser humano? Ser√° essa a met√°fora de uma exist√™ncia bipartida?

A criação de um Eu todo poderoso excluso do corpo que lhe dá abrigo, é sacramentada em Descartes. Nietzsche chama esse tipo de pensamento de descuidado.

Sejamos mais cuidadosos que Descartes, que se manteve preso √† armadilha das palavras. Cogito √© decididamente apenas uma palavra, mas ela significa algo m√ļltiplo: algo √© m√ļltiplo e n√≥s, grosseiramente, o deixamos escapar, na boa-f√© de que seja uno. Naquele c√©lebre cogito se encontram: 1) pensa-se; 2) eu creio que sou eu quem pensa; 3) mesmo admitindo-se que o segundo ponto permanecesse implicado, como artigo de f√©, ainda assim o primeiro “pensa-se” cont√©m ainda uma cren√ßa, a saber: que “pensar” seja uma atividade para a qual um sujeito, no m√≠nimo um “isso”, deva ser pensado – al√©m disso, o ergo sum nada significa! Mas isso √© f√© na gram√°tica; j√° s√£o aqui institu√≠das “coisas” e suas “atividades”, e n√≥s nos afastamos da certeza imediata.[1]

Para Nietzsche, a extra√ß√£o de um Eu do processo do pensamento √© um efeito das fun√ß√Ķes l√≥gicas e gramaticais que atuam inconscientemente. Um efeito colateral do processo do pensar. √Č como se o motorista, para abusar da analogia acima, ao automatizar todos os movimentos da dire√ß√£o, passasse a sentir o “corpo” do carro como seu. No par√°grafo 16 de “Al√©m do Bem e do Mal”, Nietzsche desconstr√≥i a c√©lebre formula√ß√£o cartesiana.

uma s√©rie de afirma√ß√Ķes ousadas, cuja fundamenta√ß√£o √© dif√≠cil, talvez imposs√≠vel; – por exemplo, que sou eu que pensa, que, em geral, tem que haver um ‘algo’ que pensa, que pensar √© uma atividade e um efeito de parte de um ser, que √© pensado como causa, que existe um ‘eu’, finalmente que j√° est√° estabelecido o que deve ser designado com pensar, – que eu sei o que √© pensar.[3]

Para ent√£o, escrever

Pois se eu j√° n√£o tivesse me decidido comigo a respeito, por qual medida julgaria que o que est√° acontecendo n√£o √© talvez sentir, ou querer? Em resumo, aquele eu penso pressup√Ķe que eu compare meu estado moment√Ęneo com outros estados que em mim conhe√ßo, para determinar o que ele √©: devido a essa refer√™ncia retrospectiva a um saber de outra parte, ele n√£o tem para mim, de todo modo, nenhuma certeza imediata.[3]

H√° como diferenciar sentir ou querer de pensar? Em caso negativo, √© poss√≠vel, ent√£o, abolir a alma ou o tal Eu – res cogitans¬†de Descartes-; em caso positivo, estar√≠amos comparando configura√ß√Ķes mentais diferentes e a conclus√£o seria sempre relacionada – comparada – √† outra coisa, impedindo-me assim, de chegar √† certeza nuclear, fundacional de todo o conhecimento humano. Nietzsche inverte, portanto, a l√≥gica herdada da tradi√ß√£o: “existo, logo o conjunto de meus pensamentos produz um Eu”. Chega-se √† conclus√£o ent√£o, que “esse Eu, esse si-mesmo, √© infinitamente mais complexo do que a unidade aparentemente simples da autoconsci√™ncia”.[2] Est√° enraizado muito mais profundamente na exist√™ncia do indiv√≠duo: funda-se na pr√≥pria animalidade de suas origens e ocupa um espa√ßo do qual a autoconsci√™ncia √© apenas a ponta do iceberg.¬†E a√≠, entra o Zaratustra: “Por detr√°s de teus pensamentos e dos teus sentimentos, irm√£o, h√° um rei poderoso e um s√°bio desconhecido – que tem por nome Si. Vive no teu corpo, √© o teu corpo. H√° mais raz√£o em teu corpo do que em tua melhor sabedoria.”[4]

