Princípio de Consolação Secular

Considero ter uma deficiência na prática médica: não sou muito bom em confortar as pessoas. Acho que vou muito bem quando dou notícias ruins – coisa que faço todos os dias há vários anos. Mas tenho dificuldades em consolar pessoas que perderam entes queridos. Confesso também, que meu ateísmo, nestas horas, me atrapalha um pouco. Tendo sempre a considerar que “tudo foi feito” e que “o paciente não sofreu”, mas às vezes, isto não basta: as pessoas querem algo mais. Esse “algo mais” é muitas vezes um conforto metafísico e este, eu não sou capaz de dar. As próprias pessoas às vezes verbalizam isto e acabo concordando com acenos beneplácitos de cabeça e sorrisos benevolentes. Outras vezes, parece ser suficiente tirar a culpa das pessoas. Filhos que há muito não viam os pais, esposas(os) separados pelo tempo em cuja relação há embutida a palavra “abandono”, mesmo que apenas no inconsciente de cada um. Para estas pessoas, uma frase do tipo “fique tranquilo(a), você fez tudo que estava ao seu alcance” tem, em geral, o efeito da cena do beijo do Cinema Paradiso: a explosão em um choro incontido e catártico que lhes expia a culpa e abre caminho para uma paz de espírito… Digo que gosto de fazer isso. Libertar alguém de uma culpa – seja ela justificada ou não, isto não nos cabe julgar – é sempre algo muito bom de se fazer.

Entretanto, conversando com uma moça muito querida e com um ex-padre (veja só), ambos muito fiéis à crença em Deus diga-se de passagem, tive um insight para um princípio de consolação secular que passo a partilhar com meus leitores. Gostaria de “testar” com os senhores(as) antes de usá-lo com meus pacientes. Obrigado pela compreensão.

~  ~  ~

Pense em uma pessoa. Esta pessoa tem, em você, dois tipos de representações principais: uma, quando você está com ela de fato. Você pode vê-la e tocá-la. Ouvir sua voz e conversar com ela sobre as mais variadas coisas. Pode partilhar com ela uma série de sentimentos, bons ou ruins, naquele momento em que vocês dividem o espaço e o tempo, ou seja, convivem, ou têm uma convivência. Outra representação é quando a pessoa está ausente. Esta é constituída pela memória mas, não é simplesmente memória de fatos ocorridos. É um tipo especial de memória que vem junto com sentimentos, bons ou ruins. À esta fórmula memória + sentimentos podemos dar o nome de vivências (sem o con-, veja que interessante a língua portuguesa aqui). As vivências não são simples fatos de nossas vidas. São ocorridos carregados de emoção que fazem com que nos lembremos de lugares – vivências que tivemos sózinhos – e/ou situações, eventos, aulas, festas, etc – vivências que compartilhamos com pessoas ou com uma pessoa. Se você pensar, vai encontrar pessoas com as quais suas vivências são mais importantes que a convivência que você tem com ela no momento. Incrível, né? Um indivíduo faz vibrar seu “aparelho emocional” de duas formas diferentes: ou ele está presente, ou não está presente. As emoções decorrentes dessa interação estão aí para serem sentidas e são muito parecidas. A esta sequência emocional causada por ausências e presenças somadas ao longo do eixo do tempo, alguns chamam de vida. Pelo menos alguns poetas…

O que acontece se e quando uma pessoa que a gente gosta morre. Vai embora apenas um dos tipos de representação. O outro pode continuar. Ou não. Não estou propondo aqui lembrarmos simplesmente dos mortos como forma de consolo. Este tipo de lembrança nos faz sofrer e costuma ser chamado de saudade e de fato, pode mesmo acontecer com quem ainda não morreu. A saudade pode ser entendida como um desejo da presença e, portanto, da convivência com a pessoa ausente. Esta impossibilidade racional nos faz sofrer irracionalmente. O exato oposto disto, a proposta seria manter e continuar a criar vivências com a pessoa ausente de modo a associá-la a eventos importantes (e porque não, felizes) permitindo uma lembrança futura na qual a representação dela estaria vinculada. Reconhece-se a impossibilidade de conviver mas preservam-se as vivências.

Isto é quase um diálogo com essa representação em nosso espírito e não é nenhuma loucura. Crianças fazem isso com muita facilidade. Talvez por esta habilidade em lidar com ausências preenchendo-as com imaginação viva de sentimentos, as crianças consigam ser felizes por longos períodos de tempo.

Foto daqui. Greta Garbo e Lew Ayres em The Kiss.

DEK – J e a Polêmica do Vestuário Médico

ResearchBlogging.orgRecentemente, vem ganhando corpo uma campanha interna do ScienceBlogs Brasil contra o uso indevido do vestuário médico em locais inapropriados como lanchonetes, restaurantes e até metrôs e ônibus. A campanha é mais que justa. Jalecos, aventais, guarda-pós, estetoscópios e outros apetrechos utilizados pelos médicos não são de fato, para ficar perambulando por aí, tendo em vista o enorme problema das infecções cruzadas e o surgimento de germes multirresistentes.

Entretanto, há um tom iconoclasta na campanha que me incomoda. Eu fiquei pensando muito no porquê ficar incomodado com um assunto pelo qual luto diuturnamente e que tem um embasamento científico bastante razoável como pode ser visto aqui (em inglês). Digo razoável, porque o papel desses veículos (dizemos fômites) na transmissão de doenças ainda está para ser estabelecido. Estar contaminado, por mais nojento, incorreto e reprovável, que possa ser, não quer dizer estar  ou deixar doente, apesar de tornar mais provável.

Este é o Dicionário Etimológico do Karl e esta é a letra J, e vou usar este espaço para psicoanalisar um pouco do meu comportamento médico. Afinal, esse é um dos fins deste blog.

J (jota) de jaleco s.m., segundo o Houaiss, (1605) ‘jaleco, jaqueta turca cujas mangas chegavam só aos cotovelos’ (tur. yelék, pelo ár. argelino djalíka ‘casaco de cativo’; segundo Corominas, s.v. chaleco, Haedo descreve o jaleco da seguinte forma: ‘um gibão de pano, de mangas curtas, até o cotovelo, que os turcos argelinos usavam, debaixo do cafetã’; trata-se de um dos vários nomes de trajes transmitidos ao esp. e ao it. pela língua franca dos portos africanos; f.hist. 1725 jalecu, 1725 galleco, 1727 jaleco. Chamavam os portugueses “galegos” de jalecos também. Há um tamanduá de nome jaleco. Para nós, jaleco é uma capa curta de mangas também curtas que pode ser usada sobre a camisa, como na foto acima. É utilizada por dentistas, farmacêuticos, churrasqueiros e balconistas em geral, entre outros tantos. Eu já usei jaleco. Parei porque achava o jaleco meio churrasqueiro demais. Gosto mais de usar o (ainda segundo o Houaiss):

Avental: peça de pano, plástico ou couro, presa pelo pescoço e pela cintura, usada para proteger a roupa em certos tipos de trabalho. Etimologia: avante + -al, com alteração do -a- pré-tônico para -e-; f.hist. sXIV auantal, sXIV uantal. (Atualização: eu acho que o nome mais correto para esse tipo de vestimenta é guarda-pó ou simplesmente, capa, como no inglês)

Avental e gravata constituem um “uniforme médico” de respeito não só porque a imagem do médico veiculada em muitos filmes é essa, mas também porque nas faculdades de medicina, em geral, formam a vestimenta padrão dos professores. A gravata já foi alvo de várias críticas [1] e muitos já a abandonaram. Mas isso não nos exime da pergunta: Mas então, o que é que um médico deve trajar?