“(O corpo) n√£o √© apenas ‘a carne’ e a sede das paix√Ķes, desejos e desgarramentos, nem mesmo a res extensa, de que cogitara Descartes; ao contr√°rio do que pensara o platonismo e o cristianismo, o corpo n√£o √© a pris√£o do esp√≠rito, o oposto da raz√£o. Para Nietzsche, o corpo √© a Grande Raz√£o.”[2, grifos meus]. A pequena raz√£o √© o Eu. Um brinquedo na m√£o da Grande Raz√£o. Um subproduto, um epifen√īmeno. O que faz perguntar, mas, ent√£o, para que uma pequena raz√£o t√£o desenvolvida a ponto de nos enganar como fim em-si, sede do Eu e de mim, por tantos s√©culos?

(continua…)

1. Nietzsche, F. Fragmento P√≥stumo 40 [23], agosto-setembro de 1885, apud Giac√≥ia Jr, O. Metaf√≠sica e Subjetividade in as Ilus√Ķes do Eu – Spinoza e Nietzsche. pg 425-444. Org. Andr√© Martins, Homero Santiago, Lu√≠s C√©sar Oliva. Civiliza√ß√£o Brasileira, 2011.

2.¬†Giac√≥ia Jr, O.¬†Metaf√≠sica e Subjetividade¬†in as Ilus√Ķes do Eu – Spinoza e Nietzsche. pg 425-444. Org. Andr√© Martins, Homero Santiago, Lu√≠s C√©sar Oliva. Civiliza√ß√£o Brasileira, 2011.

3. Nietzsche, F. Além do Bem e do Mal. ¶16, pg 21-22. Trad Paulo César de Souza. Companhia das Letras. 1992.

4.¬†Nietzsche, F. Assim Falou Zaratustra. Dos desprezadores de corpo. Trad M de Campos. Publica√ß√Ķes Europa-Am√©rica. pg 29-31. Portugal. 1988.

O Enigma do Ver

N√£o sei quando comecei a gostar de¬†C√©zanne. Talvez tenha sido quando adquiri meu primeiro PC (e √ļnico, hehe), um 486, em¬†entrada +¬†11 presta√ß√Ķes para escrever minha tese. Lembro de ficar me divertindo com minha internet discada num s√≠tio de papeis de parede e de ter escolhido este para o computador.

Gardanne - Paul Cézanne, cerca 1885

Vi que era de dele. N√£o estudei pintura e sei pouco a respeito da biografia de outros pintores, mas C√©zanne me pegou de jeito. Sua personalidade introspectiva e tosca, sua tenacidade em perseguir seus objetivos, a amizade com √Čmile Zola e com os impressionistas parecem tiradas de um roteiro cinematogr√°fico. Mas talvez, o que tenha drenado mais fortemente minha aten√ß√£o foi sua ang√ļstia (tenho tend√™ncia a gostar dos angustiados). Toda a c√≥lera e a misantropia de C√©zanne podem muito bem ser colocadas na conta de sua monomania, de sua verdadeira obsess√£o. De sua doen√ßa. Merleau-Ponty chega a diagnosticar um tipo de constitui√ß√£o m√≥rbida, uma¬†esquizoidia, ¬†[1, pg 125]. E afirma: “A incerteza e a solid√£o de C√©zanne n√£o se explicam, no essencial, por sua constitui√ß√£o nervosa, mas pela inten√ß√£o de sua obra” [1, pg 135]. E ent√£o, eu descobri exatamente porque comecei a gostar de C√©zanne:

H√° uma rela√ß√£o entre a constitui√ß√£o esquiz√≥ide e a obra de C√©zanne porque a obra revela um sentido metaf√≠sico da doen√ßa – a esquizoidia como redu√ß√£o do mundo √† totalidade das apar√™ncias imobilizadas e suspens√£o dos valores expressivos -, porque a doen√ßa cessa ent√£o de ser um fato absurdo e um destino para tornar-se uma possibilidade geral da exist√™ncia humana quando enfrenta de forma consequente um de seus paradoxos – o fen√īmeno da express√£o -, e enfim, porque √© a mesma coisa, nesse sentido particular, ser C√©zanne e ser esquiz√≥ide. [1, pg 136-137]

A doen√ßa deixar de ser “um fato absurdo e sem sentido para tornar-se uma possibilidade de exist√™ncia humana” √© a maior das consola√ß√Ķes que algu√©m poderia querer para si. O desejo de sentido transmuta-se em obra. V√°rios autores assim o fizeram Proust, Nietzsche, Beethoven para ficar em uns poucos. Al√©m disso, e para mim tal pergunta se reveste de grande import√Ęncia, onde estava a doen√ßa de C√©zanne? Qual a semente interior¬†que se desdobrava em doen√ßa l√° em cima? C√©zanne se comporta como um portador de uma patologia da express√£o. Em neurologia, aos transtornos da compreens√£o e express√£o da linguagem chamamos¬†afasia. H√° afasias de compreens√£o e afasias de express√£o. Estas √ļltimas s√£o especialmente angustiantes. Mostramos aos pacientes um rel√≥gio ou uma caneta e eles n√£o os nomeiam. Dizem “hora”, “escrever” mas n√£o o nome do objeto permitindo supor que sabem o que √©, mas n√£o s√£o capazes de traduzir seu conhecimento em palavras. C√©zanne, ouso dizer por tudo que li, tinha um tipo incomum de afasia.

Impressionismo

Princesa de Broglie - Ingres, 1853 - Fonte Wikipédia

Apesar de contempor√Ęneo aos impressionistas e de ter aprendido com eles, em especial com Camille Pissarro, C√©zanne nunca se considerou um impressionista de fato. Os impressionistas opuseram-se √† escola anterior, neo-cl√°ssica, que em Paris tinha como seu maior expoente Dominique Ingres.¬†O estilo de Ingres chega a ser apavorante, tal a capacidade de reproduzir os efeitos luminosos da realidade. Sua t√©cnica era, segundo ele pr√≥prio, baseada no “rigor da linha”. √Äs cores, n√£o era atribu√≠da maior import√Ęncia, afinal, “n√£o constitu√≠am a forma”, dizia. Seus temas cl√°ssicos, com figuras “posadas” e em situa√ß√Ķes pouco √† vontade, formatavam o “bom-gosto” parisiense da √©poca. Para Ingres, as sombras s√£o escuras e as cores equilibradas. Num retrato indoor¬†nada choca ou agride a vis√£o.

Os impressionistas, por outro lado, tinham interesse em captar a luz solar ao iluminar o mundo e impactar a vis√£o. A linha √© compreendida como mais uma abstra√ß√£o do ser humano para representar imagens, quem precisa de contornos n√≠tidos sob a implac√°vel luz solar? As sombras t√™m de ser luminosas e coloridas, tal como √© a impress√£o visual que nos causam, e n√£o escuras ou em tons de cinza ou preto. Contrastes de luz e sombra deveriam ser obtidos de acordo com a lei das cores complementares. Quando colocamos uma rosa cor-de-rosa sobre uma cartolina cinza, o fundo adquire tons esverdeados. Um pintor cl√°ssico pintar√° o fundo de cinza, confiando que o quadro, como objeto real, produzir√° esse efeito de contraste. A pintura impressionista, com o objetivo de levar os fortes contrastes solares dos ambientes externos para a visualiza√ß√£o dos quadros, em geral, em sal√Ķes fechados e com pouca luz, pinta a rosa sob um fundo verde e a faz saltar aos olhos [1, pg 129]. Veja-se esse exemplo de Claude¬†Monet.