Tive uma experiência interessante com a série “Sala de Espera I e II” e recomendo a leitura dos comentários porque são bastante esclarecedores quanto às expectativas dos pacientes quanto a aparência dos médicos(as). Cito abaixo as respostas de 3 sciencebloggers à pergunta, como seria a aparência de um médico importante para você?

Para mim, estereótipo de médico mesmo. Meia-idade, cabelo meio grisalho, sem brincos ou tatuagens. Este primeiro resultado do Google Images é bem o que imagino mesmo” Kentaro Mori do 100nexos.

Irei contra todos os comentários acima e direi que meu ideal de médico é um sujeito novo, recém-saído da universidade, doido para colocar em prática anos de estudo e assumir, enfim, a responsabilidade por isso, sem alguém olhando por cima do seu ombro. Um médico jovem, empolgado, atualizado, que lê muito e sabe a importância de uma batidinha no abdome e uma puxada de pálpebra. Quanto mais estetoscópio no pescoço e esfigmomanômetro no bolso melhor. Na minha cabeça, quanto mais velho o médico, mais antiquados os seus métodos, chegando numa zona dos formados entre dez e vinte anos atrás para os quais “pedir exame” é sinônimo de “examinar”.” Igor Santos do 42. (grifo + sublinhado, meus)

Fico com o cientista, principalmente pelo jaleco branco.” Atila do Rainha Vermelha.

Scientist Cartoon 0779

Isso já foi até tema de um estudo [2] cuja conclusão foi que, “em contraste com os médicos que veem os aventais brancos como risco de infecção, muitos pacientes, e especialmente aqueles com mais de 70 anos, acham que os médicos devem vestir aventais brancos para sua identificação ficar mais fácil.” Com isso, quero chamar a atenção para o fato de que a vestimenta do médico é algo que está além do simples fato da proteção, higiene e etc. Há sim, uma identificação visual, uma comparação cognitiva com uma imagem pré-concebida proveniente das experiências particulares que cada pessoa teve em contato com a doença e com a possibilidade de ser assistida por alguém no qual depositaram sua confiança. Repito aqui o que já escrevi e que acho que se adequa perfeitamente ao tema:

“Acho mesmo que essa imagem pré-concebida do médico varia muito, não
só com a especialidade, mas também com o local onde o médico trabalha,
que tipo de público atende e assim por diante. Tudo isso para dizer que o médico é INDISSOCIÁVEL da população que
atende. Isso pode soar óbvio a essa altura da discussão mas, acredite,
muitos médicos não pensam assim. Além disso, a instituição que abriga o
médico, seja um hospital público ou particular, seja seu próprio
consultório (e no caso a instituição é ele mesmo) faz diferença, não só
na aparência que o médico busca, como também na sua forma de atuar. Isso
é bastante polêmico, eu sei, mas alguns anos de experiência me
mostraram o problema de forma bastante clara. Não reconhecer essa
diferença, que os advogados já reconheceram há alguns milênios, é abrir
mão da oportunidade de minimizar seus efeitos.

A ciência médica é uma só, a medicina não. Isso decorre do fato de
ela ser uma forma, talvez a mais perversa, de aplicação científica
prática! A prática, como já abordei em diversos posts, tem a tensão
irredutível da decisão que envolve o conhecimento tecno-científico e a
experiência prévia. Essa tensão deixa o médico inseguro. Sempre. A
aparência do médico é um modo de “vender o peixe”. Quanto mais adequada a
aparência for à imagem que o paciente faz do médico, mais fácil
conseguir sua confiança, aderência ao tratamento e, consequentemente,
bons resultados. Isso tem a ver com o mercado? Sim. Mas tem muito mais a
ver com o fato de que o médico precisa penetrar em algo bem mais
profundo que o mero organismo de seu paciente.”

Isso não exclui o médico do conceito de adequação. Ser atendido por uma médica atraente com minissaia e decote matador inspira muitos sentimentos, menos os de acolhimento, segurança e confiança profissional. Sentar em uma lanchonete com médicos comendo de avental e esteto no pescoço é desagradável também. A adequação do traje ao local é uma forma de educação e esta, por sua vez, visa o bem-estar de todos.

[1] McGovern, B., Doyle, E., Fenelon, L., & FitzGerald, S. (2010). The necktie as a potential vector of infection: are doctors happy to do without? Journal of Hospital Infection, 75 (2), 138-139 DOI: 10.1016/j.jhin.2009.12.008

[2] Douse, J. (2004). Should doctors wear white coats? Postgraduate Medical Journal, 80 (943), 284-286 DOI: 10.1136/pgmj.2003.017483

Perguntona Não-Governamental

Acho que a política indigenista de algumas Organizações Não-Governamentais sofre uma crise de filosofia de trabalho, ou eu não consigo entender bulhufas. Fico ouvindo entrevistas e percebo que são utilizadas formas diferentes de considerar o índio, de acordo com a conveniência do discurso. Por favor, se alguém conseguir resolver essa aporia, me explique. Se não, vejamos:

Muitas das políticas que buscam ajudar populações indígenas à beira da extinção baseiam-se no fato de que tais populações devem ser vistas de forma diferenciada. Por terem outra matriz cultural – que, por si, já é (ou deveria ser) considerada um patrimônio -, outra forma de se relacionar com o meio ambiente, outra religião, etc, têm, portanto, que ser consideradas de forma diferente. Isso, ao fim e ao cabo, embasa as políticas que consideram o índio inimputável perante a lei (“dos brancos”), e também, fortalece a ideia de que o índio é um cidadão brasileiro menor.

Por outro lado, a despreconceitualização do índio passa pelo fato de reconhecê-lo como um par, um “do mesmo nível”, nas palavras de um indigenista, “mais um diferente dentro de um grupo de iguais”. É isso que as ONGs chamam de valorização da diversidade. Mas, “quando vemos um índio de shorts ou usando um telefone celular, torcemos o nariz e dizemos, olha aí, ‘isso’ não é mais índio!” – como disse um repórter referindo-se à forma como o homem comum se refere a grupos indígenas.

Mas, a pergunta então é como posso considerar alguém igual e diferente ao mesmo tempo? Se as ONGs trabalham com as duas matrizes conceituais concomitantemente, seu discurso soará tão verdadeiro como uma nota de 3 reais; como algo que contém uma pegadinha oculta e não sensibilizará os que estão, por exemplo, brigando por terras. Discursos antropológicos como o de que “culturas milenares desaparecerão” ou “línguas raras serão varridas do mapa” têm colocado o índio em rota de colisão com o desenvolvimento do Brasil, com todas as consequências que isso possa ocasionar.

“Aculturar ou conservar como é?” Essa é a pergunta que tem como base conceitual o fato de considerarmos o índio um igual ou diferente, respectivamente, em relação a nós. Eu não sei responder. Você sabe? Desculpa o pitaco onde não fui chamado.

Leitos de Convênio em Hospitais Públicos?

Um polêmico projeto de lei (PL 45/2010) foi encaminhado à Assembleia Legislativa pelo Governador Alberto Goldman e aprovado nessa terça-feira (21/12/10), quase antevéspera de Natal. O projeto prevê “que até 25% dos atendimentos em hospitais e unidades de saúde administrados pelas OSs (Organizações Sociais) possam ser destinados a pacientes com planos de saúde.

O debate é sobre políticas de saúde e, dada sua importância, acho que devemos esclarecer o que for possível para que conclusões apressadas não sejam veiculadas, como a do promotor de justiça da entrevista linkada acima. Isso vai ser meio longo, aviso desde já.

I

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC) é uma autarquia estadual vinculada às Secretarias da Saúde e da Educação e deve, por lei federal, atender até 60% de sua capacidade com pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Epa, como assim? É isso mesmo. Entretanto, devido a manutenção de toda a gigantesca estrutura pertencer ao setor público, existe um acordo com a Secretaria  e o Ministério da Saúde de que sejam atendidos, no máximo, 25% de pacientes pertencentes à saúde complementar (ou seja, convênios). O Instituto do Coração (InCor) trabalha com números perto desse teto. No Instituto Central do HC (ICHC) há estimativas que apontam para um atendimento de mais de 90% para o SUS. Há, na universidade, espaço para renda proveniente de outras fontes que não o estado propriamente dito. Várias faculdades da USP já o fazem com muito sucesso como por exemplo, a Poli (Fundação Vanzolini), a FEA (FIPE, FIA), entre outras. Quando a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) fez sua fundação, já existia dentro da USP um arcabouço legal que possibilitava a entrada de recursos vindo de fontes privadas. A conclusão disso é que o HC já atende pacientes privados; menos que 10% de seu movimento total, é verdade, e tem capacidade de atender 25%, como faz o InCor. Isso serve para a grande maioria dos hospitais-escola.

Conclusão 1
: Esse projeto de lei não afetará em nada os hospitais-escola, entre eles o maior de todos, o HCFMUSP.

II

Então, qual é a polêmica desse projeto de lei? Esse projeto de lei tem como objeto as Organizações Sociais (OS), em especial, as OS em Saúde (OSS). O que são as OS? As OS foram concebidas no decorrer da Reforma da Administração Pública, liderada pelo então Ministro da Administração Federal e Reforma do Estado, Luiz Carlos Bresser Pereira, no primeiro governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 1998. No texto do Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado (PDRAE), este tipo de entidade foi caracterizado como de interesse social e de utilidade pública, uma associação civil sem fins lucrativos, com atividades nas áreas de ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, proteção e preservação do meio ambiente, cultura e saúde[1]. O projeto das OS elaborado pelo Poder Executivo Federal foi convertido em Medida Provisória e depois na Lei n.º 9.637, de 15 de maio de 1998, tendo sido adotado em alguns estados da Federação e transformado em lei estadual, com adaptações, notadamente no Pará (Lei n.º 5.980/96), na Bahia (Lei n.º 7.027/97, revogada e substituída pela lei 8.647/03 e o decreto 8.890/04), em São Paulo (Lei Complementar n.º 846/98, depois modificada por essa). Em São Paulo, o projeto adquiriu uma penetração grande na área da saúde com a criação das OSS e tem sido a grande bandeira política do partido que governa o estado por quase duas décadas [2].

A legislação original das OSS determinava que apenas pacientes SUS e o funcionalismo público poderiam ser atendidos pela instituição. Isso significa que, mesmo que você tenha um plano de saúde, ao ser atendido por uma OSS, nem você, nem seu plano (com o qual você e/ou sua empresa gastam uma grana preta todo mês) pagarão um mísero centavo. Se você concorda em não pagar nada, visto que já gasta os tubos com impostos, já não tem tanta certeza quanto ao seu plano de saúde, certo? Pois é…

Conclusão 2: As OS são, portanto, uma parceria público-privada, sem fins lucrativos. As OSS são uma bandeira política do Governo Estadual de São Paulo. E, por fim, há uma certa incoerência na relação entre as OSS e os planos de saúde. Mesma incoerência aliás, que existe em qualquer hospital público, seja ele hospital-escola ou não.

III

Voltemos ao HCFMUSP. Na época da decisão sobre atender convênios ou não, foram colocados os seguintes argumentos:

A favor:

a) Os convênios trariam recursos para os centros de gerenciamento de cada clínica. (O HC é composto de “clínicas”, hehe, e cada uma tem um centro de gerenciamento ligado à Fundação Faculdade de Medicina o que possibilita uma agilidade enorme quanto a administração dos recursos). Isso é verdade. Dois leitos de UTI arrecadam o que quase 12 leitos recebem do SUS por mês!

b) O simples contrato com as seguradoras de saúde fez cair vertiginosamente a dificuldade em receber recursos provenientes de atendimentos a pacientes conveniados. Me explico com um exemplo: o HC, assim como outros vários hospitais públicos, é a porta de entrada de remoções realizadas pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU – que aliás, funciona muito bem!). Quando alguém está acidentado em uma via, ninguém pergunta se o ou a pobre tem convênio. Normalmente, essas internações consomem enormes recursos pois necessitam de abordagens multiprofissionais e multiespecializadas, reabilitação prolongada, terapia intensiva, centro cirúrgico, etc. Tudo, tudo normalmente previsto nos contratos firmados com as seguradoras. Quando um hospital público tenta receber esse montante que, convenhamos, lhe é de direito, todo tipo de dificuldade burocrática é colocado e em geral, a grana não aparece. Com um contrato firmado, esses entraves burocráticos despencaram e as administrações dos hospitais puderam sorrir.

Contra:

a) A famosa história da dupla porta, que é citada pelo promotor do link acima para taxar de inconstitucional a presença de pacientes privados em instituições públicas. A dupla porta é o fato de haver duas entradas para pacientes na instituição, uma bonitona, com carpetinho e mocinhas bonitas para atender (convênio, lógico) e a outra, os pronto-socorros e ambulatórios públicos que todos conhecem. Quem não viu, pode assistir ao Datena ou algum outro programa sensacionalista radical da TV que não demora a aparecer. Não pode de fato, haver distinção entre os pacientes. A ideia seria subir o nível de todos e não só de alguns. No ICHC, a dupla porta nunca se configurou de fato.

Conclusão Geral: O projeto de lei (PL 45/2010) visa oferecer a possibilidade de fontes de recursos privadas às
OSS, o que, no meu humilde modo de ver, já estava implícito na origem delas.

Dúvidas: Podemos discutir se as OSS são realmente uma alternativa liberal ao atendimento socializado em Saúde Pública. Podemos duvidar do repasse dessas verbas pelo Estado às instituições. Podemos duvidar também, da viabilidade das OSS, em especial do ICESP (Instituto de Câncer de São Paulo – Otávio Frias Filho) e se isso não seria uma forma de salvá-lo da bancarrota, em especial, pela forma como o PL foi (re)apresentado e pelos votos contra de PT e PSOL.

Há muitas variáveis envolvidas e eu, realmente, não sei onde isso vai dar. O povão doente talvez se dê mal. Mais uma vez.

[1] Nota Técnica 17/2006. Conass. AS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS COMO ALTERNATIVA DE GERÊNCIA PARA ESTABELECIMENTOS PÚBLICOS DE SAÚDE. Brasília, 22 de agosto de 2006.
[2]  Barata, Luiz Roberto Barradas. Organizações Sociais de Saúde: a experiência exitosa de gestão publica de saúde do Estado de São Paulo: Secretaria de Saúde, jun. 2006. 20 p.