Nen√ļfares, Claude Monet, 1914-17

Mas C√©zanne logo se separou dos impressionistas. Chegou mesmo fazer a afirma√ß√£o “Monet √© apenas um olho” referindo-se ao projeto impressionista de descrever “a dan√ßa da luz sobre os olhos” [5, pg 103].

A “Afasia de Cor”

C√©zanne queria pintar com a cabe√ßa. Conta-se [1, pg 131] que Balzac em “A Pele de Onagro” descreve uma “toalha branca como uma camada de neve rec√©m-ca√≠da e sobre a qual elevavam-se simetricamente os pratos e talheres coroados de p√£ezinhos dourados”. C√©zanne confessou que em toda sua juventude quis pintar isso. Entretanto, “agora eu sei” – dizia – “que se deve querer pintar apenas o ‘elevavam-se simetricamente os pratos e talheres e os p√£ezinhos dourados’. Se eu pintar os ‘coroados’, estou perdido, compreende? Se realmente equilibro e matizo meus pratos e talheres, e meus p√£ezinhos como no modelo natural, esteja certo de que as coroas, a neve e tudo o mais estar√£o ali”. C√©zanne tinha uma verdadeira devo√ß√£o pela cor. Segundo o professor Marcelo Duprat [2, pg 67-68]

A cor em C√©zanne funciona como um princ√≠pio. Isto¬†ocorre √† medida que a aplica√ß√£o das pequenas √°reas de cor¬†rege e conduz o desenho e o claro-escuro das formas. √Č bem¬†verdade que a distribui√ß√£o da cor em pequenas pinceladas¬†j√° era um procedimento t√≠pico do impressionismo, como¬†podemos constatar na obra de Renoir, e sobretudo na fase¬†final do impressionismo ‚ÄĒ no divisionismo pontilhista. Mas,¬†se o impressionismo dissolve as formas pelas vibra√ß√Ķes da¬†cor, as formas permanecem l√°, submersas, sustentando a¬†obra, enquanto as cores se distribuem de forma independente¬†sobre elas. √Č, portanto, o tratamento tonal e crom√°tico das¬†formas que √© problematizado e n√£o sua estrutura. No¬†impressionismo a estrutura das formas, mesmo sendo¬†trabalhada posteriormente, √© compreendida como um dado¬†precedente.¬†J√° em C√©zanne, √© a cor que estrutura, n√£o h√° um¬†desenho sobre o qual a cor √© aplicada, s√£o as cores que¬†formam.

Ou ainda, em uma carta a um jovem pintor [1, pg 130]

O desenho e a cor n√£o s√£o mais distintos, √† medida que pintamos, desenhamos; quanto mais a cor se harmoniza, mais preciso √© o desenho… Quando a cor est√° em sua riqueza, a forma est√° em sua plenitude.

Mas o que seria sua “afasia”, ent√£o? C√©zanne queria, mais que ningu√©m, captar a realidade da natureza. Sabia que somos seres visuais e que dentre as coisas que vemos, a que mais nos impressiona √© a luz que deve ser traduzida na forma de cor, como nesta carta a √Čmile Bernard, jovem pintor e te√≥rico que escreveu um livro sobre C√©zanne [3. pg 251].

Aqui est√°, sem contesta√ß√£o poss√≠vel ‚ÄĒ tenho plena¬†certeza: ‚ÄĒ no nosso √≥rg√£o visual produz-se uma¬†sensa√ß√£o √≥ptica que nos faz classificar como luz, meio¬†tom e quarto de tom os planos representados pelas¬†sensa√ß√Ķes colorantes. A luz, portanto, n√£o existe para¬†o pintor.