Anemia Falciforme – A Revanche

ResearchBlogging.orgVamos retomar o tema sobre a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo de enviar a júri popular os pais da menina que não permitiram uma transfusão de sangue que poderia ter salvo a vida dela por questões religiosas. As Testemunhas de Jeová (TJ) são uma seita cristã fundamentalista, baseada em Nova York, cujos seguidores acreditam que a Bíblia é a verdadeira palavra de Deus. Há cerca de 5.500.000 membros batizados, 125.000 dos quais residem no Reino Unido. Para muitas pessoas, as TJ são conhecidas por sua recusa absoluta de produtos derivados de sangue, mesmo quando isso pode resultar em sua própria morte ou de seus entes queridos. Esta recusa é baseada em três passagens bíblicas que supostamente proíbem a transfusão: Gênesis 9:4, Levítico 17:11-14 e Atos 15:20,29. São as mesmas passagens utilizadas para justificar alguns procedimentos da comida Kosher judaica. (Veja aqui maiores informações sobre a teologia dos membros dessa seita religiosa, em inglês, e uma boa crítica teológica). A punição para quem aceita hemoderivados é a perda da vida eterna e, na Terra, um tipo de excomunhão. Punições, temos que convir, severíssimas para quem faz parte da comunidade e tem a vida eterna como objetivo pós-morte.

A discussão aqui se limita ao fato de que a criança, na época com 13 anos de idade, não tinha como se posicionar a respeito desse problema, assim como de outros relativos à sua idade, sendo os pais, os responsáveis por decidir por ela. Entretanto, dado que a decisão dizia respeito diretamente a sua vida e tendo ela direito de viver, poderia o Estado ir contra uma decisão “parental” que atentasse contra a existência da menina. As TJ sempre invocam legislações de direitos humanos para justificar a recusa dos pais em transfundir hemoderivados a crianças. Essa história é bem antiga. Uma longa lista de eventos na luta por direitos humanos começou com a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 e teve, como capítulo importante para a medicina, a Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e da Dignidade do Ser Humano face às Aplicações da Biologia e da Medicina, conhecida como Consenso de Oviedo, em especial para Europa[1]. Houve, nesse caso, também a interferência de um médico que, partidário da seita, segundo consta nos autos, pressionou a equipe médica que a assistia e que, por essa razão, está sendo processado também. “Cortes por todo o mundo ocidental reconhecem os direitos dos pais, mas esses direitos não são absolutos. Os direitos dos pais em criar suas crianças são identificados como o dever de assegurar sua saúde, segurança e bem-estar. Os pais não podem tomar decisões que possam permanentemente colocar em risco ou comprometer sua saúde. Se essa recusa resultar em sofrimento da criança, os pais podem ser incriminados. Entretanto, os processos raramente ocorrem.” A crença é livre. Agir, ou deixar de agir, tendo como único guia uma crença não reconhecida como corpo de conhecimento técnico utilizável na prática médica, não.

O estudo abaixo [2] verificou a legislação de países com língua inglesa quanto a recusa da transfusão de hemoderivados à criança pelos pais legais. Nos EUA, temos as seguintes conclusões:

1. Os interesses da criança e do Estado superam o de uma recusa de tratamento médico pelos pais.
2. Os direitos dos pais não asseguram direitos sobre a vida e a morte de suas crianças.
3. Os pais não têm direitos absolutos sobre a recusa de tratamento médico sobre suas crianças baseados em suas crenças religiosas.

No Reino Unido, a legislação para esse tipo de problema, como quase tudo lá, foi estabelecida no ano de 1875 e permanece inalterada: pais que falham em obter tratamento médico adequado para suas crianças estão sujeitos às penas da lei, mesmo se essa falha está baseada em religião. Na Austrália, a prerrogativa é do médico e nenhuma interferência deve ser aceita quando se tratar de uma criança.

No Brasil, um parecer do Conselho Federal de Medicina de 1980 estabelece que: Em caso de haver recusa em permitir a transfusão de sangue, o médico, obedecendo a seu Código de Ética Médica, deverá observar a seguinte conduta: 1º – Se não houver iminente perigo de vida, o médico respeitará a vontade do paciente ou de seus responsáveis. 2º – Se houver iminente perigo de vida, o médico praticará a transfusão de sangue, independentemente de consentimento do paciente ou de seus responsáveis.

Nesse caso específico, eu achei correto o encaminhamento dos pais a júri popular. Que a sociedade julgue esse tipo de decisão. Me pareceu especialmente perfeita a colocação do juiz do caso Prince vs Massachusetts, EUA,1944 [3]

“Pais estão livres para tornar-se mártires. Mas isso não significa que eles podem, em circunstâncias idênticas, tornar mártires suas próprias crianças”.

[1] Sr. Avelino Retamales, Dr. Gonzalo Cardemil. Rev Méd Chile 2009; 137: 1388-1394.
[2] Woolley, S. (2005). Children of Jehovah’s Witnesses and adolescent Jehovah’s Witnesses: what are their rights? Archives of Disease in Childhood, 90 (7), 715-719 DOI: 10.1136/adc.2004.067843
[3] Prince v Massachusetts (1944) 321 US 158.

Mineiros do Chile, Tebas e o Mito

http://www.utexas.edu/courses/mythologein/images/72907dragonteeth.jpgEu vi as imagens do resgate dos mineiros do Chile aliás, quem não viu, né? Prestei uma especial atenção ao nacionalismo que elas despertaram. Bandeiras, gritos de guerra (Chi-chi-chi, le-le-le, Chile, Chile…), presidentes. Por que tudo isso? Parece que homens brotando do chão costumam despertar esse tipo de sentimento desde que a espécie humana começou a lavrar a terra em busca de seu próprio sustento. A alegoria de se ter nascido do chão de determinado lugar foi inevitável para quem se estabeleceu no local e necessitava de uma legitimação da posse.

Isso lembra o mito da fundação de Tebas, a arcaica cidade grega. JP Vernant em seu fantástico livro “O Universo, os Deuses e os Homens”, narra esse mito no capítulo referente a Dioniso e me permito resumi-lo (perigosamente).

Cadmo era filho de Teléfassa e Agenor, o casal real de Tiro. Tinha uma irmã chamada Europa (que deu nome ao continente) beeem gata. Zeus, que era taradaço e não podia ver uma ninfetinha, a viu tomando banho de mar, meio nua (sempre melhor que totalmente nua!), e tomou a forma de um touro branco magnífico para seduzi-la (magina!). Raptou a menina e a levou para Creta onde teve dois filhos  – Radamanto e Minos – com ela. Agenor mobilizou toda a família para procurar sua filha. Cadmo foi com a mãe, Teléfassa, para a planície da Trácia, onde ela morre. Após uma passagem rápida pelo oráculo de Delfos, Cadmo chega a conclusão que precisa seguir uma vaca (predomínio de vacuns na história!) até onde ela se deitar para fundar uma cidade. Ao chegar ao local indicado pelo animal, ele solicita a seus soldados água de uma fonte para fazer um sacrifício à deusa Atena. A fonte de água, entretanto, era guardada por um dragão que mata todos os soldados. Cadmo vai até lá e mata o dragão. Atena então, aparece a ele pedindo que termine o sacrifício e que semeie os dentes da besta num terreno plano, como para um colheita (ver figura – clique para ampliar e ver a origem). Mal ele termina o serviço, surgem da terra guerreiros plenamente vestidos para batalha. Cadmo temeroso de ser atacado, os ilude e faz com que eles comecem a brigar entre si. Matam-se uns aos outros sobrando apenas cinco. Estes são os chamados Spartói, que significa, os Semeados, mesma raiz de sperma, semente. São guerreiros autóctones. Um deles, Equíon, casa com uma filha de Cadmo chamada Ágave, com quem terá um filho chamado Penteu e que será rei de Tebas.

O início do reino de Tebas representa o equilíbrio tenso entre duas estirpes. De um lado Cadmo, o estrangeiro, feito rei por vontade e obra divina e, de outro, os spartói, nascidos da terra, autóctones. As tragédias se sucedem e essa linhagem ainda dará origem a Édipo, veja só. O conflito entre o estrangeiro e o autóctone está enraizado em nossas entranhas e é fonte inesgotável de conflitos. Olgária Matos descreve a fisiopatologia do estranhamento: “A crítica à identidade significa dissolver todo o essencialismo filosófico, teológico-político ou ético-religioso. (…) Todas as formas de dogmatismo – que inviabilizam a tolerância e a hospitalidade – provém da adesão a uma origem identitária factícia que produz uma patologia da comunicação uma ruptura na compreensão recíproca que a perturba, resultando em desconfiança universal.”

O salvamento dos mineiros do Chile foi um alívio geral. A vida de 33 pessoas tragicamente aprisionadas a centenas de metros de profundidade foi acompanhada por pessoas ao redor de todo mundo. Era de se esperar reações efusivas e a extensa cobertura por parte da mídia. Mas, meu ponto é que uma parte da força dessas imagens vem de um mito: o “brotamento” de homens do seio da terra.

Abortamento e o Debate Político no Brasil

O Brontossauros publicou um post com a maioria das ideias que compartilho e recomendo fortemente sua leitura antes de prosseguir aqui.

Aprendi na faculdade que “aborto” é o produto de um “abortamento”, que consiste no ato de abortar. O Conselho Regional de Medicina escreve:

“Artigo 42 – É vedado ao médico: “Praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação do país”.
Artigo 43 – É vedado ao médico: “Descumprir legislação específica nos casos de transplantes de órgãos ou tecidos, esterilização, fecundação artificial e abortamento”.

Assim, fica evidente que o médico deve respeitar a legislação em vigor. Para isso é preciso conhecê-la, até porque “a ninguém é dado o direito de descumprir a lei sob o argumento de desconhecê-la”. E o artigo 128 do Código Penal, que trata de crimes contra pessoas, diz que “não se pune o aborto praticado por médico se:

I – não há outro meio de salvar a vida da gestante (Aborto necessário);
II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando menor ou incapaz, de seu representante legal. (Aborto no caso de gravidez resultante de estupro)”.

Entretanto, conheço alguns colegas que praticam curetagens — procedimento cirúrgico, relativamente simples, mas que requer certa habilidade e experiência, que consiste, grosso modo, na raspagem do interior do útero — com fins abortivos, seja para retirada de fragmentos fetais e/ou placentários do útero de mulheres que fizeram uso do misoprostol (CytotecⓇ), seja como procedimento primário, em geral, antes do primeiro trimestre de gravidez. Mesmo com toda essa legislação ética e penal! A discussão entre os ginecologistas é simples: a enorme maioria não faz, mas acha extremamente necessário que alguém o faça e indicam tais médicos, sem criticá-los ou julgá-los moralmente. A necessidade de alguém que faça o procedimento é gigantesca. De preferência com segurança, boa técnica e discrição.

Estou falando, entretanto, de pessoas que pertencem a classes sociais mais favorecidas e podem pagar por isso. Mesmo nessa faixa da população a incidência é maior do que deveria e os números são bastante camuflados por razões óbvias. A coisa complica muito nas classes mais pobres da população porque alternativa não há. É aqui que o problema toma proporções de saúde pública. A hipocrisia de nossa sociedade se faz sentir em outras instâncias. No Brasil, mesmo o abortamento legal é bastante difícil de ser conseguido o que, em geral, provoca traumas difíceis de serem superados.

Não acredito no abortamento como método contraceptivo. Ele deve, como foi comentado, ser “seguro, acessível e extremamente raro”. Deve haver uma saída para mulheres que não se julgam capazes de manter uma criança, o que, convenhamos, é comum no Brasil. A saída passa, necessariamente, por educação, assistência médica e psicológica, programas de adoção e, sim, a possibilidade do abortamento, até para que ele não se repita! Fechar os olhos para esse  problema é jogar uma grande parte de nossa miséria social para debaixo do tapete.

O Matador de Metáforas

Confesso que não vai ser muito fácil. Também não sei se minha prosa tem a envergadura simplificadora que o empreedimento exige. Mas como tudo é exercício, mãos a obra. Que as musas me alumiem o caminho (que vai ser um pouco mais longo que o habitual – haja luz!)…

I

Retomemos o livro de Giannetti, (mal) resumido abaixo. Ao adotar um “fisicalismo reducionista” o personagem-narrador se mete numa enrascada existencial pois, acha ele, tal posição filosófica afeta a forma como se vê no mundo, tolhendo-lhe o significado do verdadeiro “eu” e colocando no lugar uma sopa de neuromediadores de concentração variável. O capítulo 55 (último) é pródigo neste tipo de questionamento existencial (que eu achei meio exagerada, como tentarei mostrar a seguir):

“É possível termos acreditado falsamente durante milênios que a vontade consciente rege os nossos músculos quando, na verdade, ela é o subproduto inócuo de uma cadeia de eventos eletroquímicos no cérebro, como a fosforescência no rasto de um fósforo aceso no escuro ou a espuma de uma onda neural? E que, portanto, fazer de um propósito ou de uma intenção consciente a causa de uma ação humana é tão desprovido de fundamento como falar do propósito de uma espermatozoide ao fecundar um óvulo ou da cigarra ao entoar sua cantoria ou do Sol ao irradiar calor? Sim, é possível.”

Vai daí, que entram no rol do “é possível” as reflexões ético-morais, as guerras ideológicas e religiosas, a psicologia, o ateísmo militante e outras coisas até chegarmos ao engodo da consciência. Um tipo de farsa onde acreditamos que somos os personagens que representamos. Isso pode causar um imobilismo, um mal-estar trans-histórico (que vem desde a antiguidade); nos tornar a-morais, como parodiando a tese ivankaramazoviana: se não há um “eu”, nem uma alma, (então) tudo é permitido”. E assim, termina o livro e aqui vamos começar a discutir essa tese que foi criticada de várias formas, por vários autores.

II

O fisicalismo, entendido de modo um pouco mais rigoroso, é um tipo de materialismo onde todo e qualquer evento pode ser descrito em termos estruturais microfísicos, sendo microfísica a física das partículas elementares e tudo que gira no seu entorno. Foi descrito pelos positivistas lógicos do Círculo de Viena (não foi à toa!). As primeiras formas de fisicalismo ou fisicismo eram todas reducionistas, ou seja, propunham dissolver a descrição de todo o tipo de fenômeno observável às leis da física. O fisicalismo do livro em questão é também eliminativista, pois considera que não há estados psicológicos de jeito nenhum, e nem psicologia, portanto. Daí, tudo o que chamei de “enrascada existencial” do personagem do livro.Um jeito de sair dela é fazer como o médico-pesquisador do livro, que leva duas vidas. Como cientista é fisicalista radical e assim faz, pensa e trabalha. Na vida “comum”, finge que “eso non ecziste” e pensa em alma, livre-arbítrio, problemas ético-morais como qualquer mortal. É uma vida dualista. O personagem, pelo contrário, vive seus “pensamentos”. Conflituado por suas conclusões, não consegue separar as coisas. Monista. Um outro jeito, é o pragmático.