Ou tamb√©m quando afirma que “a¬†luz √© algo que n√£o se pode reproduzir, mas que se¬†deve representar por outra coisa, pela cor. Fiquei¬†satisfeito comigo quando descobri isso” [2, pg 59]. Tudo o mais seria consequ√™ncia dos contrastes. Sabia tamb√©m, do del√≠rio que a cor provoca e entendia as t√©cnicas de pintura como abstra√ß√Ķes utilizadas para iludir o observador. Ele queria transcender isso e tentar pintar em “linguagem de m√°quina”. Como, abstendo-se das t√©cnicas mais rebuscadas, conseguir o efeito visual da realidade? Nesse sentido, C√©zanne √© um primitivista. Tamb√©m “distorceu” a perspectiva – ela mesma, outro truque -, de suas formas procurando a harmonia mais natural entre os elementos de seus quadros [2, pg 10-24]. Merleau-Ponty √© certeiro [1, pg 127]: “Sua pintura seria um paradoxo: buscar a realidade sem abandonar a sensa√ß√£o, sem tomar outro guia sen√£o a natureza na impress√£o imediata, sem delimitar os contornos, sem enquadrar a cor pelo desenho, sem compor a perspectiva nem o quadro. √Č o que Bernard chama o suic√≠dio de C√©zanne: ele visa a realidade e pro√≠be-se os meios de alcan√ß√°-la”. Apesar de saber e conhecer e dominar t√©cnicas, a linguagem que quer criar √© “infal√°vel”. C√©zanne √© um af√°sico da express√£o naquilo que mais lhe √© caro, naquilo que ele mesmo criou. O apego a essa condi√ß√£o faz C√©zanne sofrer e tentar e tentar… Pinta lentamente. Cada pincelada devendo cumprir uma enorme s√©rie de exig√™ncias “de luz, cor, profundidade, linha, etc”. Rar√≠ssimamente assina um quadro porque tamb√©m raramente, o considera pronto. √Č um embotamento, essa insist√™ncia, que produz quadros.

E o que eu, finalmente, vejo quando olho para um quadro de C√©zanne? Ele dedicou sua vida para que eu visse as coisas como ele via, sem tentar me enganar. Trabalhou arduamente para construir uma linguagem pict√≥rica que fosse primordial e anterior √†s interpola√ß√Ķes cerebrais que fa√ßo ao ver/interpretar uma imagem. Fez um desenho de como via as coisas e pediu que v√≠ssemos como ele via. N√£o sei se conseguiu e jamais o saberemos. Entretanto, √© poss√≠vel que ele tenha conseguido ao menos desvendar uma parte que seja, do enigma que √© ver. Talvez, no final seja isso mesmo, √†s doen√ßas caber√£o o papel de nos mostrar os caminhos de nossa humanidade. Quem disse que n√£o temos um algo mais?¬†Nosso vitalismo n√£o √© outro sen√£o¬†esse mesmo, um morbimortalismo¬†que demanda uma escolha: super√°-lo ou sucumbir-lhe.

Jogadores de Cartas. Cézanne, 1893-6

PS. O quadro acima Рquase um estudo de Cézanne Р foi comprado em 2012 pelo maior valor já pago por uma obra de arte na História.

Referências Bibliográficas

1. Merleau-Ponty M. A d√ļvida de C√©zanne. in O Olho e o Esp√≠rito. Cosac & Naify, 2004. Capa dura. Edi√ß√£o bem cuidada de ensaios do fil√≥sofo.
2. Duprat M. A Expressão da Natureza na Obra de Paul Cézanne. Ebook em pdf. Interessantíssimo ensaio sobre os aspectos que fizeram revolucionária a obra de Cézanne, pelo pintor e professor M. Duprat.
3. Cézanne P. Correspondência. Martins Fontes, 1992. Compilação de sua correspondência com prefácio de John Rewald.
4. Nonhoff N. Cézanne, vida e obra. Könemann, 2001 (para a edição portuguesa). Bom resumo da biografia e principais obras. Inclusive uma Lot e suas filhas, que não se encontra em lugar algum da web.
5. Lehrer J. Proust was a neuroscientist. Cannongate, 2007.