III

Antes de mais nada, é importante saber que essa forma de sair do problema é também bastante criticada, em especial, por um coreano radicado nos EUA chamado Jaegwon Kim (de onde tirei o esquema acima), mas vamos lá. As ideias são de Donald Davidson, aluno de Quine, compiladas por Richard Rorty num ensaio chamado “Fisicalismo Não-Reducionista” que, por sua vez, está na página 157 do livro Objetivismo, Relativismo e Verdade – Escritos Filosóficos Vol. 1 – 2a Edição – tradução de Marco Antônio Casanova, pela Relume Dumará – Rio de Janeiro, 2002. Também consultei esse artigo de Ronald Arendt. Vou começar ao contrário de Rorty e do Arendt.Nós normalmente não falamos em “conhecimento literário”, certo? Podemos no máximo falar que um romance nos dá certos “insights” sobre algumas questões que podem ser relevantes. Os de ficção científica trazem questões científicas mas são bem a minoria. Acreditamos até que as visões literárias (e aqui eu incluo grande parte da filosofia, no que me seguiriam muitos cientistas e/ou divulgadores de ciência) são incompatíveis com a visão físico-naturalista da realidade. Segundo Rorty, uma das causas para que isso ocorra é a confusão que fazemos de naturalismo com reducionismo. Para Rorty, reducionismo aqui significa a procura de uma linguagem singular o suficiente para estabelecer todas as verdades que há para serem estabelecidas – um graal linguístico. Segundo suas próprias palavras:

“Uma tal tentativa é associada com a tentativa de identificar a ‘verdade literal’ com a ‘verdade científica’ e a tratar a literatura como oferecendo meramente ‘verdades metafóricas’, algo que não pode realmente ser denominado de verdade acima de tudo. A concepção usual, desde Platão, tem sido a de que um entre os vários vocabulários que nós usamos espelha a realidade, e que os outros são na melhor das hipóteses ‘heurísticos’ ou ‘sugestivos'”.

Aqui entra Davidson, filósofo da linguagem, e o título do post. Uma de suas premissas é que metáforas não têm significados. Isso quer dizer que sua ocorrência é como um efeito colateral da utilização de uma linguagem, não há nada implementado com intuito de produzi-las. Entretanto, apesar de surgirem assim, quase sem querer, elas têm um papel fundamental quando se “literalizam”. Literalizar uma metáfora é matá-la, mas no momento em que isso ocorre, reformulam-se nossas crenças, conceitos e desejos. Sem a morte de metáforas “não haveria nenhuma coisa tal como uma revolução científica ou uma ruptura cultural, mas meramente o processo de alterar os valores de verdade das asserções formuladas em um vocabulário para sempre imutável.” Desse ponto de vista, uma teoria científica é simplesmente uma redescrição metafórica. Por exemplo, quando os cristãos disseram ‘O amor é a única lei’, quando Copérnico disse ‘A Terra gira em torno do Sol’, ou Marx ‘A história é a história da luta de classes’ ou ainda os físicos afirmaram que ‘a matéria pode ser transformada em energia’, tais frases pareciam mais com um modo de falar que com uma verdade. Um filósofo analítico naïve diria que são confusas. O que queremos dizer com “lei”, “sol”, “história” ou “matéria”? Mas quando cristãos, copernicanos, marxistas e físicos começaram a redescrever porções da realidade sob a luz dessas sentenças – e comprovar o valor de tais redescrições – nós começamos a falar delas como afirmações com grande valor de verdade.

Nesse ponto, nos aproximamos do cume. Eu disse que subir não ia ser tão fácil, mas não vamos parar aqui, né?
Vamos para uma citação do texto de Rorty:

“Esse fenômeno da produção e ‘literalização’ de metáforas é o fenômeno que a tradição filosófica ocidental sentiu como sendo necessário para avaliação a partir de uma oposição entre matéria e espírito. Essa tradição pensou a criatividade artística, bem como a ‘inspiração’ moral ou religiosa, como incapazes de serem explicadas nos termos usados para explicar o comportamento da ‘realidade meramente física’. (Nota do Blogueiro: dizem que tudo começa com Platão e aqui, em especial, isso é bem verdade, ver A República e o artigo de Maria Villela-Petit. Além disso, Rorty se coloca em uma linhagem de pragmatistas americanos que começou com Pierce, James e Dewey e que vem combatendo, a seu modo, a tradição filosófica ocidental que é como eles chamam o pensamento que começou com Platão e atingiu o seu ápice em Kant, com vários desdobramentos atuais). Em vista disso, surgiram as oposições entre ‘liberdade’ e ‘mecanismo’ que dominaram o período pós-kantiano na filosofia ocidental. Mas segundo a visão de Davidson, ‘criatividade’ e ‘inspiração’ são meramente casos especiais da capacidade do organismo humano articular sentenças sem significado – isto é, sentenças que não se ajustam a velhos jogos de linguagem e que servem enquanto ocasiões para modificar esses jogos de linguagem e criar novos. Essa capacidade é exercida constantemente, em toda e qualquer área da cultura e da vida cotidiana. Nesta última, ela aparece como chiste. Nas artes e nas ciências ela aparece, retrospectivamente, como gênio.”

IV
Tudo isso para dizer que para um pragmatista o importante é “afinar o discurso”, ou seja, utilizar a linguagem correta para cada situação e acabar com essa divisão arbitrária de matéria e espírito. Tudo é fruto de uma (re)interpretação, (re)arranjos de cadáveres de metáforas que formam redes de conceitos utilizados como valores de verdade. A parcimônia ontológica (aqui querendo dizer um tipo de consenso enxuto) não é para ser alcançada (como os positivistas pensavam) por meio de uma “análise linguística”. Se for possível fazê-lo, melhor que seja pela prática cotidiana. Esse tipo de abordagem não-reducionista é perfeitamente compatível com a afirmação de que nós provavelmente continuaremos a falar sobre entidades mentais – crenças, desejos, e tudo o mais – para sempre! Aqui, voltamos finalmente ao livro, segundo Rorty, repare que essa fala (crenças, desejos, etc) NÃO é metafórica; é uma rede de metáforas já literalizadas. Por isso, não necessita ser tornada mais científica ou precisa, além dos ajustes “normais”, e, por outro lado, não necessita de clarificação filosófica com esse intuito específico. Dizer que nós sempre falaremos sobre crenças e desejos, é dizer que a psicologia provavelmente permanecerá a melhor forma de descrever estados mentais e abordá-los com entendimento entre pares.Mais um pouco sobre as redes. Rorty acha possível abdicarmos da noção de “consciência”, mas acha que temos um “Si próprio”que consiste nos estados mentais do ser humano (os tais desejos, medos, crenças, de novo). Note-se bem, essa coleção de estados mentais É o tal Si próprio. O Si próprio não as tem, ele as é. Isso funcionaria como uma rede em contínuo processo de auto-reformulação em respostas a estímulos como novas crenças, por exemplo. Essa imagem é bem diferente da dualista cartesiana (e é o que Kim critica alegando impossibilidade) de um “eu” distinto de suas próprias crenças e desejos. Não há mais, de forma alguma, um centro que seja o Si próprio, como não o há para o cérebro. E aqui o arremate:

“Exatamente como as sinapses neurais estão em contínua interação umas com as outras, constantemente formulando uma diferente configuração de descargas elétricas, também nossas crenças e desejos estão em contínua interação, redistribuindo valores de verdade entre asserções. Exatamente como o cérebro não é algo que “tenha” tais sinapses, mas É simplesmente um aglomerado delas, assim o Si próprio não é algo que “tenha” as crenças e os desejos, mas simplesmente a rede que as reúne e conecta.”

Isso implica que ter uma crença ou desejo significa ter muitas crenças e desejos; significa ter o fio de uma extensa trama que nos constitui.

V

Como conclusão, temos que a dissolução pragmática de uma metafísica da dualidade matéria-espírito na filosofia da linguagem de Davidson, respinga na filosofia mente-cérebro produzindo uma visão dos seres humanos, que segundo Rorty, é “naturalista” e não-reducionista, dado que o processo de redução é um processo linguístico como foi demonstrado; e, portanto, relativo. As consequências disso são bastante abrangentes. A nós, interessaria a ultrapassagem do dilema do narrador-personagem do livro de Giannetti. É possível descrever fenômenos em vários níveis de especificidade. Ao descolarmos esse ato da vinculação à Verdade, à pretensão do conhecimento da “coisa-em-si”, poderemos trabalhar em níveis superiores de entendimento humano mútuo sem nos imobilizarmos. O amoralismo proposto também não se sustenta por estar embutido na questão do consenso entre os seres humanos. Tentarei, levando em consideração o texto de Ratzinger abaixo, traçar um paralelo entre a ciência e a religião e mostrar como, ao menos nessas questões, elas mais se aproximam que se opõem.

VI

Por fim, esse trabalho de desmistificação do fisicalismo reducionista também foi feito com muita simplicidade, a exemplo do silogismo de Giannetti na parte IV do post abaixo, por Hempel com o raciocínio que se segue:

“Talvez uma das críticas mais incisivas ao fisicalismo esteja no dilema apontado por
Hempel (1980): se o fisicalismo for definido de acordo com a ciência Física atual, então se
trata de uma tese possivelmente falsa, já que a Física atual não é, de maneira alguma, uma
ciência completa. Por outro lado, se o fisicalismo apoiar-se em uma ciência Física hipotética,
uma ciência completa que ainda está por vir, então o fisicalismo perde sua força, pois não
sabemos como será essa Física e que coisas farão parte desse mundo físico que ainda não
somos capazes de conceber.”

Do excelente artigo de Diego Zilio em Ciências & Cognição 2010; Vol 15 (1): 217-240.

Acho que dá para falar no “Erro de Giannetti” e em tempestade em copo de água, né?

Livro “A Ilusão da Alma” de Giannetti

Ganhei de presente o livro, com dedicatória e tudo, com a promessa de que leria e escreveria alguma coisa. Alguma coisa aí vai…

I

É uma novela autobiográfica. Ou um ensaio ficcional. Ou como disse Fernando Meirelles, um thriller ensaístico (voltarei a isso mais tarde). Conta a história de um professor de literatura especializado em Machado de Assis que se vê às voltas com um tumor cerebral bastante peculiar. Dividido em três partes específicas, 1. O tumor físico; 2. Libido Sciendi e 3. O tumor metafísico, narra como o aparecimento de um tumor no lobo temporal do protagonista transmuda sua visão de mundo. Mais, como esta visão fica refém de um tipo específico de filosofia chamado fisicalismo (mais, logo abaixo). Sim, é um livro sobre filosofia da mente e isso é bom e ruim.

II

O tumor físico. Achei o começo do livro interessante. Uma mistura de neurofisiologia com Machado me pareceu promissora. Apesar do narrador-protagonista dar bastante velocidade à prosa, a narrativa fica um pouco aborrecida. Metáforas um pouco forçadas (“riso de hienas num funeral”, alternância de explicações complexas (funcionamento do corpo caloso) com outras bastante batidas e clichês (dissecção da palavra melancolia, uma menção de que Aristóteles achava que o cérebro serviria para “esfriar” o sangue proveniente do coração – não seriam os pulmões?) e o excesso de citações, algumas um pouco fora de contexto (não nos deixando jamais esquecer que Giannetti lançou um livro só delas há 2 anos), fizeram a leitura um pouco laboriosa.

III


Libido Sciendi. Aqui o livro entra de cara no problema mente-cérebro e Giannetti se mostra um grande didático e autodidata. Coloca alguns problemas que já abordamos aqui, como nesta passagem:

“(…) não é coisa fácil para o ser humano apreender impessoalmente a si próprio e à maneira como vê o mundo; percebi que fazer isso exigia uma postura distinta daquela a que estamos habituados na vida comum. Precisava de algum modo me afastar e recuar de mim mesmo, alcançar um grau de distanciamento que me permitisse olhar-me de fora, o mais friamente possível, com o mesmo espírito com que um botânico coleta e examina variedades de orquídeas ou um musicólogo analisa a partitura de uma sonata.”

Ou seja, Rogozov. De importante, no capítulo 17 a menção do riquíssimo conto machadiano “O Espelho” (ver uma boa análise aqui) e a “teoria das duas almas” que será usada ao longo de todo o livro. No capítulo 19, o confrontamento anunciado na “orelha” do livro e no seu dorso: Demócrito vs Sócrates. A partir do Fédon de Platão e da narrativa da morte de Sócrates, o narrador-personagem coloca a decisão deste em não fugir e submeter-se às leis de Atenas como um conflito arquetípico entre o fisicalismo e o mentalismo. Demócrito de Abdera já foi taxado de materialista (tese de Marx), antinaturalista (tese de Clément Rosset) e fisicalista, este último termo especificamente relacionado à produção da mente pelo cérebro. Ele e seu mestre Leucipo, de quem pouco se sabe, resolveram o problema heráclito-parmenidiano com o atomismo. Tudo flui na aparência, mas os átomos que constituem todo o universo, continuam iguais, unos e indivisíveis. O fisicalismo, por sua vez, sustenta que tudo o que existe está e é sujeito às leis físicas o que implica que o que chamamos de “vontade”, “livre-arbítrio” e outras cositas são vícios de linguagem e, de fato, seriam apenas configurações neuronais que se deixariam perceber pela consciência. O mentalismo é a visão de que a mente é a real causa da vontade e que apenas a partir dela ocorrem os fenômenos in concert que determinam os comportamentos humanos (cobrir-se quando se tem frio, procurar comida quando se tem fome, etc). Tendo a decisão de Sócrates de tomar a cicuta que lhe fora sentenciada sido interpretada através dos milênios como uma decisão moral – tipicamente mentalista – na página 107, escreve-se:

“A perspectiva fisicalista contesta a versão mentalista do comportamento de Sócrates e oferece uma explicação alternativa. Os três componentes da ação do filósofo de não fugir mas aceitar a pena que lhe foi imposta precisam ser melhor analisados e devidamente entendidos. (…) E, por fim, como o juízo de valor e a vontade consciente – dois estados mentais – são capazes de acionar e pôr em movimento (neste caso em repouso) os músculos e tendões do filósofo – estados do corpo?”

E arremata:

“O homem moral socrático, argumenta a filosofia fisicalista, não passa de um subproduto fantasioso – e com forte componente narcísico – do homem natural atomista. Um arco-íris pré-newtoniano.”

Bonito, né? Mas isso joga a discussão para o lado mais profundo e escuro do lago: o elo causal entre o pensar e o agir. Há uma diferença entre pensar/querer e ter consciência de que se está pensando/querendo. O narrador cita então estudos de Benjamin Libet em “que a escalada de atividade neural – o evento físico no cérebro – precede no tempo não apenas a ação muscular, mas também o evento mental, ou seja, a própria consciência da decisão de agir” por uns parcos três décimos de segundo. Mas, precede. O resto é argumentação em cima disso e uma sensação de estarmos folheando uma revista, tantas as citações e cores com que se pintam o quadro.

IV

O tumor metafísico. Não é à toa que a terceira parte do livro começa com uma citação de Sören Kierkegaard. No capítulo 33, o narrador aventa a possibilidade de que o livro poderia ser um thriller e esse exato momento, seria o do crime. O capítulo 34 é o dramalhão do narrador por acreditar em algo extremamente terrível e, pior, nas suas consequências. Nesse meio tempo, tome William James: “meu primeiro ato de livre-arbítrio será acreditar no livre-arbítrio”; pau no Dawkins (adorei essa, hehe): “para quem crenças humanas são dóceis e podem ser ligadas e desligadas como interruptores de abajur”; além de Bentinho e Sócrates. Como consequências da ideia e mais terríveis do que ela própria temos que: “É ilusão tomar como causa aquilo que sobe à consciência como um ato de vontade, fruto da intenção de agir” e principalmente esta:

“Um estado mental (“preciso almoçar”) nunca é realmente produzido por outro estado mental (“estou com fome”); todos são produzidos por estados do cérebro. Quando um pensamento parece suscitar outro por associação, não é na verdade um pensamento que puxa ou atrai outro pensamento – a associação não se dá entre os dois pensamentos, mas sim entre os dois estados do cérebro ou dos nervos subjacentes a esses pensamentos”.

Trocando “nervos subjacentes a esses pensamentos” por “núcleos neuronais” ou coisa parecida, fica um pouco melhor. Segue-se um exercício inapelável de lógica:

“A ideia é tremenda, mas basta um silogismo para resumi-la. As leis e regularidades que regem o mundo são independentes da minha vontade (premissa maior); a minha vontade é fruto das mesmas leis e regularidades que regem o mundo (premissa menor); logo, a minha vontade é independente da minha vontade (conclusão).”

Isso nos torna algo como autômatos, ensopados de serotonina e dopamina, cujas concentrações determinam minha vontade de transar com minha mulher hoje ou comer um pizza de calabresa. O narrador se apavora com isso e também com o fato de que o médico que o operou, não está nem aí para essa vãs filosofias. O livro melhora substancialmente. Algumas tiradas geniais e citações bem colocadas, trazem o leitor de volta à vida do personagem que fica, pasmem, bem mais interessante, no papel de robozão. Talvez uma contradição mesma do livro.

V

Numa mistura de “O Mundo de Sofia” com “Trem Noturno para Lisboa” e pitadas de insanidade de “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas“, o livro tem um final interessante e uma provocação: após mostrar que “lutar” contra o fisicalismo é entrar em uma luta imaginária, o narrador instiga o leitor a refutá-lo. Tentarei discutir um pouco mais sobre isso nos próximos posts e talvez se mostre o bom e o ruim, a dor e a delícia, de discutir filosofia da mente.

Para um resumo de uma palestra de Giannetti sobre o livro ver aqui.

Atualização

Veja o excelente post no Amigo de Montaigne, sobre o “Erro de Giannetti”.

A Ilusão da Alma

Fumar e o Vício da Morte

“A fumaça contém toda uma estética do efêmero, como as bolhas de sabão, embora aquela, ao contrário destas, excite também o paladar. Temo que, ao fim e ao cabo, tudo vá acabar em câncer; mas é um medo longínquo ainda, mera possibilidade. Não importa. Sem querer ser perverso, a própria idéia de que embrulhado neste prazer há um impulso de morte, de finitude, apenas o acentua mais, dá-lhe profundidade e textura. Se morri um pouco agora à noite, foi uma boa morte. Bela.”

Outro dia, escrevi um post onde deixei umas coisas a discutir e aqui as retomo, ao menos em parte. A pergunta é: “seria o médico um aconselhador crônico do paciente do tipo ‘não fume’, ‘não beba’, ‘faça sexo seguro’; ou o médico seria alguém para nos tirar de enrascadas ético-morais com repercussões orgânicas nas quais nos metemos irremediavelmente pelo puro fato de vivermos?”

Sou contra a ideia do médico como um tirano comportamental, cheio de conselhos e ordens, impositor de normas de conduta. Também não acho correta a postura do médico permissivo, que acaba por estimular o paciente a cometer certos “delitos” contra sua própria saúde. São sintomáticas as recomendações de sociedades médicas que têm aconselhado os médicos a não estimular o consumo de vinho com objetivo de diminuição do risco cardiovascular. Entretanto, a prática nos obriga a tomar decisões, nem sempre as que os livros e consensos recomendam.

Antônio é um engenheiro de uma grande multinacional do setor tecnológico. Tem 60 anos e esclerose lateral amiotrófica. Tem enormes dificuldades para andar e realizar tarefas simples do dia-a-dia. A doença o obriga a usar quase que constantemente um dispositivo de ventilação mecânica que insufla seus pulmões por meio de uma máscara nasal. Antônio está de tal forma adaptado ao dispositivo que consegue trabalhar em casa, tendo todo o apoio da empresa. Aprendeu a falar usando o aparelho, a comer e até, a fazer amor! Com tanta comodidade, ele não se entusiasmou a parar de fumar. No ano passado, teve um infarto agudo do miocárdio. Sua família tem uma predisposição enorme à doença da artéria coronária e com ele não foi diferente. Após a internação na qual colocou um stent em uma das artérias do coração, eu dei um “chega-prá-lá”. Aleguei que não bastasse o diagnóstico neurológico que o obrigava a usar um aparelho de ventilação a maior parte do dia, acabara de ter um infarto. Nenhum ser humano racional continuaria fumando depois disso. A esposa concordou comigo e, após muita pressão, ele resolveu parar com o vício. Mais ou menos…

As consultas seguintes foram muito ruins. Ele chegou a dizer que sua vida acabara. Eu perguntei como alguém poderia basear a vida inteira em um bastão de nicotina. Ele disse que eu não entenderia. Eu apelei para a estatística e para a esposa… Passado um par de meses, sua mulher me liga. “Está muito deprimido. Nunca o vi assim. E se deixássemos que fumasse uns dois ou três…”

É a hora de reler o excerto acima e, como lição de casa, meditar sobre os termos “boa morte”, “bela (morte)”. Meditar sobre o que é o trágico na existência humana e porque essas coisas dão textura e profundidade a certos tipos de sensação que a cognição de nosso sistema nervoso – nossa melhor ferramenta de sobreviver, testada em milênios e milênios de luta feroz – insiste em chamar de prazer

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